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ASSOCIATIVISMO/COOPERATIVISMO Cooperativismo

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II ECONOMIA SOLIDÁRIA NO BRASIL

II.1 ECONOMIA SOLIDÁRIA A PARTIR DE SUAS INICIATIVAS

II.1.1 ASSOCIATIVISMO/COOPERATIVISMO Cooperativismo

Para o FBES e SENAES a autogestão é o exercício de práticas participativas de autogestão nos processos de trabalho, assim como nas definições estratégicas e diárias dos atores da economia solidária; sendo determinante para a direção e coordenação das ações nos seus diversos graus e interesses (MTE; SENAES; SIES, 2006).

A partir do levantamento de elementos tidos como centrais quando da análise de práticas e propostas da economia solidária oportuniza-se a apresentação das iniciativas mais expressivas da economia solidária brasileira.

II.1.1 ASSOCIATIVISMO/COOPERATIVISMO - Cooperativismo

Data de 1844 a primeira cooperativa formalmente constituída, uma cooperativa de consumo criada por trabalhadores de Rochdale, na região de Lancaster, na Inglaterra (RECH, 1995). Os chamados "Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale" estabeleceram princípios que passaram a referenciar o cooperativismo em todo mundo.

30 Falanstérios eram colônias socialistas agroindustriais onde todos integrantes desempenhariam suas tarefas em proveito da comunidade, segundo o plano de Charles Fourier.

A Sociedade dos Probos orientou a estrutura e o funcionamento da Associação Cooperativa Internacional - ACI, respectivamente em 1937 e em 1966 quando de seus congressos internacionais.

Pode-se elencar os princípios herdados do modelo pioneiro inglês - seriam seis, os quais foram, posteriormente, acrescidos de mais dois pela ACI, totalizando oito princípios, quais sejam: livre acesso e adesão voluntária; controle, organização e gestão democrática; juros limitados ao capital; distribuição dos excedentes ou das sobras para o desenvolvimento da cooperativa para os serviços comuns e entre os sócios na proporção de suas operações; constituição de um fundo para a educação entre os membros; cooperação entre as cooperativas em âmbito local, nacional e internacional; aspiração de conquista ou expansão constante; autonomia (RECH, 1995).

Logo, pode afirmar que as cooperativas são empresas privadas de gestão coletiva. Os proprietários são também os gestores e os usuários. Presno advoga que “em princípio, a contribuição dos sociais na forma de fator de produção capital não é a chave para se entender a lógica das cooperativas;” é o seu trabalho e/ou fidelidade à cooperativa o que conta”, sendo ainda doutrinas delas um dos determinantes da sua ´perfomance` (PRESNO, 2001).

Para os chamados socialistas utópicos a cooperativa era um dos caminhos para uma outra ordem social e econômica. Segundo Cole, cerca da metade dos pioneiros de Rochdale vinham de uma corrente do movimento socialista orquestrado pelo inglês Robert Owen: “podemos afirmar, portanto, que Rochdale é fruto da decepção de uma parte de owenistas com o seu líder.” (COLE, 1944).

O papel das cooperativas nos países socialistas foi muito exaltado, particularmente em meio à exploração dos trabalhadores do campo. Segundo Engels:

“Nosso dever para o pequeno camponês é, em primeiro lugar, o de fazer passar sua propriedade e a sua exploração individual à exploração cooperativa.” (ENGELS, 1894)

No entanto, mesmo Marx se mostrou reticente em relação à prática cooperativa a qual não deveria prescindir de um projeto maior que fosse capaz de fazer frente à dinâmica dos monopólios do sistema capitalista, uma vez que:

“.... enquanto permanecer limitada a um círculo reduzido, enquanto apenas alguns operários se esforçarem, (...) a cooperação dos trabalhadores não será capaz de libertar as massas, nem mesmo aliviar de modo sensível o fardo de sua miséria (MARX, 1864) 31”.

Vale dizer, que está presente, para alguns autores, a relação do cooperativismo com o socialismo no novo contexto, onde a economia solidária emergiu. Em um de seus livros “Uma utopia militante - repensando o socialismo”, é analisada a questão acerca da implantação de cooperativas e de outras instituições de cunho socialista em um processo que poderia vir a desembocar em uma revolução social-socialista32 (SINGER, 1998).

Já para Reginaldo Magalhães, então secretário executivo da Agência de Desenvolvimento Solidário da Central Única dos Trabalhadores – ADS/CUT, o cooperativismo brasileiro já tem uma história de quase um século, tendo estado pouco vinculado a um projeto socialista de sociedade. Magalhães acredita que “a esquerda brasileira, em raros momentos, encontrou no cooperativismo um papel revolucionário. Precisamente, apenas no início do movimento operário brasileiro, sindicatos e cooperativas se encontraram unidos em um mesmo projeto político.” (CUT, 2006)33.

Para Quijano, o cooperativismo só sobreviveu à avalanche34 às custas de fortes

adaptações, tendo sido protegido na Europa pela social-democracia européia e por correntes democráticas nacionalistas contra a aliança oligárquico-imperialista na Ásia e na América Latina. Quando estas lutas foram reduzidas às reformas do sistema capitalista, o cooperativismo também teria sido vinculado à concepção e à prática reformistas, ficando à margem dos projetos “revolucionários”. Fato que, para Quijano, dava certa razão à Marx para quem o cooperativismo não era em si uma alternativa, mas um relevante suporte à auto- educação dos trabalhadores na época de se reapropriarem do controle do seu trabalho contra o despotismo do capital (QUIJANO, 2002: 479).

31 Discurso em 1864 durante o congresso da associação internacional do trabalho; mimeo. 32 SINGER, Paul “Uma utopia militante: repensando o socialismo”. Vozes, Petrópolis, 1998.

33 Vale lembrar de que a história do cooperativismo no Brasil remonta o cooperativismo rural controlado por grandes produtores voltados à exportação de produtos primários, tendo sido tutelado pelo Estado e incorporado, inicialmente, grande parcela da produção da agricultura familiar. Embora aqueles produtores, em sua maioria representados pela Organização das Cooperativas do Brasil - OCB, mantivessem um discurso que valorizava os princípios da autogestão, sua gestão de fato era centralizada e de caráter empresarial.

34 Quijano refere-se á derrocada dos projetos revolucionários anti-capitalistas, particularmente como a “desintegração do bloco socialista europeu em 1989”. (QUIJANO, 2002: 479)

Como não deveria deixar de ser, a história do cooperativismo acompanhou a dinâmica do mundo do trabalho, notadamente das várias facetas do capitalismo ao longo da história. A competição, força-motriz daquele sistema, pressionou sobremaneira as formas cooperativistas mais genuínas que tiveram vez no seio da Revolução Industrial inglesa.

João Roberto Lopes Pinto advoga que a evolução das diferentes formas de cooperativismo variou no tempo e no espaço. De um lado, segundo ele, a competição capitalista, particularmente no pós-guerra, fez surgir uma tendência de recuo dos experimentos cooperativos, descaracterizando-os pela incidência de cooperativas com elevado grau de burocratização e até de relações de assalariamento. No entanto, foi em meio à crise do último quartel do século XX, que houve um resgate do sentido da “solidariedade democrática” em velhas ou novas formas de empreendimento associado. Lopes argumenta ainda que, por outro lado, conforme o ambiente nacional, observa-se tipos de empreendimentos coletivos mais incidentes (LOPES PINTO, 2004: 15).

Para Oliveira (2003), existem de modo claro, pelo menos três grandes correntes analíticas do cooperativismo, quais sejam:

“1) que ele representa um fim em si – defendida pela maioria dos integrantes do sistema liderado internacionalmente pela Aliança Internacional Cooperativista; 2) que ele é um instrumento para reforçar os princípios liberais – representada por líderes cooperativistas das chamadas cooperativas agropecuárias brasileiras, por exemplo; e,

3) que ele é um instrumento para negar a ordem liberal e servir como fundamento para a construção de fontes alternativas aos efeitos negativos causados pelo capitalismo globalizado (op cit: 62).”

Seria a última citada a variante que mais se aproximaria do chamado cooperativismo popular, segundo o qual Oliveira pressupõe aproximar-se do exercício dos princípios fundamentais da cooperação, da prática da autogestão e da busca da composição de alianças estratégicas contra a pobreza e a exclusão social; assim como diz tratar-se de um tipo de cooperativismo que se aproxima de uma certa articulação com os movimentos de luta pelo exercício fundamental da cidadania (idem: 63).

Sobre cooperativismo popular35, requer-se apresentar a definição adotada pela

Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – ITCPs, a saber:

” ... é uma releitura da ideologia cooperativista, criada no século XIX, na Europa, em defesa de um modelo de produção e de sociedade que se contrapõe à exploração do modelo capitalista. Tal como o cooperativismo, que surgiu em conseqüência da revolução industrial, seu desenvolvimento ocorre, no Brasil, nos anos 1990, em resposta ao modelo econômico então implantado - terceira revolução. Nesse contexto, buscou-se promover a mobilização e a formação de lideranças para gerar trabalho e renda e possibilitar a transformação da realidade social excludente. O que diferencia as Cooperativas Populares de outras experiências de organização sócio-econômica cooperativista é fundamentalmente a situação de exclusão vivenciada por seus associados, assim como a predominância de um modelo de gestão democrático e participativo, mais voltado para o bem comum do que para o lucro (ITCP, 2005).”

As ITCPs entendem o cooperativismo popular mais do que um modelo de organização econômica para subsistência, tratando-se de um movimento de luta de trabalhadores para a transformação da realidade e construção de um modelo de desenvolvimento que combata as causas estruturais da pobreza.

Vale apresentar ainda a definição adotada pelo Fórum de Desenvolvimento do Cooperativismo Popular do Rio de Janeiro – FCP36, articulação política que existe desde

1996, através da qual este conceito se diferencia em absoluto “do cooperativismo que vem sendo praticado por grupos econômicos cujo interesse principal é escapar de suas responsabilidades fiscais e trabalhistas e cuja conseqüência imediata é o agravamento da crise do desemprego e precarização das relações de trabalho” (FCP, 2006).

Na Carta de Princípios do Fórum de Cooperativismo pode-se destacar:

“Assim, o cooperativismo popular surge como alternativa baseada em valores comprometidos com outra cultura econômica e com a formação integral da cidadã e do cidadão, para que busque sua inserção no mercado de trabalho e/ou outras formas emancipadas de relações econômicas. Dessa forma, não admitimos a reprodução de práticas de administração que não estejam coadunadas com os princípios de autogestão que compreendemos como a capacidade de tomar decisões e manejar o próprio desenvolvimento, como pessoa, iniciativa e sociedade (FCP, 2006).”

Coelho entende que a cooperativismo popular, enquanto movimento por uma organização das cadeias produtivas, rompeu com o modelo rígido do cooperativismo clássico; abrindo caminho para novos modelos dos qual resultou a idéia de uma economia solidária, ultrapassando o outrora cooperativismo servil de base rural (COELHO, 2006:3).

Do ponto de visto normativo, são vários tipos de cooperativas no Brasil, sendo as mais conhecidas: de crédito, de consumo, agrárias, de trabalho, de pesca, habitacionais, escolares, eletrificação rural37 (RECH, 1995).

Vale salientar que a maioria das chamadas cooperativas fraudulentas se caracteriza como de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho – OIT (OIT, 2002) aprovou uma moção através da qual se comprometeu a fazer um cerco a elas, por entenderem que violam os direitos trabalhistas.

Tais cooperativas, também chamadas pejorativamente de coopergatos, são normalmente constituídas por empregadores e intermediários de mão-de-obra, que utilizam a forma legal de uma cooperativa para esconder uma relação de subordinação e precarização dos direitos do trabalhador.

Antes da criação do SIES, era praticamente impossível ter alguma estatística oficial das iniciativas que compõem a economia solidária no Brasil, a não ser dos números do cooperativismo “oficial” que a Organização das Cooperativas do Brasil – OCB detém o poder de registro até o presente momento. Tais dados afirmam a existência de cerca de 8 mil cooperativas, classificadas por treze categorias, como apresentado na Tabela 1, a seguir.

TABELA 1, COOPERATIVISMO DO BRASIL POR RAMO DE ATIVIDADE

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