Índice de Tabelas
CORES DOS AVISOS METEOROLÓGICOS
10. Liga dos Bombeiros Portugueses – Confederação das Associações e Corpos de
3.3. Análise Qualitativa
3.3.1. Análise das Entrevistas
3.3.1.4 Atitude das vítimas
As estratégias de comunicação de crise podem ser analisadas de acordo com a perceção das vítimas. Por conseguinte, entrevistamos Filipa Rodrigues, uma bombeira voluntária de Castanheira de Pera que ficou ferida com gravidade nos incêndios de 17 de junho.
Na sua entrevista, Filipa Rodrigues considerou que nesta tragédia houve falhas a muitos níveis e ficou evidente que o país não está preparado para enfrentar uma ameaça desta natureza:
Falhou tudo, mostrou que para além de não estarmos preparados para certas catástrofes, que temos um território totalmente desorganizado, abandonado e que no interior a população tem que se proteger sozinha, onde as comunicações falharam e falham no dia de hoje, o tratamento das vítimas foi também de lamentar.
Relativamente ao tratamento que as vítimas tiveram, Filipa Rodrigues considera que houve falta de apoio:
(…) outras vítimas queimadas depois de terem tido alta voltaram às suas casas e até hoje se têm vestes compressivas e cremes próprios paras as queimaduras é porque pessoas particulares se disponibilizaram para ajudar, porque dos milhões de euros que vieram, a nós feridos não coube um tosto. Uma realidade muito triste.
135 Procurámos apurar, se a existência de uma associação de vítimas significa uma mais- valia na hora de representar as vítimas e familiares junto das entidades oficiais, facilitando a comunicação entre as mesmas. Sobre este assunto, Filipa Rodrigues respondeu:
Inscrevi-me nessa associação, mas até hoje não tive nenhum contacto dela para comigo (…) Aquela Associação considera que só as vítimas mortais foram vítimas, nós feridos para essas pessoas não somos vítimas nós ficamos só como feridos.
Questionámos Filipa Rodrigues sobre a entidade mais acessível, no seu entender, e a resposta obtida foi “a única entidade que me ajudou foi o Seguro de Acidentes Pessoais dos bombeiros, a própria Associação de Bombeiros de Castanheira é só a ponte de ligação entre nós e o seguro”.
Quando perguntamos sobre o tipo de apoio dado pelas entidades oficiais na altura da tragédia, Filipa Rodrigues respondeu:
(…) recebi várias visitas, das quais o Exmo. Sr. Doutor Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que sempre teve uma enorme atenção ao meu caso. Também recebi a visita do Sr. Comandante Nacional da Proteção Civil, Rui Esteves, e que de imediato disponibilizou-se para tudo o que fosse necessário, contudo passado algum tempo abandonou o cargo de Comandante Nacional da Proteção Civil, e até ao dia de hoje não tive mais nenhum contacto (da Proteção Civil). Também nessa mesma altura o Sr. Joaquim Leitão que era Presidente (não sei de que agora) [da Autoridade Nacional de Proteção Civil] também me visitou, mas nunca mais me contactou. Da Liga dos Bombeiros tive apenas um telefonema uns dias antes de ter alta dos queimados (passado dois meses do dia 17). Ora das entidades que se dizem oficiais o apoio foi pouco ou nenhum. Foi para pousar para a fotografia e pouco mais.
Uma vez mais, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, destaca-se pela positiva, em termos de abertura. A frase “Foi para pousar para a fotografia e pouco mais”, pode ser interpretada como uma falta de acompanhamento e ausência de interesse genuíno por parte das entidades e dos seus responsáveis. Apesar do elevado número de vítimas, seria de esperar que, numa fase pós-crise fossem promovidas ações com vista a ir ao encontro das expectativas dos visados.
Sobre a forma como as entidades comunicaram com as vítimas e familiares das vítimas, Filipa Rodrigues referiu que na sua opinião “a comunicação foi pouca, fomos todos deixados ao "Deus Dará" e os familiares a mesma coisa.”
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De acordo com Reynolds:
quando a emergência não está mais nas capas dos jornais, aqueles que foram mais severamente afetados vão continuar a ter necessidades emocionais significativas (…). Para manter a confiança e a credibilidade durante esta fase, os compromissos assumidos numa fase inicial devem ser honrados. As falhas e os erros devem ser reconhecidos e cuidadosamente explicados” (2014: 42).
Este sentimento de abandono também foi notado pelos jornalistas e voluntários que nos falaram sobre a atitude das vítimas e familiares das vítimas em relação às entidades envolvidas.
O jornalista Miguel Ângelo Marques dá conta que as vítimas e familiares das vítimas sentiram revoltados e desamparo:
Estavam revoltados porque, em muitos sítios, não tiveram ajuda de ninguém, ficaram sozinhos, passaram uma série de horas sem poderem contar com a ajuda de ninguém. Apesar das muitas tentativas e chamadas que fizeram a pedir ajuda (Miguel Ângelo Marques, comunicação via videochamada, em 8, outubro, 2018).
O sentimento de revolta foi também apontado pelo jornalista João Francisco Gomes, que fala também em angústia:
Uma enorme e compreensível revolta dirigida às autoridades. Contactei com diversos familiares de vítimas que encontrei numa situação que me custa ainda descrever. Estavam num choque enorme. Um homem que tinha perdido o filho ainda não tinha a certeza do que lhe teria acontecido, pois da última vez que o tinha visto tinha saído de carro para tentar ajudar outras pessoas e já não o encontrava. Dias depois descobriu que o filho estava morto. As pessoas andavam a tentar descobrir os familiares nos centros de acolhimento que foram instalados em quartéis de bombeiros, pavilhões, escolas… Muitas pessoas perderam um grande número de familiares de uma vez e estavam a ter muita dificuldade em assimilar essa informação. Os primeiros dias foram de grande desespero para aquelas pessoas. Notava-se uma grande revolta e angústia perante uma das principais dúvidas que ainda vão persistindo: porque é que a polícia não cortou a N236, impedindo que dezenas de pessoas morressem ali?
Esta atitude negativa foi igualmente descrita pelo jornalista José António Pereira:
Inicialmente, todos os relatos eram de pessoas desesperadas e ainda sem notícias, tal era a dimensão da tragédia. E todos os relatos eram de crítica e de incompreensão face à postura das autoridades.
137 O repórter da RTP recomendou ainda que compete aos jornalistas “tentar não alimentar o espetáculo nesse tipo de situações”. A mesma atitude foi testemunhada pela voluntária Sílvia Cruz, promotora do Grupo Esposende com Pedrógão no Coração:
As vítimas, 12 dias depois, estavam revoltadas com as entidades e sentiam-se abandonadas. Havia pouca informação sobre o futuro e a sensação era de que as entidades não desciam às populações, montaram gabinetes no centro e esperavam que velhos de 80 anos a 25km de distância se deslocassem pelo próprio pé às tendas... impossível!!! Reinava a barafunda, a confusão, as contradições e à falta de informação.
Esta perceção é partilhada por Pedro Simões, membro do projeto de empreendedorismo RE-NASCER:
A grande maioria das pessoas sentiu-se completamente abandonada por parte de todas as entidades e completamente impotentes para lidar com a tragédia. Durante o incêndio e após o incêndio faltaram meios e faltou estratégia, coordenação no apoio às vítimas e à população no geral. Nem as entidades locais nem as nacionais estavam preparadas para dar resposta/ apoio à tragédia que assolou o território... e as vítimas sentiram-se abandonadas na fase inicial; sentiram o peso da interioridade.
A jornalista Christiana Martins foi mais específica e descreveu “um sentimento de grande mágoa e desconfiança em relação ao Executivo, e maior aceitação em relação ao Presidente da República”, e acrescentou que essa tensão diminuiu após o pagamento das indemnizações aos familiares das vítimas mortais.
Estes testemunhos contrastam com a resposta de jornalista Patrícia Carvalho que contou que:
(…) as pessoas ainda estavam demasiado atordoadas a lidar com as suas perdas pessoais para tecerem comentários a qualquer ação ou falta dela por parte das autoridades. Notava-se já um grande movimento de solidariedade (o estádio estava já repleto de donativos), mas não ouvi ninguém referir-se à atuação de qualquer entidade.
Já a Coordenadora de Voluntariado da organização Médicos no Mundo em Castanheira de Pera, Maria Porto Sousa, admite que é difícil de descrever a posição das vítimas face às entidades;
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(…) houve sempre uma relação amor/ódio entre as vítimas e as entidades. Na minha opinião, é compreensível, visto que todos esperamos uma resposta mais célere do que aquela que na realidade é possível dar, todos pensamos que a resposta podia ser melhor, ou mais adequada. Sinto que houve algumas entidades que tiveram algum excesso de delay na resposta, ou na comunicação com as vítimas e sinto que houve vítimas excessivamente impacientes para ver a sua situação resolvida. De parte a parte, penso que o bom senso sempre imperou, e continua a imperar, mais ou menos célere, mais ou menos eficaz, as respostas vão chegando e nós cá estamos para ajudar a que estas se estabeleçam como a melhor resposta possível.
O voluntário Hugo Lourenço da Associação Just a Change ambém referiu que houve de tudo “ingratidão, tristeza, agradecimento, injustiça”.
Já a entrevistada que esteve na região afetada como enfermeira respondeu que “Só quem esteve no terreno poderá testemunhar a gratidão das pessoas. No entanto, os incêndios vieram colocar a descoberto problemas sociais pré-existentes, tais como isolamento e carência social”.
A voluntária Sandra Jorge exprimiu outro ponto de vista:
As pessoas estão velhas e cansadas. E querem sossego, não querem mais protagonismo, nem promessas. As vítimas colocam as culpas no mundo em geral, não simplesmente nas entidades. Estão muito doridas e envelheceram muito neste último ano.
Segundo Reynolds, as reações emocionais variam e dependem das perceções de risco e
stress que as pessoas experienciaram ou anteciparam. Numa fase inicial as pessoas podem
parecer felizes porque apesar da destruição ou morte que as rodeia conseguiram sobreviver. Contudo, à medida que o tempo avança as pessoas podem experimentar vários estados emocionais incluindo “apatia, negação, flashbacks, luto, raiva, desespero, culpa e falta de esperança (…). As pessoas podem ficar frustradas e desiludidas se não forem capazes de retomar as suas condições normais” (2014: 41).
Assim sendo, tendo em conta as declarações de Filipa Rodrigues e das testemunhas privilegiadas, as vítimas demonstraram estar revoltadas com as entidades, uma vez que se sentiram abandonadas por estas quando mais precisaram. Este sentimento prolongou-se no pós- incêndio, com as vítimas a considerarem que face a tudo o que perderam poderiam ter sido mais apoiadas. Mesmo assim, é destacada a sua gratidão perante a ajuda que receberam.