ATITUDES DOS PORTUGUESES FACE À IMIGRAÇÃO
2. ATITUDES FACE AOS DIREITOS DOS IMIGRANTES
No discurso político e mediático sobre a imigração, a questão da atribuição de direitos aos imigrantes é um dos tópicos centrais. No presente estudo, esta temática foi abordada distinguindo entre imigrantes que têm a sua situação legal regularizada e aqueles que a não têm, um critério utilizado em diversos estudos empíricos sobre as atitudes face à imigração em geral (v.g. Coenders et al., 2005), assim como em estudos sobre o racismo (v.g. Pettigrew e Meertens, 1995 e 1999). Na medida em que a situação de ilegalidade pode ser percebida como potencialmente disruptiva da ordem social, os valores de conformismo social levariam a uma menor aceitação dos imigrantes nessa situação.
141 χ2(4)= 23,15, p<0,00; τb =0,124, p<0,00.
Tabela 50. Dimensões das atitudes face aos direitos dos imigrantes
Indicadores das atitudes face aos direitos dos imigrantes:
análise de componentes principais
Componentes 1 Direitos: imigrantes Legais 2 Repatriação condicional 3 Direitos: imigrantes Ilegais Deve-lhes ser facilitada a naturalização
(Imig. Legais)
0,77 Devem poder trazer a sua família para
Portugal (Imig. Legais)
0,75 Devem poder votar como os portugueses
(Imig. Legais)
0,64 Devem ser reenviados para os seus países,
mesmo tendo filhos nascidos em Portugal (Imig. Legais)
-0,53
Devem ser reenviados para os seus países se não tiverem trabalho (Imig. Legais)
0,79 Devem ser reenviados para os seus países
se não tiverem trabalho (Imig. Ilegais)
0,76 Devem ser reenviados para os seus países
se cometerem algum tipo de crime (Imig. Legais)
0,71
Devem ser protegidos nos seus direitos laborais (Imig. Ilegais)
0,80 Deve-lhes ser facilitada a legalização (Imig.
Ilegais)
0,75 Devem ser todos reenviados para os seus
países de origem (Imig. Ilegais)
-0,65
Variância explicada 19,7% 19,2% 17,5%
a de Cronbach 0,62 0,66 0,63
Rotação Varimax com normalização de Kaiser. Foram ocultados todos os valores abaixo de 0,4. francamente maioritário, as opiniões em relação ao repatriamento revelam a existência
de uma fronteira simbólica que separa os imigrantes dos nacionais, nas representações dos portugueses.
Essa fronteira parece ser, ainda, mais acentuada a respeito dos imigrantes ilegais (Tabela 49) do que dos legais.
Tabela 49. Atitudes face aos direitos dos imigrantes ilegais (% válidas)
Direitos dos imigrantes a residir ilegalmente em Portugal Concorda Devem ser protegidos nos seus direitos laborais 68,2
Deve-lhes ser facilitada a legalização 76,0
Devem ser reenviados para os seus países, se não tiverem trabalho 75,0 Devem ser todos reenviados para os seus países de origem 43,9
De facto, às situações percebidas como potencialmente conflituantes com os interesses dos respondentes e com a ordem social vem juntar-se, na formação da imagem deste grupo, a condição de ilegalidade, que acentua a sua potencial força disruptiva. Nestes casos, os valores de conformismo social podem estar por trás do nítido recuo na atri- buição aos imigrantes de direitos iguais aos dos nacionais (cf. Pettigrew e Meertens, 1999).
Com o objectivo de proceder a uma redução destes indicadores e à eventual identificação de dimensões destas atitudes, procedeu-se a uma análise em componentes principais, cujos resultados se apresentam na Tabela 50.
importância). São também os que atribuem maior importância a ‘ajudar os necessitados’ e ‘dedicar a vida aos outros’ que mais tendem a concordar com esta atitude, tal como aqueles que se consideram mais satisfeitos com a vida.
Nenhuma das variáveis económicas, objectivas ou subjectivas exerce efeitos sobre esta dimensão das atitudes, assim como sobre as restantes duas dimensões identificadas. Quando nos debruçamos sobre as atitudes face aos direitos dos imigrantes ilegais encontramos resultados muito semelhantes. Ressalvam-se, no entanto, algumas excep- ções. Destaca-se a importância da dimensão rural/urbana, sendo tendencialmente os indivíduos residentes em meio urbano quem mais concorda com a atribuição de direitos aos imigrantes ilegais. Também o facto de residir numa zona com muitos ou bastantes imigrantes influencia a tendência para concordar com esta dimensão das atitudes. Da mesma forma, os indivíduos brancos tendem menos a concordar com esta dimensão do que os indivíduos de outras etnias, assim como aqueles com identificação religiosa, em contraste com os não crentes.
No que diz respeito à repatriação condicional, a influência destas variáveis faz-se, no geral, no sentido inverso, como de resto seria de esperar, uma vez que se trata de uma dimensão que traduz a recusa de igualdade completa de direitos. De facto, são os indivíduos menos instruídos, com menores rendimentos, com crença religiosa e preferen- cialmente do sexo feminino aqueles que mais defendem a repatriação de imigrantes nas condições definidas. São também aqueles que revelam menos contacto com imigrantes que defendem a sua repatriação.
Do ponto de vista dos valores sociopolíticos, encontramos entre aqueles que defendem esta dimensão preferencialmente os indivíduos que se identificam com valores materiais e aqueles que discordam de que se ‘deve proteger os mais desfavorecidos’. Nenhuma das restantes variáveis sociopolíticas se revela significativa. Entre as demais variáveis, apenas o grau de satisfação com a vida e o autoritarismo se mostram importantes, sendo que encontramos entre os indivíduos menos satisfeitos e mais autoritários a maior concordân- cia com a repatriação condicional dos imigrantes.
Na tabela estão, pois, identificados três factores: um primeiro que remete para os direitos dos imigrantes legais; um segundo que remete para a repatriação dos imigrantes, legais ou ilegais, sob determinadas condições, traduzindo assim uma negação de direitos seme- lhantes aos dos nacionais; finalmente, um terceiro factor que remete para os direitos dos imigrantes ilegais. Estes indicadores foram usados para construir 3 novas variáveis, que exprimem as atitudes encontradas em relação aos direitos dos imigrantes.
Factores explicativos das atitudes face aos direitos dos imigrantes
No que refere aos direitos dos imigrantes legais, em termos da explicação das suas varia- ções pelas variáveis sociodemográficas, nota-se que são os indivíduos mais instruídos e com rendimentos mais elevados que mais concordam com a atribuição de direitos aos imigrantes legais. Nenhuma das restantes variáveis sociodemográficas se revelou signifi- cativa. Ao que parece, o facto de ter tido uma experiência de emigração não influencia a concordância com este tipo de atitudes. No entanto, os inquiridos que têm algum familiar emigrante defendem mais este tipo de direitos do que aqueles que não o têm. Por outro lado, quanto maior for o número e a qualidade do contacto pessoal com imigrantes tanto mais os inquiridos tendem a concordar com a atribuição deste tipo de direitos.
No que respeita aos valores sociopolíticos, verifica-se, tal como seria de esperar, que são os inquiridos que se identificam com valores pós-materiais, e menos conservadores do ponto de vista moral, quem mais concorda com a atribuição de direitos aos imigrantes legais. Quanto aos valores de igualitarismo, tendem mais a concordar com esta atitude os inqui- ridos que consideram que se deve ‘garantir a todos as mesmas oportunidades’, mas que discordam de que se deve ‘compensar melhor os que mais trabalham’. Nem a afirmação de que se deve ‘proteger os mais desfavorecidos’, nem o posicionamento político revelam relação significativa com esta dimensão das atitudes face aos direitos dos imigrantes. Por outro lado, tendem mais a assumir esta atitude os indivíduos para quem ‘gozar a vida’ é bastante ou muito importante, ao contrário daqueles que adoptam posições extre- madas em relação a ‘sentir-se bem consigo mesmo’ (atribuindo-lhe muita ou nenhuma
«Proteger os mais desfavorecidos» - F=6,351
p=0,012 -
Posicionamento político (Esquerda-
Direita) - - F=5,06p=0,00
«Gozar a vida» F=3,925
p=0,008 - F=3,125p=0,025
«Sentir-se bem consigo mesmo» F=3,644
p=0,012 - F=7,905p=0,00 «Ajudar os necessitados» F=8,989 p=0,00 - F=4,045p=0,007 Autoritarismo (índice) F=2,616 p=0,016 r= -0,099** F=5,195 p=0,00 r=0,133** F=4,240 p=0,00 r=-0,107**
Satisfação com a vida F=4,769
p=0,003 p=0,043F=2,731 -
Insegurança económica objectiva - - -
Insegurança económica subjectiva. - - -
*p<0,05; ** p<0,01; *** p<0,001
Em resumo, o perfil sociográfico dos portugueses que mais tendem a concordar com os direitos dos imigrantes, legais ou ilegais, assim como a rejeitar a sua repatriação em deter- minadas condições, remete para indivíduos mais instruídos, com melhores níveis de rendi- mento, sem identificação religiosa e que têm maior contacto com imigrantes. Trata-se ainda de indivíduos que tendem a partilhar valores pós-materiais (como a defesa da liberdade de expressão) e que são menos conservadores do ponto de vista moral e que, em termos de justiça social, tendem a defender a norma igualitária mais do que a meritocrática.