4 UM PANORAMA SOBRE O PEA MANATI
4.4 ASPECTOS RELEVANTES SOBRE O PROCESSO DE COMPENSAÇÃO
O caráter compensatório do PIPP, que marca muito fortemente os anos iniciais de sua implementação, estava relacionado às “características daqueles impactos: exclusão da área, lançamento do duto, restrição à navegação de um grupo maior de pescadores e de artes de pesca, que ficaram impedidos de operar ali...”, de acordo com um analista ambiental da CGPEG. O mesmo complementa salientando que, embora eles tivessem certeza de que haveria impactos significativos na fase de instalação do empreendimento, há enorme dificuldade em delimitar, exatamente, os impactos. Segundo ponderou:
a gente não tinha (como não temos ainda até hoje) como delimitar exatamente [os impactos], até por conta do caráter, de algumas características da atividade, que geram uma série de outros impactos difusos e que você não consegue fazer esses recortes com tanta precisão (I1).
Mesmo com essa dificuldade de delimitação precisa dos impactos, deve-se salientar que a CGPEG/IBAMA, conforme observado em diversos documentos do PIPP, definiu que as ações de compensação socioambiental deveriam, necessariamente, envolver e buscar atender demandas do segmento da pesca artesanal. No entanto, como a avaliação de impactos apontava para uma possível interferência negativa no turismo na região, por conta da “possibilidade de visualização das grandes estruturas dos equipamentos e das embarcações” relativas ao Manati (PETROBRAS, 2003), a mobilização e as oficinas de diagnóstico do PIPP buscaram também envolver moradores que atuam em outras áreas, como empresários e trabalhadores do trade turístico da face atlântica das ilhas de Tinharé e Boipeba.
De todo modo, mesmo trabalhando com um público mais ampliado, havia a percepção de que os impactos mais diretos aconteceriam na pesca artesanal e que, por conta disso, o público que atua nesse segmento deveria ser priorizado nos processos de trabalho e na própria definição das ações de compensação. Um pescador da Ilha de Tinharé, em sua fala, apontou para a razão dessa necessidade de priorização do segmento pesqueiro nas ações de compensação.
Não adianta a gente arrodear, esses impactos aqui quem sofre, diretamente, é o pescador e a marisqueira! Se cair a produção do peixe, se cair a produção do camarão, não é prefeito quem vai sentir, não é vereador, não é fulano nem ciclano, quem vai sentir diretamente é o pescador e a marisqueira. E hoje, o pescador e a marisqueira, para botar comida na mesa, tem que suar. Antes, a gente chegava lá no mar e não precisava a gente se acabar tanto, mas hoje tem que suar. Se você não suar, você não traz o pão de cada dia (Ma3). Nesse contexto, conforme aponta o relatório do diagnóstico no Galeão, uma das localidades do município de Cairu (PETROBRAS, 2009a), por exemplo, o processo de definição da compensação deveria atender a alguns crivos limitadores. Assim, de forma geral, as ações compensatórias não deveriam: (i) ter caráter individual; (II) ser questões de responsabilidade direta (legal) dos poderes públicos; e (iii) contribuir para o aumento do esforço de pesca.
Além dos impactos decorrentes das atividades do Manati, essas limitações impostas pelo órgão ambiental para a definição das ações de compensação também geraram bastante tensão nas comunidades, principalmente devido às enormes expectativas de sua população que, inicialmente, via em tais ações uma possibilidade de resolução de problemas históricos de infraestrutura e serviços públicos de sua localidade, demandando inclusive ações que não estão no campo de governabilidade do Consórcio. Neste sentido, um pescador e ex-dirigente de uma associação na Ilha de Tinharé, por exemplo, afirmou que:
até por falta de conhecimento, a gente queria pedir coisa que não era da alçada deles [do Consórcio Manati]: uns pediam água encanada, acho que até se não tivesse energia iriam pedir... Tiveram muitas coisas mesmo que eu reivindiquei aqui na época... uma das reivindicações nossas foi água tratada, mas naquela época eles falaram que o processo de água tratada não era da alçada deles, era com o poder público municipal (Ma2).
Do mesmo modo, a fala do presidente de uma associação na Ilha de Boipeba ilustra que as expectativas iniciais dos moradores extrapolaram, em muito, as possibilidades da compensação.
Fizemos uma lista tão grande, pensando que ela [a Petrobras] iria fazer tudo. Mas, tinham coisas que ela dizia que não era da alçada dela. A gente pediu posto [de saúde], a gente pediu barco, a gente pediu o Centro Comunitário, esse foi atendido... a gente pediu criatório de peixe, eles vieram fizeram o teste experimental, mas no rio aqui não deu certo... A gente pediu trator... tudo foi pedido, mas algumas coisas eles disseram que não poderiam dar, porque era [de responsabilidade] do órgão não sei de quem... o que nós conseguimos foi isso aqui, o Centro [Comunitário] (Ma7).
O representante de uma importante instituição de pesca de Cairu, que hoje afirma que participa “em virtude de acreditar na proposta do PIPP, na proposta, realmente, de uma formação cidadã, onde a gente consiga manter o nosso direito de liberdade”, confessou que, logo nas primeiras oficinas de diagnóstico do PIPP, entendeu “aquilo tudo” como sendo:
uma manobra da Petrobras, contratando alguém que viesse com o objetivo de evitar que ela gastasse [muito], com a medida compensatória. E aí, tive sérios embates com o consultor responsável pela condução das oficinas. Mas, com o passar do tempo, eu passei a entender que, realmente, existiam limitações apresentadas pelo próprio IBAMA, pelo fato de que a maioria das coisas pleiteadas era de obrigação do poder público. E aí, no caso de Cairu, especificamente, passaria a ter o recebimento dos royalties, que, com certeza, seria um dinheiro destinado para atender a esse tipo de fragilidade. Com relação à pesca diretamente, tudo que a gente solicitava, mesmo comprovando ser necessário, havia uma interpretação do IBAMA de que não era possível. E uma das preocupações era não causar sobre-esforço [de pesca] no estuário, na área de pesca. E sempre foi parando nisso: tudo o que era solicitado, não dava. Ou por um motivo ou por outro (Ma27).
Com referência a essa questão, a gestora da Petrobras entrevistada salientou que: o poder público não faz o papel dele, como deveria. Então, toda empresa que chega, todo empreendimento que chega, tem que dar conta de todos os problemas que eles têm. E não é bem assim, não é? No licenciamento, a gente tem as diretrizes, que nos impede de atuar em ações que sejam de responsabilidade do poder público (P1).
Diante desse cenário conflituoso e recheado de complexidade, os relatórios apontam que, na etapa inicial de mobilização e, também, durante o processo de diagnóstico, a equipe
da Consultora buscava explicar toda a proposta metodológica a partir de uma ideia de ciclo de projeto, destacando o objetivo da compensação socioambiental, mas já salientando que todo o processo deveria também ser permeado por cunho educativo, no sentido da mitigação de impactos e da sustentabilidade dos bens da compensação, os quais seriam definidos com a participação comunitária durante o trabalho.
Assim, mesmo com o foco dos moradores notadamente voltado para a compensação (conquista de bens materiais), ressaltava-se que a compensação socioambiental (materialização de algum bem ou serviço de importância para cada localidade, definida a partir do processo de diagnóstico em cada uma delas) não deveria ter um fim em si mesmo, mas ser entendida como um importante meio para aglutinar pessoas em torno de algo concreto e de interesse coletivo. Deste modo, com isto, buscava-se avançar na construção de acordos e normas dos comunitários para o bom uso fruto dos bens compensatórios de forma coletiva e, também, estimular o exercício da cidadania, no sentido da luta por garantia de direitos sociais que possibilitasse conquistas para além da compensação socioambiental, em especial, no campo das políticas públicas.
Mesmo não tendo este estudo a pretensão de avaliar em que medida as ações de compensação socioambientais, definidas entre Comunidades e Consórcio Manati (com a mediação da CGPEG/IBAMA), de fato, compensam (ou não) os impactos não mitigáveis do empreendimento, nem tampouco avaliar em que medida o PEA Manati contribuiu (ou não) para o processo de desenvolvimento sustentável na sua área de abrangência, vale destacar que muitas materializações (bens de uso coletivo) foram conquistadas pelas comunidades afetadas a título de compensação, tanto no Baixo Sul quanto no Recôncavo baiano.
De acordo com a Petrobras (2011a), em Cairu, o processo de compensação socioambiental do Manati viabilizou diversas ações, tais como: construção ou aquisição e reforma de imóveis para funcionar como espaços comunitários (centros comunitários, centro cultural, biblioteca comunitária ou casa do pescador), na maioria das localidades envolvidas; disponibilização de móveis e equipamentos básicos para funcionamento e gestão dos citados espaços comunitários; disponibilização de equipamentos de cozinha industrial para implantação de um restaurante comunitário; doação de diversas embarcações, equipadas e regularizadas, para transporte e apoio à mariscagem, ao mergulho e/ou a outras atividades de transporte que visam beneficiar a comunidade pesqueira; concessão de kits de navegação e salvatagem para muitas embarcações já existentes no Município; assessoria e apoio, inclusive financeiro, para regularização de diversas embarcações já existentes no Município, junto à
Capitania dos Portos; viabilização de uma estação de rádio VHS para facilitar a comunicação com as embarcações de pesca; e modernização de embarcações pesqueiras.
Embora, ainda hoje, existam frustrações decorrentes desse processo de compensação socioambiental21, principalmente quando se consideram as expectativas iniciais de moradores com relação a tal processo, verifica-se também, por parte de alguns, certo reconhecimento, certa valorização, em relação aos bens conquistados. Os trechos a seguir, transcritos de entrevistas com moradores, ilustram um pouco desse “lado positivo”, resultado das medidas compensatórias.
Uma das coisas que melhorou bastante foi a parte dos equipamentos das embarcações, da documentação... a gente sabe que aqui em Canavieiras [localidade da contracosta da Ilha de Tinharé] foram 12 ou 13 barcos que receberam os equipamentos. [...] Entre os barcos daqui, só dois tinham equipamentos e documentação. [...] Então, já foi um avanço bom! [...] Hoje estão todos [os barcos] equipados, prontos para o pessoal sair para pescar. [...] Porque antes o pessoal saía com medo, da própria Marinha, entendeu? Hoje não, podem sair tranquilos, porque eles sabem que estão equipados, sabem que estão legalizados (Ma13).
Hoje, para mim, não teve coisa melhor do que aquele centro comunitário. [...] Eu mesmo sou um da diretoria, junto com ele ali [apontando para outro dirigente da mesma associação], é a gente quem comanda [o Centro]. A gente mesmo é quem consegue organizar, pagar água, pagar energia... porque a Prefeitura não ajuda, a Petrobras não ajuda mais... [...] a gente lutou e estamos dando continuidade, nós não estamos deixando [o Centro] se acabar. Estamos lá, sempre fazendo alguma coisa. E [além de reuniões] está servindo para fazer aniversários, casamentos, festas... (Mb21).
A dirigente de uma associação de Boipeba ressaltou que, no período da entrevista, o Centro Comunitário da localidade estava “até sem agenda”, ressaltando que tal Centro estaria sendo plenamente utilizado e que possui um calendário de atividades. Ela mencionou que:
o Centro agora tem um calendário anual... e aí, aos sábados, tem sempre capoeira... acontecem reuniões, eventos com as escolas, com a própria comunidade, audiências, e, assim, para tudo que a comunidade precisa, ele está aberto. [...] Tem agora uma fisioterapeuta, que está agora fazendo uso de uma das salas do Centro. E aí ela paga [uma taxa de contribuição] para o Centro e atende também a comunidade com um valor bem irrisório, bem acessível para a comunidade. Ela é acupunturista e fisioterapeuta (Ma9). Um analista ambiental da CGPEG, que passou a acompanhar o processo do PIPP a partir de 2009, evidencia o seu entendimento sobre a importância das medidas compensatórias, em especial, nos seus primeiros anos de envolvimento com esse processo:
21 Essa discussão sobre as frustrações com a compensação e a sua relação com a participação será retomada mais
Quando eu comecei a trabalhar no PIPP, a minha ideia (que era também como eu começava a pensar no licenciamento) era como a gente conseguia ter instrumentos para que a indústria do petróleo, quando chegasse nessas regiões, não distribuísse só prejuízos. Essa minha ênfase, em trabalhar com medidas compensatórias, era [pensar] como nós, como órgão regulador, criamos mecanismos para que a permanência da indústria em alguns territórios conseguisse deixar alguns benefícios para essas populações. Ao contrário do que pode parecer, que isso é natural, isso não é natural! O natural é que só restem os prejuízos e que as populações fiquem com os impactos, fiquem com as possibilidades dos riscos, que fiquem com os conflitos que acontecem em decorrência da atividade. E eu acho que a gente tem que fazer um esforço muito grande para que, de alguma forma, fique ali algum benefício. E eu acreditava muito nisso através do mecanismo das medidas compensatórias (I2).
Contudo, durante a sua participação no papel de técnico do órgão licenciador, no acompanhamento dos processos, o mesmo analista confessa ter tido certa ampliação de horizontes, passando a melhor entender, na prática, algumas limitações do próprio processo de compensação e também outras possibilidades a partir da formação política e da participação (DAGNINO, 2002; ARNSTEIN, 2002) dos sujeitos locais no PEA Manati. Ele enfatiza que:
o licenciamento não resolve todas as questões. Há questões muito mais profundas, nesses territórios, para se promover alguma justiça ambiental. Então, quando eu começo a abrir um pouco a minha possibilidade, como técnico, de distanciar das medidas compensatórias e ir para processos formativos, de construção, de qualificação para a participação política desses grupos, eu começo a acreditar (de forma mais intensa que em outros lugares que eu também via isso acontecer, às vezes, mas não tão bem representado [como na prática em Cairu]) que eles conseguem ocupar espaços, que não são criados (a não ser, às vezes, pró-forma) para que esses grupos ocupem, de fato, e coloquem suas questões (I2).
4.5 PARA ALÉM DA COMPENSAÇÃO MATERIAL: A BUSCA DA CONSTRUÇÃO