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Capítulo III: conceitos e palavras-chave

3.5 Atividade física e saúde

Desde a Antiguidade, a prática de atividades físicas tem sido associada à possibilidade de melhoria da saúde ou integrando concepções de desenvolvimento humano.

Seguindo a Pitanga (2002) dizemos que desde as épocas mais remotas, conforme evidenciado por escritas gregas e chinesas, terapeutas têm ressaltado a importância da atividade física para tratamento de doenças e melhoria da saúde.

Retornando aos primórdios da humanidade, podemos dizer que durante o período que se convencionou pré-histórico, o homem dependia de sua força, velocidade e resistência para sobreviver. Suas constantes migrações em busca de moradia faziam com que ele realizasse longas caminhadas ao longo das quais lutava, corria e saltava, ou seja, era um ser extremamente ativo fisicamente.

Mais tarde, na antiga Grécia, a atividade física era desenvolvida na forma de ginástica que significava ―a arte do corpo nu‖. Estas atividades eram desenvolvidas com fins bélicos (treinamento para guerra), ou para treinamento de gladiadores Os gregos acreditavam na exercitação moderada como um dos fatores constituintes da vida saudável.

A atividade física escolar na forma de jogos, danças e ginástica surge na Europa no início do século XIX. Atualmente, a atividade física pode ser entendida como qualquer movimento corporal, produzido pela musculatura esquelética, que resulta em gasto energético, tendo componentes e determinantes de ordem biopsicossocial, cultural e comportamental,

29 podendo ser exemplificada por jogos, lutas, danças, esportes, exercícios físicos, atividades laborais e deslocamentos.

O conceito de saúde, ao longo do tempo, significou: ausência de doença (visão simplista), completo bem-estar físico-psíquico-social (visão idealista), estar em um padrão

―normal‖ (normal/patológico, visão relativista), ou ainda disposição de superação das adversidades físicas, psíquicas e sociais (visão subjetivista).

Na atualidade, o conceito de saúde tem sido definido não apenas como a ausência de doenças. Saúde se identifica como uma multiplicidade de aspectos do comportamento humano voltados a um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Pode-se também definir saúde como uma condição humana com dimensões física, social e psicológica, cada uma caracterizada por polos positivo e negativo. A saúde positiva estaria associada com a capacidade de apreciar a vida e de resistir aos desafios do cotidiano, enquanto a saúde negativa estaria associada com a morbidade e, no extremo, com a mortalidade.

A saúde pode ser definida como um estado de completo bem-estar físico, mental e social (Straub, 2005), que não se restringe à mera ausência de doença ou enfermidade, ou seja, um estado positivo e multidimensional que envolve três domínios: saúde física, psicológica e social. Czeresnia (2004) conceitua saúde como qualidade de vida resultante de um complexo processo condicionado por diversos fatores, tais como, alimentação, justiça social, ecossistema, renda e educação, dentre outros. (Camargo, 2011).

Segundo Maria Carvalho (2001), a saúde não é um objeto, um presente. Portanto, ninguém pode dar saúde: o médico não dá saúde, o profissional de Educação Física não dá saúde, a atividade física não dá saúde. A saúde resulta de possibilidades que abrangem as condições de vida, de modo geral, e, em particular, ter acesso a trabalho, serviços de saúde, moradia, alimentação, lazer conquistados – por direito ou por interesse – ao longo da vida.

Tem saúde quem tem condições de optar na vida. Todos esses são elementos que determinam a nossa saúde que não é só física, mental ou emocional. É tudo junto, ao mesmo tempo!

Pensar na saúde do homemé considerá-lo como ser político – cidadão – e ético – profissional.

No âmbito das informações, é uma verdade quase incontestável que a atividade física faz bem à saúde e, nestes termos, explicam Alves e De Carvalho (2010) que atividade física e saúde se juntam e propõem uma afinidade indissociável, concebem esta aproximação como uma verdade absoluta. Como desdobramento desta afirmação, inscreve-se uma concepção de

30 atividade física e saúde que se arrasta sobre o âmbito da esfera pública, tentando persuadir os indivíduos quanto à necessidade de "experimentar" esta associação.

Inscreve-se neste movimento ideológico certa visão de atividade física e saúde que dentre as infinitas arbitrariedades que institui, nos faz ver beleza física como sinônimo de magreza, corpo sarado como sinônimo de saúde, além de outras aproximações (que o próprio leitor pode suscitar à medida que é afetado pela interpretação aqui operada) e que reiteram o vínculo permanente instituído entre os conceitos de atividade física e saúde.

Segundo Mendes (2009) em Alves e Carvalho (2010), o cenário midiático contribui sobremaneira na instituição desta visão ideológica entre atividade física e saúde. A exercitação corporal goza de prestígio social por ser vinculada a questões importantes como educação, saúde, produtividade, bem-estar comunitário, qualidade de vida etc. Fora dos círculos acadêmicos, os meios de comunicação constantemente veiculam informações a respeito da necessidade de o homem contemporâneo melhorar sua qualidade de vida por meio da adoção de hábitos mais saudáveis em seu cotidiano.

Deste modo, os padrões impostos por certas imagens fazem com que nos voltemos contra nós mesmos, revoltados com nossa própria inadequação. Tal descompasso é desconfortante e nos força a uma retratação que, muitas vezes, corre na contramão de nossos próprios desejos.

Carvalho argumenta sobre esta neurose que se apossa do homem na atualidade:

"Esta é uma época 'neurotizada' pela ideia da atividade física como saúde associada à beleza estética como único caminho para o sucesso, para a felicidade e para o dinheiro" (CARVALHO, 2004, p. 162).

E, à luz do pensamento de Featherstone, acrescenta: "[...] quanto mais perto o corpo estiver das imagens de juventude, de saúde, de boa forma e de beleza, veiculadas pela mídia, mais alto é seu valor de troca" (CARVALHO, 2004, p. 162).

A mesma autora salienta que a prática de exercícios físicos, tal como foi conduzida através dos tempos, se encaixa como um bem de consumo e que, por isto mesmo, estaria sujeita a um valor de consumo assim como qualquer outro objeto exposto no mercado da indústria cultural. Desta forma, a atividade física se transformou em um bem de consumo e como tal assume um valor de mercado.

31 As mudanças tecnológicas, a Saúde Pública e a política de mercado delegam ao indivíduo a responsabilidade do cuidado com o corpo. Sugerem as mais variadas estratégias de combate à sua deterioração. A indústria cultural e a da beleza, especialmente, exercem papel fundamental nesse processo, uma vez que transmitem a destruição de determinados valores relacionados ao corpo e, ao mesmo tempo, fornecem os novos (da cultura de consumo), que irão substituir os tradicionais (Carvalho, 2001). Com relação a esses novos valores, mesmo a parcela da sociedade destituída de poder aquisitivo incorpora também tal estilo de vida consumista, por meio de consumo das imagens ―em si‖ (Featherstone, 1991).

Matsudo&Matsudo (2000) em Assumpção (2002) afirmam que os principais benefícios à saúde advinda da prática de atividade física referem-se aos aspectos antropométricos, neuromusculares, metabólicos e psicológicos.

E, na dimensão psicológica, afirmam que a atividade física atua na melhoria da autoestima, do autoconceito, da imagem corporal, das funções cognitivas e de socialização, na diminuição do estresse e da ansiedade e na diminuição do consumo de medicamentos. Guedes

& Guedes (1995) defendem a inter-relação entre atividade física, aptidão física e saúde, as quais se influenciam reciprocamente. Segundo eles, a prática da atividade física influencia e é influenciada pelos índices de aptidão física, as quais determinam e são determinados pelo estado de saúde. (Assumpção, 2002).

Estudos experimentais sugerem que a prática de atividades de intensidade moderada atua na redução de taxas de mortalidade e de risco de desenvolvimento de doenças degenerativas como as enfermidades cardiovasculares, hipertensão, osteoporose, diabetes, enfermidades respiratórias, dentre outras. São relatados, ainda, efeitos positivos da atividade física no processo de envelhecimento, no aumento da longevidade, no controle da obesidade e em alguns tipos de câncer (Powellet, 1985; Gonsalves,1996; Matsudo&Matsudo,2000).

Destas constatações infere-se que a realização sistemática de atividades corporais é fator determinante na promoção da saúde e da qualidade de vida.

A Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (1999), em posicionamento oficial, sustenta que a saúde e a qualidade de vida do homem podem ser preservadas e aprimoradas pela prática regular de atividade física.

32 Lima (1999) em Assumpção (2002) afirma que a atividade física tem, cada vez mais, representa um fator de qualidade de vida dos seres humanos, possibilitando-lhes uma maior produtividade e melhor bem-estar.

A Organização Mundial de Saúde definiu qualidade de vida como a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e do sistema de valores os quais ele vive, considerando seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações (Flecket, 1999 em Assumpção, 2002).

De acordo com a VIII Conferência Nacional de Saúde,num sentido mais abrangente, a Saúde é o resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra, e acesso aos serviços de saúde. É assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar desigualdades nos níveis de vida.

Em contrapartida, o conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde que diz que saúde ―é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade‖ (Lewis, 1996, p. 1.100) mostra-se estático e impossível de ser alcançável, uma vez que não compreende a saúde a partir de um processo dinâmico, em que a doença seria uma nova dimensão da vida e não são dissociadas uma da outra e porque

―completo bem-estar‖ expressa a total ausência de problemas. (Nogueira e Palma, 2003).

A visão ―medicalizada‖ de saúde que, por sua vez, dá origem a propostas de intervenção com forte conotação laboratorial, insiste que a questão da adesão à exercitação regular repousa principalmente na mudança de caráter comportamental, com a adoção de atitudes que não apenas libertarão o indivíduo de seu inaceitável sedentarismo, como irão proporcionar-lhe uma vida saudável e economicamente produtiva.

Nahas e García (2010) explicam que as grandes transformações mundiais das últimas décadas provocaram mudanças sociais e na saúde, individual e coletiva, jamais imaginadas. O perfil dos problemas de saúde atuais faz com que a promoção de estilos de vida saudáveis (e ativos fisicamente) seja valorizada e colocada como uma das prioridades em saúde pública no planeta.

Entende-se como atividade física do ser humano qualquer movimentação corporal voluntária capaz de produzir um gasto energético acima dos níveis de repouso. Atividade

33 física é uma característica inerente do comportamento humano, necessária para o bom desenvolvimento orgânico e socioafetivo das pessoas. Historicamente, tinha um papel utilitário mais relevante (caça, fuga, luta, busca por abrigo) do que tem hoje, mas mantém-se a necessidade de movimentação corporal por questões de saúde, de crescimento saudável e envelhecimento com mais autonomia. Por ser um comportamento humano, é complexo de ser entendido e, mais ainda, de ser medido com precisão.

O jeito de viver das pessoas ou seus estilos de vida representam o conjunto de suas atividades cotidianas, habituais, que são incorporadas em função dos valores, atitudes e oportunidades presentes nas vidas das pessoas (NAHAS, 2006).

Por condições de vida entende-se o conjunto de fatores socioeconômicos e ambientais que afetam as vidas de pessoas e comunidades. O conjunto de fatores presentes nas condições de vida e as características do estilo de vida das pessoas definem o que chamamos por qualidade de vida, sempre mediado por um constructo que chamamos de percepção de bem-estar (NAHAS, 2006). Dessa maneira, a atividade física habitual representa uma das importantes características do estilo de vida individual e que podem afetar a saúde, positiva ou negativamente.

Pode-se definir lazer na perspectiva do tempo livre de obrigações, da atividade prazerosa e de livre escolha ou do contexto em que pode ocorrer. Uma definição mais formal está na Carta Internacional de Educação para o Lazer (WORLD LEISURE AND RECREATION ASSOCIATION - WLRA, 1993), na qual diz que lazer é a ―área específica da experiência humana, com seus próprios benefícios, incluindo liberdade de escolha, criatividade, satisfação, diversão e aumento de prazer e felicidade‖. Ainda neste documento, os especialistas afirmam que o lazer promove a saúde e o bem-estar, possibilitando aos indivíduos escolher atividades que sejam adequadas aos seus interesses e necessidades.

Define-se Lazer Ativo como um estilo de vida em que a atividade física é valorizada e integrada na vida diária, com ênfase no lazer. Tem como princípios a opção por atividades de lazer fisicamente ativas, na companhia de amigos ou familiares e preferencialmente em contato com a natureza (NAHAS, 2006).

Quando falamos aqui em atividade física, estamos nos referindo a uma prática corporal que privilegia o movimentar-se como forma de manifestação, de expressão, por meio do corpo, de interesses, necessidades e desejos de homens e mulheres. Trata-se, portanto, de

34 uma definição que transcende a dimensão física na interpretação, compreensão e intervenção no corpo, pois há valores, sentidos e significados para cada uma das ações.

As práticas corporais são práticas de saúde porque são ações coletivas voltadas para o

―modo de andar a vida‖, que determinam a melhora das condições de existência das pessoas, não demandam intervenção externa (medicamentos, exames, consultas) e possibilitam transformações relativas a valores, sentidos e significados.

As práticas corporais e a atividade física, em particular, podem ser desencadeadoras de necessidades, interesses e desejos relativos à melhoria das condições de vida, no plano individual e coletivo.

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