3.2 Aspectos biopsicossociais no proceso do envelhecimento
3.2.2 Aspectos sociais no processo do envelhecimento
“Na África, todo ancião que morre
É uma biblioteca que arde”.
(AMADOU JAMPATÉ BA)
Uma das preocupações constantes das pessoas que trabalham com idosos deve ser a integração dos mesmos na família e no meio social. Um dos fatores que assustam os idosos é sentir que não têm mais o poder das coisas, o poder das
decisões, tendo que passar a obedecer aos filhos, aos netos ou às pessoas com quem convivem, ficando, assim, fora da sociedade, fora das tomada de decisões.
O indivíduo, uma vez liberado de seus compromissos profissionais, sociais e familiares, encontra, nas atitudes de lazer, as condições necessárias para a sua recuperação fisiopsíquica, com possibilidades de vivenciar novas formas de relacionamentos sociais que o levem a se integrar em grupos diferentes daqueles de seu universo cotidiano.35
A velhice, no entanto, não determina o desinteresse pela vida nem apatia que, com muita freqüência, acabam se instalando após alguns anos de improdutividade. Pelo contrário, a ânsia de participação permanece sempre que o processo de isolamento social não tenha atingido, de maneira irreversível, a pessoa que envelhece. Quanto mais a pessoa idosa se sentir participante do contexto da sociedade, menos ela se constituirá em um peso para essa mesma sociedade.
Os idosos que se integrarem ao meio social, receberão sensíveis influências desse meio, também modificando suas atitudes, seu modo de pensar e de agir, passando, assim, a viver o sentido de comunidade.36
Dentre os fatores do envelhecimento social, convém destacar o meio ambiente no qual vive a pessoa idosa e as degenerescências físicas que, de maneira inevitável e em caráter irreversível, invadem o organismo dos mais vividos.
A sociedade, nesse momento, ao invés de incutir que a produtividade é a prioridade da vida humana, deveria dar oportunidade de desenvolvimento pessoal ao idoso, como forma de recompensa pelo tempo de prestação de serviços à comunidade social. A valorização da cultura e o desenvolvimento dos potenciais individuais do idoso aumentam a auto-estima e estimulam a continuidade da aprendizagem. Isto traz conseqüente renovação e aquisição de conhecimentos, o que possivelmente facilita a integração do indivíduo de terceira idade no meio social.37
A alteração demográfica vem causando modificações nas relações familiares, sobretudo no que se refere à convivência entre diferentes gerações, trazendo a possibilidade de a criança de hoje conhecer e conviver com 3 ou 4 figuras adultas, além dos pais: os avós e, muitas vezes, os bisavós.38
O contato do idoso com outras pessoas, especialmente com os jovens e com os próprios netos, permite que os jovens percebam no idoso/avô um apreço pela vida, um orgulho de ele poder estar ativo, disposto, participando da sociedade.
Essa percepção da vida poderá influenciar positivamente a idade adulta do próprio ser que convive com o indivíduo idoso.
O bem-estar geral dos idosos depende das oportunidades, das atividades, do tempo de lazer e labor produtivo: oportunidades para fazer, realizar, sentir o sucesso e dar uma contribuição real à sociedade como um todo.3
Muitos preconceitos existentes são gerados pelos próprios idosos que, ao entrarem no processo de envelhecimento, percebem as perdas ocasionadas pela própria idade e se acomodam.39 É possível compensar a relativa rapidez com a experiência já acumulada.40
Podemos medir melhor a qualidade e a capacidade de uma sociedade pelo respeito e cuidado dispensados a seus cidadãos mais idosos. Interessa saber até que ponto a nossa sociedade tem possibilidade de oferecer aspectos de reconhecimento do valor da totalidade da vida humana e de criar uma sociedade mais moral e justa que possua como meta final a existência do homem como um valor primeiro e único.3
O prazer de estar com outras pessoas, de estar em ambientes agradáveis, conversar, falar as suas coisas, tocar, brincar e sentir esse calor humano são aspectos da interação social e constituem um fator relevante no envolvimento com outras pessoas. Esse prazer, muitas vezes, está ficando restrito à própria família, devido à sobrevivência e a conquistas profissionais pelas quais um dia o idoso também já passou.
Quando as pessoas conseguem expressar sua utilidade por meio de qualquer atividade, efetivamente se realizam na vida. Neste campo, quando nossa sociedade segrega velhos, está cometendo um assassinato frio e calculado, pois está tirando a inspiração essencial da vida das pessoas que é a sua criatividade.41
O tratamento diferenciado ao idoso depende da cultura da sua sociedade. Em algumas culturas sociais, o idoso é cultuado e idolatrado, respeitado acima de tudo, considerado uma espécie de guru pelos mais novos; em outras, é rejeitado, excluído do meio em que vive, pois é considerado um peso para seus familiares, além de ser isolado e esquecido.
Nas sociedades primitivas, o ancião era aureolado pelo privilégio sobrenatural que lhe concedia a longevidade e, como resultado, ocupava um lugar primordial. A longevidade se vinculava à sabedoria e à experiência. Para essas sociedades profundamente religiosas, a velhice se associava ao sagrado.17
Na cultura hebraica, ser idoso também estava ligado à sabedoria, ao poder, à obediência. No livro dos números da Bíblia, é relatada a criação do Conselho de Anciãos como uma iniciativa de Deus (Número, 11,17), e, na época de Josué, os anciãos faziam parte de um conselho de sábios (Josué, 23,2).
Já os esquimós, população que vive sobre o gelo, cuja sobrevivência depende da pesca, possuem certa dificuldade em manter o indivíduo não-produtivo. Ao atingir a idade estipulada pelo grupo, a pessoa considerada velha é encostada numa parede de neve ou internada em um iglu (pequena casa feita de gelo). Antes, porém, é feito um ritual que a exclui das suas obrigações e a entrega à morte.
Na sociedade atual, ainda muito é valorizado o indivíduo novo produtivo, aquele que possui um corpo mais resistente, com maior força muscular e agilidade, disposto a abrir novos caminhos em busca de novas oportunidades e sucessos. Contudo, o fato de o idoso ser mais vagaroso não quer dizer que não seja competente, capaz de realizar as funções a ele determinadas.