DA TRAÇA DE TERZI AO PLANO AGUIAR: QUATRO SÉCULOS DE ESTRATÉGIA URBANA
1. Aspetos sucintos da vila medieval e sua origem
Os conhecimentos atuais sobre o território de Setúbal permitem afirmar que este terá tido o seu primeiro povoado estável na transição do Bronze Final para a Idade do Ferro, mais precisamente na zona da colina de Santa Maria (TAVARES DA SILVA et al., 2010). É também neste local, numa delimitação de pouco mais
de 5 hectares, que se terá localizado, mais tarde, a zona administrativa, comercial e residencial de
Caetóbriga, cidade romana cuja implantação só muito recentemente, na década de 50 do século XX, se veio a confirmar ser em Setúbal.
O território de Caetóbriga seria muito distinto da Setúbal de hoje, sendo que grande parte da atual zona baixa se encontraria então ocupada por um amplo esteiro, correspondente ao grande delta da Ribeira do Livramento, hoje totalmente encanada. Na base da referida colina de Santa Maria concentrava-se a atividade industrial de Caetóbriga: a salga de peixe e a produção de preparados piscícolas, e ainda a olaria de ânforas. Este complexo urbano-industrial terá funcionado em simultâneo e provavelmente em complementaridade com o núcleo hoje conhecido de Tróia, estimando-se que este conjunto tenha atingido uma considerável capacidade produtiva sobretudo a partir do século II.
A concentração das estruturas residenciais e comerciais na colina de Santa Maria é hoje dada como segura em virtude de algumas escavações já realizadas, e pese embora a pouca informação ainda disponível, podemos ter já a noção de que o traçado urbano não possuía correspondência com a malha medieval que sobreveio até aos nossos tempos. Uma explicação lógica assenta no facto de se saber que a linha de costa teria uma inclinação ligeiramente diferente, condicionando, por sua vez, a orientação dos arruamentos que já então, como hoje, procuravam a ortogonalidade em relação ao rio.
A ocupação árabe está igualmente confirmada nesta região, mas as fontes que a atestam são, ainda hoje, insuficientes para qualquer dissertação sobre este período. Muito provavelmente, considerando que o protagonismo dessa época é ocupado por Alcácer do Sal, Palmela ou Sesimbra, Setúbal seria então um aglomerado com pouca importância do ponto de vista político, administrativo e militar, ainda que economicamente interessante (COSTA, 2011). Após a reconquista, só no século XIII, Setúbal vê reconhecida a sua autonomia administrativa expressa no foral concedido pela Ordem de Santiago (donatária desta região), a par com uma crescente prosperidade económica e social.
Contagiado por uma política, que abrangia toda a Europa, de delimitação dos núcleos urbanos para um maior controlo, por parte da Coroa, dos seus direitos jurisdicionais e fiscais, a par da óbvia necessidade de defesa, D. Afonso IV manda construir uma muralha em Setúbal, a qual só se vê concluída já no reinado de D. Pedro I. A obra terá sido financiada, em parte, pela própria população através de um imposto concebido especialmente para o efeito, situação que se vem a repetir várias vezes ao longo da história deste território, no que à construção de obras públicas concerne.
Construída em brecha da Arrábida (a famosa rocha avermelhada característica desta região), esta primeira linha de muralha, com um perímetro de cerca de 12 hectares, delimitava uma área de configuração aproximadamente retangular, com o maior eixo na direção E-W, paralelo à margem do rio Sado, e com o dobro do comprimento do eixo transversal, N-S, situação que evidencia a estreita dependência da povoação relativamente ao estuário. A delimitação da muralha medieval encontra-se praticamente toda justificada pelos próprios acidentes naturais do território: a norte e a poente pela Ribeira do Livramento, a sul pela praia e o rio, e a nascente pela acentuada ravina que a separava da planura de Palhais.
De acordo com as descrições paroquiais de 1758, a muralha teria:
...quatorze até quinze palmos de grosso com vinte torreões em desigual distância, huns de forma quadrada, outros de quadratos oblongos e dous em figura hexagona: hum chamado da Homenagem no Portão da Ribeira, e outro na esquina do convento antigo dos Carmelitas descalsos. Este muro tem diferentes portas e postigos, a saber da parte do Norte a porta ou postigo de Santa Catharina; o postigo do Buraco da Agoa; a porta de Évora, onde em hum torreão está o armazém da polvora; o postigo de Santo António. Da parte do Oriente o postigo de São Jorge, e a porta de São Sebastião. Da parte do Sul o postigo da Moura Encantada, o postigo do Caes, o postigo do Carvão, o postigo das Farinhas, o postigo de João Gallo, o postigo da Alfandega, o postigo dos Engeitados, o postigo de Frei Gaspar, o postigo da Pedra, o postigo de São Christovam, o postigo do Portão da Ribeira e o postigo das Lobas. Da parte do Ocidente a Porta Nova. (CLARO, 2011, p. 77-78)
O crescimento do núcleo urbano, demasiado condicionado pela apertada cintura de muralhas acaba por originar a demolição de muitos dos seus troços ao longo do tempo, bem como o alargamento de alguns postigos.
Numa gravura de 1668, de Pier Maria Baldi, é possível observar que parte da frente sul da muralha medieval se encontrava já ocupada por casas que àquela se haviam adossado, sobretudo entre o postigo do Caes e o postigo de João Galo (Fig.1).
Várias novas aberturas foram sendo feitas ao longo da sua história, enquanto outras foram sofrendo alterações. Na segunda metade do século XIX a Câmara Municipal procede à demolição da parte superior dos arcos das principais portas da muralha, com o intuito de melhorar não só a circulação nas respetivas ruas, mas também como forma de assegurar um maior arejamento e iluminação das mesmas.
A evolução deste núcleo, em termos da sua morfologia urbana, não pode ser dissociada do seu sistema socioeconómico, expandindo-se sempre ao longo da frente ribeirinha, e desta para o seu interior, caracterizando-se por uma malha relativamente regular, ortogonal, em que as principais vias se desenvolvem longitudinalmente, no sentido Nascente/Poente. A morfologia da malha medieval, espartilhada pelo apertado perímetro amuralhado do século XIV, respeitava este princípio, caracteristicamente mediterrânico, ainda que com uma estrutura urbana binuclear – em torno de dois templos religiosos -, e alguns quarteirões mais orgânicos, como a mouraria ou a judiaria (Fig.2).
Face à impossibilidade de expansão pelo constrangimento da muralha e aos elevados índices de ocupação, a estrutura fundiária medieval é baseada na tradicional métrica do “chão”, muito aproximada à dimensão dos 30 palmos de frente (cerca de 6 a 7 metros), com uma profundidade variável, mas próxima dos 60 palmos (entre 12 a 14 metros).
O desenvolvimento económico acentuado, baseado nas atividades piscatórias e na exploração e comércio de sal, proporciona uma expansão contínua da vila, que, naturalmente, se desenvolve no exterior das muralhas, mais precisamente para nascente e para poente, sempre com estreita ligação ao rio e suas atividades. Nestas zonas de expansão que, no final do século XVII, são rodeadas pela segunda cintura de muralhas, a estrutura fundiária é geralmente mais generosa, mas igualmente constituída por parcelas de frente reduzida, sobretudo no núcleo existente a poente, correspondente ao bairro piscatório de Troino. 2. Setúbal subjugada: o período filipino
Uma das mais antigas representações da Vila de Setúval data do século XVI e encontra-se incluída numa coletânea, organizada pelo escrivão da fazenda Luís de Figueiredo Falcão, e, conforme consta de uma dedicatória na respetiva portada, oferecida pelo franciscano Frei Luís da Natividade (sobrinho daquele) a D. João IV, aparentemente num esforço de contribuir para a salvaguarda da independência então restaurada1. Parece tratar-se do resultado de uma incumbência atribuída ao florentino Alexandre Massai,
engenheiro ao serviço da coroa, de proceder a uma investigação oficial e produzir os respetivos pareceres, sobre as “...obras e fortalezas E calheta de Sines E do Reino do Algárue...”, no ano de 1617. Estes pareceres constituíam descrições sobre a história e geografia dos locais visitados, o estado das suas fortificações, nomeadamente as obras que entendia que deviam vir a ser feitas para beneficiar a sua eficácia defensiva, as guarnições e artilharia existentes, entre outros assuntos. Foram ainda acrescentadas plantas ou outros desenhos, esclarecedores das apreciações feitas (QUARESMA, 2007, p. 26).
Esta coletânea incorpora ainda desenhos e pareceres da autoria de outros engenheiros, como Filipe Terzi ou Giacomo Fratino – ambos engenheiros militares ao serviço de Filipe II, a quem se atribui a Planta da
Villa e Porto de Setúbal aqui representada.
A legenda que acompanha a planta (Fig.3), aparentemente da autoria do compilador, demonstra-nos que, em termos estratégicos, a mesma persegue claramente o objetivo do estudo das defesas da barra do Sado no sentido de definir a melhor localização para a construção de uma nova fortaleza (PEREIRA, 1988), a qual acabou por ser erigida estrategicamente em posição sobranceira à própria vila. Aliás, a referencia, na
1 Esta coletânea foi adquirida, em 1977, pela Casa Cadaval, sendo conhecida atualmente por Códice Cadaval, n.º29, à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, tendo tomado o título de DESCRIÇÃO E PLANTAS DA COSTA, DOS CASTELOS E FORTALEZAS, DESDE O REINO DO ALGARVE ATÉ CASCAIS, DA ILHA TERCEIRA, DA PRAÇA DE MAZAGÃO, DA ILHA DE SANTA HELENA, DA FORTALEZA DA PONTA DO PALMAR NA ENTRADA DO RIO DE GOA, DA CIDADE DE ARGEL E DE LARACHE. 1607 A 1617. PT/TT/CCDV/29.
legenda, ao forte de são Felippe é fundamental para a própria datação da planta, uma vez que, no momento da sua execução, a estrutura militar não se encontrava ainda erigida, mas apenas planeada.2
Efetivamente, recorde-se que Setúbal havia resistido às tentativas persuasivas do Duque de Alba para uma rendição pacífica, tendo sido necessário forçar a entrada pelas portas da muralha medieval da vila. Ainda que a coroa espanhola pudesse contar com o apoio das elites portuguesas, o mesmo não se passava com as classes populares, sobretudo no que se refere a Setúbal, que havia visto a sua economia local baseada no comércio de sal (sobretudo com a Holanda) diretamente afetada pelo domínio espanhol.
Filipe II reconheceu, assim, a necessidade de reforçar não só o sistema de defesa costeira já existente (para fazer face às ameaças dos seus inimigos europeus) mas, sobretudo, de impor a sua autoridade sobre a própria população. Sob o ponto de vista militar, a localização que acabou por vir a ser escolhida para implantar a fortaleza de S. Filipe – no topo de um monte sobranceiro à vila, não apresentava quaisquer vantagens para a defesa da costa, pela distância que apresentava a esta. Porém, essa implantação permitia à fortaleza dominar a cidade, a qual se encontrava totalmente ao alcance dos seus canhões, constituindo-se como um eficaz meio dissuasor de qualquer tentativa de rebelião da população setubalense. “S. Filipe é claramente hostil para com a população local e nenhuma tentativa é feita para esconder tal facto.” (PORTOCARRERO, 2003, p. 49-50).
Da análise desta planta pode ainda concluir-se que, no final do XVI, há muito que a vila havia extravasado os seus limites amuralhados. A poente, o arrabalde de Troino, com a sua geometria urbana completamente ortogonal, já tinha deixado menos “ermo” o convento franciscano feminino, que havia sido construído a norte da urbe medieval, sob os preceitos da clausura, um século antes. A nascente, pese embora com uma expressão ainda tímida, dada a forma como a morfologia do território afetava a implantação dos edifícios, o arrabalde de Palhais/Fontainhas é já perfeitamente reconhecível.
Reforçando o caráter de estratégia militar que parece sustentar a elaboração desta planta, através da informação que pretende disponibilizar, pode ainda assinalar-se a minúcia com que a muralha afonsina aparece representada, com as respetivas portas e postigos e os seus torreões, os caminhos de acesso à vila e as barreiras defensivas naturais, sejam as topográficas ou as resultantes da presença de linhas de água. O traçado do aqueduto, privilégio concedido à vila por D. João II em 1487, também não é esquecido, sendo claramente representado o seu traçado principal e secundário.