DO ENCANTAMENTO AO APRENDIZADO
B- Ainda não tivemos a oportunidade de estudar a questão (20 ou 47,6%);
3.5 Assim Naná Ensina
É sina, assim Naná ensina Sendo aqui ou Conchinchina
Tocar percussão cantar É sina como medicina
Se não nana nina Assim Naná ensina Sem pretensão de ensinar
Assim Naná Ensina / Itamar Assumpção
Não poderíamos partir para os argumentos que defendem o maracatu de baque virado como uma manifestação da cultura popular pernambucana, com potencial para colaborar com
100 o ensino da história e da cultura africana e afro brasileira na escola, sem falar no grande mestre e doutor honoris causa Naná Vasconcelos.
Responsável por abrir o carnaval do Recife com o encontro de várias nações de maracatu, todas concentradas no Marco Zero do Recife Antigo, e sob a sua regência, Naná transformou o primeiro dia de carnaval em um grande ritual de passagem para a alegria e o encantamento. Com sua maneira única de se comunicar, fazia o som das alfaias ecoarem pelos quatro cantos da cidade, anunciando dias de grande alegria.
Sua forma de ensinar serviu de referência para muitos outros mestres, músicos, professores e monitores. Para os batuqueiros e componentes dos maracatus, Naná era uma espécie de pai, um xamã, pajé, griot. Um norte que os apresentava trajetos a serem percorridos através da música, e os levava, juntamente com toda aquela multidão sedenta por ouvir os toques do maracatu, a caminhos cheios de alegria, magia e paz.
Em 2016 o mestre e doutor Naná Vasconcelos deixou esse plano, com a lucidez, doçura e simplicidade de sempre, se despediu da vida fazendo o que mais gostava, transformando o silencio em arte. Diversas nações, em cortejo, se despediram do grande homem, pernambucano, negro e mágico dos sons, tocando as levadas das nações até onde foi possível tocar. A obra, no entanto, está imortalizada, assim como seu nome. Nos corações dos brasileiros, em especial dos pernambucanos, as batidas seguem com a cadência do maestro que soube como ninguém dizer ao mundo que o corpo também fala, produz sons e se comunica. Axé Naná Vasconcelos.
3.5.1 Tocar percussão cantar
Convidado a participar da gravação de uma música, juntamente com o grupo de corpos percussivos de São Paulo, Barbatuques, Naná Vasconcelos falou sobre a importância da voz e do corpo como os grandes instrumentos musicais existentes. Instrumentos que o professor pode usar em qualquer lugar, condição ou situação.
Em sua fala Naná diz que, "Começou a adaptar o corpo como um instrumento musical. Foi aí que eu comecei a pensar assim, o primeiro instrumento é a voz, e o melhor instrumento é o corpo". É importante ressaltar que Naná fala em adaptar. Para adaptar é preciso conhecer o corpo, saber onde é possível extrair sons mais graves e mais agudos. Perceber que o primeiro instrumento é a voz, mas que o melhor é o corpo faz toda a diferença na hora de produzir um determinado som. Naná conclui sua fala dizendo que: "Então eu comecei a utilizar um som
101 de corpo pra todos os instrumentos que uso. Então eu misturo o som do instrumento com um som meu". Nesse momento ele reforça que ao usar o som de um instrumento, com um som dele, ele já tem total conhecimento de onde extrair a sonoridade equivalente a um som de um instrumento convencional.
Na Escola 02, o Monitor B comentou que antes de iniciar as aulas com os instrumentos, inicia um trabalho com solfejo e uso do corpo como instrumento. Como dizia Naná, "o primeiro instrumento é a voz, mas o corpo é o melhor instrumento".
Para o Monitor B, tudo começa, "primeiro com solfejo, que é oral, e aí o solfejo, ele já vai desenhando o que a gente vai tocar, antes de ter o acesso. A parte da coordenação motora, desenvolvida antes, também, isso utilizando o próprio corpo". Preocupado em alcançar um resultado satisfatório em um curto espaço de tempo, ele diz que, "vai usando o corpo, para após usar os instrumentos. Até porque a postura, o jeito de bater... Se iniciar com o instrumento você também toma o prejuízo porque vai acabar rasgando, o barulho não vai ser a música que a gente vai produzir".
Nessa perspectiva didática o aprendizado ocorre, respectivamente, na sequência solfejo, corpo e instrumento. Acredita-se que ao cantar, e depois adaptar esse cantar para o corpo, encontrando sons, ritmos, cadências entre outros, posteriormente, quando os instrumentos são apresentados, mesmo com todo o fascínio que esse belo e rico momento propicia, fica mais fácil e prazeroso estabelecer uma relação com os objetos, a música e o espaço.
Esse momento da apresentação dos instrumentos também é ritualístico para o Monitor B. Organizados de forma circular, assim como os próprios jovens se encontram, o mestre vai tocando cada um e os apresentando aos alunos, que se encantam e estabelecem uma primeira relação de empatia com o som, os gestos e o ritmo do maracatu de baque virado.
Na Escola 01, por sua vez, o Monitor A trabalha o solfejo, reproduzindo o som das batidas, ou na marcação dos toques. Esses toques, que no maracatu é algo muito pessoal de cada nação, ajudam os alunos a identificar, por nome, a forma de executar o movimento, o ritmo e a cadência da música.
Como colocado anteriormente, o acesso imediato ao instrumento, sem o ritual de apresentação em forma de círculo, nem o conhecimento inicial do corpo, provoca certo prejuízo aos instrumentos e acessórios, pois a vontade e o desejo se apresentam com muita intensidade, somado a um público de menor faixa etária, como os alunos da Escola 01, fica mais difícil de coordenar a execução das batidas do maracatu.
102 O diretor e mestre do Maracatu Nação Pernambuco, Bernardino José, na vídeo aula 08 Toques de Maracatu. Afirma que a primeira peça do maracatu nação é formada por tarol, caixa e alfaiata. Fazendo a marcação no gonguê, ele destaca que se "trata da voz do caixa, na nossa escola, por isso a gente começa fazendo essa brincadeira, que é o caixa com a alfaiata, que são instrumentos que completam a batucada do maracatu de baque virado".
Para iniciar o toque ele usa, inicialmente, o recurso do solfejo cantando o primeiro baque,
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Solfejo Bernardino José - Maracatu Nação Pernambuco
No Maracatu Nação Pernambuco, segundo Bernardino José, a melhor maneira de apresentar os toques, é chama-los com o nome de cada dia da semana, assim podem facilitar o aprendizado e servir de referência para outras escolas de maracatu. Seu primeiro toque, por exemplo, é chamado Domingo de Congo. Os demais são: Segunda de Baque, Terça de Baque, Quarta de Baque, Quinta de Baque, Sexta de Baque, e o conhecido Parado, em homenagem a Nação do Maracatu Elefante, a Rainha Rosinete e o Mestre Roberto Nogueira. Esse último toque é oficialmente chamado Sábado Congado.
Finalmente, é importante perceber que não existe uma regra fechada para os toques do maracatu de baque virado, eles podem variar de nação para nação, e de grupo para grupo. Basta lembrar que essa é uma manifestação popular que surgiu da reação aos festejos tradicionais, coordenados pelo Estado e pela Igreja. Sendo assim, não é de se estranhar uma multiplicidade de toques, loas, danças, personagens, entre outras particularidades, que caracterizem e misturem as identidades e diferenças de cada maracatu, em seu tempo e espaço.