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Atitudes, estereótipos, preconceito e estigma: delimitando os conceitos

5 Atitudes lingüísticas: saber e discurso público sobre a língua

2.2 Estereótipos Sociais

2.2.1. Atitudes, estereótipos, preconceito e estigma: delimitando os conceitos

As pesquisas em sociolingüística que lidam com preconceito e estereótipos lingüísticos são conduzidas sob o rótulo de atitudes lingüísticas. Entre os conceitos relacionados a atitudes, estereótipo é o mais importante deles, na opinião de Quasthoff (1987). Atitudes, estereótipos e preconceito são conceitos distintos, mas que se entrecruzam.

Conforme definição apresentada por Fishbein e Ajzen (1975, p. 6), atitude é entendida como uma “predisposition to respond in a consistently favourable or unfavourable manner with respect to a given object”. O objeto a que os autores se referem pode ser uma pessoa, um grupo, uma determinada situação, uma variedade de língua, uma variante lingüística, dentre outros.

No âmbito da psicologia social, esclarecem Deprez e Persoons (1987, p. 125- 126), o constructo a que se denomina atitude é composto por três componentes: (i) cognitivo (composto por crenças e estereótipos); (ii) avaliativo (composto por valores afetivos relacionados às crenças) e (iii) conativo (composto pelo comportamento, conduta – determinados pelos dois componentes anteriores). Segundo os autores, os estereótipos compõem esse constructo e a formação das atitudes é precedida pelo processamento de informações, ou seja, uma atitude pessoal em relação a um objeto é baseada em suas crenças26 a respeito desse objeto.

Tanto para Quasthoff (1987) quanto para Deprez e Persoons (1987), é a qualidade avaliativa ou afetiva conferida ao conceito de atitude que possibilita a distinção

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Segundo Deprez e Persoons (1987), as crenças constituem a base da nossa estrutura conceitual. Através da observação direta ou da informação recebida através de fontes externas ou, ainda, através de processos de inferência o indivíduo aprende ou forma um número de crenças sobre um objeto, através da associação do objeto a vários atributos. A totalidade de crenças pessoais serve como base informacional que, em última instância, determina suas atitudes, intenção e comportamentos. Os autores afirmam, ainda, que as crenças que não apresentam uma informação detalhada a respeito do objeto contribuem para a formação de estereótipos, pois: “whereas some beliefs contain very exact and detailed information about the object, others consist only of very incomplete and deficient data. Since Lippmann (1922) the latter have come to be called stereotypes (DEPRE; PERSOONS, 1987, p. 126).

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entre esse conceito e o de estereótipos, como expressão de crenças. Essa qualidade avaliativa, bem exemplificada por meio da principal técnica empregada para eliciar27 atitudes em estudos da psicologia social – matched-guise28 –, permite, como afirma Quasthoff (1987), a redução das atitudes a valores em uma escala unidimensional com dois pólos bem definidos. Assim, se se considera essa definição de atitudes, a qualidade avaliativa realmente permite uma distinção entre esses dois conceitos. Seguindo essa perspectiva, a autora informa que Allport (1954) associou atitudes e crenças a duas expressões prototípicas: “I don’t like X” e “X are Y”. Com isso, afirma também que as crenças estereotipadas funcionam como uma racionalização das atitudes.

Como as atitudes eliciadas por meio das entrevistas não irão se basear na técnica matched-guise e, portanto, não estarão restritas a avaliações duais (bom/mau, por exemplo), faz-se necessário adotar a definição e a proposta apresentada por Schlieben- Lange (1993) para investigação de atitudes lingüísticas. Essa proposta será apresentada e discutida no capítulo 5.

Conforme relatam Amossy e Pierrot (2001), os psicólogos sociais definem o estereótipo como uma crença, uma opinião, uma representação relativa a um grupo e seus membros; enquanto que o preconceito é definido como a atitude adotada para com os membros do grupo em questão. O preconceito normalmente se relaciona a uma atitude (avaliação) negativa injustificável e envolve três componentes: (i) cognitivo – o estereótipo do negro, por exemplo; (ii) afetivo – o preconceito ou a hostilidade experimentada com

27 Neste trabalho, será adotado o termo eliciar. Em alguns textos, é empregado, também, o termo elicitar para

se referir às atitudes lingüísticas.

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A técnica matched guise foi elaborada por Lambert (1967) ao estudar o bilingüismo franco-inglês em Montreal na década de 60. Em seu estudo, o autor chamava a atenção para a metodologia do “falante disfarçado” ou dos “falsos pares”. Essa técnica permite a manipulação de “pistas” (cues) de características lingüísticas e/ou sociais sobre uma determinada língua ou dialeto, com o intuito de observar as reações de outras pessoas a respeito dessas características ou variações. A respeito do procedimento empregado, Calvet (2002, p. 66) explica: “Ele [Lambert] utilizava falantes bilíngües e gravava dois textos de cada um (um em francês, outro em inglês). As gravações eram em seguida apresentadas como vindas de pessoas diferentes a ‘jurados’ que deveriam, numa escala de ‘muito pouco’ a ‘muito’ descrever os falantes do ponto de vista da altura, da beleza física, da aptidão para dirigir, do senso de humor, da inteligência, da religiosidade, da confiança em si, da confiabilidade, da jovialidade, da bondade, da ambição, da sociabilidade, do caráter e da simpatia”. Os resultados obtidos por meio do emprego dessa técnica são apontados como interessantes porque os jurados não avaliavam apenas as vozes, mas sim as línguas.

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respeito a ele [negro]; (iii) e comportamental, a discriminação ou desfavorecimento de um negro por pertencer a essa categoria, sem levar em conta sua capacidade ou seus méritos individuais.

Assim, a representação de um negro como preguiçoso e irresponsável remete ao estereótipo, enquanto a manifestação de desprezo ou hostilidade diz respeito ao preconceito. O estereótipo é, então, a imagem que circula, o conjunto de traços que se atribui, ao passo que o preconceito seria a tendência a julgar desfavoravelmente.

Quanto ao estigma29, Goffman (1978) afirma que estes são atributos depreciativos, são os rótulos de qualificação que colaboram para a instituição de crenças a respeito de um objeto (indivíduo, grupo, etc) e que, uma vez projetados, podem ser compartilhados pela sociedade através da formação de estereótipos. Assim, afirma que há, portanto, “um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo” (1978, p.13). O estigma manifesta-se nas interações sociais e também está vinculado a preconceito e discriminação. Uma vez estipulados, esses rótulos conferidos aos indivíduos impossibilita-os de serem aceitos por seus pares e contribuem para alargar as diferenças.

2.3 Avaliação social, insegurança lingüística e estereótipos: gatilhos para