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2.3 Grandes empreendimentos e atingidos

2.3.1 Atingidos por barragens e MAB

Os Grande Projetos de Investimento (GPIs), chamados assim desde a década de 1950, era o nome dado as barragens construídas no Brasil, com intuito de atender à necessidade de fornecimento de energia elétrica, por meio de usinas hidrelétricas. Esses empreendime ntos

buscavam desde aquela época a apropriação e a reprodução do espaço de acordo com o pensamento economicista, desenvolvimentista e exploratório dos recursos naturais, já não pensavam nas populações que viviam e possuíam vínculos materiais ou imateriais como a localidade e que, muitas vezes, eram pessoas que nunca haviam saído de sua localidade e que apresentavam uma conexão histórica e cultural com o território (SILVA; SILVA, 2011).

A crescente necessidade de energia no Brasil trouxe muitos problemas ambientais e também aos atingidos pelos reservatórios das hidrelétricas, principal fonte energética no Brasil. O principal motivo dessa intensificação na produção de energia era a ideia da elite política e econômica do país de se tornar uma referência na economia mundial. Porém essas mudanças e investimentos causaram impactos, principalmente, nas comunidades que vivia m próximas às margens de rios e que mantinham uma relação orgânica de sustento com os canais fluviais (SIEBEN; CLEPS JÚNIOR, 2012). É importante frisar que:

A geração de eletricidade no Brasil cresceu a uma taxa média anual de 4,2% entre 1980 e 2002, e sempre a energia hidráulica foi dominante. As outras tecnologias geradoras de eletricidade são nuclear, gás e óleo diesel, ainda que nenhuma tenha uma porcentagem maior do que 7%. A introdução da biomassa, energia nuclear e gás natural reduziu a porcentagem da hidroeletricidade de 92% em 1995 para 83% em 2002, mas o crescimento forte e contínuo na demanda por eletricidade exige, em termos absolutos, mais do que o dobro da geração atual de hidroeletricidade, mesmo que a menores taxas de crescimento que as outras opções de geração (GOLDEMBERG; MOREIRA, 2005, p.218).

Nesse contexto, a geração de energia é vista como um mal necessário e que sofre pressão pelas necessidades da sociedade, tendo em vista também os atuais níveis de desenvolvimento da economia nacional. Esses pontos corroboram para a intensificação de inúmeros impactos sociais e ambientais, causados pela construção das usinas hidrelétricas no Brasil. Por ser a principal fonte de energia do país, devido à abundância de rios aproveitáve is que compõem seu território, acarreta diversas problemáticas que podem ser observadas desde a elaboração dos projetos até a operação das hidrelétricas já construídas (FREITAS; OLIVEIRA; SOUZA, 2013). O conflito existente devido à implementação de projetos hidrelétricos alude ao duelo pela justiça ambiental, mostra o quão complexa é a luta pela reapropriação social da natureza (ZHOURI; OLIVEIRA, 2007).

As temáticas de produção e instalação de usinas hidrelétricas são levadas, frequentemente, para o debate público, principalmente, o projeto do Estado brasileiro que está explorando e aumentando a geração desse tipo de energia, por meio do aproveitame nto do potencial dos rios já existentes. Esse debate traz à tona questões sociais, que são inúmeras,

a começar com o conflito do deslocamento das populações (DERROSO; ICHIKAWA, 2013).

Os problemas sociais advindos das construções de barragens até os anos 60, não eram tratados como relevantes na pauta política. Dessa forma, a única política pública em prol dos atingidos por barragens até 1987 era o decreto-lei 3.356 de 1941, “que permite a desapropriação de terras para implantação de empreendimentos que possuam utilidade pública para o país, como, por exemplo, as usinas hidrelétricas para a geração de energia” (FELIPE, 2016, p.21). Nesse decreto, somente os atingidos que tinham a escritura pública da terra, possuíam direitos jurídicos legais com relação à mitigação dos impactos sociais advindos desses empreendimentos. Já os demais atingidos, como “posseiros, meeiros, pescadores, entre outros, não eram ressarcidos por suas perdas diretas e indiretas decorrentes da barragem” (FELIPE, 2016, p.21).

Por meio da promulgação da Constituição Federal brasileira de 1988, torna-se legal o direito a indenização por desapropriação de terras no Brasil. E em 2010, é alcançada uma conquista ao institucionalizar outro direito social, o qual obriga o registro socioeconômico dos atingidos nas áreas que foram requeridas para o enchimento do reservatório e a construção da barragem (FELIPE, 2016).Esses direitos em forma de lei, adquiridos pelos atingidos, podem ser considerados políticas públicas, mas essas, de acordo com o MAB, são insatisfatórias, devido à complexidade existente nesses processos, e que muitas vezes ignora as questões sociais (FELIPE, 2016).

Como visto, é necessário refletir e conceituar quais grupos se enquadram na teorização das pessoas atingidas por barragem, visto que elas representam uma importante parcela da população brasileira. Ademais, discutir esse conceito explicita sobre as diferentes formas de ser um atingido, sem sobrepor um tipo a outro (SILVA, 2011).

De acordo com Silva e Silva (2011), o termo atingido por barragens é definido como aquele que de alguma forma sente os efeitos da construção e operação de uma usina hidrelétrica. Esse pode ou não ser deslocado para lugares distintos daquele que ocupava anteriormente. Os deslocados não são somente aqueles donos de terras que serão alagadas, mas também aqueles que não eram proprietários, mas necessitavam daquela localidade devido às suas relações de trabalho, que foram transformadas pelo empreendimento.

O conceito de atingido aplicado a cada barragem é geralmente cunhado no conflito entre os atingidos e os responsáveis pelo empreendimento, e no conhecimento/reconhecimento pelos atingidos de direitos que extrapolam a legalidade e questionam o projeto de desenvolvimento que vem sendo colocado em prática. Ao se definir quem é atingido está se delimitando a área e as pessoas impactadas pelo empreendimento, e, ao mesmo tempo,

delimitando-se o território de luta entre os grupos conflitantes. Para os empreendedores, o importante é ter um conceito que limite ao mínimo a área e o número de pessoas atingidas, enquanto que, para o Movimento o objetivo é inverso. (FOSCHIERA, 2010, p.123).

Um conceito também muito evidenciado é o do “atingido pelo preço da energia”, visto que o MAB passa a considerar que os atingidos não são somente os moradores das localidades ribeirinhas alagadas, mas toda a população brasileira que paga valores exorbitantes de energia para sustentar os altos lucros dos empreendedores, que se apropriam dos recursos naturais do país e comprometem a própria soberania nacional. A partir dessa nova concepção de atingido, o MAB cria novas pautas, dentre essas, a busca de isenção tarifária para as famílias que consomem menos que 100 kW mês; igualdade de preços a serem pagos por todos os consumidores; garantia ao acesso à energia elétrica a todas as famílias ; bem como a eliminação da exploração do capital sobre o trabalhador (FOSCHIERA, 2009). Em busca de entender melhor esse contexto, existem inúmeros estudos sobre os impactos causados pelos empreendimentos hidrelétricos em diversas áreas de conhecime nto, mas normalmente se limitam a questões de cunho ambiental. Desse modo, é necessária a avaliação dos efeitos que esses Grandes Projetos de Investimento (GPI) geram no território e, principalmente, nas populações que o habitam, e também, da perda de bens simbólicos e imateriais, que muitas vezes, são questões insubstituíveis (SILVA, 2011).

Os projetos hidrelétricos, em sua maioria, são vistos como algo desnecessário pela população regional, uma vez que essa geralmente não utiliza dos recursos gerados por esses grandes empreendimentos, além de exigirem que muitas famílias abandonem suas terras, comunidades, relações cotidianas, casas, cidades, bairros, etc. Tudo isso, imposto por uma exigência em prol de um falso desenvolvimento que, na realidade, é concentrador e politicamente excludente (VAINER, 1990).

Silva e Silva (2011) destacam que são inúmeras as relações de trabalho que podem ser cessadas pela construção de uma barragem, como: comerciantes fornecedores de produtos a moradores das áreas, trabalhadores e artesãos que necessitam dos recursos naturais como matéria-prima para a confecção de seus produtos, etc. É necessário pensar e refletir sobre os atingidos, visto que o Brasil vem investindo na produção de hidrelétricas, incitando assim questionamentos da comunidade, principalmente acadêmica, além de promover e estimular a organização de movimentos socioambientais contra essas obras (SILVA; SILVA, 2011).

Um exemplo prático que reforça pontos já frisados anteriormente, é a construção da Usina Hidrelétrica de Irapé no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que determinou uma mudança forçada do território e dos meios de vida das famílias diretamente atingidas.

Conforme relatam Freitas, Oliveira e Souza (2013), as famílias que optaram por permanecer próximas ao rio, no que restou de suas propriedades atingidas, tiveram de se adequar ao novo ambiente que foi constituído de acordo com as restrições impostas. Além disso, essas comunidades atingidas possuíam personalidades diferentes no que se refere às relações sociais, culturais, econômicas e territoriais, o que provavelmente não foi reaplicado na outra realidade. Houve, então, o que se pode denominar de reassentamento forçado, cujo novo espaço produzido buscou a homogeneização da diversidade sociocultural das comunidades que foram deslocadas. A dispersão das famílias em diversas propriedades distantes umas das outras inviabilizou inúmeras festividades religiosas e culturais e, por consequência, o significado destas festas está sendo perdido ao longo do tempo na memória das pessoas.

Freitas, Oliveira e Souza (2013) ainda destacam que boa parte dos atingidos revelaram uma profunda saudade das festas religiosas e culturais no local de origem. Além do grande afeto ao Rio Jequitinhonha, pode-se destacar também sua beleza natural, as pescarias tidas como esporte, o lazer às suas margens com piqueniques, banhos e sustento alimentar, bem como o meio de transporte que oferecia. E esses pontos são impossíveis de serem transportados para os reassentamentos. Assim, a mudança de localização dos atingidos causou uma mudança no comportamento dos atingidos, ainda mais por se tratar de uma população ribeirinha e dependente das riquezas materiais e simbólicas que o Rio Jequitinhonha oferecia, o que gerou transformações na postura e na ação homem, o que exige que essas ações sejam repensadas e que essas necessidades sejam supridas.

De fato, existem bens materiais e imateriais que representam valores simbólicos que dinheiro nenhum paga. As festas religiosas e culturais que aconteciam na comunidade de origem, no tempo em que as pequenas propriedades permitiam a proximidade das casas, já não existem mais. Os laços de parentesco, compadrio e amizade foram fragmentados, distanciados e enfraquecidos, pelo processo de reassentamentos em localidades distintas. O exemplo mais forte e lamentado pela maioria dos participantes foi a perda da estreita e cotidiana relação com o Rio Jequitinhonha. O rio fazia parte do quintal da casa, fornecia alimento, era a via de transporte, principal fonte de lazer e de renda sazonal para os garimpeiros da região. Esse bem natural, o rio, não poderia reconstruir em outro lugar por nenhum arquiteto. A memória e as boas lembranças do rio permanecem vivas nas mentes de todos os desalojados (FREITAS; OLIVEIRA; SOUZA, 2013, p.46).

Outro exemplo é a Usina Hidrelétrica Governador José Richa (Salto Caxias, localizada no Paraná), cujas obras tiveram início em janeiro de 1995, e em fevereiro de 1999 iniciou o seu funcionamento. De acordo com a Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel), proprietária da Usina, foi realizada uma ação inédita com as famílias atingidas, que

garantiu o poder de escolha aos atingidos sobre a forma de indenização. Em média, 600 famílias foram reassentadas em locais munidos de infraestrutura e recursos financeiros para garantia do bem-estar, o restante (425) recebeu indenizações ou cartas de crédito, em conformidade com a escolha de cada um (DERROSO; ICHIKAWA, 2013).

Uma parte das famílias deslocadas foram realocadas nas cidades de Cascavel e Corbélia, que estão a aproximadamente cem quilômetros de distância da usina, enquanto outro grupo foi realocado em cidades mais próximas à região da Usina. Vale ressaltar que boa parte dessas conquistas se deram devido ao histórico de lutas que foram empreendid as por essa população, juntamente com os movimentos sociais que participaram ativamente de todo o processo de resistência contra a construção da Usina. Os movimentos, junto às populações ribeirinhas, foram imprescindíveis para a garantia das mínimas condições para os atingidos (DERROSO; ICHIKAWA, 2013).

Na visão desses autores, a criação da Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Rio Iguaçu (CRABI), movimento social que procurou ser um mediador entre população ribeirinha e as forças do Estado, foi de extrema importância. O movimento foi formado a partir de lideranças da comunidade, passou a gerir importantes ações de resistência e luta em busca da garantia dos direitos da população e de uma justa recomposição das perdas desses sujeitos. O movimento foi apontado por parte da população como responsável pelos encaminhamentos vistos como satisfatórios nos quesitos transferência da população e instalação da hidrelétrica (DERROSO; ICHIKAWA, 2013).

Vale lembrar que os empreendimentos hidrelétricos no Brasil começaram a ser construídos no final do século XIX, no entanto, as reivindicações e posicioname ntos contrários, em forma de resistência, a esses grandes empreendimentos ocorreram de forma mais incisivas partir da segunda metade da década de 70, no século XX. A partir de então, foram formadas frentes de resistências e questionamentos contra a construção desses empreendimentos hidrelétricos, os quais colaboraram para o surgimento de movime ntos sociais locais ou regionais, que criticam a política energética brasileira (FOSCHIERA, 2010).

Dessa forma, os movimentos que tem como pautas reivindicativas os atingidos por barragens, destacam que a instalação e construção de grandes projetos, como as hidrelétricas, causam inúmeros impactos que levam a uma reordenação territorial, com deslocamento das populações locais, que terão suas moradias ocupadas por reservatórios ou lagos artificia is, sem contar a apropriação de seu entorno para diversas atividades necessárias ao funcionamento desses empreendimentos econômicos. E esses impactos podem criar um “campo de conflito” ao reunir atores estruturalmente diferenciados (Estado, atingidos e

empreendedores) em um jogo de mútuas interações e confrontos. Nesse sentido, movime ntos sociais de resistência à instalação dessas obras têm sido registrados em diferentes lugares e contextos nacionais e internacionais, formam, assim, uma rede de atores sociais mobilizados em torno dessa problemática (SCHERER-WARREN; REIS, 2006).

Dentre os movimentos, destaca-se o MAB, que tem lutado pelo direito à terra e à água, se opondo à construção de empreendimentos de grande porte que causam o afastamento do trabalhador do seu meio de subsistência (BRAGA, 2016).

O MAB é um movimento nacional que se denomina autônomo, de massa, de luta, popular, reivindicatório e político, que tem sua gênese na década de 1970, visto que nessa época, no Brasil, foi intensificado o modelo de geração de energia a partir de grandes barragens. Usinas hidrelétricas foram construídas em todo o país, em especial nas regiões Sul, Norte e Nordeste, como por exemplo, as usinas de Itaipu (PR), Tucuruí (PA), Sobradinho (BA) e outras de menor porte, como as barragens dos municípios de Machadinho e Itá, divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (ALVES; NASCIMENTO; MESQUITA, 2009; ALBERTI, 2016).

Essas obras desalojaram milhares de pessoas de suas terras, fazendo com que trabalhadores perdessem suas casas, terras e seu trabalho. Muitos desses buscaram força e seus direitos junto ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), outros acabaram nas periferias das grandes cidades se submetendo às condições desumanas de desemprego. Dessa realidade, surgiu a necessidade de organização e de luta dos atingidos por barragens no Brasil, como forma de resistir a atual estrutura social econômica imposta (ALVES; NASCIMENTO; MESQUITA, 2009). Essa organização se deu primeiramente pela luta pela garantia de indenizações justas e reassentamentos para a população atingida. Mas logo evoluiu para um pensamento mais crítico ao modelo energético, viu-se a necessidade de lutar pelos direitos dos atingidos e juntamente contrapor-se ao modelo energético nacional e internacional, de forma que se tornou necessária uma melhor organização (ALVES; NASCIMENTO; MESQUITA, 2009).

O MAB foi criado em 1988, por meio da unificação das demandas de pequenos agricultores que, em distintas partes do país, perdiam suas terras, ou partes delas, devido ao projeto de expansão do setor elétrico brasileiro (FRAGA, 2013). Esse movimento ganhou visibilidade e legitimidade na década de 1980, em meio ao cenário do regime militar brasileiro, somado aos novos atores que entraram em cena contra o autoritarismo de decisões que favoreceram, sobretudo a ampliação do capital, seja ele nacional ou internacional, devido ao modelo de desenvolvimento. Durante o regime militar, as ações do MAB eram geridas de

maneira mais difusa e em contraposição ao capital privado associado com o poder do Estado, através de manifestações ou mobilizações populares. Mas essas, na maioria das vezes, eram reprimidas por meio de violência policial (BRAGA, 2016).

Em 1989, foi realizado o Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragens, com a participação de representantes de várias regiões do país. Foi um momento onde se realizou um levantamento global das lutas e experiências dos atingidos. Nesse encontro, os integrantes decidiram constituir uma organização mais forte a nível nacional para fazer frente aos planos de construção dos grandes empreendimentos hidrelétricos. A partir daí, de forma gradual, começou-se a construir e consolidar uma importante ferramenta de luta dos atingidos, de abrangência nacional, que cada dia ganhava mais força e se tornava um impulsionador de lutas e reivindicações para organizações de atingidos em outras localidades (MAB, 2018).

Dois anos depois, em março de 1991, foi realizado o I Congresso com a participação dos atingidos de todo o Brasil, no qual foi deliberado que a abrangência do MAB precisava ser nacional, de forma popular e autônoma, com o objetivo de promover ações contra essas barragens de acordo com as realidades locais. Foi também instituído que 14 de março seria o Dia Nacional de Luta Contra as Barragens, sendo celebrado desde então em todo o país, com o foco de unificar as lutas dos atingidos, visto que existem inúmeras lutas fragmentadas pelo território nacional, essa união ajuda o movimento a se mobilizar (ALVES; NASCIMENTO; MESQUITA, 2009). O MAB então se consolidou como “um movime nto autodenominado nacional, popular e autônomo, de massa, com direção coletiva, organiza ndo e articulando as ações contra as barragens a partir das realidades locais” (CLEMENTE, 2016, p.218).

Um novo momento da organização dos atingidos por barragens ocorreu no início de século XXI, devido às transformações trazidas pelo neoliberalismo à economia e à política mundial, o que gerou efeitos nacionais e, principalmente, na política energética brasileira, devido à diminuição da expectativa de mudanças nas políticas para o setor elétrico, no governo Lula. Com isso, se tornou necessário entender e buscar soluções para esses efeitos gerados pelas mudanças advindas da expansão do neoliberalismo, e buscar as melhores rotas a serem seguidas pelo movimento perante a nova realidade (FOSCHIERA; THOMAZ JUNIOR, 2012).

Nesse contexto, as lideranças do MAB notaram que estava ocorrendo uma apropriação de territórios por parte do capital, com apoio do Estado e era necessária uma transformação social. Dessa maneira, para lutar contra essa expansão capitalista, a atuação

das lideranças deveria extrapolar a questão econômica, buscando a inserção de discussões políticas e novos debates teóricos, de modo com que o setor de educação fosse valorizado, além de objetivar a construção de um novo movimento, mais consolidado, por meio da geração de muitos debates e da busca pela solução dos conflitos internos e externos. Além disso, começou também, uma aproximação entre os movimentos, em prol da ampliação de seu discurso e da ação junto aos trabalhadores urbanos, ou seja, iniciou-se a construção de uma rede de cooperação para ter mais força em prol de melhores resultados (ALVES; NASCIMENTO; MESQUITA, 2009). Dessa forma:

para viabilizar sua ação, o MAB conta com uma Coordenação Nacional, formada por até 130 pessoas lideranças que atuam nos Estados; uma Direção Nacional, composta por 39 militantes, e um Grupo Operacional de Direção que se reúne, periodicamente, para resolver as questões imediatas. Essas três instâncias se repetem nos Estados, explica Andreoli. Além dos coletivos de Comunicação; Formação; Autossustentação; Articulação Política Nacional e Internacional; Mulheres, e para o próximo período a meta é consolidar o de Educação Infantil (ALBERTI, 2016, p.138). O MAB foi se desenvolvendo e a participação dos atingidos foi amadurecendo e crescendo, juntamente com o debate e a consciência cidadã, principalmente, no que tange às populações mais vulneráveis. Com isso, o MAB deixou de ter um patamar local e passou para um âmbito regional e nacional, mediante a organização de uma coordenação em prol do desenvolvimento de pautas principais. Dessa forma, esse movimento, ao decorrer dos anos, foi ganhando credibilidade, força, representatividade e legitimidade perante à população e ao