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Atitudes dos produtores assentados em face ao risco

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.2. Análise sob condições de risco

4.2.3. Atitudes dos produtores assentados em face ao risco

Os resultados obtidos na Tabela 18 mostram que os dois fatores que mais identificam as atitudes dos produtores em face ao risco são o coeficiente de aversão ao risco (desvio-padrão) e o quadrado do coeficiente da variação da renda. A magnitude desses coeficientes influenciam, sobremaneira, a determinação do ganho de eficiência (Be), ou o ganho puro do produtor.

A forma de medir o risco varia de modelo para modelo, e isto também depende da magnitude do assunto que está sendo estudado. Por exemplo, os modelos econométricos tomam, como parâmetro do risco, o desvio entre os

Tabela 18 - Rendas médias, desvio-padrão e quadrado do coeficiente da variação da renda – cenários 1, 2 e 3

Cenários Estados Rendas Desvio-padrão Quadrado do CV

C1 Bahia 50.417,00 12.489,63 0,2816 Minas Gerais 12.231,95 6.842,20 1,8306 São Paulo 146.947,49 33.433,62 0,2970 Paraná 681.877,54 52.122,19 0,4504 Rio Grande do Sul 905.695,51 998,58 0,0007 C2 Bahia 83.492,00 12.484,93 0,2113 Minas Gerais 13.321,95 6.858,89 2,4470 São Paulo 48.176,44 40.697,79 2,2569 Paraná 410.7271,13 72.245,51 0,7660 Rio Grande do Sul 793.784,49 1.004,59 0,0001 C3 Bahia 147.738,51 13.647,32 0,0930 Minas Gerais 22.247,18 6.923,00 2,0371 São Paulo 101.480,89 44.855,06 0,9871 Paraná 525.910,52 79.429,98 0,6864 Rio Grande do Sul 919.963,99 1.099,02 0,0008

Fonte: Dados da pesquisa.

Nota: C1 = Risco do produtor na situação sem crédito fundiário; C2 = Risco do produtor com crédito fundiário; C3 = Risco do produtor quando varia o tamanho da área cultivada.

valores das variáveis observadas e ajustadas (SANTANA, 1992; JUST e POPE, 1978).

Nesse contexto, levando-se em consideração os resultados apresentados na Tabela 18, constatou-se que os estados que apresentaram menores riscos (menor desvio-padrão) foram, em ordem crescente, Rio Grande do Sul e Bahia, nos três cenários. A mesma constatação se chega, também, quando na mesma tabela se analisam os valores apresentados pelo quadrado do coeficiente de variação.

Os resultados da Tabela 19 já mostram situações bem diferentes das observadas na Tabela 18, porque, na tabela anterior, as variáveis relacionadas não mencionam graus de benefícios do produtor nos três cenários estudados.

De acordo com a Tabela 19, os resultados mostram situações diferenciadas no que se refere ao prêmio ao risco, que representa a quantia monetária que o produtor estaria disposto a renunciar para permanecer na terra. Isso equivale dizer quanto ele está disposto a pagar para converter a escolha arriscada em escolha certa. Essa quantia é a variável B da Equação 18, do modelo de Newbery e Stiglitz, a qual é definida como a diferença entre a expectativa da utilidade gerada pela renda sem crédito fundiário (Yo) e a renda “certa”, Y1, a renda com crédito fundiário.

Comparando-se os valores dessa variável (prêmio ao risco), nos cenários 1, 2 e 3, da Tabela 19, constata-se que eles são bem menores no cenário 2 do que no 1. Esse fato, na situação sem crédito fundiário, seria como se o governo estivesse disposto a pagar mais para que os beneficiados da reforma agrária pudessem permanecer na terra, porque, politicamente, havia a necessidade de provar a opinião pública nacional e internacional de que a reforma agrária, realizada naquelas condições (ocupações e desapropriações), era viável. Pelo que se sabe, mediante levantamento dos custos dos assentamentos e dos relatórios políticos que denunciavam a morosidade burocrática na legalização e na distribuição dos títulos de terras aos assentados (FAO, 1992), o único agente que acabava suportando todo o custo era o governo.

Tabela 19 - Medição dos benefícios do crédito fundiário - cenários 1, 2 e 3

Cenários Estados BT BE Prêmio ao risco Prêmio ao risco (% da renda bruta) C1 Bahia 1,4885 0,1690 57.368,54 53,02 Minas Gerais 6,9687 1,0983 71.806,43 58,70 São Paulo 0,4459 0,1782 89.534,58 65,80 Paraná 1,3841 0,2702 138.677,29 46,72 Rio Grande do Sul 1,7655 0,0007 156.687,09 63,83 C2 Bahia 0,6008 0,1267 12.874,92 11,89 Minas Gerais 0,7207 0,2682 5.534,95 41,55 São Paulo 0,4574 0,3541 4.976,62 10,33 Paraná 0,5082 0,4596 4.012,35 1,35 Rio Grande do Sul 0,0576 0,0006 5.419,30 2,20 C3 Bahia 1,6600 0,0558 71.775,71 60,30 Minas Gerais 1,5610 0,7532 17.971,27 80,78 São Paulo 2,1615 0,5922 70.844,43 49,63 Paraná 2,3952 0,4118 190.156,32 58,41 Rio Grande do Sul 1,2882 0,4118 151.992,80 56,29

Fonte: Dados da pesquisa.

Nota: C1 = Risco do produtor na situação sem crédito fundiário; C2 = Risco do produtor com crédito fundiário; C3 = Risco do produtor quando varia o tamanho da área cultivada.

Pelos resultados apresentados no cenário 2, pode-se afirmar que a situação com crédito fundiário é mais viável. O menor valor do prêmio significa que, apesar de as duas situações serem de riscos, o cenário 2 é menos arriscado. Isso pode ser justificado, de acordo com NEWBERY e STIGLITZ (1985), pelo fato de que, na situação com crédito fundiário, o beneficiado desprende maior esforço para não perder o patrimônio adquirido. Essa evidência é tratada no modelo citado como Risco Esforço, ou seja, o beneficio para atenuar ou reduzir o risco, além de diversificar a produção, também multiplica o esforço do beneficiado para aumentar a sua renda agrícola, possibilitando a ele honrar o compromisso financeiro.

A Tabela 19 apresenta os resultados alcançados pelo produtor com o crédito fundiário. O benefício de transferência do produtor (BT), isto é, o benefício que este recebe, independente de correr ou não risco6, mostra no cenário 2 que, para cada real investido, o produtor recebe um benefício de 0,60, 0,72, 0,45, 0,50 e 0,05, nos Estados da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, respectivamente. Por outro lado, o benefício puro (BE), que determina a eficiência do produtor e depende da magnitude da aversão relativa do risco dos produtores, apresenta, no cenário 2, os seguintes resultados para os Estados da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, respectivamente: 0,12, 0,26, 1,35, 0,45, 0,0006. Apesar de o valor esperado da renda (BT) ser maior no cenário1 do que no 2, a utilidade do valor esperado da renda (Be), no cenário 2, é mais representativa, motivo por que este cenário apresenta situação menos arriscada.

Quando se analisa o cenário 3, constatam-se aumentos no valor do prêmio ao risco. Esse fato é evidente porque o aumento do tamanho do lote caracteriza um esforço a mais dos produtores assentados em aumentarem as suas rendas agrícolas; nesse caso, o risco aumenta em razão de variação nos custos dos insumos.

Na Tabela 20 são analisados riscos alternativos para os assentados. Esse tipo de análise mostra como esses agricultores reagem em face aos riscos na agricultura de baixa renda. Essas reações são representadas pelos coeficientes de aversão relativa ao risco e risco esforço.

Tabela 20 - Riscos alternativos para os agricultores assentados que usam o sistema simples de produção (nível 1*)

Cenários Estados Renda média Coeficiente de variação (Y) R R’

C1 Bahia 50.417,00 0,5307 1,18 0,21

Minas Gerais 12.231,95 1,3530 1,19 0,20

São Paulo 146.947,49 0,2970 1,20 0,24

Paraná 681.877,54 0,6711 1,19 0,22

Rio Grande do Sul 905.695,51 0,0076 1,15 0,17

C2 Bahia 83.492,00 0,4596 1,20 0,24

Minas Gerais 13.321,95 2,3338 1,21 0,24

São Paulo 48.176,44 1,5023 1,19 0,22

Paraná 410.727,13 0,8752 1,19 0,22

Rio Grande do Sul 793.784,49 0,0105 1,21 0,25

C3 Bahia 147.738,00 0,3050 1,19 0,22

Minas Gerais 22.247,18 3,2435 1,20 0,22

São Paulo 101.480,89 0,9935 1,19 0,22

Paraná 525.910,52 0,8285 1,19 0,22

Rio Grande do Sul 919.963,99 0,0093 1,20 0,24

Fonte: Dados da pesquisa.

* Sistema de produção sem uso de rotações ou consorciações de culturas sem irrigação - nível 1.

Nos três cenários analisados na Tabela 20, constata-se que os agricultores assentados têm despendido esforços para aumentar suas rendas agrícolas. Essa situação pode ser verificada por meio dos coeficientes apresentados pelo R (aversão relativa ao risco) e pelo R' (coeficiente risco

zero, do que de 1 (um), e o coeficiente de aversão relativa ao risco (R) é maior que 1 (um), de acordo com NEWBERY e STIGLITZ (1985), o desempenho desses agricultores é aumentado em razão do aumento de suas aversões ao risco.

Na Tabela 20, a coluna rendas médias e renda familiar, em salário mínimo, teve impactos positivos e crescentes nos cenários 2 a 3. A diferença que se nota, quando se compara o cenário 2 com o 1, é decorrente do fato de que o cenário 1, que representa simulação sem crédito fundiário, apresenta tanto o coeficiente de variação da renda como o coeficiente de aversão relativa ao risco menores que os dos cenário 2 e 3. Além disso, no cenário 1, a renda média e a renda familiar são maiores que no 2, porque naquele cenário não está computado o custo da aquisição de terra. Isto significa dizer que, em termos de risco, o governo está “bancando” por estes agricultores, política esta insustentável no longo prazo, porque gera não só desgaste político, mas também financeiro. Por outro lado, nos cenários 2 e 3 notam-se aumentos nos coeficientes de variação da renda, bem como da aversão ao risco, o que já mostra uma situação real da atividade em que esses agricultores se engajaram. A estabilização dos coeficientes R e R', nos cenários 2 e 3, indica que os agricultores já estão cientes dos riscos que a atividade agrícola oferece, estando, portanto, aptos a administrá- los.

Com relação ao Estado do Ceará, não se ofereceu condição de análise de risco mais aprofundada, dado que, ao apresentar VPL negativo nas duas simulações (sem e com crédito fundiário), o estado já foi incluído na situação de risco e, portanto, sem viabilidade financeira para tocar o projeto, pelo menos enquanto não se estruturar em termos de associações e, ou, tecnicamente.

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