1. Satisfação conjugal
1.2. Relacionamento conjugal/amoroso
1.3.1 Aspectos que interferem na satisfação conjugal
Consenso: relaciona-se ao grau em que o casal concorda a respeito dos assuntos importantes para o relacionamento;
Satisfação: o quanto os parceiros estão realizados com o relacionamento e comprometidos com a sua continuidade;
Coesão: reflete o grau em que os cônjuges estão engajados em atividades conjuntas;
Expressão de afeto: refere-se à concordância quanto à demonstração de afeto e relacionamento sexual.
Estas dimensões podem ser avaliadas pelo DAS como parte de um todo ou separadas – avaliação unidimensional ou multidimensional. Inúmeras pesquisas têm sido realizadas utilizando o DAS como instrumento, muitas das quais em nosso país (DELA COLETA, 1989; NORGREN, 2002; PERLIN e DINIZ, 2005; VILLA, 2005; PERLIN, 2006, HERNANDEZ, 2008) e que serão discutidas no próximo tópico, cabendo ressaltar que Hernandez (2008) realizou um estudo de validação brasileira da Escala de Ajustamento Diádico (DAS) por meio das respostas de uma amostra de 542 homens e mulheres heterossexuais e moradores da grande Porto Alegre/RS, que estavam em relacionamento amoroso de diversos tipos. Por meio da comparação dos escores médios dos diferentes tipos de casais da amostra, verificou-se o poder discriminativo do instrumento. O autor encontrou evidências que dão suporte ao uso no Brasil, tanto com fins de pesquisa quanto na clínica psicológica.
1.3.1 Aspectos que interferem na satisfação conjugal
Dentre os vários aspectos ou dimensões que interferem na satisfação conjugal, Sharlin, Kaslow e Hammerschmidt (2000) mencionaram, dentre outros: conflitos na família de origem durante a infância; a importância da
convicção religiosa; a duração do relacionamento antes do casamento; a relação entre amor, compromisso e responsabilidade; a importância da satisfação sexual.
Além disso, concordamos com Andolfi (2002), que afirma que a manutenção e a percepção de satisfação conjugal mudam ao longo do tempo, de acordo com os requisitos familiares e sociais e está diretamente relacionado às alterações no contrato relacional/conjugal e conforme as diversas fases do ciclo vital, ideias essas compartilhadas por Figueiredo (2005), quando cita que a satisfação e a felicidade nas relações conjugais referem-se a um contínuo aprendizado e compromisso que se perpetua pela vida do casal.
No Brasil, Miranda (1987) é a primeira autora encontrada que estudou temas de satisfação conjugal. Analisou a inter-relação entre satisfação conjugal e três aspectos considerados relevantes numa relação diádica: comunicação, semelhança de atitudes e percepção interpessoal. Sua amostra foi de 48 casais residentes no Rio de Janeiro, tendo examinado também a influência de outras variáveis (idade, tempo de casado, autoestima, renda, escolaridade e filhos). Para a coleta de dados ela utilizou os seguintes instrumentos:
questionário de informações pessoais, inventário de atitudes, questionário de comunicação interpessoal, inventário de ajustamento conjugal e questionário de avaliação conjugal. Os resultados apontaram a percepção interpessoal e a autoestima como variáveis de maior importância. Os resultados dos coeficientes de correlação no inventário de ajustamento conjugal demonstraram que as mulheres tendem a se atribuir, ou lhes é atribuído, maior ônus pela insatisfação conjugal. A pesquisa ainda mostrou que casais com o mesmo nível de escolaridade apresentam maiores níveis de satisfação na relação conjugal.
Dela Coleta (1989) realizou estudo relacionando lócus de controle e satisfação conjugal. Definindo lócus de controle como a expectativa generalizada de alguém em sua capacidade de controlar os acontecimentos que seguem suas ações, em 1966, Rotter (citado em Dela Coleta, 1989) desenvolveu uma escala para avaliar o lócus de controle interno-externo que
foi utilizada por Dela Coleta (1989, 1991, 1992) em seus trabalhos sobre conjugalidade.
Mais recentemente, Andrade e Dela Coleta (2003) realizaram estudo com o objetivo de identificar as causas percebidas para o sucesso no casamento, verificar as relações entre lócus de controle e satisfação conjugal, aperfeiçoar instrumentos para o estudo do relacionamento conjugal, comparar indivíduos do sexo masculino e feminino quanto às suas explicações, percepções e insatisfações. Foram pesquisados 100 sujeitos (41 homens e 59 mulheres) casados há pelo menos três anos, com ou sem filhos, com idade
Os resultados desta investigação identificaram que o amor, o respeito e a compreensão são os aspectos percebidos pelas pessoas como os mais importantes para o sucesso conjugal. Observou-se ainda que quanto mais forte a crença na habilidade pessoal (característica interna e estável do indivíduo), maior a satisfação com a vida conjugal, e quanto mais forte a crença em que as circunstâncias (causa externa, estável) controlam o casamento, maior a insatisfação com a vida conjugal e com os aspectos emocionais do cônjuge.
Kaslow e Hammerschmidt (1992) desenvolveram um conjunto de instrumentos/questionários para avaliar casamentos satisfatórios. O conjunto referia-se: 1 – informações gerais; 2 – a escala de ajustamento conjugal – DAS e a lista de classificação de problemas; 3 – questionários para avaliar as estratégias de resolução de conflito e comunicação que os casais utilizam (HSP – Health and Stress Profile, Olson & Stewart, 1991); 4 – listas de motivos que levam o casal a permanecerem juntos (Kaslow & Hammerschmidt, 1992);
5 – listas de componentes da satisfação conjugal (Kaslow & Hammerschmidt, 1992). Este procedimento foi utilizado nos Estados Unidos, Suécia, Alemanha, Holanda, Canadá, África do Sul, Israel e Chile, em estudo intercultural
publicado por Sharlin, Kaslow e Hammerschmidt (2000). As amostras compuseram, ao todo, mais de 400 casais, com o tempo de duração dos casamentos entre 20 e 45 anos.
A comparação dos resultados permitiu concluir que em diferentes países as uniões satisfatórias caracterizam-se por apresentar: amor, respeito mútuo, confiança (não limitada à fidelidade sexual), sistema de valores e interesses compartilhados, compromisso mútuo, habilidade em dar e receber, flexibilidade e amor pelos filhos. A confiança mútua inclui fidelidade, integridade e segurança. Os casais apresentaram boa capacidade de enfrentamento e resolução de problemas, comunicação clara, aberta e honesta, gostam de passar o tempo juntos, de se divertirem, têm senso de humor, apreciam atividades conjuntas e em separado, têm consideração e apreciação mútuas, são bons amigos e amantes e continuam a achar o parceiro atraente, desejável e interessante.
A pesquisa de Norgren (2002), que redundou em dissertação de mestrado, investigou os casamentos satisfatórios de longa duração no Brasil.
Foi utilizado o material desenvolvido por Kaslow & Hammerschmidt (1992), acrescidos de outros dois instrumentos que solicitam uma representação simbólica dos principais momentos da vida conjugal e do casamento nos momentos atual, de crise e de quando se casaram. A amostra compôs-se de 38 casais entre 20 e 47 anos de união, residentes na região metropolitana de São Paulo, com idades entre 42 e 71 anos, 90% católicos. Os resultados indicam que para esses casais são fundamentais para a longa convivência com satisfação aspectos como amor, fidelidade, escolha do parceiro, intimidade, relacionamento sexual-afetivo, constituição da família e ter alguém com quem compartilhar a vida, os sonhos, os projetos pessoais. Além disso, os cônjuges apresentaram senso de pertencimento e envolvimento e mostraram capacidade de lidar com as crises e transições que a vida apresenta, estando mais orientados pelo presente e futuro do que pelos fatos passados da vida.
Comparando estes resultados (Norgren, 2002) com os da amostra multicultural (Sharlin, Kaslow e Hammerschmidt, 2000), Norgren, Souza, Kaslow, Hammerschmidt e Sharlin (2004) identificaram, principalmente,
semelhanças: as relações conjugais são uma construção conjunta da realidade, uma opção viável de relacionamento que corresponda às expectativas de cada um dos participantes, quando estes se comprometem e creem no que fazem, com investimento e empenho para que a relação seja proveitosa para ambos na busca do equilíbrio entre a conjugalidade e individualidade, partilhando interesses e relacionamento afetivo-sexual, buscando evitar o tédio e a repetição.
Perlin e Diniz (2005) também usaram o DAS em estudo sobre satisfação no casamento de homens e mulheres que optaram por relacionamentos de duplo trabalho. Participaram do estudo 222 homens e 222 mulheres, casados, entre 31 e 40 anos, funcionários em diversas instituições públicas de Brasília/DF. Os resultados mostraram que a maioria dos participantes está satisfeita com seus relacionamentos, sendo que as mulheres apresentaram média de satisfação inferior a dos homens. Quanto à percepção do futuro do relacionamento, ficou evidente o comprometimento de homens e mulheres em investirem na manutenção do casamento.
Villa (2005), em sua tese de doutorado, propôs-se verificar a relação entre a satisfação conjugal dos cônjuges e as habilidades sociais gerais e conjugais e, concomitantemente, aperfeiçoar um instrumento de avaliação destas últimas. Participaram 406 pessoas de ambos os sexos (a maioria casal), com nível mínimo de escolaridade de segundo grau e idades entre 20 e 73 anos, que responderam ao Inventário de Habilidades Sociais (IHS – Del- -Prette), Inventário de Habilidades Sociais Conjugais (IHSC) e o DAS. Foram obtidos escores individuais para cada instrumento, procedendo-se a análises descritivas de cada um e a comparações entre eles, especialmente entre maridos e esposas, além da análise da influência de variáveis sócio- -demográficas.
Os resultados apontaram correlação significativa entre escores do IHS – Del-Prette, IHSC e o DAS, sugerindo que quanto mais elaborado o repertório de habilidades sociais, conjugais e gerais do respondente, maior é sua satisfação com o casamento, confirmando a hipótese inicial do estudo. As análises das correlações entre os instrumentos utilizados confirmaram a
importância de algumas habilidades interpessoais: comunicação, resolução de problemas e expressão de sentimentos para a relação. Desta feita, foi confirmada a relação genérica entre habilidades sociais e satisfação conjugal, sendo as mais abrangentes em termos de aspectos da satisfação envolvidos a comunicação e expressividade, a expressão de intimidade, o autocontrole empático e por fim evitar conflitos.
Em sua tese de doutorado, Perlin (2006) teve como objetivo identificar e discutir dimensões que afetam a satisfação nas relações conjugais de duplo trabalho. Para tanto, ela utilizou um questionário demográfico (a escala de ajuste da díade – DAS; Spanier (1976)) e entrevistas com os casais. Os resultados apontaram que o consenso acerca da filosofia de vida é um fator estruturante da relação, assim como: tempo, finanças, família de origem e questões de gênero também apareceram como Componentes importantes para a compreensão da satisfação conjugal. Constatou-se que homens e mulheres baseiam-se em muitas informações, posturas e valores relacionados a modelos conjugais novos e tradicionais. Os resultados apontaram, ainda, diferenças de gênero na forma como homens e mulheres avaliam as dimensões da vida conjugal e nas estratégias adotadas para a manutenção da qualidade da relação.
Machado (2007), em sua pesquisa, buscou identificar a relação entre os comportamentos dos casais e a interferência desses comportamentos na satisfação e na insatisfação conjugal. De posse dos resultados, propôs-se a analisar semelhanças e diferenças entre os comportamentos, de modo a verificar a possibilidade de duas dimensões, uma para a satisfação e outra para a insatisfação conjugal. A amostra compôs-se de 103 mulheres casadas, em média há 16 anos, um a dois filhos, sendo a maioria católica, frequentadoras assíduas de seus templos religiosos, com nível de escolaridade correspondendo principalmente ao 2º grau completo e trabalhando em diversas atividades, com renda individual entre 01 e 03 salários mínimos. Para a coleta de dados, foi utilizada a técnica dos incidentes críticos, que consiste em colher relatos de ocorrências positivas e negativas e retirar as situações e os comportamentos críticos envolvidos. O roteiro de entrevista foi composto por duas questões básicas sobre incidentes críticos, uma para incidente positivo e
outra para negativo, além de quatro questões sobre comportamentos habituais do cônjuge responsáveis por sentimentos positivos na mulher:
felicidade/contentamento e amor, e por sentimentos negativos:
tristeza/infelicidade e raiva. Após a análise do conteúdo, foram obtidos 124 incidentes críticos positivos e 105 negativos, que foram classificados em 11 categorias por situação em que ocorreram, sendo a mais frequente o
“cotidiano”.
Os resultados apontaram que os comportamentos críticos positivos com maiores frequências referiram-se a: apoiar, defender ou cuidar da esposa, presentear e sair da rotina ou viajar. Os comportamentos críticos negativos incluíram: ofender, agredir, tomar decisões importantes sem consultar a esposa, envolvimento com outra mulher e embriagar-se. A análise destes comportamentos revelou que aqueles relativos à satisfação eram diferentes daqueles relacionados à insatisfação conjugal, com exceção de apoiar, defender e cuidar da mulher, que teve seu oposto, não apoiar. Tal resultado sugere duas dimensões, uma formada pelos fatores de satisfação e outra pelos de insatisfação, hipótese que poderá vir a ser confirmada através de outros estudos e métodos. Sobre os comportamentos habituais do marido relacionados a sentimentos de felicidade e amor da mulher, destacam-se principalmente: ser afetuoso, carinhoso, sair para passear com a companheira e presentear ou fazer festas surpresas. Já os comportamentos habituais que levam a sentimentos de tristeza e de raiva referem-se principalmente a demonstrar atitudes e emoções negativas, não conversar, falar pouco ou não falar e a vícios do companheiro, como beber, jogar ou fumar.
Na comparação dos comportamentos críticos com os comportamentos habituais, foram verificadas diferenças, de modo que no cotidiano é importante ajudar nas tarefas domésticas, conversar e demonstrar atitudes e emoções positivas, enquanto em situações críticas, extremas, é importante apoiar, defender e cuidar do bem-estar da esposa e são altamente negativos as ofensas, agressões e traição. Estes resultados sugerem que não basta agir de modo positivo, mas é preciso, também, evitar que os comportamentos negativos prejudiquem a relação.
Independentemente das medidas utilizadas para mensuração e dos variados grupos de pessoas pesquisados, nos trabalhos selecionados descritos acima o amor apareceu como descritor de satisfação em todas, desde as da 2004; VILLA, 2005; PERLIN e DINIZ, 2005; PERLIN, 2006; MACHADO, 2007).
Quanto às diferenças de gênero, não há consenso nas pesquisas brasileiras. Miranda (1987) observou que as mulheres tendem a se atribuir ou lhes é atribuído maior ônus pela insatisfação conjugal e Perlin e Diniz (2005) também averiguaram que em casais de duplo trabalho, as mulheres apresentaram média de satisfação inferior a dos homens. Mas, não foram verificadas diferenças significativas quanto ao nível de satisfação entre homens e mulheres no estudo de Norgren (2002) e, no de Vilani (2010), as mulheres evidenciam o mais alto nível de satisfação.
Comparando os resultados das pesquisas realizadas nas décadas de 70, 80 e 90 (Medeiros, 2008; Miranda, 1987; Dela Coleta 1989, 1991, 1992;
Kaslow e Hammerschmidt, 1992), cujos descritores encontrados foram amor, respeito, compreensão, amizade, desejo de compartilhar momentos bons com o cônjuge, afeto, sexo, comunicação, compatibilidade, comunhão de ideias e traços de personalidade, percepção interpessoal e autoestima, com as realizadas desde 2002 até 2007 (Norgren, 2002; Norgren et al., 2004; Villa, 2005; Perlin e Diniz, 2005; Perlin, 2006; Machado, 2007), percebe-se semelhanças na maioria dos componentes necessários para a obtenção da satisfação que são: amor, fidelidade, escolha do parceiro, relacionamento sexual-afetivo, constituição da família e ter alguém com quem compartilhar a vida, os sonhos e os projetos pessoais.
Nos trabalhos pesquisados nestes últimos oito anos, (Norgren, 2002;
Norgren et al., 2004; Villa, 2005; Perlin e Diniz, 2005; Perlin, 2006; Machado,
2007) esses pesquisadores perceberam que a intimidade e o consenso aparecem como fatores estruturantes da relação, assim como o tempo, as finanças, a família de origem, as questões de gênero, a busca do equilíbrio entre a conjugalidade e a individualidade.
Com base na revisão realizada neste capítulo, podemos perceber que a temática da satisfação conjugal tem ocupado lugar de destaque na produção de pesquisas brasileiras, indicando provavelmente a preocupação dos acadêmicos em responder às demandas do estilo de vida contemporâneo, quer no sentido de desenvolver instrumentos e conceitos para avaliação, quer no sentido de orientar pessoas em busca da conjugalidade satisfatória com vistas à promoção da saúde.
Sabemos que a psicologia é um dos atuais grandes auxiliares na construção e normatização do comportamento, e que aquilo que os acadêmicos/técnicos definem facilmente se torna “realidade”, principalmente por sua grande presença na mídia. Mas, considerando o método basicamente quantitativo usado nestes estudos, podemos nos perguntar se aquilo que é caracterizado nas pesquisas com uso de escalas corresponde às expectativas e às experiências dos indivíduos. Esta reflexão nos motivou a buscar um meio de trabalhar com o relato espontâneo de experiências das pessoas e com isso, o recurso da internet tornou-se uma estratégia privilegiada, sendo então, o tema do próximo capítulo.