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família

Sim Sim Sim

Vende força de trabalho Sim/esporádico Sim/Esporádico Sim/Esporádico

Compra força de trabalho Sim/Esporádico no

abacaxi e milho Sim/Esporádico noabacaxi Sim/Esporádico noabacaxi

Faz troca de dia de trabalho Sim Sim Nem sempre dá certo

Renda mensal 01 salário mínimo 01 salário mínimo 01 salário e meio

Tem luz elétrica em casa e

na parcela Sim Sim Sim

Usa energia elétrica na

atividade agrícola Sim, pouco Não Sim, pouco

Utiliza práticas de conservação do solo e das

águas

Não há consciência É complicado falar, mas ainda falta muita

consciência.

Sim. Há palestras com a Copter/Investco

Fonte: Pesquisa de Campo – OLIVEIRA, Antonio Miranda de, 2013.

Partindo dessa descrição podemos verificar a complexidade do campesinato como uma classe trabalhadora do campo no mundo contemporâneo. No entanto a condição de

trabalhador, no nosso ponto de vista, é algo insuficiente para tratar de toda a sua riqueza cultural material e imaterial. É necessário ir mais longe e aprofundar a análise se livrando do costume de realizarmos sobre esse sujeito social abstrações, por exemplo, de suas humanidades. Ele conjuntamente com a sua família é um trabalhador também no sentido ontológico de que, como trabalhador o resultado do seu trabalho decorre de saberes e fazeres. O trabalho como conjunto de atividades não produz apenas valores de troca. Cria símbolos que indicam o uso do espaço e a constituição de territorialidades, que ajudam a compreender o camponês e a camponesa do Brejinho, na medida em que se revelam no trabalho cotidiano da lavoura, nas atividades religiosas nas igrejas e fora delas e em outros espaços.

Neste sentido, as relações sociais não são apenas de produção e as territorialidades que formam o território camponês existem e podem inserir-se eficazmente como uma estratégia de existência local. Desse modo, mesmo que o trabalho camponês produza coisas para o mercado, as relações sociais criam valores que se acentuam sob lógicas sociais que anunciam pluralidades culturais. É necessário compreender que a condição camponesa se estabelece no lugar no qual se estabelece a vida. Nesse sentido não é apenas o trabalho concretamente manifestado que importa. No conhecimento do lugar das vizinhanças, das práticas sociais, temos outros elementos para alargarmos a nossa reflexão e compreender mais finamente esse sujeito social e seus vínculos territoriais.

No trabalho de Santos (2008) quando este apresenta as transformações vividas pela terra e os homens no cerrado de Minas, uma das questões abordadas neste processo é a articulação do pensar acerca da transformação da lógica do camponês tradicional de Minas quando passa a integrar a lógica da produção com alta tecnologia. Diz o autor:

Uma festa camponesa, quando não se é mais camponês, não se resume na dificuldade dos sentimentos, das vontades que envolvem a sua realização (...). Na verdade, uma festa camponesa é produto de uma lógica camponesa. Quando não se produz na perspectiva da reprodução da família, mas da empresa, não há lógica e nem sentimento camponês. Não há a festa de antigamente, mas uma outra coisa (SANTOS, 2008, p. 215).

Compreende-se os camponeses e camponesas do Assentamento Brejinho, como sujeitos sociais que construíram vínculos territoriais importantes retomando antigas sociabilidades de suas tradições, seus saberes e festas oriundos do trabalho e de uma relação com o lugar que vai deixando marcas na paisagem natural e humana.

A sociabilidade religiosa é um espaço de manifestação dessas marcas na paisagem. Solicitou-se aos camponeses que falassem acerca de suas festas e saberes. Estes mencionam a

participação das famílias, a existência de festas e rezas antes da formação do assentamento, mas também a retomada de outras com a formação do assentamento. A festa de Santo Antônio acontece todos os anos na comunidade. Uma moradora assentada diz que “Essa reza de Santo Antonio tem ajudado muito a unir a comunidade, pois as pessoas mais velhas vão fazendo e os mais novos tão por ai escutando, observando e daqui a pouco eles tão fazendo isso também”, como apresentado nas fotografias 4 e 5 e na tabela 14.

Tabela 14: Sociabilidades, saberes e festas no Assentamento Brejinho

Questões Assentado 01 Assentado 02 Assentado 03

As famílias participam da Associação de produtores do Assentamento

Sim, a maioria Participação fraca Boa participação

As famílias participam do sindicato dos trabalhadores e da associação

Poucas Podia ser melhor a participação

Boa participação

Há festas religiosas no

Assentamento Santo Antônio/váriostipos de rezas em fazendas

Tinha várias, mas agora com o povo aqui voltou e tá melhor

Santo Antonio/São Lázaro/Reis/São João

As pessoas participam

dessas festas Participam Pouca participação evem muita gente da rua.

Boa participação, poisas rezas unem as pessoas

Fonte: Pesquisa de Campo– OLIVEIRA, Antonio Miranda de, 2013. Fotografia 4: Capela de Santo Antônio –

local dos festejos no Brejinho – 2013.

Fotografa 5: Capela Assembléia de Deus do Assentamento Brejinho – 2013.

Fonte: Foto do autor: OLIVEIRA, Antonio

As falas citadas anteriormente comprovam que os camponeses do Assentamento Brejinho construíram uma relação com o seu lugar de viver que extrapola o cálculo econômico. Quando o informante responde, sobre a questão religiosa afirmando: “Tinha várias, mas agora com o povo aqui voltou e tá melhor”, na verdade faz um movimento importante de leitura de um passado, antes da constituição do assentamento quando haviam muitas festas religiosas naquela região e ao mesmo tempo, demonstra um aprendizado pela experiência que só foi possível com uma convivência (com os outros) no seu novo lugar que é o assentamento. Tuan (1983, p. 10) informa que

Assim, a experiência implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência. Experienciar é aprender; significa atuar sobre o dado e criar a partir dele. O dado não pode ser conhecido em sua essência. O que pode ser conhecido é uma realidade

que é um constructo da experiência, uma criação de sentimento e pensamento (grifo meu).

Marques (2004) reforça essa centralidade do modo de vida camponês para além dos resultados materiais do seu trabalho.

[...] o modo de vida camponês como um conjunto de práticas e valores que remetem a uma ordem moral que tem como valores nucleantes a família, o trabalho e a terra. Trata-se de um modo de vida tradicional, constituído a partir de relações pessoais imediatas, estruturadas em torno da família e de vínculos de solidariedade, informados pela linguagem de parentesco, tendo como unidade social básica a comunidade (MARQUES, 2004, p. 148).

A existência camponesa vai além do trabalho e dos resultados do trabalho, ou seja, existem no lugar onde vivem representações sociais, cujo poder no seu sentido simbólico também necessita ser devidamente estudado e referenciado em nossos entendimentos de camponês.

Outro aspecto importante na dinâmica do pensar camponês sobre sua própria condição é o modo como pensam e falam acerca da educação e da escola do estado que existe entre eles.

Compreende-se a educação como uma prática social cuja origem e destino são a sociedade e a cultura e é falso imaginar uma educação que não parta da vida real: da vida tal como existe e do homem tal como ele é. Assim é necessário que nos interroguemos todos os dias sobre o conteúdo, a forma e as finalidades da educação que pensamos e praticamos no interior de nossas escolas, inclusive, porque não levamos em conta nos processos de ensinar/aprender na escola os saberes que os camponeses já possuem, fruto de suas

experiências de vida, de trabalho e de produção de bens materiais e simbólicos na terra onde vivem.

É consenso entre educadores, pesquisadores, pais, alunos e setores responsáveis pela gestão da educação, de que a educação destinada aos camponeses deve estar articulada aos interesses e aos distintos modos de construir e reconstruir a vida a partir do mundo rural (e isso também é válido para a educação urbana). No entanto o que temos visto no campo é uma escola urbana, pensada a partir da lógica da cidade exatamente para cumprir finalidades estranhas aos interesses dos trabalhadores rurais e de seus filhos.

Embora haja clareza da condição instável dos camponeses em todas as regiões do Brasil, sabe-se também que a conquista da terra altera a dinâmica de sua relação com o seu próprio modo de viver suas tradições. Por outro lado o seu vínculo com a terra faz renascer um conjunto de símbolos e valores que podem ser remetidos a uma ordem moral tradicional que lhes ajudam a reconstruir os seus processos de construção/reconstrução de identidades.

É preciso também, ter claro que o processo de “recampesinização” que se verifica a partir de seu retorno à terra possibilitado por suas lutas é marcado por conflitos, ambiguidades e contradições, que traduzem a difícil passagem da ideologia à prática, assim também como não podemos perder de vista que a existência do camponês assentado não nega a lógica do capital, que, em sua reprodução ampliada, continua subordinando e expropriando o campesinato, mas:

Ao mesmo tempo em que o camponês está subordinado à lógica do capital, ele também descobriu caminhos para o rompimento dessa submissão, fazendo escolhas para viver em sociedade, de acordo com seus valores (SIMONETTI, 1999, p.56).

Por isso consideramos importante se considerar a dimensão cultural para compreender o significado do movimento de luta pela terra existente hoje no Brasil e a forma como os assentados organizam a vida e o espaço nos assentamentos. Até porque este sujeito corresponde a esta “estranha classe” de que nos fala Shanin (1979), que é o campesinato, e os assentamentos rurais têm se constituído como o “lugar” onde se dá um complexo e sofisticado processo de (re) construção do “território camponês”.

Acompanhando o cotidiano dos camponeses do Assentamento Brejinho podemos entender que os assentamentos não são apenas uma unidade econômica, que há uma pluralidade de formas de existências, mesmo havendo uma idéia dominante que entende o assentamento e o camponês como uma entidade homogênea no seu processo de

territorialização:

(...) a expressão concreta da territorialização do movimento (de luta pela terra). Não é somente o lugar da produção, mas também o lugar da realização da vida. (...) E a vida, para esses camponeses, como se verifica em seus relatos, não é somente ter comida, ter casa, mas uma vida plena, uma vida cheia de significados, na qual aquilo que eles crêem tem possibilidade de continuar sendo respeitado e existindo: sua cultura, sua autonomia, sua visão de mundo, sua capacidade de crescer a partir de suas próprias potencialidades, enfim seu universo simbólico (SIMONETTI, 1999, p.70-71).

Compreende-se que tanto a visão economicista do campesinato como aquela da inexorabilidade da homogeneização urbana no espaço rural conduz política e ideologicamente a compreensões que reafirmam a absorção/exclusão social do campesinato pela expansão e consolidação da empresa capitalista no campo (CARVALHO, 2005).

Este autor considera que “há um processo de reprodução da família camponesa na sociedade capitalista, mas o campesinato tem especificidades no contexto da formação econômica e social capitalista” (p. 23). Analisando o movimento do campesinato no Brasil e as distintas e às vezes contraditórias interpretações feitas, o autor trabalha com a idéia de paradigmas explicativos da condição do camponês na sociedade capitalista.

Assim, diz que desde o século XIX, surgiram várias teorias a respeito da existência e das perspectivas do campesinato no capitalismo. O desenvolvimento dessas teorias constituiu três modelos - paradigmas distintos de interpretação do campesinato (Carvalho, 2005, p. 24- 5): o paradigma do fim do campesinato, que compreende que este está em vias de extinção; o paradigma do fim do fim do campesinato, que entende sua existência a partir de sua resistência; e o paradigma da metamorfose do campesinato (Abramovay, 1998) que acredita na sua mudança em agricultor familiar.

Girardi (2008, p. 101) contrapondo-se à tese de Abramovay (1992) “segundo a qual haveria uma metamorfose do camponês em agricultor familiar”, argumenta que “Ao propor a metamorfose no lugar da diferenciação Abamovay ignora a capacidade de adaptação e transformação do camponês”. Mesmo considerando as limitações impostas ao camponês que vive em um assentamento não podemos negar sua capacidade de mudança e dada a pobreza do campesinato no Tocantins é difícil imaginar sua transformação em um empresário rural de sucesso, não é este o desejo dos camponeses com os quais temos convivido. Este autor diz ainda que

Admitir a metamorfose do camponês em agricultor familiar é ignorar a diversidade de formas possíveis de serem assumidas pelo campesinato e as estratégias por ele desenvolvidas na integração com o modo de produção capitalista. Esta concepção

pretende a homogeneização dos diferentes tipos de campesinato. Tal proposta é inexeqüível em um país tão diverso como o Brasil, em que cada região (e no interior delas) o campesinato apresenta formas de reprodução variadas. Esta diversidade está relacionada à também profunda diferença regional do país. Em escala mundial é igualmente impossível pensar em um campesinato homogêneo que tenha o mercado como único objetivo. Capitalismo e campesinato são diferentes. O capitalismo exige padrões; o campesinato é diverso por natureza (GIRARDI, 2008, p. 104).

O camponês é um sujeito acostumado a dureza do trabalho na roça e mesmo quando submetido a intensos processos de subordinação, expropriação e exploração não desiste da busca do seu principal instrumento de trabalho que é a terra, mesmo que isto signifique pagar às elites agrárias deste país um alto preço para se reproduzir pelo trabalho na terra, seja na condição de proprietário ou não.

Isto significa que a despeito das distintas interpretações teóricas e ideologias dos estudiosos, partidos políticos e movimentos sociais, os camponeses continuam existindo, se reproduzindo e assim desafiando os teóricos a compreenderem a dinâmica de sua existência numa sociedade que insiste em negá-los.

4 – OS CAMPONESES DO BREJINHO E AS TRANSFORMAÇÕES NO/DO SEU