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Associação entre os Componentes de Vulnerabilidade e os desfechos adversos de Saúde

Programática

6.5 Associação entre os Componentes de Vulnerabilidade e os desfechos adversos de Saúde

No que se refere à associação entre o componente social e os desfechos de saúde, verificou-se que residir em contexto de vulnerabilidade social associou-se às dependências para ABVD e para AIVD, independentemente das variáveis idade, sexo e dos demais componentes (individual e programática). De maneira semelhante, estudo longitudinal multicêntrico com 18289 adultos e idosos comunitários (50 anos ou mais) em diferentes países da Europa, os autores identificaram associação da elevada vulnerabilidade social com a incapacidade funcional (OR = 1,36, 95% CI = 1,15-1,62), mesmo após o ajuste para idade, sexo, incapacidade funcional na linha de base e nível de fragilidade física.

Outro desfecho adverso de saúde associado com elevada/muito elevada e média vulnerabilidade social, na pesquisa em questão, foi a autopercepção negativa de saúde. Este resultado coincide com estudo realizado no município de São Paulo com 917 adultos e idosos, em que a maior prevalência de autopercepção de saúde foi regular ou ruim nas pessoas que viviam em áreas de vulnerabilidade social (OR = 1,75; IC = 1,13-2,70), permanecendo associada ainda após o ajuste para outras variáveis (BARATA; RIBEIRO; CASSANTI et al., 2011).

Em relação às evidências internacionais, os achados do presente estudo foram parcialmente corroborantes, em virtude das diferenças de mensuração do aspecto social (ALMEIDA et al., 2012; FERNANDEZ-MARTINEZ et al., 2012). Na Austrália, estudo de coorte com uma amostra de 21417 indivíduos, os pesquisadores identificaram que idosos em situação de mais elevada desvantagem socioeconômica apresentaram regular/pior autopercepção de saúde (z = 10,31, p < 0.001) (ALMEIDA et al., 2012). Consubstancialmente, pesquisa desenvolvida com uma amostra representativa de 1106 idosos na Espanha, Fernandez-Martinez et al., (2012) verificaram que aqueles com alto (OR= 2,7; IC = 1,5 - 4,7) e moderado (OR = 1,8; IC 1,1 – 2,8) rendimento tiveram maiores chances de autopercepção positiva da saúde quando comparados aos de baixa renda.

Não há controvérsia sobre o fato de que viver em ambientes mais vulneráveis socialmente pode influenciar na ocorrência de desfechos adversos à saúde na população idosa (ANDREW et al., 2012). Vários são os mecanismos que

pode estar relacionado a uma maior suscetibilidade aos estressores por parte de idosos residentes em contexto de pobreza em virtude da exclusão social, perda da autonomia, baixa qualidade de vida e ausência de cuidados à saúde (WALLECE et al., 2015). Outra explicação pode ser a maior exposição dos indivíduos com menores níveis socioeconômicos a comportamentos não saudáveis no decorrer da vida (BARATA; RIBEIRO; CASSANTI, 2011).

Para além da compreensão da vulnerabilidade social, a fragilidade física é considerada um importante marcador fisiológico de vulnerabilidade individual (FRIED et al., 2001) para ocorrência de desfechos adversos. Em particular, verificou-se, nesta pesquisa, associação da condição de fragilidade com a ocorrência de quedas, hospitalização, dependências para ABVD e para AIVD, autopercepção negativa de saúde (péssima/má e moderada) e maior número de morbidades, com efeito independente das variáveis idade, sexo e dos demais componentes (individual e programática).

Na literatura gerontológica, inúmeros estudos de base populacional com idosos comunitários, utilizando diferentes conceitos operacionais, têm ratificado a associação da fragilidade física com os seguintes desfechos adversos: ocorrência de quedas (FRIED et al., 2001; VIEIRA et al., 2013), hospitalização (FABRÍCIO-WHEBE et al., 2016; FRIED et al., 2001; GONZALEZ et al., 2012; VIEIRA et al., 2013), dependência/incapacidade funcional (BILOTTA et al., 2010; FHON et al., 2012; FRIED et al., 2001; GOBBES et al., 2012; GONZALEZ et al., 2012; VIEIRA et al., 2013), autopercepção negativa de saúde (AMARAL et al., 2013) e maior número de morbidades (FABRÍCIO-WEHBE et al., 2016; FRIED et al., 2001; WONG et al., 2010).

A vulnerabilidade biológica diante dos estressores, descrita na própria definição de fragilidade física (FRIED et al, 2001), suporta os achados dessas investigações. Tendo em vista que a fragilidade é reversível (FRIED et al, 2001), tais resultados expressam a necessidade de propor um plano de cuidado aos idosos frágeis, de modo a reverter essa condição, ou, então, minimizar seus efeitos adversos (BARRETO; GREIG; FERRANDEZ, 2012; WALSTON et al., 2006).

Vale ressaltar que os achados da presente pesquisa constataram que a pré-fragilidade se associou apenas ao desfecho autopercepção negativa de saúde, corroborando a hipótese de que essa condição representa um estágio clínico

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intermediário da fragilidade (FRIED et al., 2001).

Sob essa perspectiva, as ações iniciais têm maior potencial quando a fragilidade não está instalada (ESPINOZA; JUNG; HAZUDA, 2012), o que torna fundamental o rastreio precoce dessa síndrome (BARRETO; GREIG; FERRANDEZ, 2012) pelos profissionais de saúde, especialmente nos idosos com mais de 70 anos (MORLEY et al., 2013).

Entretanto, verifica-se ausência de capacitação dos profissionais de saúde para lidar com as especificidades das pessoas que estão na etapa do envelhecimento. Além disso, os serviços de saúde não oferecem uma assistência qualificada aos idosos, bem como não há programas de acompanhamento direcionados à situação de fragilidade (STHAL; BERT; PALHARES, 2010).

Em termos de políticas públicas específicas a essa população, observa-se que, embora tenham ocorrido avanços do ponto de vista legal, a aplicação de programas na prática ainda representa um desafio, configurando-se enquanto elemento da vulnerabilidade programática (AYRES, 2009; AYRES; PAIVA; FRANÇA JR, 2010; STHAL; BERT; PALHARES, 2010).

No que diz respeito à associação deste componente com os desfechos adversos de saúde, obteve-se, neste estudo, que os maiores escores de vulnerabilidade programática associaram-se ao maior número de morbidades, ou seja, o menor acesso e utilização do idoso aos serviços de saúde eleva as chances de apresentarem mais doenças.

Infere-se que a baixa acessibilidade e uso dos serviços de saúde pelos idosos possivelmente influencia na adesão ao tratamento e controle de morbidades (MENDES et al., 2012), no acesso aos medicamentos (AZIZ et al., 2011) e as medidas preventivas (FRANCISCO; BARROS; CORDEIRO, 2001), além de reduzir a possibilidade de diagnóstico precoce de doenças (TAVARES et al., 2016).

Os achados anteriormente citados sustentam as contribuições de Ayres e colaboradores, na medida em que permitem inferir que as instituições de saúde estão diretamente relacionadas com os processos saúde-doença em virtude da sua acessibilidade e organização técnica. Dessa forma, os serviços de saúde ora são considerados soluções para os problemas, ora representam parte dos mesmos (AYRES; PAIVA; FRANÇA JR, 2010).

Apesar disso, observa-se, ainda, que as investigações sobre os temas relativos à vulnerabilidade e ao processo de envelhecimento têm focado na relação

e/ou condições socioeconômicas desfavoráveis (ANDREW et al., 2012; ANDREW; MITNITSKI; ROCKWOOD, 2008; ANDREW, ROCKWOOD, 2010; ARMSTRONG et al., 2015a; ARMSTRONG et al., 2015b; SHEGA et al., 2012; WALLACE et al., 2015; ZAZZETTA et al., 2016; YANG; GU; MITNITSKI, 20016), não incluindo a perspectiva programática da vulnerabilidade.

A vulnerabilidade, nesse aspecto, pode fomentar representações negativas da velhice e, por conseguinte, impor barreiras na busca por respostas sociais diante de necessidades inerentes ao processo de envelhecimento (BROCKLEHURST; LAURENSON, 2008). Por essas razões, a ideia subjacente ao conceito de vulnerabilidade precisa ser desmistificada enfatizando a importância de ofertar oportunidades equitativas de recursos sociais e de saúde para a população idosa com intuito de assegurar a justiça social.