6.1 PANORAMA DAS CRISES NO MERCADO DE AGÊNCIAS DE VIAGENS
6.1.2 Atitudes tomadas e seus resultados
Para um maior aprofundamento do estudo, procurou-se verificar junto aos presidentes das ABAV’s que atitudes foram tomadas pelos seus respectivos associados diante de uma situação de crise, assim como os resultados obtidos.
A pesquisa constatou que os agentes de viagens foram atuantes em suas ações por apresentarem uma certa diversidade de condutas. Também foi observado que, no geral, as empresas que se posicionaram conseguiram superar a crise e se estabelecer no mercado, fato este não evidenciado pelas agências que não foram pró-ativas.
Embora as agências tenham apresentado um número variável de ações, o estudo identificou algumas semelhanças no tocante à criatividade, segmentação de mercado, agregação de valor ao produto, personalização de serviços, inovação, apresentação de facilidades para o cliente em termos de pagamento, fusões, sistema home office, lançamento de produtos novos e diferenciados, muito trabalho e readequação.
Readequação esta melhor esclarecida por Abdon Moisés Gosson Neto (ABAV- RN) quando explana que as agências do Rio Grande do Norte procuraram adaptar seus produtos à nova realidade do mercado, citando como exemplo a última recessão. Segundo ele, até 2014, o brasileiro só viajava de classe executiva, hospedava-se em hotel de categoria 04 estrelas, e as viagens duravam em média 18, 20 e 22 dias. Com a chegada da crise, as companhias aéreas, hotéis, fornecedores de uma forma geral, baixaram os preços, então entre 2015/2016 as pessoas voltaram a ter segurança e passaram a viajar mais barato do que se estivesse viajado em 2014/2015 só que de uma forma mais contida, viajando em classe econômica, hospedando-se em hotéis de categoria 03 estrelas com duração em torno de 12,15 dias.
Abdon Moisés Gosson Neto ressalta que:
As pessoas estão se reprogramando e nós vamos aprendendo junto com o mercado a vender viagens mais baratas, com um parcelamento melhor, com um custo menor e com isso as pessoas lentamente vão voltando para o mercado, comprando e influenciando uns aos outros. É assim uma adaptação de todo o mercado. Qualquer mercado funciona assim. O passageiro desaparece e você começa a dar alternativas para ele voltar. Quais são as alternativas de viagens? Redução de preços e diminuição do padrão com qualidade.
Essas ações já apresentaram um resultado significativo com um incremento de 2016/2017 de no mínimo 40% de reaquecimento do mercado.
Shirlene Santos (ABAV-RO) complementa expondo que os agentes de viagens enfrentaram a situação com muito trabalho e uma certa sorte, explicando que as agências que atendiam determinado nicho de mercado não foram afetadas pela crise, enquanto outras sim, ocasionando o fechamento de alguns estabelecimentos. Ela ressalta também que as empresas que fizeram a opção por trabalhar diversos segmentos acabaram obtendo um equilíbrio, conseguindo se manter no mercado. Ela frisa ainda que: “quem é do setor acabou se reinventando”.
Para Afrânio Lages (ABAV-AL) é preciso ter criatividade, melhorar seu sistema de gestão e enxugar sua empresa. Essas atitudes foram tomadas em seus negócios que obtiveram em 2017 um crescimento de 20%, fato este que não vinha ocorrendo nos últimos anos.
Como empresário, ele procurou investir no momento de crise. Proprietário de agência e operadora, procurou expandir os negócios com representação em 19 estados, contratação de funcionário para atuar em home office, realização de convenções para a divulgação de pacotes junto aos agentes de viagens e elaboração de novos produtos.
Já a Sra. Eliene Meireles (ABAV-GO) salienta a importância da profissionalização, pois segundo ela: “em tempos de grande concorrência é preciso que a agência invista em planos administrativos, marketing e planejamento”.
Outras ações são elencadas por João de Souza Ávila (ABAV-SE) que cita como atitudes tomadas pelas agências de Sergipe a adoção de novos mecanismos de venda, mídia e produtos; assim como Jocemi dos Santos (ABAV-MA) relatando que em se tratando do Maranhão as empresas que estudaram seu mercado, segmentaram, modernizaram suas agências, buscaram e fidelizaram seus clientes, conseguiram driblar a situação e se manter no mercado.
Do ponto de vista da entidade, Teresa Cristina C.G. Fritsch (ABAV-RJ) expõe algo ainda não apresentado pelos demais entrevistados, quando menciona que a ABAV, através do ICABAV (Instituto de cursos da Abav), procurou proporcionar aos seus associados a qualificação para o enfrentamento de todas estas situações. Segundo ela, o Instituto tem levado qualificação a seu associado, principalmente na área de tecnologia da informação, para que as agências possam se reorganizar e estar inseridas neste novo contexto da internet.
Além desses cursos a ABAV-RJ, possui um acordo com a Universidade Federal que se trata de uma inovação em termos de ABAV, onde são promovidos cursos e palestras, assim como um MBA de gestão com foco em turismo dentro da entidade, proporcionados a seus associados por um custo reduzido, e um curso de extensão que já é realizado há 04 anos consecutivos em Portugal.
O Sr. José Maurício de Miranda Gomes (ABAV-MG) foi pontuando cada situação enfrentada com sua respectiva tomada de decisão. Com relação ao corte do comissionamento, ele expôs que as agências tiveram que refazer todo o seu processo de vendas, assim como modificar toda uma cultura já firmada há anos, onde os agentes de viagens passaram a cobrar dos clientes por uma consultoria. A segunda crise enfrentada foi a questão da internet, que inicialmente vista como concorrente, passa a ser encarada como uma ferramenta de consulta e
vendas. Faz ainda uma ressalva no tocante à internet quando diz que: “a sobrevivência do agente de viagens vai depender muito da eficiência da internet”.
A terceira e última situação pontuada pelo entrevistado é a crise econômica e política que o Brasil passou a enfrentar, onde foi necessário um ajuste na parte administrativa e financeira.
Este ajuste é necessário, pois, como relata Edmilson Rodrigues Romão (ABAV- SP), as agências que estavam preparadas financeiramente conseguiram se equilibrar de alguma forma. Segundo ele, existem 03 panoramas: “as grandes empresas que se planejam e tem um fundo de risco preparado para este tipo de emergência, algumas pequenas agências que tem essa mesma postura, mas a maioria está completamente despreparada para esses tipos de eventos”.
Ainda com ações voltadas para a área administrativa, Antônio João Monteiro de Azevedo (ABAV-PR) complementa que as agências apostaram também na terceirização de alguns serviços e destaca que, apesar dessas readequações já elencadas anteriormente, com a chegada da crise econômica, alguns agentes acabaram desistindo do ramo. Até mesmo as grandes empresas foram afetadas, como é o caso da Nascimento Turismo, 2ª maior operadora do Brasil, que decretou falência.
Para Roberto Conhago Tavares (ABAV-AM) as agências enfrentaram a crise apostando na recuperação da atividade econômica, com criatividade, diminuindo custos, buscando destinos mais atrativos, proporcionando mais facilidades ao cliente com financiamento direto e outras modalidades de pagamento. Roberto Conhago Tavares não deixa claro acerca dos resultados obtidos a partir das condutas adotadas, mas ressalta que:
O mercado não perdoa, ele é extremamente capitalista e sua regra é a de que só se estabelece quem tem competência. Há sempre uma esperança, nós vivemos em um país de uma sazonalidade econômica muito grande. Até então nós vínhamos em um caminho de fartura, de repente descobrimos que tudo aquilo não passou de ilusão e isso afetou toda a cadeia econômica do país.
Esta situação é demonstrada por Eduardo Loch (ABAV-SC) quando menciona que as agências de viagens de Santa Catarina enfrentaram as crises com muita dificuldade; ele cita como atitudes tomadas para o enfrentamento das crises algumas fusões, mas ressalta que uma das saídas para a sobrevivência é o conhecimento do mercado assim como das relações estabelecidas entre a agência e seus clientes, fornecedores, entidades e etc.
Já Bruno Mesquita (ABAV-PB) explana que “a crise econômica veio para ser um divisor de águas”. Ele salienta que as agências que saíram da sua zona de conforto, se prepararam, buscaram um nicho no mercado, capacitaram seus funcionários, contrataram
pessoas qualificadas e passaram a adotar uma melhor forma de remuneração conseguiram se manter no mercado.
Bruno Mesquita cita o exemplo de uma empresa de pequeno porte, que se preparou, se qualificou e se estruturou para atender o segmento estudantil e hoje é a agência do estado que mais leva jovens para os Estados Unidos. Outro estabelecimento focou no turismo religioso seguindo os mesmos procedimentos, treinou e qualificou seu funcionário, levou-o a conhecer o destino e hoje está se mantendo muito bem. Em suma, segundo ele “existem agências que cresceram na crise”.
Quando questionado acerca dos mecanismos utilizados para enfrentar as dificuldades, o Sr. Carlos Vieira (ABAV-DF) diz ser:
Uma luta diária, é difícil para o pequeno empresário fazer projetos de médio e longo prazo em um mercado onde a rentabilidade está cada vez menor e a sua responsabilidade está cada vez maior. Os grandes grupos empresariais do nosso setor já conseguem se organizar.
Ele observou que a partir do final de 2015, muitos empresários, em função do alto custo, retração nas vendas e da baixa remuneração, encerraram suas lojas físicas e passaram atuar em home office, posteriormente MEI (Micro empreendedor individual) atuando como
freelancer, tentando com isso se virar para poder honrar seus compromissos.
Apesar das colocações feitas pelos demais presidentes, o Sr. Getulio Teixeira Pinheiro (ABAV-AC) diverge dos demais ao mencionar que não existe uma receita mágica, muito menos grandes perspectivas para as empresas que ainda estão sobrevivendo.