• Nenhum resultado encontrado

Sem dúvida, houve expressivo crescimento do número de famílias assentadas no Brasil (Fig. 2), em que pesem as discussões e questionamentos sobre a necessidade ou não da reforma agrária. Segundo Pinto (1996), ainda na década de 1990, os setores que defendiam a superação desse tema argumentavam que a sociedade brasileira era, em sua maioria, urbano-industrial, que praticamente não havia crises de abastecimento, ao contrário, havia crescimento das exportações de produtos primários com raras exceções e que a agricultura havia se diversificado e se modernizado de forma a responder agilmente aos estímulos oferecidos. Para o autor, esses argumentos, no entanto, são falhos, na medida em que reduzem a questão agrária a um enfoque meramente produtivista e desconsideram os milhões de brasileiros que vivem em péssimas condições de vida no meio rural ou em periferias de núcleos urbanos.

0 20 40 60 80 100 120 140 160 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 N ú me ro d e f a mília s ( 1 0 0 0 ) Ano

Figura 2 – Evolução do número total de famílias assentadas por ano no Brasil no período de 1997 a 2007.

Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2008.

O fato é que existe um enorme contingente de pessoas que se encontra situado nos assentamentos e que demanda políticas de infraestrutura, assistência técnica e pesquisa para viabilizar seus estabelecimentos. Essas pessoas veem na reforma agrária uma opção que mesmo sob condições precárias é melhor que a migração para as cidades ou a remuneração oferecida pelo seu trabalho (SPAROVEK, 2003).

Segundo D’Aquino (1997), ao estudar assentamentos em São Paulo, o projeto de reforma agrária para os agricultores se articula a três dimensões, autonomia de tempo, autonomia de produção e autonomia de espaço, que são materializados nos estabelecimentos individuais. Esse projeto seria uma estratégia para recompor um estilo de vida que expressa o ideário camponês, a concepção da unidade agrícola como unidade de produção familiar. Os laços de integração comunitária, presentes nas sociedades camponesas, seriam alcançados pela via do compadrio, do parentesco, da solidariedade vicinal, da ajuda mútua, do intercasamento, das festas religiosas.

Os assentados têm ênfase na terra como um valor de uso relacionado à sua autonomia, assim como suas práticas e representações apresentam-se, de maneira geral, informadas por valores camponeses (MARQUES, 2004; PEREIRA, 2004). Isto

é, a terra é vista como patrimônio da família, sobre a qual se faz o trabalho que constrói a família enquanto valor (WOORTMANN, 1997), sendo essas categorias centrais do universo camponês brasileiro, o trabalho, a família e a liberdade (D’AQUINO, 1997).

Assim, os assentados de reforma agrária podem ser considerados um segmento inserido na categoria agricultura familiar que apresenta uma lógica de funcionamento orientada por uma racionalidade similar. No entanto, as condições da reforma agrária colocam particularidades a esse segmento.

Primeiramente, há pressão do projeto político da reforma agrária conduzido pelo Estado e mediado pelas próprias organizações sociais dos assentados. Segundo Ferrante (1997), o programa de assentamento idealizado pelo Estado não corresponde com frequência ao que é posto em prática, nem implica atendimento às necessidades de reprodução social dos assentados. Para Marques (2004), nesse projeto visualiza-se a inserção das famílias assentadas no sistema econômico em vigor a partir de uma intervenção concebida segundo os parâmetros da racionalidade técnica e os valores da ideologia moderna. Sabourin (2009) acrescenta que a política de reforma agrária, assim como alguns movimentos sociais priorizam formas coletivas de organização dos assentamentos, dos serviços e até da produção. Essas formas, muitas vezes, são impostas aos assentados, o que tem evidenciado a pouca adaptação, não raro a contradição e a potencial geração de conflitos dos instrumentos de política.

Um segundo aspecto refere-se à história de destituição da terra e migrações, que se associa a um assalariamento precário na zona urbana ou mesmo na zona rural, e que acrescenta vivências nas quais o conhecimento agrícola dessas pessoas foi relegado, ainda que muitas delas tivessem um passado na terra, vivido por elas e/ou por seus antepassados (DUVAL; FERRANTE; SILVA, 2008). Em consequência, o ciclo de transmissão de conhecimentos entre gerações, característico da agricultura familiar, fica, de certa maneira, comprometido. Sabourin, Oliveira e Xavier (2007) acrescentam ainda a identidade negativa e subalterna imposta pelas tutelas e pela sociedade, que, paralelamente, se associa a uma longa construção social e política do sentimento de dependência e de assistido, a um sentimento de

incompetência que permanece mesmo quando o beneficiário da reforma agrária se torna assentado e é reforçado pelo estigma do “sem-terra” manifestado pelo resto da sociedade.

Finalmente, nos trabalhos de Pereira (2004) e Marques (2004) realizados em Goiás, observa-se que a precariedade de acesso a terra, mediada ou intermediada pelos organismos estatais, é um dos elementos que dificultam a reprodução socioeconômica dos assentados. Nesse contexto, a reprodução de ciclo longo, ou seja, entre gerações (ALMEIDA, 1990; WANDERLEY, 1999), fica comprometida, o que pode trazer consequências para as tomadas de decisão dentro da unidade produtiva.

Enfatiza-se ainda um forte conjunto de limitações relacionado à educação, ao abastecimento de água, ao tratamento de esgoto, ao atendimento de saúde e ao transporte que, associado às restrições operacionais das políticas públicas para resolver esses problemas, caracteriza o contexto das famílias nos assentamentos como fortemente restritivo, ainda que em melhores condições do que aquelas vividas antes de serem assentadas (BERGAMASCO, 1997; LEITE et al., 2004; SCHMIDT; MARINHO; ROSA, 1998; SPAROVEK, 2003).

Segundo Leite et al. (2004), embora com esse forte conjunto de restrições, os assentamentos de reforma agrária apresentam impactos positivos tanto na vida das famílias assentadas quanto nas localidades nas quais estão inseridos. Em relação às famílias assentadas, quando comparadas à situação anterior, elas se associam à oportunidade de acesso à terra e à moradia, à melhoria da renda, em alguns casos à reconstituição de laços familiares, à possibilidade de novas formas de sociabilidade e à intensificação da participação dos assentados nos espaços públicos. Nas localidades, destacam-se a criação de postos de trabalho não agrícola, a dinamização do comércio local, a oferta diversificada de produtos nos mercados locais e o atendimento de demandas de infraestrutura.

Os aspectos discutidos sustentam a noção que os assentados da reforma agrária são um importante segmento inserido na categoria agricultura familiar e, apesar das particularidades enfocadas, possuem uma racionalidade e um modo de

funcionamento semelhantes. No contexto desta tese, portanto, é importante discutir formas de geração/adequação/avaliação de tecnologias que, ao considerarem as características desses agricultores, propiciem determinados desempenhos que possam auxiliar as famílias a alcançar os objetivos pretendidos.