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Atitude Materna

No documento 2008CinthiaCainoFelker (páginas 126-130)

4. DITOS E VIVIDOS DA EDUCAÇÃO TERAPÊUTICA INTERAÇÕES E AÇÕES DE

4.1 Relações parentais e reflexos pedagógicos

4.1.1 Atitude Materna

“No exercício dessa função, uma mãe sustenta para seu bebê o lugar de Outro primordial. Impelida pelo desejo, antecipará em seu bebê uma existência subjetiva que ainda não está lá, mas que virá a instalar-se justamente porque foi suposto. Desenhará com seu olhar, seu gesto, com as palavras, o mapa libidinal que recobrirá o corpo do bebê, cuja carne sumirá para sempre sobre a rede que ela lhe tecer” (KUPFER, 2000b, p.04).

A criança guarda em sua memória o sublinhar do olhar do Outro. Olhar que lhe concede a existência, lhe significa, lhe faz desejosa. Esse olhar, em um primeiro momento, advém daquela que desempenhar a função materna. Dito em poucas palavras: sua mãe e a atitude dessa frente ao seu bebê, determinarão o emergir de sua estruturação psíquica.

Nossos alunos, os que freqüentam as Classes de Educação Terapêutica, têm problemas relacionados a essa estruturação. Algo lhes faltou...

“Precisamos fazer esse resgate, entre o filho e a mãe, fazer ela acreditar que ele pode aprender” (S04).

Quando os recebemos em nossas salas, eles - alunos estão impedidos pela ausência do transitivismo das suas mães (BALBO; BERGÈS, 2003), comportamento inconsciente, pois, nenhuma mãe opta por não dar sustentação à existência do seu filho, mas comportamento freqüente, e determinante ao situar a posição desses sujeitos entre, um autismo, ou uma psicose, de acordo com o significante que os representa.

“A mãe diz que cada um fala para ela agir de um jeito com o guri, e o pai às vezes discorda, no fim eles não se entendem, e ninguém sabe o que fazer com ele” (S10).

“A mãe é meio obsessiva, tem umas manias, como de limpeza, não aceita o diagnóstico dos filhos, diz que são hiperativos” (S08).

Essas mães que, nos parecem perdidas, e literalmente sem saber o que fazer, pois a classe terapêutica acontece na vida dessas famílias, quando muitas outras alternativas não obtiveram sucesso. Uma cena comum em nossas escolas, é a chegada dessas mães, quase sempre somente elas, tentando trazer seus filhos para a escola, talvez, renovando algumas

esperanças frente as suas negações e impotência, e muito debilitadas pela situação que, é “dar conta” de um filho com autismo. Diríamos cansadas.

Dizem que não entendem o porquê da condição. Nesse ponto da história, já percorreram muitos ambientes clínicos, fizeram inúmeros exames, e já testaram “mil” remédios. Escutaram “AUTISMO”. Algumas fazem de conta que não escutaram (situação vivenciada pela pesquisadora). Sofrem. Por isso não as culpabilizamos, seria injusto, pois, ninguém escolhe viver sofrendo. Kupfer, fala dessas mães e, de suas falhas e dores:

[...] não são as mães reais, com seus sentimentos, sua devoção, sua encarnação em um papel social que exercem bem ou no qual acreditam, que estão na base da eclosão do autismo infantil precoce. São as mães postas no exercício de uma função que desconhecem exercer, e que cumpre descrever (2000b, p.04).

No seminário em que, discutíamos essa presença materna, e como de fato no exercício de sua função essas mães estão se saindo, e tudo que isso significa, quando nossos alunos traduzem para o ambiente escola essa delicada relação, a mediadora assim nos aconselhou:

“Ter uma mãe como auxiliar da professora é um presente, tem que partir do profissional essa possibilidade de intercâmbio”.

Resumiu, com seu ponto de vista, muito bem fundamentado, uma das direções de nosso trabalho. Precisamos somar forças.

“A aproximação com a família é que nos faz compreender muito dos sintomas de nossos alunos” (S11).

“Sempre as mães estão envolvidas com os filhos, fica com elas a responsabilidade de quase tudo na vida deles, pais que se envolvem são poucos” (S02).

A constância da presença materna, embora importante, pois, “mãe é mãe”, pode também ser onipotente. Essa diferenciação nos diz respeito, é com esse aspecto que, trabalhamos. Entre a função vital, e a função patológica, quando a demanda não foi invertida, e ela “é o outro” (CORDIÉ, 1996).

Lacan (1998), bem descreve esse momento com a metáfora do espelho, na qual localiza entre o normal, e o patológico, as posições em que nossos alunos se encontram, advindas da relação mãe-filho: decorrem daí, o autismo, os traços autistas e a psicose. Cada nova fase prende/estagna, ou libera a criança para sua estruturação psíquica.

Dito de uma forma bastante simplificada, a mãe do autista foi incapaz de incluí-lo no universo significante, enquanto que, na psicose, essa criança está presa ao desejo materno, incessante vínculo, nas palavras de Jerusalinsky: “[...] indefinida extensão do ‘período concreto’ da relação ao significante” (2007, p.78).

Comum em nossas salas que, nossos alunos adoeçam quando suas mães adoecem. Estão “grudados” ao desejo materno. Da mesma forma que, se pode perfeitamente visualizar que, quando suas mães estão bem, eles também estão.

“No filme apareceu bem, o papel daquela mãe que se impõe e quer decidir tudo pela família, sufoca a filha, tem vergonha dela, e não reconhece suas qualidades” (S01).

“Quando ela finalmente deixa a filha viver a vida dela tudo se organiza” (S05).

Esse comportamento de relação dual-simbiótica, deve ser trabalhado concomitantemente a oferta pedagógica. Nos discursos docentes, pela experiência que lhes outorga, pouco adianta tentarmos ensinar nossos alunos, se não “ensinássemos” seus pais a olharem esse filho de uma outra maneira.

Situação vivenciada pela pesquisadora como ilustrativa:

“A aluna sempre pedia que a professora servisse seu copo com água quando estava com sede, sem verbalizar, com gestos, ou seja, usava para satisfazer suas necessidades um outro como instrumento. Com o tempo, lhe foi ensinado que ela poderia fazer essa ação independente, pois nada lhe impedia, de ir em busca do que estivesse por ventura precisando. Assim dito: ‘Você abre a torneira e encha o copo com água, tu pode fazer isso sozinha’. Repetidas várias vezes, demonstrada a ação, e o que significava, falada e falada, ela começou a saciar sua sede sozinha. Noticiado o progresso à família, a mãe sorriu duvidando, não acreditava que isso fosse possível, e a aluna na presença dela não fazia o mesmo sozinha. Demorou um longo tempo, mas até que um dia em uma das visitas surpresas da mãe (freqüentes) ela conseguiu tomar água sozinha! Para a professora algo que já se repetia, para a mãe um susto! São esses os desdobramentos da relação educativa terapêutica. Mesmo que o pragmatismo venha a avaliar nossas ações (ver para crer), se for para esse sujeito começar a esboçar sua alteridade, já são válidas todas as tentativas de interceder nessa relação que tem dois corpos e ‘um só desejo’”.

E, os que, conseguem deslocar essa criança de uma suposta posição de ineficiência em saber viver, conseguem ir muito longe assim como Tabachi (2006), em sua emocionante história, na qual relata a experiência como mãe de Ricardo, seu filho com autismo, e comenta como ele conseguiu chegar, de acordo com suas palavras, “tão longe”. Ela nos diz: “[...] quem

é mãe sabe que o fim de uma etapa significa sempre o começo de outra nova etapa (2006, p.15).

Teoricamente, ela fala daquilo que, pregamos todos os dias em diálogos com essas mães: “Tem que investir, tem que acreditar, tem que falar, tem que cobrar, tem que tentar.... sempre! As vezes, demora, mas, a vitória que se prolonga para acontecer, como ensina o senso comum, sempre tem um “gostinho melhor”.

Ainda, na experiência da pesquisadora/professora:

“A escola havia programado uma ida de todos os alunos ao cinema. Nós, professoras da terapêutica, decidimos participar e comunicamos à mãe de uma de nossas alunas a programação. Ela nos disse que a menina nunca tinha ido ao cinema e não imaginava como seria, mas, “topou” a atividade, e foi conosco. A aluna adorou, ficou super feliz, e sinceramente nós professores, não encontramos nenhuma dificuldade nessa tarefa. Tudo transcorreu “normalmente”. A mãe, irradiava felicidade, foi muito bonito ver as duas no cinema, cada qual com sua “turma”, a aluna sob nossos cuidados, e a mãe em outro banco, um pouco distante, observando a conquista da filha, presenciando sua participação social”.

Entre saberes e experiências, a atitude materna que precisamos incentivar, é a do discurso do afeto por esse filho. Bèrges e Balbo falam em: “colocação em jogo do afeto” (2002, p.23), no qual, a hipótese que a mãe lança para seu filho lhe colocará em posição fundante. São resgates de mãe e filho, que merecerão toda a nossa atenção. São diálogos que precisam se estabelecer para que, não fiquem inertes, frente a uma falta de sentido.

“Tem mães que falam de seus filhos na frente deles como se eles não escutassem, a gente pede que em outro momento façam suas colocações” (S12).

Se a palavra nos constitui (LACAN, 1998; VIGOTSKI, 2005), trabalho redobrado em relação à tais atitudes: Se não sabem, podem vir a saber, se não querem, podem vir a aprender a querer. Com as mães de nossos alunos, é essa a nossa função: o fazer querer, o fazer saber, o fazer amar seu filho. E tudo decorre dessa relação. Aprendem, porque sentem a falta quando se distanciam de seu maciço materno!

Embora, a teoria histórico-cultural, não faça distinções entre funções parentais (materna e paterna), considera que, os que “rodeiam” essa criança, são responsáveis e propulsores de seu desenvolvimento psicológico, o que, determinará em outras palavras, seu comportamento e interação. Portanto, não alheios à condição psíquica em questão (VYGOTSKY, 1997). Trocas sociais reafirmam o pertencimento de um sujeito ao seu grupo, a sua família, sua cultura, enfim, ao meio do qual faz parte.

Pais, e principalmente mães, são sujeitos sociais primordiais na vida de nossos alunos. Teorias e prática não divergem. A experiência confirma o que, a mediadora nos aconselhou, mãe que colabora com o trabalho pedagógico, é o melhor que pode acontecer. Nenhum subsídio/suporte nos parece melhor. Reconhecer esse fato, é reconhecer que, muito pode se decidir na vida desse aluno, se conseguirmos estabelecer essa aliança.

Silva fala dessa importância: “O que coloca em marcha o processo de desenvolvimento no ser humano é o olhar, o desejo do Outro, pois sem a intervenção do Outro materno, esse corpo nada significa, nada simboliza” (2005, p.72).

O pactopara dar vida a esse filho, a esse aluno, vida psíquica!

No documento 2008CinthiaCainoFelker (páginas 126-130)