METODOLOGIA E LINHAS DE ANÁLISE DO CAMPO
III. Investigar motivações dos participantes, a natureza das atividades e o impacto das ações no cárcere e na sociedade
4.7.1. Atitude crítica: a influência de Michel Foucault
O contato com as obras de Michel Foucault foi essencial à minha formação pessoal e acadêmica. Em especial, três noções foucaultianas, intelectual especifico, resistência e
atitude crítica, embasaram minhas escolhas metodológicas e os questionamentos propostos
nas minhas pesquisas e intervenções.
A presente tese teve a influência, direta e indireta, das concepções teóricas e das propostas metodológicas do filósofo francês. Na elaboração dos capítulos teóricos, trabalhei diretamente com noções foucaultianas, tais como poder, disciplina, governamentalidade, resistência, etc.
A abordagem foucaultiana dos discursos também teve influência fundamental na coleta e análise das falas dos meus interlocutores. Nesse sentido, tentei analisá-las não sobre o registro de sua validade racional (veracidade-falsidade), mas a partir dos efeitos de poder que produzem. Para além dos discursos, me interessou conhecer as práticas e os
enunciados produzidos por elas, saber em que medida confirmam um modo de fazer a execução penal e relegitimam verdades acerca da prisão, do crime e da sociedade.
É a partir do funcionamento real das instituições que a racionalidade penal pode ser apreendida, a partir da ação do poder respaldada em determinado discurso. Nesse sentido, não há um lugar “da” racionalidade, não há um parâmetro único para se auferir se uma prática é mais racional que outra. Cada prática é inscrita em uma racionalidade própria, a partir da qual codificará prescrições (regras dirigidas a um fim) e estabelecerá critérios de veracidade e falsidade.
Ademais, o uso do termo crítico (e suas derivações) para classificar os grupos e suas ações na análise de campo obedece ao sentido que Foucault (2000) atribui à atitude crítica109. A atitude crítica consiste em uma mudança de relação com o poder, suas práticas e os efeitos
de verdade que elas produzem.
Para Foucault (1980: 53), a crítica não é um raciocínio que se conclui em si, mas um instrumento para aqueles que lutam, resistem, não querem mais as coisas do jeito que estão. “O que se deve fazer não deve ser determinado do alto, por um reformador com funções proféticas ou legislativas. Mas por um longo trabalho de vaivém, de trocas, reflexões, tentativas, análises diversas”.
Na época do lançamento de Vigiar e Punir, Foucault foi acusado de que a obra tenha causado um efeito paralisante principalmente entre aqueles que trabalham no sistema penitenciário, já que após a leitura de Foucault, eles não enxergavam qualquer caminho para “melhorar o sistema prisional”. Em uma mesa redonda realizada em 1978110, Foucault (1980: 42) responde a essa acusação afirmando que o fato dos trabalhadores do cárcere não encontrarem respostas em Vigiar e Punir não significa que eles estejam paralisados. Ao contrário, é prova de que eles desejam achar outros caminhos, e isso já é um grande passo.
109 Mencionado no Capítulo 3, item 3.2.
110 Em 20 de maio de 1978 uma mesa redonda foi organizada com um grupo de historiadores, com
objetivo de debaterem acerca da história da prisão e dos sistemas penitenciários do século XIX. A transcrição do debate está publicada na obra l’Impossible prison sob a coordenação de Michelle Perrot (1980).
Um dos objetivos do trabalho de Foucault, do qual compartilho, é contextualizar os acontecimentos e suas rupturas, questionar as evidências, despertando mudanças em modos de perceber e em maneiras de fazer: não permitir que “certas frases não possam ser ditas tão facilmente” ou que certos gestos não possam ser realizados sem hesitação.
Porém, segundo o próprio autor (Foucault, 1980: 53), as pessoas que trabalham no quadro institucional da prisão não devem encontrar nos seus livros um manual de procedimentos, mas justamente o contrário. O projeto de Foucault é justamente “que eles não saibam o que fazer”. Irritante ou não, a verdade é que o pensamento foucaultiano é desestabilizador, no sentido de minar certezas e desnaturalizar práticas arraigadas ao funcionamento das instituições e de nossas sociedades.
Nesse sentido, identifiquei como críticas as ações com vista às reinvenções de possibilidades de vida e de resistência às atuais formas de sujeição do cárcere. Uma atitude crítica pressuporia uma reflexão anterior sobre os modos de fazer da execução penal, ciente do alcance e da consequência de suas práticas não só em uma perspectiva micro, mas em âmbito político, no sentido de contribuir na construção de uma nova política da verdade na política criminal, na forma da sociedade e do indivíduo relacionar-se com o crime e o criminoso.
A experiência da reintegração social, se bem sucedida, propicia formas de interação entre cárcere-sociedade que permitem a produção de novas subjetividades. A atitude crítica em relação aos discursos e práticas carcerárias, desde que produtivas e não só reativas, tem a potência de criar no cárcere algum “espaço de liberdade”, uma liberdade possível, tal como descrita por Foucault (1995: 224):
“um estado transitório em que sujeitos individuais ou coletivos tem diante de si um campo de possibilidades de diversas condutas, diversas relações e diversos modos de comportamento que podem acontecer”
A liberdade para Foucault, fruto do exercício da crítica, não é livrar-se de todas as amarras e das ações do poder. Libertar-se é resistir à forma como somos conduzidos, para poder eleger quem irá nos conduzir, como e em que direção; poder escolher outras formas de ser, diferentes das que nos tem sido dadas.
As matizes da realidade não permitem a ordenação do mundo dentro de dicotomias: crítico ou acrítico, revolucionário ou reformador, poder ou resistência. Na realidade, um contém e se mescla com seu oposto. Inclusive a resistência, para Foucault, não é exterior ao poder ou governo, mas constituinte deles.