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ESQUEMA 1 – Propriedades dos verbos aspectuais

2.4 ASPECTUAIS INTERRUPTIVOS

O aspecto interruptivo, lexicalizado pelos verbos parar, deixar e interromper, marca a interrupção do processo, a noção de acabamento perfeito e total da ação (CASTILHO, 1968, p. 90). Destes, somente parar e deixar admitem InfP e DP na posição de complemento. Nesta seção, passamos a verificar como os aspectuais interruptivos parar e deixar se combinam com as classes vendlerinas. As sentenças em (40) ilustram a combinação desses verbos com predicados InfP correspondentes a accomplishment e a achievement, respectivamente:

53 (40) a. O rapaz parou/deixou41 de beber a taça de vinho.

b. *O carro parou/deixou de atropelar o ciclista.

c. *O alpinista parou/deixou de alcançar o topo da montanha.

A sentença (40a) revela que os aspectuais interruptivos formam sequência com predicados de accomplishment, que apresentam os traços [+durativo] e [+télico]. Já a sentença (40b) revela que esses verbos oferecem restrições a predicados de achievement, marcados com os traços [-durativo] e [+télico]. Considerando que o traço que diferencia esses predicados é o [durativo], é possível inferir que os aspectuais interruptivos selecionam eventos [+durativos], que têm o momento (estágio) em que foi interrompido identificável. Por descreverem eventos instantâneos, de um único ponto, os achievements impossibilitam que o ponto exato de início, interrupção ou fim de um evento seja identificado, não formando, desse modo, sequência com parar e deixar. O predicado na posição de complemento em (40c) também não se combina com os aspectuais que se reportam ao momento exato em que o evento alcançar o topo da montanha é interrompido. Como vimos nas duas seções anteriores, predicados como os de (40c) são [- durativos] mas apresentam uma fase preparatória, pré-inicial, permitindo que sejam marcados apenas o ponto de início, (22), e a continuação, (36a) e (36a') dessa fase. O acréscimo de um sintagma de conotação temporal, no entanto, atribui uma interpretação de repetição para o predicado de achievement, conforme se verifica em (41):

(41) Joana parou/deixou de comparecer à reunião mensal.

O termo mensal é responsável pela leitura repetitiva que temos em (41). O predicado comporta-se como atividade, sugerindo que, dentro do evento maior de comparecer à reunião, tem-se vários subeventos, em que o mesmo evento se repete mensalmente. Os interruptivos em (41) indicam que Joana parou de comparecer às reuniões que acontecem todo mês. Seguindo esse mesmo raciocínio, quando parar e deixar aparecem acompanhados de accomplishments, como limpar a casa, parecem estar interrompendo uma série de realizações do mesmo evento, ou seja, os subeventos de uma eventualidade maior:

(42) a. Marta parou/deixou de limpar a casa. b. Marta parou/deixou de passar a roupa.

c. Marta parou/deixou de arrumar a cama. (HAMMES, 2013, handout)

41 A sentença (40a) com o verbo deixar também é possível com o sentido de negação, indicando a não-realização

do evento. Nesta sentença, como nas sentenças (41), (42), (44b) e (44c) a seguir, não está sendo considerada essa conotação.

54 Os predicados limpar a casa (42a), passar a roupa (42b) e arrumar a cama (42c) configuram-se hábitos, e os interruptivos marcam a interrupção desses hábitos. É interessante observar a combinação desses aspectuais com a classe acional que envolve a aproximação gradual a uma meta, classificada por Bertinetto (1986) como incremental e por Basso e Ilari (2004b) como degree achievements:

(43) a. Gabriela parou/deixou de engordar. b. O nível da água parou/deixou de subir.

A referida classe, exemplificada em (43), acrescentada pelos autores com o objetivo de ampliar a classificação vendleriana, trata a telicidade de maneira gradual, o que destaca o traço [+durativo] da classe. A sentença (43a) significa que, a cada dia, Gabriela estava engordando um pouquinho a mais, até o momento em que decidiu fazer uma dieta, por exemplo, e parar de engordar. O nível da água, em (43b), continuava a subir cada vez mais, até ser interrompido antes de atingir o limite. Tais predicados, da mesma forma que os accomplishments, permitem a captura do momento ao qual o aspectual se reporta. O exemplo (44) mostra a combinação dos aspectuais interruptivos com predicados marcados por repetição do evento:

(44) a. O carpinteiro parou/deixou de martelar. b. Juliana parou/deixou de sentar à beira mar. c. Maria parou/deixou de resolver os problemas. d. Maria parou/deixou de resolver problemas.

Parar e deixar marcam a interrupção de um hábito ou de repetições do mesmo evento, como nas sentenças em (44). O semelfactivo, (44a), de acordo com a classificação de Smith (1997), por ter a peculiaridade de ocorrer em repetições, pode ter a sequência interrompida por parar e deixar. Os aspectuais em questão também interrompem uma atividade habitual, como a de sentar à beira mar, (44b), e ocorrem em construções em que o predicado é composto de DPs plurais, como em (44c) e (44d). Com o definido plural, em (44c), o predicado resolver os problemas caracteriza-se como accomplishment, trazendo os traços [+durativo] e [+télico]: a multiplicação do referente (o problema) gera a repetição do evento em um intervalo de tempo, até o limite (bound) da quantidade de problemas de acordo com o contexto. E com o nominal nu, (44d), o predicado resolver problemas caracteriza-se como atividade, conforme argumentado no exemplo (28) da seção 2.2.

55 O exemplo (45) ilustra a combinação dos aspectuais interruptivos parar e deixar com predicados de atividade e predicados de estado marcados com o traço [+mudança], ou seja, com os não-tipicamente estativos:

(45) a. A fábrica parou/deixou de produzir/funcionar. b. Fábio parou/deixou de confiar em Luíza. c. Francisco parou/deixou de ser incrédulo.

A boa formação das sentenças em (45) revela que parar e deixar se combinam com predicados de atividade, (45a), e com predicados não-tipicamente estativos, (45b) e (45c). Ambos os predicados exibem os traços [+durativo] e [+mudança], permitindo que o aspectual marque o momento de interrupção do evento. Os predicados de estado que apresentam o traço [+mudança], de acordo com Cunha (2005), adquirem características eventivas. A sentença (46), a seguir, demonstra como os aspectuais interruptivos reagem a um predicado tipicamente estativo, que possui o traço [-mudança]:

(46) *Siena parou/deixou de localizar-se na Itália.

A má-formação da sentença (46) resulta de um impedimento para que ocorra mudança, pois localizar-se na Itália não é um processo que possa ser interrompido. O predicado caracteriza-se como individual-level, contendo propriedades estáveis; e os aspectuais parar e deixar expressam interrupção de evento quando figuram com complemento InfP. Além dessa noção, deixar parece poder ser empregado também como uma espécie de operador de negação nesse contexto sintático, como se verifica nas sentenças do exemplo a seguir:

(47) a. Pedro deixou de lavar a louça.

b. Pedro deixou de bater o carro/ligar o rádio/atender ao telefone.

A sentença (47a), em que deixar se combina com um accomplishment, é ambígua entre a expressão de interrupção do evento lavar a louça e sua não-realização. Em (47b), deixar pode indicar tanto a interrupção de uma série de eventos recorrentes quanto a não realização desses eventos. Neste último caso, não constitui predicado aspectual. Há casos, entretanto, em que deixar não denota aspecto interruptivo; ao se combinar com predicados de achievement, deixar pode ser empregado também como uma espécie de operador de negação, conforme (48):

56 (48) O menino deixou de estourar o balão.

Deixar não aciona leitura ambígua em (48). A única interpretação disponível para a sentença é a de não-realização do evento, significando que o evento estourar o balão não se realizou. Deixar parece comportar-se diferentemente do verbo parar também em contextos em que forma sequência com alguns predicados não-tipicamente estativos, como ser gord(a)/magro(a), como mostra o contraste de gramaticalidade entre as sentenças em (49):

(49) a. *Rita parou de ser gorda depois da dieta. b. Rita deixou de ser gorda depois da dieta.

A má-formação de (49a) está possivelmente relacionada aos traços do predicado que ocupa a posição de complemento. Predicados não-tipicamente estativos como ser gordo (a), ser magro (a), ser criança, ser médico (a), ser casado (a) são marcados com o traço [+mudança]; contudo, não exibem o traço [+fases]. Cunha (2005) classifica esses predicados como stage-level não-faseáveis42. O autor define fase como “um conceito predominantemente

aspectual, que designa um período de tempo relevante com relação à mudança do perfil de eventualidade em que está envolvido. Uma situação completamente uniforme não tem fases ao longo da sua estrutura temporal interna43.” (CUNHA, 2005, não paginado, tradução nossa). Predicados como ser gordo(a) não podem ser interrompidos ao longo de seu curso, não sofrem modificações, configurando um estado contínuo e uniforme, sem subfases ou subeventos que possam ser destacados do estado como um todo. Consideramos que essas propriedades explicam a restrição imposta pelo aspectual interruptivo parar a tais predicados, evidenciada na má-formação de (49a).

A boa formação da sentença com o interruptivo deixar, (49b), não impõe a mesma restrição à posição de seu complemento, combinando-se com predicados [+mudança] não- faseáveis, como ser gordo(a). Isso é possível porque esses predicados descrevem propriedades transitórias, mesmo que estas não apresentem subfases. Smith (1999) descreve os estados como situações que podem durar por um momento ou por um intervalo de tempo. “O ponto inicial e final do estado não são parte do estado: eles são situações distintas, constituindo mudanças de

42 Cunha (2005) subdivide os estativos em individual-level não-faseável, individual-level faseável, stage-level não-

faseável e stage-level faseável.

43 “[…] a predominantly aspectual concept, which designates a relevant period of time with respect to the change

of the eventuality profile it is involved in. A completely uniform situation has no phases along its internal temporal structure.”

57 estado44.” (SMITH, 1999, p. 32, tradução nossa). A autora explica que os estativos requerem um agente externo para que ocorra mudança. Em (49b), o DP Rita, sujeito da sentença, não é o elemento desencadeador dessa mudança, e sim o DP a dieta, que está em posição de adjunto. Um predicado [-fases], por descrever uma situação uniforme, não permite referência ao momento de início, interrupção ou fim do evento. Por isso, não se combina com o interruptivo parar, que remete ao ponto exato em que o evento foi interrompido. Entretanto, esses predicados admitem uma mudança de estado, conforme descrito por deixar em (49b). A interpretação de (49b) é de que houve a interrupção do estado [ser gorda], marcando a mudança para outro estado [não ser (mais) gorda].

Deixar e parar diferem ainda em relação às restrições impostas a predicados tipicamente estativos como ser brasileiro e existir, conforme se depreende da diferença de gramaticalidade entre as sentenças em (50):

(50) a. *Pedro parou de ser brasileiro (com a naturalização/com a anulação da naturalização). b. Pedro deixou de ser brasileiro (com a naturalização/com a anulação da naturalização). (BERTUCCI, 2011, p. 96)

c. *Os dinossauros pararam de existir há cerca de 65 milhões de anos.

d. Os dinossauros deixaram de existir há cerca de 65 milhões de anos. (<brainly.com.br>)

O predicado tipicamente estativo, que não adquire características eventivas e é classificado como [-fases], não se combina com o aspectual que se refere ao momento de interrupção do evento: parar, como se verifica na agramaticalidade de (50a) e (50c). Em (50b), o aspectual deixar descreve uma situação de mudança de estado: ser brasileiro > não ser (mais) brasileiro. Em (50d), deixar também assume uma interpretação de mudança de um estado, indicando uma nova situação dos dinossauros. Essa interrupção do estado é localizada no tempo pela expressão há cerca de 65 milhões de anos. Embora descrevam propriedades estáveis de uma entidade e/ou indivíduo, predicados como os ilustrados em (50) são passíveis de mudança com uma motivação. Por exemplo, em (50b), deixar descreve a interrupção de uma situação estável, como ser brasileiro. Essa mudança é motivada, neste exemplo, por leis de desnaturalização.

Conforme vimos, os aspectuais interruptivos formam sequência com predicados de atividade, de accomplishment e com predicados não-tipicamente estativos. Os predicados

44 “The initial and final endpoints of a state are not part of the state: they are distinct situations, constituting

58 compatíveis com os aspectuais interruptivos têm em comum os traços [+durativo] e [+mudança]. Ambos os traços qualificam predicados que se configuram hábitos, repetições do mesmo evento e aproximação gradual a uma meta para a posição de complemento do aspectual interruptivo. O destaque vai para o traço [+durativo], que permite marcar o momento de interrupção do evento, o que faz com que eventos [-durativos], como os achievements, sejam rejeitados na posição de complemento desses aspectuais. Os interruptivos oferecem restrições ainda aos predicados tipicamente estativos, por estes não exibirem o traço [+mudança], que garante a dinamicidade do evento, permitindo sua interrupção. Os aspectuais interruptivos selecionam complementos que sejam, portanto, durativos e dinâmicos.

Destacamos, ainda, que deixar pode expressar tanto interrupção de um evento quanto a sua não-realização. Isso ocorre quando esse verbo forma sequência com predicados de accomplishment, como ilustrado em (47a). Quando figura com certos predicados de achievement, deixar pode expressar interrupção de eventos recorrentes (hábitos), ou, ainda, indicar a não- realização destes, conforme (47b). Em contextos com achievements como estourar o balão, deixar aciona apenas a leitura de não-realização do evento. Por fim, esse verbo indica interrupção de evento também quando forma sequência com predicados não-tipicamente estativos [-fases] e com tipicamente estativos em contextos em que é expressa uma motivação capaz de desencadear uma mudança nesses predicados, conforme ilustrado em (50b).

Mesmo com as diferenças no comportamento do verbo deixar em relação a parar, acreditamos que os traços típico de eventos, [+durativo] e [+dinâmico], o qual implica necessariamente mudança (COMRIE, 1976), são fundamentais para que um predicado possa ocupar a posição de complemento de um aspectual interruptivo. Partimos para a última das quatro seções que expõem os testes dos aspectuais em estudo com perífrases verbais.

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