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CAPÍTULO 3 – GOVERNO ELETRÔNICO

3.1. Aspectos Teóricos sobre Governo Eletrônico

Optou-se pelo uso da denominação governo eletrônico, ou ainda, e-gov, nesse trabalho por serem esses os termos mais utilizados na revisão bibliográfica realizada (MEDEIROS, 2004; AKUTSU, 2002; ALMEIDA, 2002a e b). Outros termos utilizados são e-government, governo virtual, e-governo, ou ainda governo digital.

Governo eletrônico pode ser definido como sendo o “uso das novas tecnologias de informação e comunicação [TIC] aplicadas a um amplo arco das funções de governo e, em especial, deste para com a sociedade” (RUEDIGER, 2002; OCDE, 2002) e “objetiva o aumento da eficiência na Administração Pública para a melhoria das condições de vida dos cidadãos. Nesta visão, a administração pública deve desempenhar suas funções, enquanto organização, de forma integrada, eficiente e transparente, contando com as novas tecnologias” (VILHENA,

2002). Adicionalmente, Zweers e Planqué (apud JÓIA e CAVALCANTE NETO, 2004) definem governo eletrônico como:

“um conceito emergente que objetiva fornecer ou tornar disponível informações, serviços ou produtos através de meio eletrônico, a partir ou através de órgãos públicos, a qualquer momento, local e cidadão, de modo a agregar valor a todos os ‘stakeholders’ envolvidos com a esfera pública”.

Pode-se utilizar ainda a definição do Banco Mundial (2005b):

“O governo eletrônico refere-se ao uso, por agências governamentais, de tecnologias de informação (como redes de longa distância, Internet e computação móvel) capazes de transformar as relações com cidadãos, empresas e outras unidades do governo. Essas tecnologias podem servir a diferentes fins: melhorar prestação de serviços aos cidadãos, interações mais eficazes com empresas e a indústria, empowerment do cidadão por meio do acesso a informações ou mais eficiência na administração governamental. Os benefícios resultantes podem ser a diminuição da corrupção, o aumento na transparência, maior conveniência para os cidadãos e redução de custos”.

Quanto aos fatores que fomentaram o seu aparecimento, o governo eletrônico pode ser visto como reflexo das alterações ocorridas no mundo empresarial com o advento da Sociedade da Informação. Chahin (2004) faz um paralelo entre governo eletrônico e as práticas empresariais. A customização ao atendimento a clientes (B2C – utilização da Internet para atendimento ao cliente), as relações com fornecedores e cadeia de suprimentos (B2B, implementação de extranets) e a gestão interna (utilização crescente de intranets) do mundo empresarial têm como correspondentes nas funções governamentais o G2C (relacionamento com o cidadão), o G2B (relacionamento com fornecedores) e o G2G (relacionamentos entre agências governamentais).

Outros aspectos que também influenciaram o surgimento do governo eletrônico foram a necessidade de incremento de arrecadação e otimização de processos internos com o objetivo de reduzir custos operacionais, além das

pressões da sociedade civil por maior transparência, qualidade e atuação de “modo universal” na oferta de serviços e no provimento de informações para cidadãos e organizações em geral (idem, p. 29).

Além disso, podem-se observar alterações de grande vulto nas relações entre a sociedade e o Estado nas democracias ocidentais nas últimas décadas (BENVINDA e ARAÚJO FILHO, 2001). Essas profundas alterações estruturais são fruto das mudanças ocorridas com o crescente grau de complexidade tecnológica e cultural da sociedade atual e do aprofundamento dos conceitos de cidadania, participação social e democracia. Percebe-se uma crescente demanda da sociedade por participação, inclusão nos processos decisórios e acesso às arenas estatais. Como resultado, ocorreu o desencadeamento de reformas administrativas pelos governos:

“a chamada ‘Nova Administração Pública’ – nome pelo qual é identificada uma série de doutrinas administrativas que vêm permeando, desde o início da década de 80, as discussões em torno dessas reformas em diversos países – tem sido relacionada a iniciativas que enfatizam a administração e a prestação dos serviços públicos, particularmente o acesso e a utilização, o que pode ser viabilizado com o uso de TIC e que, potencialmente, incrementaria a governança” (idem).

Os movimento de reforma do Estado e a Nova Administração Pública serão abordados com maior profundidade na próxima seção deste capítulo.

O governo eletrônico engloba duas áreas do conhecimento: políticas públicas e tecnologia da informação. É fato que a tecnologia da informação tem evoluído nos últimos anos de maneira muito mais prodigiosa que o surgimento de inovações na gestão pública e nas diretrizes das políticas públicas. Entretanto, a interação entre essas áreas é constante e o desafio reside em se viabilizar mudanças capazes de

gerar real valor para a sociedade, considerando ainda os limites técnicos e organizacionais.

Para a OCDE (2001, apud MEDEIROS, 2004), os principais motivadores para o governo investir no governo eletrônico são: (1) “estar presente”, ou seja, assegurar sua visibilidade na sociedade; (2) mostrar exemplo aos demais atores da Sociedade da Informação; (3) prestar informações de maneira mais eficaz; (4) oferecer serviços de forma virtual; (5) permitir a consulta aos cidadãos e (6) facilitar a participação na formulação das políticas públicas.

As Nações Unidas (2003) defendem que o uso das TIC permite que o governo ganhe velocidade, precisão, simplicidade, alcance e capacidade de trabalho em rede, que podem ser convertidos em redução de custos e efetividade. Outro resultado direto é a maior disponibilidade do governo (todos os dias, 24 horas por dia) para o cidadão, transparência, prestação de contas, construção do conhecimento e gestão da informação. Adicionalmente, pode capacitar o povo a participar de um processo político inclusivo, a base da legitimidade de governos.

O Quadro 2 mostra os principais aspectos do e-gov discutidos no 3º Fórum Global.

Quadro 2: Pontos-Chave do Governo Eletrônico Fonte: Nações Unidas (2002)

No trabalho “Benchmarking E-Government” (Nações Unidas, 2002), é reforçado o poder do governo eletrônico de incremento da governança. Para as Nações Unidas, os princípios do e-gov são: (1) construir serviços a partir da escolha dos cidadãos, (2) tornar o governo e seus serviços mais acessíveis, (3) facilitar a inclusão social, (4) prover informação de maneira responsável e (5) usar os recursos governamentais efetiva e eficientemente.

Nas próximas seções discutiremos alguns temas cuja compreensão se faz necessária para melhor entendimento das motivações e implicações do governo eletrônico no cenário brasileiro.

Pontos-Chave do Governo Eletrônico (3º Fórum Global):

ƒ E-Government pode melhorar consistentemente a qualidade de vida para os cidadãos e pode criar uma redução drástica de custos e tempo;

ƒ E-Government eventualmente transformará os processos e estruturas do governo para criar uma estrutura menos hierarquizada, “empodeirando” os servidores a prestar melhores serviços ao cidadão e a ser mais responsivos a suas necessidades;

ƒ E-Government deve ser seriamente considerado em países em desenvolvimento não somente pelo potencial para fortalecer sua capacidade institucional, melhorar a oferta de serviços para cidadãos e empresas (através de incentivos ao desenvolvimento econômico e social local) e reduzir a corrupção através do aumento da transparência e controle social, mas também por ser exemplo para a sociedade civil e a comunidade empresarial.

3.2. A Reforma do Estado, a Democracia Delegativa e o Patrimonialismo no