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3. ATIVISMO ALIMENTAR

3.2. Ativismo alimentar: histórico, conceitos e contexto atual

3.2.1. Ativismo alimentar a partir dos anos 2000

Apesar de já poderem ser identificados há algumas décadas, o que interessa para esta pesquisa são os aspectos contemporâneos do sistema agroalimentar –reflexo de suas transformações históricas já mencionadas – e as correspondentes iniciativas de ativismo alimentar que ensejam, em especial devido ao aumento de suas manifestações no início dos anos 2000.

Azevedo (2017) atribui este incremento de iniciativas desta natureza às redes sociais e ao maior grau dos efeitos negativos gerados pela ordem alimentar estabelecida.

Azevedo e Peled (2015) mostram que, com a maior circulação de notícias pela internet, chegaram ao público leigo informações sobre impactos da alimentação na saúde e efeitos nocivos ao meio ambiente das práticas agrícolas convencionais, por exemplo. Essa conscientização abriu caminho para um novo tipo de ativismo, mais acessível, porque pode ser representado tanto por uma mudança no comportamento do consumidor, que passa a buscar canais alternativos para comprar alimentos, até o seu engajamento em organizações mais estruturadas.

Neste âmbito, exemplos de expressões ativistas digitais são aplicativos como o “Buycott”

e o “Desrotulando”, por meio dos quais o consumidor pode acessar, pelo código de barras de cada produto, diversas informações importantes ligadas por exemplo a composição, forma de produção ou histórico da empresa fabricante. Estas informações são adicionadas de maneira colaborativa pelos próprios usuários. É possível, inclusive, no caso do “Buycott”, dar início, via aplicativo, a uma campanha de mobilização para boicote a um produto (SCHNEIDER et al., 2017).

Desempenharam papel fundamental nessa tendência crítica personalidades que seja por meio de seu espaço na mídia tradicional e nas redes sociais, de seus livros ou de sua atuação como chefes de cozinha renomados levaram reflexões sobre os aspectos das escolhas alimentares a um público mais amplo, que passou a se engajar. Exemplos que podem ser mencionados aqui são Michael Pollan, Jamie Oliver, Vandana Shiva e Alice Waters (CULINARY NUTRITION, 2019).

Apesar de um menor impacto desse tipo ação de celebridades no Brasil, alguns expoentes valem ser mencionados: Bela Gil, Neide Rigo, Paola Carosella e Rita Lobo.

Nesta ordem de ideias, convém destacar também no Brasil o lançamento, pelo Ministério da Saúde, do Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014), mencionado anteriormente. Este documento busca influenciar mudanças de hábito ao priorizar o consumo de alimentos frescos e/ou in natura, desaconselhar os alimentos ultraprocessados2 e recomendar a compra de produtos diretamente da agricultura familiar de base agroecológica, justificada por seus benefícios socioambientais.

2 O termo “alimento ultraprocessado” designa “formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), derivadas de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratório com base em matérias orgânicas como petróleo e carvão (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e vários tipos de aditivos usados para dotar os produtos de propriedades sensoriais atraentes)” (BRASIL, 2014).

Outras iniciativas interessantes a serem destacadas são a campanha “Agrotóxico Mata”, que reúne uma série de organizações da sociedade civil para a mobilização popular contra o uso de agrotóxicos (CONTRA OS AGROTÓXICOS, 2019), e o Banquetaço (GAMA, 2019), movimento que reúne chefes de cozinha e organizações da sociedade civil para cozinhar gratuitamente para a população do centro de São Paulo buscando dar visibilidade a questões alimentares e pressionar por um maior engajamento do poder público neste âmbito. A primeira desta manifestação ocorreu em 2017 contra a proposta de inserção de um item ultraprocessado na alimentação escolar pelo prefeito da cidade de São Paulo à época, o que provocou o abandono da ideia após intensa mobilização social. A segunda foi em fevereiro de 2019 com o objetivo de reivindicar o reestabelecimento do CONSEA (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), extinto pelo governo federal (GAMA, 2019) no início do mesmo ano. Nesta ocasião do Banquetaço, amplamente divulgada pela mídia, foram servidas quinze mil refeições cujos ingredientes eram preferencialmente de origem agroecológica. Vale destacar que uma mobilização como do Banquetaço ocorre primordialmente pelos grupos de Facebook e de Whatsapp, o que permite capilaridade ao grupo e eventos simultâneos em diversos municípios, considerando as respectivas pautas locais (AZEVEDO e DORIA, 2019).

Há ainda formas cada vez mais recorrentes de se promover o ativismo alimentar, as quais Azevedo e Peled (2015) chamam de “artevismo alimentar”, por se associarem à manifestações artísticas. Tratam-se de iniciativas que têm no alimento ou na comensalidade a base de sua criação e, muitas vezes, foco de sua crítica. Exemplo desse formato de ação ocorreu na 32a Bienal de Artes de São Paulo, em 2016, quando o artista Jorge Menna Barreto desenvolveu o projeto “Restauro”, que operava simultaneamente como obra de arte e restaurante, levantando questões acerca dos hábitos alimentares e seu impacto no meio ambiente (BARRETO, 2016).

Por fim, é notório o crescimento de práticas de ativismo alimentar que encontram no consumidor, de maneira individual ou coletiva, o protagonista das ações, por meio de seus hábitos e escolhas. O vegetarianismo, por exemplo, tinha entre seus adeptos, em 2018, 14% da população brasileira. Esta proporção representa um crescimento de 75% em relação a 2012, quando foi auferida pela primeira vez (IBOPE INTELIGÊNCIA, 2018).

O mercado de orgânicos também é reflexo do crescente interesse pela qualidade e origem dos alimentos: de acordo com uma pesquisa realizada em 2019 pela Organis, entidade que reúne produtores de orgânicos no Brasil, 19% de respondentes, quando questionados se haviam consumido alimentos orgânicos nos últimos 30 dias, responderam positivamente, proporção que era de 15% em 2017. A principal motivação dos consumidores para tal escolha, segundo o estudo, é a sua própria saúde (ORGANIS, 2019).

Formas de organização menos mercadológicas para consumo de alimentos são também referência relevante no debate sobre o ativismo alimentar contemporâneo: as CSAs, ou Comunidades que Sustentam a Agricultura, são organizações de suporte mútuo entre consumidores e produtores de alimentos. Neste modelo, em seu formato conceitual um grupo de consumidores compartilha os custos da produção agrícola de um produtor por um ano, recebendo em contrapartida parte ou a totalidade dos alimentos produzidos, sem custo adicional. Como benefícios está a diminuição dos riscos e flutuações do produtor e o acesso a alimento de qualidade pelos consumidores (CSA BRASIL, 2019).

Como se constata, as formas de manifestação do ativismo alimentar são diversas e podem engendrar diferentes críticas e debates a respeito de sua origem e propósitos. Convém também compreender mais profundamente tais discursos, em particular aqueles associados a modelos de ativismo visando um sistema agroalimentar mais inclusivo e justo.