4 ASSEMBLEIAS DE DEUS E POSIÇÃO POLÍTICA: DA “DEMOCRACIA”
4.3 O PERÍODO DA DITADURA MILITAR (1964-1977)
4.3.2 Assembleianismo e Heterogeneidade Política
O papel de lideranças assembleianas em relação ao regime militar não foi homogêneo; por isso pensamos ser precipitado falar de um apoio das Assembleias de Deus à Ditadura. Mais adiante citaremos e analisaremos o exemplo de assembleianos que discordaram do referido regime. Apesar disso, houve proximidade entre pentecostais e membros do poder executivo e principalmente do poder legislativo. Já no ano de 1964 havia movimentação de políticos em cultos da AD no Plano Piloto de Brasília como se pode verificar em razão dessa nota publicada pela editoria do Mensageiro da Paz
Evangélicos e funcionários públicos dos três poderes da República reuniram- se dia 2 de agosto, no templo das Assembleias de Deus no Plano Piloto de Brasília. O orador oficial do culto foi o Deputado Jeremias Fontes, representante, na Câmara do Estado do Rio. Entre os membros de várias denominações havia pastores e numerosos irmãos, destacando-se entre eles, o prof. Cleanto Siqueira, que é secretário de Educação do DF. Representando os
metodistas, na abertura do culto, fizera uma oração o pastor Almir Bahia (MP, n. 18, p. 8, 1964).
O deputado Jeremias Fontes citado na reportagem (a grafia correta é Geremias Fontes) foi pastor da Igreja Batista do Calvário. De 1958 a 1962 foi prefeito de São Gonçalo pelo Partido Democrata Cristão. Tempos depois se filiou ao Partido Trabalhista Brasileiro e candidatou-se ao cargo de deputado federal. Na ocasião foi eleito com amplo apoio dos evangélicos. Em 1966 foi indicado pelo regime militar para governar o estado fluminense, cargo que exerceu de 1967 a 1971.
Em 1972 houve o conhecido conflito na região do Araguaia, Norte do Brasil. Parece haver menção do fato no jornal Mensageiro da Paz. O pastor Eliseu Queiroz de Souza citou pastores que criticavam o governo. Não fica claro se essas lideranças eram pentecostais, mesmo assim é sintomático saber que elas demonstravam certa insatisfação.
No entanto, mesmo a despeito da obra gigantesca que o governo está exercendo na Amazônia, a dinâmica e elogiável integração nacional que se processa, a erradicação das favelas porque o governo está dando o melhor de si, ainda se levantam vozes eclesiásticas insatisfeitas, criticando tudo, e até fazendo declarações desprestigiosas à administração pública (MP, n.15, p. 2, 1972).
Uma liderança assembleiana que influenciou a reflexão pentecostal a respeito de participação na política partidária foi o pastor Joanyr de Oliveira. Mineiro de Aimorés, também tentou ser deputado federal no começo dos anos 1970. Em 1962 escreveu a primeira obra literária do Distrito Distrital intitulada Poetas de Brasília. Seus textos poéticos foram elogiados por escritores como Jorge Amado, pois segundo o escritor baiano a poesia de Joanyr devia continuar sangrando o ar e a vida. Carlos Drummond de Andrade recomendou a leitura de
Poetas de Brasília. O dicionarista Antônio Houaiss também fez comentários a respeito da obra. Riquíssima temática, senhorio da língua em geral e da poética em particular. (Sou) seu admirador, (agora que tenho a) alegria de conhecê-lo e aos seus versos. Suas elegias são pungentes, seus poemas a Brasília são intrinsecamente belos paradoxos, pois ressaltam o criticável socialmente para, apesar disso, louvar a sensível beleza da obra feita e in fieri (www.usinadasletras.com.br).
Tempos depois, o pastor Joanyr de Oliveira viria fundar a Associação Nacional de Escritores (ANE). Ele também participou do Congresso Internacional de Lausanne na Suíça (ARAÚJO, 2007). Além de ter tentado uma vaga ao cargo de deputado no Distrito Federal o
pastor Joanyr de Oliveira também se candidataria ao mesmo cargo nas eleições de 1986 à Câmara dos Deputados; ambas, no entanto, sem sucesso. No início de 1971 fora nomeado para um cargo no gabinete do governador de Goiás, conforme podemos verificar em nota em tom de celebração publicada pela editoria do jornal Mensageiro da Paz:
Pela primeira vez na História de Goiás, um pentecostal integra a equipe governamental: Nosso irmão em Cristo, Prof. Joanyr de Oliveira Evangelista das Assembleias de Deus, colaborador deste jornal há mais de 20 anos e co- fundador da revista A Seara, foi investido nas funções de subchefe do Gabinete Civil do Governo do Estado de Goiás, por escolha pessoal do governador Leonino Caiado. O irmão Joanyr de Oliveira é, ainda um dos primeiros suplentes de Deputado Estadual no Estado que serve (MP, n. 11, p. 6, 1971).
O pastor Paulo Leivas Macalão, de quem falaremos mais adiante, também recebeu em 1975 o título de cidadão honorário do estado da Guanabara21 conforme nota publicada pela
Kézia Sotero. O autor da proposta foi o deputado Sérgio Maranhão - nasceu na mesma cidade de Macalão. Ele era do então partido de oposição, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Naquela legislatura, inclusive 36 dos 48 deputados estaduais eleitos eram do MDB.
(Paulo Leivas Macalão) Foi bem merecido o prêmio de cidadania do Estado da Guanabara, por requerimento 874/73, de autoria do Deputado Sérgio Maranhão, que, antes de ser gaúcho (nasceu em Santana do Livramento, RS), é um brasileiro voltado para o trabalho do Senhor, que honra as Assembleias de Deus no Brasil (MP, n. 1, p. 15, 1975).
Ao que tudo indica o futuro presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus de Madureira (CONAMAD), pastor Manoel Ferreira, tinha acesso à Presidência da República. Em artigo publicado no jornal Mensageiro da Paz o pastor Joanyr de Oliveira relatou:
Apraz-me dar-lhe ciência de que, conforme correspondência anterior, tomei providências, ao lado do Pastor Manoel Ferreira, junto à Presidência da República, no sentido de liberação do ponto dos funcionários públicos que participarão da 23ª Convenção Regional das Assembleias de Deus em Recife (MP, n. 1, p. 4, 1977).
Um dos assembleianos mais entusiastas do presidente Geisel foi o pastor João Pereira de Andrade e Silva. Natural de Itajubá (MG) onde foi vereador por dois mandatos consecutivos, também foi candidato derrotado ao cargo de deputado federal. Quando se mudou para o estado de São Paulo exerceu o cargo de vice-presidente das Assembleias de Deus do Ministério do
21 A Guanabara foi um estado entre 1960 e 1975. Seus limites ficaram no território do atual município do Rio. Já
Belenzinho. Em um dos muitos editorais que escreveu no Mensageiro da Paz há um que exalta os feitos do presidente Geisel.
Ouvimos o discurso do eminente Presidente da República. Sua Excia não divagou nem fez literatura – embora o discurso seja excelente. O Sr. Presidente Geisel foi direto ao assunto, num chamamento de atenção, um comando, para que o povo brasileiro ouvisse sua palavra sincera, clara e sensata. Um aviso a Nação. Não negou a gravidade do momento, porém não exagerou, trazendo o pessimismo, porque o País possui condições de vencer esta, e outras etapas desde ciclo de desenvolvimento. O Brasil possui possibilidades para vencer a crise porque, além da probidade do Sr. Presidente da República e da capacidade da maioria de seus colaboradores, pode contar com as orações do povo de Deus (MP n. 2, p. 2, 1977).
Em 1977 o assembleiano e obreiro auxiliar da igreja-mãe em Belém, Antônio Alves Teixeira, assumiu a presidência da Assembleia Legislativa do estado do Pará. Membro da política partidária desde 1967, Antônio Alves Teixeira já tinha sido Primeiro Vice-Presidente da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, líder do governo e líder da ARENA (Aliança Renovadora Nacional). “Além do Deputado João Gomes Moreira, o Deputado Estadual Antônio Alves Teixeira iniciou seu pronunciamento de posse à Presidência da Assembleia Legislativa do Pará, em sessão solene realizada em 1º de março do corrente ano” (MP, n.7, p. 3, 1977).
A partir de agosto de 1977 estreia no jornal Mensageiro da Paz a coluna Parlamento. Nela, há análises e breves relatos da atuação de deputados, principalmente dos evangélicos. Na primeira coluna são citados os parlamentares Joel Ferreira (MDB-AM), Daso Coimbra (ARENA-RJ), Daniel Silva (MDB-RJ), Edgar Martin (MDB-SP), José Camargo (MDB-SP) e Jorge Arbage (ARENA-PA). Há também menção à Lei do Divórcio que foi aprovada naquele mesmo ano: “pela primeira vez vemos Nelson Carneiro, depois de defender, durante 26 anos – anteriormente como Deputado Federal e agora como Senador - a instituição do divórcio no Brasil, conseguiu alcançar seu objetivo” (MP, n. 8, p. 9, 1977). A partir daí, seguiria uma série de posicionamentos relacionados a temáticas discutidas no Congresso Nacional que será objeto de análise do próximo capítulo.