2.14. Problemas associados à qualidade do milho
2.14.2. Ataques de fungos
Segundo PONT et al. (1989), os cereais e algumas outras matérias - primas de rações apresentam, naturalmente, altas cargas de bactérias, leveduras e fungos. Esta carga microbiana prolifera por deficiências do sistema de armazenamento, ataque de insetos e roedores, danos à integridade dos grãos durante a colheita, transporte e beneficiamento, e fatores como temperatura e umidade. A predominância de desenvolvimento, nas condições em que as matérias -primas são armazenadas, é de fungos e leveduras, já que as bactérias normalmente se multiplicam quando a umidade do substrato é muito alta.
A destruição dos grãos pode ocorrer antes ou após a colheita, causado por fungos de campo e de armazenamento, respectivamente. Existem, ainda, os chamados fungos intermediários, que contaminam os grãos antes da colheita, mas se desenvolvem na fase de armazenamento.
A identificação de grãos atacados ou danificados por fungos é o passo inicial e mais importante na compra e recebimento do produto. A presença de poucos grãos de milho com aparência de terem sido danificados por fungos é indício de que o lote, inteiro ou parte dele, apresentou problemas durante a maturação, colheita, secagem ou armazenamento e suporta a necessidade de melhor avaliação do lote, que se inicia com uma amostragem mais completa e análise mais criteriosa.
A contaminação fúngica das matérias-primas causa danos como: alterações físicas e organolépticas, como descoloração do gérmen e outras partes dos grãos, alterações características de odor e palatabilidade, emboloramento, fermentação e apodrecimento, parcial ou completo; redução de
peso, decorrente da ação dos fungos sobre a matéria seca, principalmente lipídeos, que causa diminuição de seu teor energético e de seu valor nutricional; e, contaminação com toxinas fúngicas, as micotoxinas.
A ingestão de micotoxinas, através do uso de ingredientes e rações contaminados pode causar alterações no metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídeos, que resultam em perdas de desempenho produtivo como redução de ganho de peso, piora da conversão alimentar e diminuição nas taxas de proteína (HSIEH, 1979; PONT et al., 1989).
A ação das micotoxinas também causa alterações nos mecanismos de imunogênese e de resistência às enfermidades, que resultam em menor eficiência de anticoccidianos, antibióticos e vacinas, redução da imunidade, maior susceptibilidade às doenças, aumento de problemas reprodutivos e aumento da mortalidade (PIER et al., 1979; PONT et al., 1989).
Segundo SANTÚRIO (1997), as aflatoxinas, a ocratoxina e a zearalenona são consideradas as toxinas que mais ocorrem em grãos e o milho e o amendoim os ingredientes que apresentam maior contaminação por micotoxinas.
Aproximadamente 25% do milho produzido no Brasil está contaminado com aflatoxinas, principalmente na região sul do país. Deste m ontante, estima- se que 15% estejam contaminados com níveis superiores a 20 ppb, suficientes para prejudicar de forma significativa, o desempenho de aves e suínos (SANTÚRIO, 1996).
A infestação fúngica e a produção de toxinas em cereais podem ocorrer em qualquer ponto da cadeia de produção, como na lavoura, colheita, processamento e armazenamento. Ataques de insetos, ainda no campo, atraso na colheita e danos mecânicos afetam a integridade dos grãos e proporcionam condições favoráveis ao desenvolvimento dos fungos, podendo acelerar a deterioração do produto armazenado (SANTÚRIO, 1996; KRABBE, 1999).
A melhor forma de impedir as perdas nutricionais e a produção de micotoxinas está no controle de crescimento dos fungos, pelo controle das matérias-primas da cultura ao armazenamento (SANTIN, 2000).
Segundo KRABBE (1999), alterações no conteúdo de lipídeos do milho, de 1%, que corresponderiam a uma perda aproximada de 27% de seu teor lipídico total, podem representar reduções de 1,7% na conversão alimentar de suínos e frangos de corte em crescimento.
KRABBE et al. (1994a) conduziram um experimento com o objetivo de estudar os efeitos do armazenamento, por 62 dias, em diferentes níveis de umidade, e do uso de antifúngicos sobre os teores de gordura bruta e a densidade do milho. Os grãos armazenados com alto teor de umidade ou com a utilização de antifúngicos no final do armazenamento tiveram redução significativa de seus teores de gordura bruta e densidade, causados pela ação dos fungos e os autores concluíram que, sob condições favoráveis, o desenvolvimento de fungos em grãos de milho armazenados resulta em perda de sua qualidade, que podem ser evitadas pela utilização de substâncias antifúngicas, como o ácido propiônico.
KRABBE et al. (1994b) conduziram um experimento utilizando frangos de corte de 1 a 19 dias de idade, com o objetivo de avaliar o desempenho dos animais alimentados com rações elaboradas a partir de grãos de milho armazenados sob diferentes condições de umidade, com a utilização ou não de agentes antifúngicos. Foram avaliados, também, características morfológicas de tecidos das aves. O ganho de peso, o consumo de ração, a conversão alimentar, os peso da carcaça, fígado e coração e as relações fígado: carcaça e coração: carcaça, não diferiram entre si, para os diversos tratamentos utilizados. Os autores concluíram que, apesar da presença dos fungos ter reduzido a qualidade nutricional dos grãos, não foram verificadas diferenças significativas no desempenho das aves.
Com o objetivo de estudar o efeito de um produto antifúngico comercial, como inibidor do desenvolvimento de fungos em grãos armazenados com diferentes níveis de umidade, KRABBE et al. (1995a) conduziram um experimento em que avaliaram o peso específico e os teores de proteína e gordura brutas de grãos armazenados por até 60 dias. Foram verificadas
reduções nos teores de gordura bruta e no peso específico dos grãos armazenados sem a utilização do produto comercial, nos diferentes teores de umidade de armazenamento. Os autores concluíram que o produto comercial avaliado foi efetivo no controle da atividade fúngica, em grãos armazenados com 15 e 17% de umidade.
KRABBE et al. (1995b) conduziram um experimento para determinar os valores de energia metabolizável aparente, corrigida pelo balanço de nitrogênio, para frangos de corte, de grãos de milho armazenados sob diferentes condições de umidade, com ou sem a utilização de agentes antifúngicos. Foram utilizados dois grupos de frangos de corte, mantidos em gaiolas metabólicas. O primeiro grupo foi alimentado de 1 a 21 dias com dieta sem atividade fúngica e isenta de micotoxinas e o segundo grupo foi alimentado com dietas elaboradas com o mesmo milho utilizado para a determinação de EMAn, armazenado sob diferentes condições, por 60 dias. Os valores de EMAn do milho, determinados no primeiro grupo de aves não diferiram estatisticamente. No entanto, a EMAn do milho armazenado a 12% de umidade foi 175 Kcal/kg, na base da matéria seca, menor que o do milho armazenado com 18% de umidade. No segundo grupo de aves, que representava o efeito cumulativo de rações contendo fungos foram observadas diferenças significativas nos valores de EMAn, que chegaram a, aproximadamente, 800 Kcal/kg de matéria seca, entre os milhos armazenados com 12 e 18% de umidade. Os autores concluíram que os animais alimentados com milho atacado por fungos tiveram um menor aproveitamento da fração energética dos grãos, provavelmente por algum comprometimento do sistema digestivo.
Resultados diferentes foram obtidos por JOST et al. (1996), que não encontraram diferenças significativas dos valores de EMAn, determinados em frangos de corte, de grãos de milho armazenados com 17,5% de umidade, com ou sem a adição de ácidos orgânicos.