• Nenhum resultado encontrado

1.2 Algumas categorias do referencial teórico

1.2.5 Assertividade

Consideramos, especificamente, as reflexões sobre assertividade importante requisito para a atuação do profissional. Faremos sobre esta categoria um breve estudo. No mundo do trabalho, esse conceito está ligado a auto-estima, autoconhecimento, autocontrole, autoconsciência e autoconfiança.

A assertividade, como habilidade emocional e social, não se configura como objetivo explícito das disciplinas que compõem a grade curricular do curso de gastronomia. Ela pode ocorrer como produto de aprendizagem e/ou de conduta aprendida em outros contextos.

O profissional da gastronomia tem uma função social mediadora na promoção de relações sociais mais equilibradas e na defesa de direitos humanos básicos da equipe de trabalhadores que está sob sua responsabilidade.

São características do indivíduo assertivo o equilíbrio dos sentimentos, das emoções, dos desejos e das paixões e a percepção dos limites e dos erros que fazem parte da condição humana.

A assertividade se constrói na convivência e no diálogo entre pessoas. Nesse sentido, Paulo Freire (1987) destaca a importância da integração ao contexto que enraíza, data, situa e dinamiza o indivíduo, abrindo-lhe possibilidades para sair da posição defensiva, reflexa e inconseqüente. O conhecimento crítico de si mesmo como ser biológico, psíquico, social, afetivo e racional e o conhecimento das condições concretas de vida dão-lhe forças para recusar solicitações abusivas, expressar sentimentos, discordar, contra-argumentar, defender os próprios direitos e afirmar as próprias idéias.

O sujeito para ser assertivo precisa desenvolver a compreensão humana e a compreensão intelectual. Segundo Morin (2000a), a compreensão intelectual permite apreender a realidade no seu todo e nas partes, apreender as causas e os efeitos dos problemas e propostas de solução.

Não é característica do sujeito assertivo impor suas idéias, seus interesses e sua forma de ser. Paulo Freire (2000b, p. 58) afirma que:

O homem radical na sua opção, não nega o direito ao outro de optar. Não pretende impor a sua opção. Dialoga sobre ela. Está convencido de seu acerto, mas respeita no outro o direito de também julgar-se certo. Tenta convencer e converter, e não esmagar o seu oponente.

Sob a ótica de Paulo Freire, a pessoa assertiva foge da resignação, da adaptação muda e estática e da aceitação sem reação aos fatos e problemas que aparecem. Compromete-se e rompe com o que está permanente e posto. É possível que sua visão da vida se expanda. Pela mentalidade aberta e flexível enxerga as possibilidades para agir. Portanto, como ser assertivo ela não pode adotar um estilo e modo de ser que não lhe pertence. Não lhe interessa assumir um comportamento e uma conduta para responder às exigências a que a outra pessoa a submete. Mas, para isso, ela precisa se libertar de toda alienação para ver a realidade com seus próprios olhos.

Severino (2001, p. 80) lembra que:

[...] a educação promove o desenvolvimento, a gama de sensibilidades especificamente subjetivas: lógica, ética, estética etc.

A educação é um processo de auto-realização do sujeito, de desabrochar de suas potencialidades. Está em pauta a individuação, a construção do eu, pois só um sujeito realizado, dotado de vontade livre e autonomia pode tornar-se agente sobre o mundo natural e a sociedade.

A pessoa assertiva foge da massificação e não permite que seja transformada em instrumento de manobra para as realizações e interesses dos outros. Paulo Freire (1980, p. 37), propõe que:

[...] as relações do homem com os outros homens, e com as estruturas sociais, são também de choque, na medida em que, continuamente, o homem nas suas relações humanas, se sente tentado a reduzir os outros homens à condição de objeto, coisas que são utilizadas para o proveito próprio.

O homem é o ser da decisão. A primeira decisão é aprender a ser ele mesmo. Isso implica em se saber autônomo para lutar pelo direito de ser e de existir. A segunda decisão é optar em meio às discordâncias, às contradições e opressões.

As condições materiais de vida e as do trabalho determinam seu comportamento, mas como pessoa que conhece e compreende seus condicionamentos genéticos, culturais e sociais, analisa e reflete sobre as condições, as conjunturas e o contexto para agir convenientemente. É o começo de uma posição de luta, de uma posição politicamente assertiva para transformar as condições de vida e de trabalho. Esta posição de luta necessita da liberdade.

Segundo Severino (2001, p. 94),

[...] não é mais visto nem como totalmente determinado nem como inteiramente livre. O ser humano é simultaneamente determinado e livre. Sua ação é sempre um equilíbrio instável entre as injunções do ser natural e a autonomia de sujeitos capazes de intencionalizar suas ações a partir da atividade de sua consciência.

A educação é o instrumento que confere liberdade à pessoa, alimenta o processo de tomada de consciência e permite compreender as estruturas sociais, os modos de dominação e de violência que oprimem a realização plena da pessoa.

Para desenvolver o comportamento assertivo, a educação deve contar com professores problematizadores, que aguçam a curiosidade, estimulam a capacidade criadora e o gosto pela reflexão crítica. As atitudes autênticas e coerentes do professor promovem a formação do ser assertivo. A irresponsabilidade, a omissão, a indiferença, a passividade frente aos conflitos, a ausência de luta por seus direitos que acometem certos professores geram alunos também alienados e ausentes de tudo.

Paulo Freire (2000b, p. 97), lembrou de:

Uma educação que possibilitasse ao homem a discussão corajosa de sua problemática. De sua inserção nesta problemática. Que o advertisse dos perigos de seu tempo, para que, consciente deles, ganhasse a força e a coragem de lutar, ao invés de ser levado e arrastado à perdição de seu próprio “eu”, submetido às prescrições alheias.

Ao optar por educar para a assertividade, o professor expressa uma decisão política que vai intencionar e dirigir sua prática educativa para a formação de pessoas que se assumem, se comprometem com a sua existência e se nutrem de esperanças para uma vida melhor. Recusam o fatalismo e, por isso, desenvolvem a habilidade de se posicionar afirmativamente para que todos conheçam claramente suas intenções e suas propostas.

Segundo Martins (2004), o comportamento é algo situacional, que pode mudar de acordo com o momento e a situação. Assim, uma pessoa pode apresentar comportamento agressivo, passivo, agressivo-passivo e assertivo. Em função disso, uma mesma pessoa pode ter os quatro comportamentos, ainda que exista uma tendência maior de as pessoas agirem de determinada forma em circunstâncias "normais, ou seja, o indivíduo tende a adotar um determinado estilo como mais freqüente". Esta constatação confirma a idéia de que podemos mudar um comportamento se percebermos que ele não está valendo a pena, isto é, não satisfaça as nossas necessidades, expectativas e objetivos pessoais.

Podemos desenvolver nossa assertividade. Ela pode ser aprendida. Morin (2000a, p. 39), escreveu que:

[...] o desenvolvimento de aptidões gerais da mente permite melhor desenvolvimento das competências particulares ou especializadas. Quanto mais poderosa é a inteligência geral, maior é a sua faculdade de tratar de problemas especiais.

Sob a ótica de Paulo Freire, é na relação educativa que se alicerça o comportamento assertivo. A postura arrogante do professor que se crê dono de todo o saber, enquanto o aluno nada sabe, certamente, vai alimentar uma relação professor-aluno repleta de autoritarismo e dominação. A relação autoritária impossibilita o diálogo e faz de uns sujeitos e de outros objetos

na construção da história. Ela sufoca no ser humano a sua vocação de tornar-se mais completo enquanto pessoa. O autor lembrou que uma das qualidades essenciais do professor na relação com as liberdades dos alunos é a segurança em si mesmo. É a segurança que se expressa na firmeza com que atua, com que decide, com que respeita as liberdades, com que discute suas próprias posições, com que aceita rever-se (1996, p. 91).