7. OS EFEITOS DOS INSTRUMENTOS A PARTIR DA APROPRIAÇÃO POR SEUS
7.3. Assimetrias e conflitos entre CONSAD e o CODIVAR
O CONSAD e o CODIVAR são dois instrumentos de ação pública com finalidade de promover desenvolvimento. Os atores apropriam-se e exercem dominação sobre estes instrumentos, a partir de suas próprias lógicas de atuação e interesses. A partir daí, ―territorializaram‖ o espaço do Vale do Ribeira, compondo dois territórios sobrepostos e concorrentes. São sobrepostos por serem construídos a partir do mesmo espaço delimitado pela bacia hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape – SP e concorrentes por organizarem conexões e lógicas de atuação diferentes.
Primeiramente, existem divergências entre as instâncias de governo federal e municipal, de onde se originam. O CONSAD e as políticas discutidas no interior do fórum são oriundos do aprofundamento das estratégias de desenvolvimento territorial do PT. O CODIVAR, por sua vez, vem ao longo dos anos sendo liderado por prefeitos do PSDB, em garantia à maior possibilidade de alinhamento ao governo do estado de São Paulo
O contexto em que foi criado o CODIVAR, de incentivo à descentralização e de difusão de inovações de gestão nível local, permitiram colocar em evidência os governos subnacionais, dando protagonismo aos prefeitos na possibilidade de decisões sobre políticas públicas, a partir de uma estratégia bottom up, em consonância com os ideais progressistas e municipalistas de Franco Montoro.
Já a formação do CONSAD insere-se em um contexto de definições de arcabouços normativos e de políticas, com maior controle pelo governo federal e esforço de coordenação federativa, que conduziu à ―recentralização‖ das políticas (FARAH, 2013) em uma dinâmica
top down. O CONSAD cumpriu o papel de institucionalizar ideais de participação social e
aprofundadas a partir do governo Lula por meio do CONSAD e das políticas territoriais operacionalizadas através do fórum.
Embora os objetivos de desenvolvimento sejam um aspecto em comum, setorialmente o CONSAD tinha como foco o setor da agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais e grupos alvo de fomento a projetos coletivos territorializados criados pelos atores sociais. Já o CODIVAR, ao longo de sua trajetória, passou a concentrar o poder de decisão dos municípios que fazem parte do eixo da BR-116, com aproximação de setores historicamente ligados a grandes projetos de acumulação da região, como o agronegócio da bananicultura e a mineração de areia.
O nível governamental que origina cada um dos instrumentos, o contexto de criação e os objetivos direcionados a diferentes públicos-alvo influenciaram nas diferentes regras de participação. A dinâmica da tomada de decisões e seleção de projetos prioritários no CODIVAR é descendente, já que as regras e decisões são definidas por um conselho composto exclusivamente por prefeitos e seus assessores. Essa estrutura não favorece dinâmicas inovadoras, novas aprendizagens ou a apropriação de projetos pela população, ou seja, é um espaço não permeável à sociedade civil. Este fato abre margem para divergências com outros fóruns com estrutura participativa (CALDAS e MOREIRA, 2013), como o CONSAD, em que a sociedade civil legitima processos decisórios estabelecidos em seu interior.
Estatutariamente, o consórcio foi criado sem prever a inclusão da sociedade civil, e a adequação à Lei dos Consórcios igualmente desconsidera lhe dar poder decisório. O CONSAD, por sua vez, foi erigido a partir do ideal de dar espaço de participação e foi além ao conceder poder de deliberação. Fica evidente que um instrumento não sobrevive com ideal do outro, o que determina incapacidade de cooperação e articulação e dificulta a coexistência com atuação plena dos gestores municipais nos dois espaços.
No entanto, o CONSAD progressivamente perdeu seu perfil participativo e passou a ser guiado pelos interesses das prefeituras, havendo uma assimetria desfavorável para os atores sociais. O fim dos incentivos do governo federal tornou o espaço pouco atrativo, de modo que centralizar a articulação no CODIVAR fez mais sentido para o poder público municipal. Assim, os aspectos de dinâmica política do Vale do Ribeira que dependem do poder de decisão das prefeituras passaram a ser discutidos por meio do CODIVAR e do
CONSAUDE (em assuntos pertinentes à saúde), espaços restritos de tomada de decisão dos prefeitos.
É relevante pontuar também que diante da hegemonia do PSDB no Vale do Ribeira94, o governo federal (PT) utilizou-se da estratégia territorial como tentativa de aproximação do eleitorado local, um espaço que tradicionalmente sempre teve maior influência do governo estadual (e portanto do PMDB e do PSDB). Este, por sua vez, não realizou adesão às propostas territoriais do governo federal, o que limitou os alcances das políticas.
Além deste quadro geral que explica as divergências existentes entre CONSAD e CODIVAR, existiram questões pontuais que deram origem a desacordos. Uma delas refere-se ao SUASA (Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária), que consiste em um sistema de inspeção unificado e integrado pela União, estados e municípios. Os produtos inspecionados por qualquer instância do sistema SUASA podem ser comercializados em todo o território nacional. O sistema95 permite a legalização e implementação de novas agroindústrias, facilitando a comercialização dos produtos industrializados no mercado formal (BRASIL, MDA, s.d.).
A adesão ao SUASA pode ocorrer de forma individual por parte dos municípios, ou de forma coletiva por meio de consórcios intermunicipais. A vantagem de aderir via consórcio está na possibilidade de estruturar o serviço por contrato de programa, com rateio dos custos entre os municípios integrantes. O serviço demanda uma estrutura que inclui equipe técnica de inspeção, veículo, computador, telefone e sala de trabalho, podendo ser a mesma para todos os municípios que fazem parte do consórcio (BRASIL, MDA, s.d.).
A possibilidade de implementação do SUASA no Vale do Ribeira foi discutida pelo CONSAD, que propunha a formação de um novo consórcio para execução das atividades do
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O PT consegue se inserir nos governos municipais do Vale do Ribeira apenas a partir das eleições de 2004, quando elegeu três prefeitos; na eleição de 2008 elegeu cinco prefeitos; na eleição de 2012 elegeu três. Em compensação, PMDB e PSDB (partido formado a partir de dissidentes do PMDB) elegeram juntos: em 2004 quatorze prefeitos; em 2008 sete prefeitos; em 2012 onze prefeitos (SEADE, s.d).
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O SUASA permite a legalização e implementação de novas agroindústrias, facilitando a comercialização dos produtos industrializados no mercado formal. Outra vantagem é facilitar o acesso ao crédito do PRONAF para investimento em agroindustrialização, permitindo que a legalização sanitária dos empreendimentos agroindustriais seja feita no próprio município onde será instalada a unidade de inspeção. Além disso, estar regularizado facilita o acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao mercado da alimentação escolar (BRASIL, MDA, s.d.).
sistema de inspeção; o CONSAD prestaria suporte e assessoria a este novo consórcio. O CODIVAR, por sua vez, considerou esta iniciativa irregular, por se tratar da criação de outro consórcio com identidade muito semelhante à sua própria estrutura. O CODIVAR tem a pretensão de fazer com que a questão seja conduzida no interior de sua Câmara Temática de Meio Ambiente. Este embate acirrou a percepção dos atores sobre o tom partidário da discussão sobre este tema: enquanto o CODIVAR enxergava no CONSAD a tentativa de tornar o SUASA uma iniciativa de prestígio do governo federal, o CONSAD acreditava que o CODIVAR tinha intenção de posse do projeto para exclusão da sociedade civil do processo decisório. O desfecho do desentendimento foi a não efetivação do SUASA por nenhuma das partes envolvidas.
Outra questão pontual deu-se a partir da consolidação da câmara técnica de turismo do CONSAD, que havia realizado um plano participativo de turismo para a região, com capacidade de mobilização de diversidade de atores. Foi realizado com apoio da Escola Técnica de Iguape (ETEC IGUAPE), de profissionais de turismo, das diretorias de turismo de alguns municípios e do SEBRAE. No entanto, atores participantes do processo argumentam que o SEBRAE teve iniciativa de apresentar o projeto para o CODIVAR, visando apoio mais abrangente dos prefeitos, mas acabou havendo uma migração da discussão para o consórcio. A câmara do CONSAD perdeu sua força e a do CODIVAR assumiu a liderança da discussão sobre o turismo regional. Na visão do Entrevistado E, o CODIVAR tomou posse da câmara de turismo.