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Cruz Alta está inserida na região geograficamente conhecida como planalto, localizada na porção norte e noroeste do Rio Grande do Sul. Esta região, em 1870, englobava 6 municípios. No quadro abaixo tem-se a criação de seus municípios no período que abrange nossa pesquisa.

Quadro 1: “Evolução da divisão municipal na região” entre 1834 e 1900

Ano CRIAÇÃO DOS MUNÍCIPIOS

1834 Cruz Alta

1857 Passo Fundo

1873 Santo Ângelo

1874 Palmeira das Missões

1875 Soledade

1891 Vila Rica (Júlio de Castilhos)

Fontes: FORTES, Amyr Borges. Compêndio de História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Livraria Sulina Editora, 1960. 4ª Edição. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), disponível em: [http://www.ibge.gov.br]. Acesso em 13 de maio de 2012.

Em trabalho sobre essa região, Paulo Afonso Zarth demonstrou que o processo de ocupação pelo império foi marcado, fundamentalmente, pela presença militar. Os campos nativos foram obtidos por meio de concessão das autoridades militares locais ou por meio de compra. Vastas áreas foram vendidas a preços irrisórios a tropeiros e militares que eram ou se tornaram estancieiros/proprietários de terra. Os aspectos geográficos da região foram relevantes nesse processo de ocupação de terras e influenciaram o desenvolvimento da economia local. De acordo com Zarth, a “dicotomia campo-floresta”, presente no planalto rio-grandense, “contribuiu para a formação de duas formas de estabelecimento rural: as grandes fazendas de gado nas zonas de campo nativo” e o extrativismo de erva-mate aliada à agricultura de subsistência em áreas de floresta, desenvolvidas em pequenas propriedades92.

A apropriação efetiva do território nesta região ocorreu em duas fases. A primeira fase iniciou na década de 1820, quando os campos nativos foram ocupados e as estâncias pastoris formadas dando início ao latifúndio regional93. De modo geral, os estancieiros ocuparam de fato apenas as áreas cobertas com pastagens naturais; as áreas de mato, inicialmente, não tiveram muita importância. A segunda fase que, de certo modo, transcorreu de forma concomitante à primeira teve a conformação de uma frente extrativista que avançou sobre a floresta à procura de erva-mate, conforme veremos mais adiante94. Essa atividade de coleta teria

se constituído, sobretudo, pelo trabalho livre, cujo assalariamento, feito de forma temporária, estava sujeito ao endividamento com os negociantes de mate ou com os próprios estancieiros. Entretanto, nos meses de entressafra, as atividades desses trabalhadores temporários modificavam-se e eles passavam a se dedicar ao trabalho em suas roças, de onde retiravam seu sustento95.

Em meados da década de 1860, devido à impossibilidade de apropriação de novos campos e áreas devolutas, os estancieiros voltaram seus olhares para as áreas de mato. Tem-se um avanço do processo de desapropriação e privatização dos ervais, acarretando no acirramento do conflito com os coletores de erva-mate ali instalados96. A privatização de áreas públicas ocorreu, principalmente, a partir da Lei de Terras, de 18 de setembro de 185097, com a transformação das “terras tidas como devolutas em objeto de venda pelo governo”. É, principalmente, a partir da década de 1850, que se iniciaria o processo de expulsão dos

93 Os indígenas da região foram expulsos dessas áreas e obrigados a se refugiar nas densas florestas localizadas às

margens do rio Uruguai. ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto..., op. cit., p.39.

94Segundo Araújo, a partir, sobretudo, de 1810, “os deslocamentos populacionais tornaram-se massivos e

constantes para a região, tanto de estancieiros/militares quanto de uma imensa população pobre que ocupou as zonas de floresta para dedicarem-se à extração de erva-mate e à agricultura nas regiões ainda não ocupadas”. ARAÚJO, T. L. de. Escravidão, fronteira e liberdade: ..., op. cit., p.33.

95 A atividade de coleta da erva mate era feita no inverno deixando o extrativista com disponibilidade de tempo

no verão. ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto..., op. cit., pp. 172- 173.

96ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto gaúcho (1850-1920). Ijuí: Ed. Unijuí, 1997. p. 40. 97Analisaremos a Lei de Terras de forma mais aprofundada nos demais capítulos da tese, por hora cabe informar

que esta lei teve por principal finalidade a tentativa de reordenamento jurídico da propriedade, a partir de então, as terras só poderiam ser adquiridas por meio do título de “compra”. Porém destacamos que esta é uma legislação muito complexa, cuja aplicação efetiva sofreu resistência e contestações tanto dos homens livres e pobres, inclusive em plano judicial, como também dos grandes proprietários que disputavam entre si o apossamento de terras devolutas. Para maior aprofundamento, ver: MOTTA, Márcia Mendes. Nas fronteiras do poder. Conflito e direito

à terra no Brasil do século XIX. 2ª edição. Niterói: EDUFF, 2008. Para o Rio Grande do Sul, ver: CHRISTILLINO,

Cristiano Luís. Litígios ao sul do Império: a Lei de Terras e a consolidação política da Coroa no Rio Grande do Sul (1850-1880). Tese (Doutorado em História). Universidade Federal Fluminense, [2010]. E as obras de ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto gaúcho (1850-1920). Ijuí: Ed. Unijuí, 1997. E, Do arcaico ao

moderno: o Rio Grande do Sul agrário do século XIX. Ijuí: Ed. Unijuí, 2002.

Ver também, GARCIA, Graciela. Terra, Trabalho e Propriedade: A estrutura agrária da Campanha Rio- Grandense nas décadas finais do período Imperial (1870-1890). Tese (Doutorado em História) Niterói: Universidade Federal Fluminense, [2010]. E ainda, LEIPNITZ, Guinter Tlaija. Vida Independente, ainda que

modesta: dependentes, trabalhadores e pequenos produtores na fronteira meridional do Brasil (c.1884 – c. 1920).

extrativistas-agricultores das terras devolutas e dos ervais, após essa data, o acesso a essas terras se faria apenas por meio da compra98. Cabe informar ao leitor e à leitora que esse processo de ocupação de terras, como veremos em capítulo posterior, foi marcado, especialmente, pela exclusão de uma parcela considerável da população sem recursos econômicos.

* * *

A região do planalto, durante parte do século XIX, sofria grande isolamento. As estradas eram precárias, o que dificultava a passagem de carretas para o transporte da erva-mate99. Neste

quadro de falta de infraestrutura, o gado era o menos atingido, uma vez que era transportado em tropas. As estradas precárias congregadas às condições climáticas do Sul impossibilitaram a constituição de uma agricultura comercial baseada em produtos tropicais, cujo destino final seria os mercados europeus do século XIX100.

Neste ínterim, a condição fronteiriça com os países da bacia do Prata foi fundamental para o estado, mas também motivo de preocupação para os governos central e da província. A disputa e a guerra por partes do território do Rio Grande do Sul aparentavam estar sempre eminentes. Ao longo do século XIX, as autoridades criaram alguns projetos para tentar pôr fim a essa situação. O primeiro deles foi, em 1824, a tentativa de criar núcleos de povoamento ao longo da fronteira, e esses núcleos seriam constituídos por imigrantes alemães. O projeto fracassou, devido, dentre outros motivos, ao isolamento da região em relação ao mercado agrícola.

Houve ainda a tentativa de construção de uma estrada ao longo de toda a margem esquerda do rio Uruguai, pretensão inviabilizada devido ao alto custo da obra e à pouca expectativa em termos de resultados econômicos. Em 1859, elaborou-se outro projeto, a instalação de uma colônia militar com contingentes de soldados na região de fronteira. Instalada

98Com esse processo de fechamento do acesso à terra aos lavradores pobres criava-se uma massa de indivíduos

despossuídos de terra “em meio à abundância de solos virgens”. ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do

planalto gaúcho (1850-1920). Ijuí: Ed. Unijuí, 1997. pp. 59-83.

99De acordo com o cronista Hemetério José Velloso, os estancieiros e as elites locais viram na emancipação desta

área a solução para a questão do isolamento da região e, em 1858, essa possibilidade começou a ser tema de discussão. Em 1877 estas elites, com apoio da imprensa local, organizaram uma tentativa de emancipação da área. As reuniões em que se discutiam os caminhos para a criação da nova província eram feitas na única praça da cidade. De acordo com o cronista, apesar de ser bem aceita pelas elites, essa ruptura não deveria ser feita de chofre. Era preciso deixar de lado os interesses individuais para focar no desenvolvimento da sociedade e preparar principalmente o monarca. Este deveria ser convencido de que, para sua própria causa, há muito já enfraquecida, a divisão da província resultaria em uma mais fortalecida. Ainda que não tenha obtido êxito em suas pretensões separatistas, os motivos alegados para essa tentativa de emancipação revelam, além de aspectos da mobilização das elites locais, a precariedade da região, principalmente em termos de transporte. SILVEIRA, Hemetério José Velloso da. As Missões Orientais e seus antigos domínios. Porto Alegre: Typhographia da livraria Universal de Carlos Echenique Editor proprietário, 1909. pp. 360-362.

em 1879, a colônia militar do Alto Uruguai sofria inúmeras dificuldades para se manter em função deste isolamento101.

O panorama de relativo isolamento seria alterado nos anos finais do século XIX com a construção da ferrovia ligando São Paulo a Rio Grande, facilitando o escoamento e comercialização dos produtos. Concomitante a isso, tem-se a transformação das áreas de floresta do planalto em zonas agrícolas. A ocupação desse território ocorreu por três frentes: pela chegada à região de colonos excedentes oriundos das colônias velhas, localizadas nas imediações de Porto Alegre; pelo afluxo de novos imigrantes europeus e pelos antigos agricultores que já estavam instalados naquela região. Esse processo de imigração para a região ocasionou o comércio e a valorização das terras. O comércio desenvolvia-se por meio das companhias colonizadoras que compravam grandes áreas para venda de pequenos lotes102. Os imigrantes desenvolviam a policultura com destaque para o milho, mandioca, batata-inglesa, cana-de-açúcar e a banha de porco. Esses produtos eram produzidos nestas propriedades em escala suficiente para abastecer o mercado regional e nacional103. A melhoria dos transportes, aliada à expansão demográfica, deu um grande impulso na expansão agrícola local, entre 1890 e 1920104. E é nesta região que se encontra o município de Cruz Alta.

2.2 A OCUPAÇÃO DE CRUZ ALTA

O município de Cruz Alta está localizado na porção norte e noroeste do Rio Grande do Sul e, no ano de 1872, seu território, pelo norte, fazia fronteira com a Argentina e Santa

101No relatório de 27 de janeiro de 1888, no qual o 3º vice-presidente da província Joaquim Jachinto de Mendonça

entrega a administração da província do Rio Grande do Sul para o, então nomeado, presidente Rodrigo de Azambuja Villanova, a colônia do Alto Uruguai foi um dos inúmeros temas abordados. Assim, sabemos que a sua administração era feita, já havia algum tempo, pelo major honorário do exército José Maria da Fontoura Palmeira. A instalação sanitária da colônia era regular e a população ali residente sofria com a falta de um médico, mesmo com tantos problemas estruturais, as demarcações de lotes continuaram. Relatório de 27 de janeiro de 1888. BRAZILIAN GOVERNMENT DOCUMENT DIGITIZATION PROJECT. Disponível em:

[http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/883/000051.html]. Acesso em 05/03/2013

102 FRITZ, L. F. F. & MIGUEL, L. de A. 2010, A importância do Estado na evolução da agricultura no Planalto Médio do Rio Grande do Sul. Disponível em:

[http://64.233.163.132/search?q=cache:RY62I2xUQTkJ:www.pucrs.br/eventos/eeg/trabalhos/agricultura- sessao1-1.doc.] Acesso em: 11/ 02/2011.

103 Os imigrantes desenvolveram esta estrutura agrária baseada no sistema de policultura até 1950.

104 Parte desta área pertenceu às chamadas colônias novas, sendo ocupada por migrantes oriundos das “colônias

velhas”. Para exemplificar, Ijuí e Erechim, ambos situados na região do Planalto, receberam um intenso fluxo de colonos tanto estrangeiros como das colônias velhas. ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto..., op. cit., pp.79-80.

Catarina, a oeste estava São Borja, a sudoeste estavam Itaquy e São Gabriel, em direção para o sul estava Santa Maria da Boca do Monte, a sudeste estava Cachoeira e a leste Passo Fundo105.

105No ano de 1835, Cruz Alta estava subdividida em 6 distritos: Vila de Cruz Alta; Palmeira; Passo Fundo; Santo

Ângelo; São Martinho e Soledade. Passo Fundo se desmembrou da vila de Cruz Alta por volta de 1857 formando junto com Soledade um novo termo, mas inseridos na comarca de Cruz Alta. Soledade, por sua vez, emancipou- se de Passo Fundo em 1875. Já em 1860, Cruz Alta contava com: a Vila de Cruz Alta; Campo Novo; Santo Ângelo; São Martinho e Vilinha (Palmeira das Missões). Santo Ângelo se emancipou de Cruz Alta em 1874, São Martinho, por sua vez, desmembrou-se em 1876 levando consigo o distrito de Povo Novo que passou a se chamar Vila Rica, em 1891 este emancipou-se de São Martinho, passando a denominar-se Júlio de Castilhos em 1905. Já a Vilinha ou Palmeira das Missões emancipou-se em 1874 levando consigo o Campo Novo.

De província de São Pedro a estado do Rio Grande do Sul- Censos, 1803-1950. Porto Alegre: 1981, pp 35-39. Disponível em: [http://www.fee.tche.br/sitefee/download/publicacoes/digitalizacao/de-provincia-ide-sao-pedro- a-estado-do-rs-vol-1-1981.pdf]. Acesso em 13 de maio de 2012.

IBGE, disponível em: [http://www.ibge.gov.br] . Acesso em 13 de maio de 2012. FORTES, Amyr Borges.

Figura 1: Mapa da divisão municipal do Rio Grande do Sul em 1872, com destaque para Cruz Alta em amarelo

Fonte: De província de São Pedro a estado do Rio Grande do Sul —Censos, 1803-1950. Porto Alegre: 1981. Disponível em: [http://www.fee.tche.br/sitefee/download/publicacoes/digitalizacao/de-provincia-ide-sao-pedro-

a-estado-do-rs-vol-1-1981.pdf]. Acesso em 13 de maio de 2012. Disponível também na Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão [http://www.atlassocioeconomico.rs.gov.br/demografia-1872-a-1980].

Em 1889, ao final do período imperial, o Rio Grande do Sul contava com 51 municípios e Cruz Alta aparecia subdividida em: Cidade de Cruz Alta e Tupanciretã, este se desmembrou de Cruz Alta em 1928106. A partir de 1890 iniciou-se a constituição de várias colônias no município de Cruz Alta que, no decorrer do século XX, transformaram-se em municípios e, consequentemente, desmembraram-se de Cruz Alta. Em 1890, tem-se a fundação da colônia

106 De província de São Pedro a estado do Rio Grande do Sul — Censos, 1803-1950. Porto Alegre: 1981, p. 39.

Disponível em: [http://www.fee.tche.br/sitefee/download/publicacoes/digitalizacao/de-provincia-ide-sao-pedro- a-estado-do-rs-vol-1-1981.pdf]. Acesso em 13 de maio de 2012.

de Ijuí (que se emancipou em 1912). Já 1896, tem-se a fundação da colônia Santa Clara. Em 1898, tem-se a fundação da colônia Visconde de Rio Branco (que com o nome de Pejuçara, emancipou-se em 1966), neste mesmo ano tem-se a fundação da colônia General Osório, em 1954, com a denominação de Ibirubá desmembrou-se do município de Cruz Alta (o distrito de Quinze de Novembro pertencia a Ibirubá e à colônia de Santa Clara, hoje com o nome de Santa Clara do Ingaí, pertence ao município de Quinze de Novembro. E por fim, em 1899 foi criada a colônia de Neu-Württemberg e, em 1954, com a denominação de Panambi, emancipou-se de Cruz Alta107.

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O militarismo esteve no cerne da ocupação de terras e constituição das estâncias pastoris não apenas da região em questão, mas do Rio Grande do Sul como um todo. Desde o século XVII, quando se deu a ocupação do território do sul do Brasil pela coroa portuguesa, que os militares recebiam como recompensa as áreas de campo. Essa doação servia como uma espécie de incentivo, um encorajamento para que esses sujeitos defendessem ou se apoderassem de novas áreas dos castelhanos da bacia do Prata. No século XVIII, estes militares formaram uma poderosa classe de grandes proprietários. E essa classe objetivava expandir seus domínios em direção às áreas ocupadas pelos castelhanos. Grande parte da região estudada foi “conquistada aos castelhanos em 1801” por milicianos rio-grandenses que se apossaram da área das Missões, sede das antigas reduções jesuíticas108.

De acordo com Teófilo O. V. Torronteguy, foram os militares de Rio Pardo que se lançaram na conquista deste território, eles derrotaram a guarda espanhola dando início à ocupação portuguesa nas Missões. E “depois toda a região da depressão central até a fronteira ocidental, rio Uruguai, foi distribuída em sesmarias pelos portugueses”. Os estancieiros

107 Fonte: IBGE, disponível em: [http://www.ibge.gov.br]. Acesso em 13 de maio de 2012.

http://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?acervo=dtb&campo=estado&opeqry=&texto=rio grande do sul&digital=false&fraseexata=. Acesso em 13 de maio de 2016

108. Em Cruz Alta, a maioria dos proprietários de terra era de origem militar. E a participação das elites locais nas

guerras do país, fossem internas ou externas, sempre foi muito expressiva. Para esses indivíduos, envolver-se nesses conflitos trazia alguns benefícios, um deles seria a manutenção do “tradicional prestígio militar” que, por sua vez, possibilitaria a preservação do poder de influenciar decisões nas esferas econômicas e políticas. Esse militarismo dos proprietários seria utilizado no processo de apropriação fundiária de áreas devolutas, em parte, ocupadas por pequenos agricultores. De acordo com Zarth, “esses usurpadores de terra procuram ter um respaldo moral, à medida que se apresentam como defensores da pátria diante dos tradicionais oponentes estrangeiros da bacia do Prata”. Assim, prossegue o autor, “as lutas internas que travam contra a população desprivilegiada passam despercebidas”. ZARTH, Paulo Afonso. História agrária do planalto..., op. cit., pp.51-54-55.

patrulhavam de forma cuidadosa esses novos territórios, empreitada levada a cabo pelos seus peões-soldados109.

Após essa conquista, e até meados de 1820, essa região vivia sob um clima de instabilidade devido às constantes lutas entre caudilhos uruguaios e rio-grandenses. Segundo Zarth, “as regiões próximas ao rio Uruguai, em grande parte de sua extensão tanto de um lado como de outro, eram cobertas de densa floresta” observando que havia no máximo “estradas pelas quais eram conduzidas as tropas de gado para as feiras de Sorocaba em São Paulo”, entretanto, no início do século XIX alguns proprietários começaram a se instalar nos campos de Cruz Alta. Elevada a município e vila em 1834, Cruz Alta transformou-se no centro político e econômico do planalto no decorrer de todo o século XIX. E seu antigo território: 60.000 k2, área que abrangia boa parte do planalto, perfazia cerca de 20% do território do Rio Grande do Sul110.

Apesar da ocupação da região ter se dado no início do século XIX, desde o século XVIII que a freguesia do Divino Espírito Santo de Cruz Alta servia de caminho para os gados muar e vacum destinados às feiras de São Paulo. De acordo com o presidente da província, os tropeiros optavam por essa estrada por ser mais curta a distância até o destino final e para fugir do pagamento do imposto de trânsito da província de Santa Catarina111. As estradas que ligavam

Cruz Alta às demais localidades, sobretudo a Santa Catarina e Paraná, estavam sempre movimentadas. O ir e vir de tropeiros de mulas, gado, principalmente, muares, carreteiros, dentre outros, faziam parte da paisagem cotidiana das estradas dessa localidade. A região era ainda ponto de invernada do gado ao longo do caminho que se percorria à província de São Paulo.

A economia regional era centrada, fundamentalmente, na pecuária extensiva, voltada para o abastecimento interno, na produção de erva mate, e na agricultura de subsistência. Durante todo o século XIX, a pecuária representou a principal atividade econômica do planalto. Nas estâncias da região criava-se gado bovino, cavalar, muar e ovino.

Helen Osório constatou que, no período entre 1765 e 1825, mais da metade das estâncias eram estabelecimentos mistos, e nestas propriedades desenvolviam tanto a pecuária quanto a agricultura com forte presença de mão de obra escravizada. Grande parte dos “lavradores” eram

109TORRONTEGUY, Teófilo O. V. As origens da pobreza no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado