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Aspectos que constituem o trabalho docente

No documento Docência e autonomia no cotidiano escolar (páginas 143-146)

6.2 Análise das respostas das professoras

6.2.3 Aspectos que constituem o trabalho docente

A categoria que representa os aspectos do trabalho docente foi abordada nos itens 6, 7, 8, 9, 10 apresentados a seguir, as quais foram elaboradas com base na discussão realizada por Martins (1989), que destaca como elementos constituintes da prática docente: o conteúdo, o planejamento, a metodologia, os objetivos, a avaliação e a relação professor e aluno. Desses, apenas o último não será abordado neste espaço, pois opto por incluí-lo na categoria sobre a relação e a interação entre os agentes que compõem a escola e o seu entorno.

6. Em relação aos aspectos práticos de seu trabalho, como ocorre o processo de seleção dos conteúdos e recursos didáticos (livros, apostilas, TDs) a serem trabalhados em sala? Como você avalia essa seleção?

7. Como e com que frequência ocorre o processo de planejamento das atividades a serem realizadas por cada turma? Quem participa desse processo?

8. Como e por quem é definida a metodologia que você utiliza na condução de sua sala de aula? Como você avalia essa metodologia?

9. Como e por quem são estabelecidos os objetivos da tarefa pedagógica? Como você os avalia? 10. Como e por quem são definidos os instrumentos de avaliação dos estudantes? Como você avalia esses instrumentos ou modelos de avaliação?

O sexto item (6. Em relação aos aspectos práticos de seu trabalho, como ocorre o processo de seleção dos conteúdos e recursos didáticos (livros, apostilas, TDs) a serem trabalhados em sala? Como você avalia essa seleção?) obteve as seguintes respostas:

P1: “As crianças são avaliadas a cada último dia da semana, para que possa ter base do que foi aprendido.”

P2: “Temos materiais muito bons que são os materiais da Lyceum onde os conteúdos são

bem parecidos com os aplicados em prova. Mas eles demoram muito a chegar, chegam quase

na metade do ano. Já os livros didáticos fogem muito da realidade aplicada e cobrada em

prova.”

A resposta da P1 fugiu do objetivo enunciado pelas perguntas. Ao que parece, ela deve ter confundido o item 6 com o 10, que versa sobre avaliação.

Já a P2, em sua análise dos recursos didáticos trabalhados pela escola, faz um comparativo entre o material de uma empresa de consultoria utilizado pelo município e os livros didáticos. De acordo com a professora, os materiais muito bons são aqueles cujos conteúdos se assemelham com os da avaliação externa, já os livros, por fugirem da realidade da prova, não seriam qualificados dessa forma.

A resposta da P2, aliada ao contexto da sala de aula, em que a importância dos conteúdos era explicada aos estudantes de acordo com a probabilidades deles serem cobrados na avaliação, ressalta a centralidade das avaliações externas e, em especial, dos seus resultados para a Educação municipal, embora isso não seja exclusividade de Sobral.

O sétimo item (7. Como e com que frequência ocorre o processo de planejamento das atividades a serem realizadas por cada turma? Quem participa desse processo?) foi respondido do seguinte modo:

P1: “O planejamento é de 15/15 dias com a coordenadora pedagógica.” P2: “Acontece de 15 em 15 dias, professores e coordenadora pedagógica.”

O oitavo item (8. Como e por quem é definida a metodologia que você utiliza na condução de sua sala de aula? Como você avalia essa metodologia?), por sua vez, obteve as seguintes respostas:

P1: “Metodologia feita pelo professor diante aos seus objetivos.” P2: “Realizada pelo professor. A partir dos objetivos da aula.”

Na sequência, o nono item (9. Como e por quem são estabelecidos os objetivos da tarefa pedagógica? Como você os avalia?) obteve como respostas:

P1: “Objetivos acordado com a coordenação baseada no sistema inserido.” P2: “Objetivos acordado com a coordenação da escola”

Conforme expus acima, os três últimos itens apresentaram respostas bastante semelhantes entre si, o que pode indicar que as professoras tiveram alguma comunicação durante a resolução dos questionários.

Nos dois últimos itens, as professoras também responderam resumidamente apenas as primeiras perguntas, omitindo a sua avaliação sobre a seleção da metodologia e dos objetivos. Já o décimo item (10. Como e por quem são definidos os instrumentos de avaliação dos estudantes? Como você avalia esses instrumentos ou modelos de avaliação?), foi respondido da seguinte forma:

P1: “Pelo professor, são questões baseadas nas aulas”.

P2: “Avaliamos os estudantes constantemente. Tudo realizado pelo professor internamente, quando é externo pela prefeitura.”

A resposta da P1 ao item 6 complementa a resposta ao item 10. Conforme expresso pelas professoras, além das avaliações externas, são realizadas avaliações internas, que são elaboradas pelos professores e possuem frequência semanal.

Em suma, de acordo com o relato das professoras, os conteúdos são orientados pelas avaliações externas; o planejamento e os objetivos são realizados/definidos pelas professoras em conjunto com a coordenadora pedagógica; e a metodologia de ensino e a avaliação são decididas/elaboradas pela professora de acordo com os objetivos e com os conteúdos.

Comparando os relatos das professoras participantes desta pesquisa com os relatos de outros professores, conforme apresentado na seção 4.3, compreendo que há uma gradação em relação à vivência da autonomia relativa por parte dos professores. Nessa perspectiva, a matização da vivência da autonomia docente comporta desde realidades em que há uma extrema tecnicização da docência, cabendo ao professor apenas apresentar o conteúdo e aplicar atividades e avaliações, como o contexto estudado por Antunes (2013), a realidades em que a vivência da docência está atrelada ao próprio processo democrático, conforme o estudo de caso realizado por Rodrigues (2009) numa escola da Baixada Fluminense. A vivência da autonomia docente, nessa escola, não se restringia ao chão da sala, mas também englobava aspectos

políticos e sociais, estando a prática docente comprometida com uma formação para a cidadania e com a emancipação com os sujeitos que compõem a escola e o seu entorno.

No entanto, é preciso atentar para os riscos da polarização e, por isso, cito novamente Lessard (2006 apud ANTUNES, 2013, p. 78) para frisar a importância de ultrapassarmos a oposição entre autonomia e o controle, tendo em vista que “[...] os novos contextos de produção se caracterizam ao mesmo tempo por mais autonomia e mais controle.”. Conforme já fora alertado por Contreras (2012), a expressão autonomia docente vem sendo tomada como slogan nos discursos educacionais contemporâneos, em especial naqueles influenciados por uma perspectiva neoliberal. Contudo, no chão da escola, essa autonomia apregoada tem se configurado apenas como sobrecarga de trabalho e de responsabilidade (LÜCK, 2000), sem que haja uma participação efetiva na construção e nas decisões sobre projetos e políticas educacionais que afetam o cotidiano desses professores e a sociedade como um todo.

Na sequência, discorrerei sobre a relação e a interação das professoras com outros agentes pedagógicos.

No documento Docência e autonomia no cotidiano escolar (páginas 143-146)