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Atividade comercial e a estabilização do imigrante no Amazonas

Georgia Pozzetti Daou1 Dra. Lucia Marina Puga Ferreira2

Resumo: desde o ciclo da borracha, Manaus recebe imigrantes de várias partes do mundo. Assim, durante a formação da cidade, as vá-rias nacionalidades que chegavam em busca de oportunidades me-lhores do que as encontradas na nação de origem, seja no comércio, na indústria, no extrativismo, na produção cultural ou em serviços, portugueses, italianos, sírio-libaneses, ingleses, japoneses, americanos e judeus, contribuíram para a construção de uma capital moderna e desenvolvida. Mesmo com os desafios econômicos visíveis no Brasil, o país ainda é a escolha de muitos imigrantes para a construção de uma nova vida, e, Manaus, por ser uma região fronteiriça, é a porta de entrada de muitos desses povos, como venezuelanos e haitianos, que continuam chegando à cidade há alguns anos.

Verifica-se, assim, que os imigrantes, inicialmente, procuram empre-gos, porém, ao se depararem com as dificuldades que essa busca ofe-rece, seguem para atividades informais, como o comércio ambulan-te. Nos séculos XiX e XX, então, o comércio foi importante para a integração entre imigrantes e população local, além de se constituir parte do processo de pertencimento. Dessa forma, a partir da pesqui-sa bibliográfica e exploratória, desenvolvemos o trabalho a seguir em busca de entender se a atividade comercial também pode ser um fator de inserção socioeconômico e cultural para os imigrantes do século XXi que estão em Manaus.

Palavras-chave: imigração; comércio; trabalho inserção

1 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGiCH) da Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Especialista em Gestão de Pessoas pela UniNorte (2014). Graduada em Hotelaria pela Castelli Escola Superior de Hotela-ria (2009). E-mail: [email protected]

2 Doutora em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (2013). Graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1997) e Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (2002). Professora da Universidade do Estado do Ama-zonas. Líder do Grupo de Pesquisa “Laboratório de Pesquisa em Ciências Sociais da Amazônia – LAPECSAM” (UEA). E-mail: [email protected].

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introdução

No decorrer da história da cidade, Manaus recebeu imigran-tes de várias nacionalidades, como japoneses, libaneses, sírios, es-panhóis, italianos, alemães e povos de outras nacionalidades que, segundo Staevie (2018), foram primordiais para a organização do mercado de trabalho da região. isso porque, a partir dos esforços desses povos, em conjunto com a população manauara, a cidade conseguiu se desenvolver em diversos setores da economia.

Com o passar do tempo, os fluxos migratórios foram diminuin-do. Manaus se tornou uma cidade estabelecida e a população local se acostumou com os traços e as características dos descendentes daqueles imigrantes anteriores. Agora, com os novos deslocamentos estrangeiros para a cidade, absorver e ambientar os novos morado-res, seja no trabalho, moradia ou saúde, tem sido um desafio para a população.

A chegada em massa de haitianos (a partir de 2010) e vene-zuelanos (a partir de 2014), nos leva a repensar se a forma como os imigrantes – vindos no final do século XiX e início do XX – con-seguiram se estabelecer e criar raízes no município pode também ser igual para esses novos imigrantes na região. Assim, foi com o objetivo de entender se a inserção socioeconômica e cultural dos imigrantes se dá também por meio da atividade comercial que este trabalho é desenvolvido.

Metodologia

Tendo como base autores como Samuel Benchimol, a elabo-ração deste trabalho se dá a partir de pesquisas exploratória e bi-bliográfica, capazes de fornecer-nos os aportes necessários para a análise.

Discussão

De acordo com Marília Ferreira Emmi (2009), no período en-tre 1850 e 1950, a Amazônia recebeu cinco fluxos migratórios que merecem ser destacados pela relevância na economia, sociedade, cultura e composição demográfica da região amazônica. São eles:

portugueses, italianos, espanhóis, sírio-libaneses e japoneses que, de modo geral, vieram em busca de melhores condições de vida.

Além desses povos, Samuel Benchimol (2009) atribuiu também aos cearenses, judeus e norte-americanos a responsabilidade pela for-mação sociocultural da região amazônica. Staevie afirma que “é mister compreender que os estrangeiros foram fundamentais na estruturação do mercado de trabalho urbano, seja no âmbito da oferta, como na demanda por trabalho” (2018, p. 170), fato também observado nos fluxos migratórios abordados por Benchimol. Por exemplo, enquanto os portugueses foram pioneiros nas casas avia-doras e dominaram o comércio da borracha, os sírio-libaneses atua-ram como regatões e mascates. Os italianos investiatua-ram no atua-ramo de calçados e vestuário, os japoneses instalaram suas multinacionais, os ingleses focaram na exportação e os judeus viram uma excelente oportunidade de crescimento quando os europeus abandonaram a região na crise da borracha, tomando seu lugar na economia.

Na contemporaneidade, a cidade já está estabelecida e os novos personagens dos fluxos migratórios (haitianos e venezuelanos) que Manaus recebe têm procurado inserir-se nos setores de trabalho aos quais pertenciam em seu país de origem. Porém, “para aqueles que apresentam uma maior qualificação, o problema é encontrar traba-lho na sua área, já que terão que revalidar os seus diplomas para exercer no Brasil a atividade laboral do país de origem” (SiLVA, 2015, p. 167). Assim, pelo fato de o processo de revalidação ser lon-go e por priorizarem a necessidade de uma fonte de renda, acabam aceitando empregos inferiores à suas qualificações ou, ainda, partin-do para o trabalho informal.

Por ser um modo de subsistência capaz de superar barreiras linguísticas, o comércio ambulante é uma forma de inserção no mer-cado de trabalho muito comum aos imigrantes. Hoje, em uma rápi-da caminharápi-da pelo centro de Manaus, é possível identificar muitos haitianos e venezuelanos com suas barracas e carrinhos, ofertando frutas, salgados, doces e outros. O retorno de investimento rápido no ramo alimentício proporciona a essas pessoas a sobrevivência em uma nova terra, que os recebe ao mesmo tempo com oportunidades e preconceitos. Entre um consumidor e outro, o imigrante expressa a saudade de casa, os desafios pelos quais passou até chegar aqui, as expectativas para uma vida nova e a vontade de retornar à terra na-tal. Também apresenta características de seu país de origem, arrisca palavras em português e divulga os pratos típicos, a fim de manter

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o vínculo com a sua identidade. A atividade comercial então, além de ser o ofício desses imigrantes, sociabiliza o indivíduo aos poucos.

Conclusão

Com base nas bibliografias dos movimentos antigos e a ob-servância dos fenômenos migratórios atuais da cidade de Manaus, concluímos que, de fato, o comércio pode ser considerado um im-portante meio de inserção socioeconômico e cultural, uma vez que o contato com o consumidor promove, além da habituação ao novo idioma, a possibilidade de propagação da cultura do imigrante e de formação de uma rede de contatos local.

Referências bibliográficas

BENCHiMOL, Samuel. Amazônia: formação social e cultural. 3 ed. Manaus: Valer, 2009.

EMMi, Marília Ferreira. Fluxos migratórios internacionais para a Amazônia bra-sileira do final do século XIX: o caso dos italianos. in: ARAGÓN, Luis E. (Org.).

Migração internacional na Pan-Amazônia. Belém: NAEA, 2009.

SiLVA, Sidney Antonio da. Inserção social e produtiva dos haitianos em Manaus.

in: PRADO, Erlan José Peixoto; COELHO, Renata (org.). Migrações e Trabalho.

Brasília: Ministério Público do Trabalho, 2015.

STAEViE, Pedro Marcelo. Imigração estrangeira, economia e mercado de traba-lho na Amazônia brasileira entre o final do século XIX e início do século XX. Res-gate - Rev. interdiscip. Cult., Campinas, v. 26, n. 1 [35], p. 153-172, jan./jun. 2018.