2. Astronomia, astrofísica e espaço no Brasil
2.1 Instrumentos competitivos
3.1.1 Assessoria de imprensa do INPE
Em entrevista concedida por telefone em abril de 2014, a responsável pela assessoria de imprensa, Marjorie Xavier, detalhou um pouco da rotina de trabalho. Segundo ela, devido à importância estratégica e a variedade de serviços prestados pelo INPE, existe uma alta demanda, que é difícil de suprir apenas com duas pessoas. Por conta disso, o trabalho com a imprensa costuma ser mais reativo, concentrando-se no atendimento a pedidos.
A assessoria de imprensa do INPE está vinculada ao Gabinete da Direção do Instituto, dentro da chamada área de GCI (Gestão de Comunicação Institucional). Esse setor é responsável tanto pelo contato com a mídia externa quanto pela comunicação interna, via boletins informativos, panfletos, comunicados e intranet. Também está no escopo desta divisão a área de eventos, seja na própria sede em São José dos Campos ou em outros locais, bem como as atividades de visitação, sejam elas educacionais ou visitas oficiais de autoridades.
Em 2014, trabalhavam na assessoria de imprensa apenas duas pessoas: a jornalista concursada Marjorie Xavier e uma estagiária. No passado, além do jornalista concursado, a área chegou a contar com jornalistas freelancers terceirizados.
Embora o plano diretor do instituto destaque a necessidade estratégica de fortalecer a comunicação institucional, na prática, a situação parece ser um tanto diferente. A começar pela ausência da divisão de Gestão de Comunicação Institucional no próprio organograma do INPE.
No livro “Jornalismo Científico”, a autora Fabíola de Oliveira, que foi assessora de imprensa do instituto na década de 1980, faz um panorama da comunicação do órgão. Ela destaca a ausência desse setor na estrutura organizacional como um sinal de possível desatenção com suas ações (2002, p.66).
Segundo Oliveira, no caso específico do INPE, parece ter havido uma acomodação com a relativa facilidade com que as atividades e ações do órgão atraem a atenção da mídia, sempre se destacando no âmbito dos institutos ligados ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
O trabalho de comunicação do instituto ficou a cargo da chamada Coordenação de Relações Institucionais até 2006, quando esta foi extinta e a CGI foi criada.
- Rotina
A rotina da assessoria de imprensa do INPE combina trabalho reativo (atendimento às demandas dos veículos) e pró-ativo (proposição de pautas). A área também é responsável por redigir notícias, boletins informativos e outros comunicados institucionais em meio impresso e na intranet. A comunicação da pesquisa e das atividades relacionadas à astronomia e ao espaço são apenas uma pequena parte das atribuições da assessoria do instituto. O serviço fica localizado dentro das instalações principais do INPE, em São José dos Campos (SP).
Como o INPE tem um serviço de previsão do tempo e é responsável pelos números oficiais do desmatamento da Amazônia, há permanentemente muita demanda em outras áreas. Para dar conta de todas essas atividades, a assessoria tem uma equipe de duas pessoas: uma servidora concursada e um estagiário de jornalismo.
Segundo a responsável pela área, a jornalista Marjorie Xavier, o volume de trabalho é muito grande e um dos maiores empecilhos à produção de material diferenciado. Na função há nove anos, a profissional diz que, no passado, as condições de atuação já foram melhores.
A gente tem pouquíssima estrutura. A assessoria de imprensa é essa pessoa que vos fala. A assessoria já esteve mais estruturada, já teve mais servidores. Não necessariamente jornalistas, mas mais servidores lotados nesta área de comunicação, que já foi maior. O que aconteceu é que, aos poucos, as pessoas ou foram se desinteressando da área e, por decisão própria, não trabalham mais com isso. Temos um jornalista que saiu um pouco antes de eu entrar, ele ainda está no INPE, mas em outra área. Ou pessoas que se aposentaram, e continuam se aposentando. As coisas estão minguando. Não é exclusivo da comunicação do INPE.
Segundo ela, a maior parte do tempo é investida no atendimento às coisas que foram solicitadas pelos jornalistas. Pela natureza do trabalho multidisciplinar e estratégico do INPE, não se limitam à mídia brasileira, havendo muitos pedidos de veículos de outros países.
Por conta da demanda alta, alguns dos departamentos do instituto contratam, por conta própria, profissionais de comunicação específicos para suas atividades. Marjorie destaca o jornalista de plantão contratado pelo CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos) como peça fundamental para “desafogar” o trabalho da assessoria de imprensa “oficial” do INPE.
A pessoa [assessor de imprensa do CEPTEC] não é servidora, é contratada como terceirizada. É jornalista, mas não produz releases, não passa informações sobre o que está acontecendo cientificamente. É trabalho de atendimento. Isso é importante porque a demanda lá é muito grande, e a informação é diária. Além disso, o assessor conta com um meteorologista que fica especialmente dedicado à comunicação.
Atualmente, o ELAT (Grupo de Eletricidade Atmosférica) também tem uma assessoria de imprensa própria. Embora seja apenas um dos departamentos de pesquisa do INPE, o grupo tem o dobro de pessoas atuando em sua equipe de comunicação, conforme seu site oficial. Em 2014, quatro jornalistas trabalhavam nesta função . Além da elaboração de 12 releases com as atividades de pesquisa, o grupo envia ainda frequentemente sugestões de pautas a jornalistas e participa da divulgação das atividades relacionadas à pesquisa. Também há um monitoramento e clipagem das notícias envolvendo mortes e acidentes com raios, objeto de pesquisa desse departamento, no Brasil.
- Sugestões de pauta
Segundo Marjorie Xavier, devido à falta de pessoal na assessoria, as sugestões de pauta apresentadas aos jornalistas têm sido menos frequentes. “Eu gostaria de estar propondo mais, mas é exclusivamente falta de tempo mesmo”, diz ela.
Hoje o trabalho é mais reativo, porque a prioridade é atender. Também é provocativo, no sentido de que a gente procura manter o site atualizado. Mas tem a limitação pelo próprio tempo, porque não tem outra pessoa além de mim para fazer. Há nove anos trabalhando na assessoria de imprensa do INPE, a profissional acredita que o cenário da comunicação do instituto não deve melhorar no futuro próximo, uma vez que há um contingenciamento de recursos para a contratação de novos profissionais. Apesar de defender a importância estratégica da comunicação, Marjorie afirma que compreende a prioridade das áreas de pesquisa quanto à destinação de recursos dentro do órgão.
A comunicação poderia mudar se a situação melhorasse --o que infelizmente a curto prazo não tem muita perspectiva, porque todas as áreas do INPE estão sofrendo com déficit de pessoal, inclusive com projetos importantes com risco de acabar porque o pesquisador está aposentando e não tem para quem passar o conhecimento. Eu entendo que todas as áreas se digladiam por essas vagas e, claro, quem tem menos voz... Eu entendo as circunstâncias, porque nós [a assessoria de imprensa] não somos a área fim do INPE.
Apesar do grande volume de trabalho e dos prazos pouco elásticos, a coordenadora diz que ainda consegue formular algumas sugestões de pautas exclusivas.
http://www.inpe.br/webelat/homepage/menu/elat/elat.pessoal.php
Ela diz que alguns cientistas a procuram em busca de divulgação para seus trabalhos, mas que o mais comum é que seja ela a tomar a iniciativa de entrar em contato em busca de propostas para reportagens.
Marjorie Xavier destaca que, nesse processo, é imprescindível estabelecer um relacionamento de interação e de conhecimento com os cientistas. Algo que, na opinião dela, só acontece com o tempo e com a dedicação continuada à construção da confiança mútua entre pesquisador e a assessoria de comunicação.
Não interessa se o assessor é estável ou não, concursado ou não, mas é importante que ele tenha uma certa perenidade no órgão em que ele está trabalhando. É você conhecer e ter um tempo de experiência. Porque aí acaba que, conhecendo as pessoas, você tem na cabeça quando as coisas podem acontecer, e surgirem as sugestões de pauta. Porque, se depender deles [dos cientistas], na maioria das vezes eles não avisam. Tem que dar uma provocada, e aí isso é da experiência.
Apesar de considerar seus quase dez anos no instituto como um ponto muito positivo na “mineração” de ideias para pautas, a jornalista ressalta que o tamanho do INPE, combinado à estrutura enxuta da assessoria de imprensa, praticamente inviabiliza a existência de um controle rígido sobre todos os assuntos e trabalhos que têm potencial de atrair atenção midiática.
Eu sei, tenho consciência de que, pelo tamanho do INPE, aqui tem um milhão de pautas escondidas que a gente não consegue levantar e prospectar por essa deficiência de braço e de perna. Mas, geralmente, acaba sendo eu indo atrás, mais por essa experiência.
- Escolha das fontes
A assessora de comunicação INPE diz que, no instituto, há desde cientistas que se interessam pelo contato pela imprensa até os muito reativos às entrevistas. Ela diz que é importante respeitar essa especificidade. Mais uma vez, Marjorie destaca que essa sensibilidade é conseguida pela experiência continuada de muito tempo no trabalho. “Eu sei o que está rolando e o que cada época tem [de trabalhos]. E por eu estar aqui há bastante tempo, as pessoas me conhecerem, a gente já está acostumado a trabalhar”.
Segundo ela, essa predisposição mais intensa de comunicação de alguns cientistas tem um aspecto bastante positivo, que é o estabelecimento de uma relação de confiança. No entanto, ela destaca que pode haver um lado bem ruim: um certo “vício” em determinadas fontes.
É ruim porque você fica muito viciada em algumas fontes. E isso acontece em todos os órgãos, sempre as mesmas pessoas falam. Isso acontece tanto pelo pesquisador ser mais amigável à imprensa, mas em outros casos é da questão institucional. Tipo, nessa área só fulano fala. A gente acaba caindo. Não é uma norma, não é uma coisa escrita nem nada, mas acaba instituído que é o fulano que fala disso.