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2.2. Taxonomia em Finanças Sustentáveis

2.2.2. Aspectos relevantes, desafios e limitações

uma inflação de preços de ativos sustentáveis e aumentar o custo de transição para uma economia verde (OECD, 2020). A taxonomia permite que os formuladores de políticas identifiquem as áreas de subinvestimentos e formule políticas para preencher essas lacunas e impedir o surgimento de uma bolha sustentável no mercado.

adaptação e aprendizado dos usuários, eles também devem ter a praticidade como foco para que a taxonomia atinja seus objetivos (OECD, 2020).

O desenho de um sistema de classificação pode ser determinante para o fluxo de investimentos para setores específicos, assim como a diminuição de recursos em outras áreas não abarcadas (OECD, 2020). Dessa forma, ao desenvolver uma taxonomia ou analisar uma taxonomia já existente, alguns aspectos chaves, que perpassam e complementam essa questão central da usabilidade, devem ser levados em consideração.

O BIS, em seu relatório “A taxonomy of sustainable finance taxonomies”32, publicado em 2021, elencou quatro categorias chaves que podem ser utilizadas para analisar uma taxonomia: objetivo, alcance, alvo e outputs (Ehlers et al., 2021). Neste trabalho, as quatro categorias serão apresentadas juntamente com as limitações e desafios relacionados a cada ponto, com o complemento de informações de outros documentos.

O primeiro elemento-chave, o objetivo, está relacionado a quais objetivos de sustentabilidade são apoiados por uma taxonomia. Nesse ponto, dois aspectos devem ser analisados. O primeiro, mais geral, seria o alinhamento da taxonomia aos objetivos políticos de alto nível. Uma taxonomia eficaz deve facilitar o fluxo de recursos para ativos que apoiem a agenda nacional de desenvolvimento sustentável de longo prazo (Ehlers et al., 2021).

O segundo aspecto a ser considerado dentro da categoria objetivo é a independência versus co-dependência de objetivos no caso de taxonomias que apoiam objetivos múltiplos. Uma taxonomia pode ter múltiplos objetivos mas eles serem considerados de forma independente entre si. Em outros casos, pode haver uma co-dependência em que os objetivos estão interligados de alguma forma, como é o caso da Taxonomia da União Europeia, que será detalhada no item 4.1.1 (Ehlers et al., 2021).

A existência de objetivos múltiplos co-dependentes pode não ser a escolha ideal para países em desenvolvimento por dificultar investimentos em setores com grande impacto na economia nacional que almejam realizar a transição e por possuir instituições e infraestruturas mais fracas. Objetivos múltiplos aumenta a complexidade da taxonomia e aumenta os custos de implementação, verificação e conformidade dos mercados. Esse

32 Uma taxonomia de taxonomias de finanças sustentáveis (tradução nossa)

aumento de custos pode desestimular a adoção voluntária a uma taxonomia (Ehlers et al., 2021).

O segundo elemento chave de uma taxonomia é o escopo, em que se analisa qual o alcance do sistema de classificação. A taxonomia pode ser estática ou de transição. A maioria das taxonomias é estática, ou seja, consideram a situação do momento e é baseada em dados retrospectivos. Todavia, para uma transição de economia de baixo carbono é importante reconhecer essas atividades de transição, que devem ser analisadas, nesse caso, com medidas prospectivas (Ehlers et al., 2021).

Ainda dentro do alcance da taxonomia, a taxonomia pode ter interoperabilidade nacional ou internacional. Muitas taxonomias se baseiam em sistemas de classificação industriais limitados a sua jurisdição, o que dificulta uma interoperabilidade internacional da taxonomia. Essa dificuldade pode aumentar os custos de transação para stakeholders do setor financeiro que atuam de forma global. Uma possibilidade de harmonização seria o uso de um sistema de classificação industrial global, como o Global Industry Classification Standard (GICS) e a Classificação Industrial Padrão Internacional (ISIC), ou a elaboração de um mapa comum entre os principais códigos regionais utilizados (Ehlers et al., 2021).

O terceiro elemento refere-se ao alvo da taxonomia, ou seja, como o objetivo da taxonomia é traduzido em algo mensurável. Nesse ponto chave o principal aspecto é analisar se a taxonomia é definida a partir de uma perspectiva de atividade, entidade ou ativo. As principais taxonomias existentes definem a sustentabilidade a partir da atividade ou do projeto. Ou seja, com base na atividade econômica, como no caso das taxonomias que utilizam os sistemas de classificação industriais ou de um projeto específico são definidos os limites ou metas a serem alcançados para que aquela atividade ou projeto seja considerado sustentável (Ehlers et al., 2021).

Nesse ponto, uma grande limitação surge. Ao utilizar uma taxonomia baseada na atividade ou no ativo, uma sinalização contraditória pode ser dada ao mercado. Uma entidade (geralmente uma corporação) possui diversas atividades e a existência de uma atividade classificada como sustentável não significa que a empresa pode ser considerada sustentável. Uma taxonomia com o foco na atividade, portanto, é limitada em termos de análise da empresa/entidade (Ehlers et al., 2021).

No caso das empresas multinacionais, a questão se torna ainda mais complexa.

Além de considerar as diferenças de critérios entre as atividades econômicas exercidas pela empresa, ainda deve levar em consideração os regramentos e metodologias distintos entre os países. Dessa forma, fica ainda mais difícil uma abordagem no nível da entidade (OECD, 2020).

Para minimizar esse problema, uma possibilidade seria complementar as taxonomias com informações relacionadas a materialidade das atividades sustentáveis em relação a entidade. Ou seja, as empresas poderiam informar o que aquela atividade sustentável representante em relação ao total da empresa em termos de despesas, receitas ou outros indicadores financeiros, conforme já é feito no caso de fundos de investimento.

(Ehlers et al., 2021).

O quarto elemento chave são os outputs da taxonomia, que tipo de informações são fornecidas. Esse elemento possui diversas limitações e é analisado com base em três aspectos: disponibilidade e divulgação de dados, verificação e granularidade. (Ehlers et al., 2021).

A disponibilidade e divulgação de dados é primordial para a eficácia de uma taxonomia tendo em vista que para implementá-la é necessário um grau de padronização nos dados fornecidos. Em alguns casos, os emissores não possuem infraestrutura de dados adequada para fornecer a informação. A necessidade e a lacuna de dados devem ser consideradas no momento do desenho das taxonomias (OECD, 2020).

Ainda que o dado esteja disponível, a divulgação de informações no nível da empresa ainda é restrita. Por isso, é importante que as taxonomias reforcem a divulgação obrigatória de dados relevantes de sustentabilidade no intuito de garantir a integridade, consistência e comparabilidade dos rótulos verdes (Ehlers et al., 2021).

Nesse ponto, deve ser levado em considerado as especificidades das pequenas e médias empresas. Uma maior carga de relatórios pode gerar um custo excessivo para essas empresas. Dessa forma, recomenda-se uma abordagem de proporcionalidade ao desenhar os critérios de conformidade dessas empresas, como por exemplo, exigir relatórios e processos simplificados (Ehlers et al., 2021, OECD, 2020). De uma maneira mais ampla, a taxonomia deve observar uma equivalência entre os atores de modo a não

gerar custos adicionais excessivos e evitar desigualdades competitivas (Ricas & Baccas, 2021).

Mesmo com a disponibilidade dos dados e divulgação, devido a variedade de metodologias para relatar as mesmas métricas e a questão do nível da entidade destacado acima, pode ocorrer dificuldades em agregar as informações entre as diversas atividades econômicas de uma empresa (OECD, 2020).

Outro aspecto a ser considerado nos outputs é o processo de verificação. Uma taxonomia pode evitar o risco de greenwashing ao facilitar a verificação das atividades rotuladas como sustentáveis. A qualidade dos processos de verificação é, portanto, um ponto crucial para que uma taxonomia de fato evite a lavagem verde (Ehlers et al., 2021, OECD, 2020).

O processo de verificação não é abordado em algumas taxonomias enquanto em outras estimula-se o uso voluntário de revisões independentes. Ter um modelo de verificação nos Padrões da CBI, que possui um sistema de verificação por consultores privados, pode ser interessante já que permite que os reguladores deleguem o papel de verificação para provedores privados e atuem como gatekeepers (Ehlers et al., 2021).

Uma taxonomia sem um sistema de verificação consistente permite que os participantes do mercado relatem a conformidade de maneira imprecisa, seja de forma intencional, para reivindicar benefícios ou incentivos, ou de forma não intencional, pela falta de familiaridade com a questão (OECD, 2020).

Ainda dentro dos outputs, o último aspecto refere-se à granularidade da taxonomia. Quanto a granularidade, as taxonomias podem ser binárias ou não. As taxonomias binárias são aquelas em que se é estabelecido se um setor/atividade/ativo se enquadra ou não em determinada classificação (Ricas & Baccas, 2021).

Esse tipo de taxonomia, apesar de ser o mais utilizado nas taxonomias existentes atualmente, tem o risco de se tornar muito rígido e impedir o financiamento de empresas, inclusive as pequenas e média empresas, em tecnologia e processos para uma transição verde (Ehlers et al., 2021). Isso pode se tornar um obstáculo à tendência evolutiva do sistema financeiro e excluir setores importantes para transição, como é o caso da pecuária brasileira. (Ricas & Baccas, 2021)

As taxonomias não binárias, por sua vez, permite uma gradação de cores (do

“cinza/sujo” ao “verde escuro”) em que as atividades seriam classificadas conforme sua relação com os objetivos pretendidos da taxonomia (Ricas & Baccas, 2021). Essa maior granularidade facilita a transição para uma economia verde, possibilita acomodar diferentes níveis de desenvolvimento econômico nacional e permite que setores que seriam excluídos em uma taxonomia binária seja estimulado a melhorar o seu desempenho, semelhante ao que ocorre com os ratings de crédito (Ehlers et al., 2021).

Nesse sentido, Mark Carney (2019) destaca “Eventually asset owners should be able to report the climate pathway of their portfolios. Mainstreaming sustainable investment calls for a richer taxonomy—50 shades of green”.33

Apesar das vantagens de uma taxonomia mais granular, dois aspectos devem ser observados. Uma maior granularidade pode gerar maior complexidade e custos para os usuários da taxonomia (NGFS, 2022b). Além disso, a graduação pode gerar limites fáceis de serem alcançados e diminuir o valor da sinalização com selo verde (Ehlers et al., 2021) De uma maneira geral, as principais dificuldades relacionadas a taxonomia são a ausência de informações, especialmente a nível de empresa; a falta de granularidade, a ausência de verificação dos benefícios alcançados, a dificuldade de uma interoperabilidade internacional e a complexidade de aplicação no caso de objetivos múltiplos. (Ehlers et al., 2021).

Além das quatro características chaves de uma taxonomia elencadas pelo BIS em seu relatório (Ehlers et al., 2021), outros dois pontos devem ser analisados. O primeiro refere-se a quem elabora a taxonomia, ou seja, se essa taxonomia foi desenhada por autoridades públicas, como reguladores ou legisladores, ou pelo próprio mercado (Ricas

& Baccas, 2021). Atualmente, entre as principais taxonomias utilizados existem tanto taxonomias elaboradas pelo setor público quanto pelo setor privado.

Em algumas jurisdições, os bancos centrais e autoridades de supervisão tem tido um papel de destaque no desenvolvimento de taxonomias financeiras sustentáveis. Países como China e Malásia, foi o próprio banco central nacional que liderou a elaboração e publicação das taxonomias. Por outro lado, os bancos centrais podem optar por serem

33 “Eventualmente, os proprietários de ativos devem ser capazes de relatar o caminho climático de seus portfólios. O investimento sustentável exige uma taxonomia mais rica - 50 tonalidades de verde.” (Carney, 2019, p.14, tradução nossa)

neutros ou adotarem uma postura de espera, até que se estabeleça um consenso global acerca das questões de interoperabilidade internacional entre as diversas taxonomias já existentes (NGFS, 2022b).

O outro ponto diz respeito a aplicação da taxonomia. Uma taxonomia pode ter aplicabilidade mandatória ou voluntária. Vale ressaltar que esse ponto difere do anterior pois, ainda que sejam elaboradas e publicadas por autoridades públicas, as taxonomias podem ter natureza voluntária (Ricas & Baccas, 2021).

Sobre o desenho de uma taxonomia mandatória por parte das autoridades legislativas, a OECD (2020) faz um questionamento interessante:

Qual o mérito da ação legislativa, em comparação com deixar os mercados financeiros utilizarem suas próprias definições?

Um dos riscos do uso voluntário da taxonomia é sobrecarregar com relatórios adicionais justamente as empresas que já estão engajadas na transição para uma economia verde enquanto as empresas que não estão, não seriam afetadas por esses custos e restrições. Além disso, a proliferação de critérios voluntários permite que os limites sobre o que seria sustentável sejam afrouxados e aumenta o risco de greenwashing, já que dificultaria sua identificação (OECD, 2020).

Por outro lado, a ausência de uma taxonomia mandatória possibilita a inovação do mercado. Os limites e critérios detalhados no sistema de classificação de uma taxonomia pode servir como um teto para inovação do setor privado. Nesse aspecto, torna-se primordial que as taxonomias sejam flexíveis e adaptáveis à evolução do conhecimento e das tecnologias e aos ajustes necessários conforme os resultados forem alcançados ao longo dos anos. A taxonomia deve ser responsiva ao contexto e ser atualizada de maneira constante (OECD, 2020).

Como pode ser observado, uma taxonomia pode seguir diversos caminhos conforme o objetivo que pretende alcançar, o contexto, o estágio de transição dos países, as distintas atividades econômicas e seu papel na economia do país. No próximo tópico, será feito uma síntese das primeiras taxonomias utilizadas no mundo.