4. PARTICIPAR PARA MUDAR E MUDANDO PARA PARTICIPAR
4.1 O SENTIDO DA PARTICIPAÇÃO
4.1.1 Assumindo compromissos
Para Freire (1988, p. 15) “o compromisso seria uma palavra oca, uma abstração, se não envolvesse a decisão lúcida e profunda de quem o assume”. Por isso, comenta que a primeira condição para se assumir um compromisso está na capacidade de se agir e refletir, ou seja, na sua consciência de estar no e com o mundo, ou melhor, a práxis humana. Nesse sentido, a participação das crianças esteve atrelada a um processo de conscientização52, que iniciou em torno do próprio lazer, pois este nem sempre era visto como um compromisso. Um compromisso, não no sentido de que eles foram obrigados a freqüentar todas as aulas, mas, que a sua ausência não fosse justificada pelo esquecimento: Esqueci da escolinha, professor! (Kleberson).
Fruto da falta de oportunidade de lazer, aquele esquecimento trazia outros problemas. Na quadra não havia uma fonte (torneira) de água, por isso, desde os primeiros dias procuramos estimular as crianças a se responsabilizarem por levar água para a próxima aula. Embora sempre houvesse dois ou três que se manifestassem para assim procederem, na prática isso não vinha ocorrendo. No início, os “responsáveis” chegavam atrasados, faltavam ou, pior que isso, alegavam o esquecimento. Assim, como as aulas desenvolviam-se num período de muito calor, constantemente as aulas tinham que ser interrompidas para as crianças procurarem as residências próximas para pedir água.
A solução para isso foi a compra de uma garrafa térmica (pelo pesquisador). Com ela, a proposição de que a cada final de aula, num sistema de rodízio, uma criança levaria a garrafa para sua casa e na próxima aula teria o compromisso de trazer esta garrafa (com água), servindo para saciar a sede dos companheiros. Caso a criança a esquecesse, não haveria aula, ao menos que todos juntos fôssemos até a residência desta criança buscar a garrafa. Também estabelecemos que se a criança no determinado dia que fosse responsável pela garrafa e, caso não pudesse freqüentar a aula, ela teria que procurar uma outra criança (da escolinha) e pedir sua colaboração para a tarefa. E foi nessa lógica que as crianças assumiram o primeiro e importante compromisso com a escolinha, não deixar que a falta de água atrapalhasse o seu desenvolvimento. A figura 7 demonstra um dos momentos em que as crianças fazem uma pausa para beber a água levada na “vermelha” (denominação dada à garrafa por elas).
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A conscientização é um processo de ação-reflexão da realidade, que não terminará jamais. Apresentando-se “como um processo num determinado momento, deve continuar sendo processo no momento seguinte, durante o qual a realidade transformada mostra um novo perfil” (FREIRE, 2005, p. 31).
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Figura 7. Pausa para beber água
Esse compromisso com a água também teve finalidade educativa, pois a água que elas trariam, deveria ser potável. Assim, eram estimuladas a observar como era o sistema de água nas suas residências (descobrir se havia e qual o tipo de encanamento; se havia caixa d’água etc.) e, a partir daí, é que poderiam se responsabilizar pela água. Isso porque a intenção da escolinha era proporcionar uma prática de lazer para a saúde e, dessa forma, evitar que águas impróprias fossem consumidas pelas crianças. Felizmente, todas as residências contam com sistema de água encanada e, dessa forma, sem exceção, todas crianças puderam assumir este compromisso. Este compromisso, talvez mascarado pelo desejo das crianças colaborar não com as aulas, mas com o educador-investigador, era tão marcante que mesmo antes do final das aulas, éramos procurados pelas crianças a fim de dizermos quem levaria a garrafa ou então para autorizar para que a levassem. Curiosamente, esta garrafa também foi levada na visita à Casa de Cultura de Irati, na viagem para Curitiba e no evento promovido pelo Departamento de Esporte e Lazer de Irati em que participaram. Enfim, virou nossa companheira de todas as horas.
Além disso, diante do período de estiagem, o município de Irati encontrava-se numa campanha de racionamento de água e diariamente a população recebia recomendações para evitar seu desperdício. Aderindo à campanha, enquanto uma criança assumia o compromisso de levar água para a aula, as outras deviam evitar seu desperdício. Conforme se observou na figura anterior, as crianças bebiam a água através do copinho que acompanhava a garrafa, com todos esperando sua vez de beber. Para isso, utilizamo-nos do processo de conscientização de que a água, um bem nacional de uso público (ZAPATTA, 2005), seria tão mais necessário, e vital, que o petróleo. Por isso, todos teriam o compromisso de vigiar “as
ações produtivas que possam impactar de forma negativa” (CAMPAÑA, 1997, p. 147), pois, sem água, não haverá lazer, saúde e, muito menos, condições do ser humano viver.
Outro fato relacionado ao assumir compromissos, diz respeito à Copa do Mundo da Alemanha, quando por ocasião de um jogo da Copa do Mundo da Alemanha, entre Brasil e Japão, coletivamente organizamos uma reunião para que todos juntos (crianças e pesquisador) assistissem ao jogo. Uma criança ficou responsável por pedir autorização para seus pais se a reunião poderia ser na sua residência, o que foi concedido; uma outra ficou responsável por providenciar uma extensão elétrica, para que, se necessário, a televisão fosse levada para fora da residência; outras duas se comprometeram a levar um banco (cada uma) para que todos pudessem assistir ao jogo sentados; quanto às demais e o pesquisador, ficaram responsáveis por levar um suco/refrigerante e a pipoca. Para comemorar que cada um cumpriu com sua responsabilidade, um brinde foi proposto, conforme se observa na figura 8.
Figura 8. Um brinde à organização coletiva
Assim, ao longo das aulas procuramos evidenciar que pela união das pessoas aumenta- se consideravelmente a chance de êxito naquilo que se propunha, principalmente, se pensarmos nas reivindicações proporcionadas pela escolinha, ainda que até o momento nenhuma tenha sido concretizada. A exemplo da forma com que Demo (1996) se refere à participação, Mascarenhas (2005) se reporta à lazerania, isto é, como uma conquista. Anuncia que isso não é “tarefa para uma única pessoa, nem para duas e nem para três. É um desafio que precisa envolver os diferentes atores e forças socialmente comprometidas que interagem direta ou indiretamente com o lazer” (p. 250-1). Quanto mais consciente e coletivo o envolvimento, maior é a possibilidade de se obter melhorias de fato para o bairro.
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