2.2 AS RELAÇÕES PESSOAS-AMBIENTE
2.2.4 Ativismo cívico e desenvolvimento do apego ao lugar
A linha de raciocínio desenvolvida nesta Dissertação indica que a correção de disfunções existentes na configuração urbana depende da e- ficiência da participação popular em processos de gestão democrática da cidade. Nesta Dissertação, esta participação popular é o que se chama de ativismo cívico.
Esta linha de raciocínio pressupõe que o desenvolvimento urbano sustentável é função de uma leitura precisa de como determinados com- ponentes ambientais se apresentam na cidade, e que esta leitura deve ser realizada pelas pessoas que vivem e trabalham na vizinhança.
O ativismo cívico pode, enquanto processo psicossocial passível de condicionamento, ter seu potencial maximizado através de ações de
educação ambiental urbana que provoquem o desenvolvimento de com- portamentos pró-ambientais.
Carrus, Passafaro e Bonnes (2008), Werner, Sansone e Brown (2008), Shen e Saijo (2008) e Hansla, Gamble, Juliusson e Gärling (2008) examinaram componentes psicológicos que podem ser social- mente compartilhados (como emoções, hábitos e escolhas racionais) e a forma como tais componentes podem ser modificados por atividades co- letivas. Os estudos realizados por estes autores indicam que o desenvol- vimento de atividades coletivas pode ser modificado por comportamen- tos orientados segundo valores e conhecimentos adquiridos.
Segundo Lewicka (2005), o ativismo cívico pode ser amplamente definido como qualquer forma de participação cívica sem fins. Segundo esta autora, a maioria dos cidadãos ativos tem grau de instrução mais e- levado, maior rendimento, é do sexo masculino, ocupa cargos de gestão, tem entre 40 e 50 anos e mora na cidade. Em outras palavras, o ativismo cívico é mais comum entre pessoas com maior capital cultural ou poten- cial criativo. Lewicka (2005) argumenta que existe a possibilidade de desenvolver o ativismo cívico através de um caminho de duas vias: a sócio-emocional e a cultural.
Na sócio-emocional o ativis- mo cívico é produzido a par- tir dos laços de vizinhança, ao passo que na cultural é produzido a partir do capital cultural e do interesse nas próprias raízes.
Em concordância com Lewicka, Manzo e Perkins (2006) estabe- leceram relações entre o apego ao lugar e o significado do lugar com a teoria, a pesquisa e a prática da gestão democrática da cidade. Tais cons- tatações permitem elevar as experiências individuais e os laços afetivos entre indivíduos e os lugares ao nível sociopolítico em que operam os planejadores urbanos. Estes autores chamam explicitamente à atenção a importância da dimensão afetiva (apego ao lugar, coesão social) da co- munidade para seu efetivo engajamento em ações de gestão democrática da cidade.
Manzo e Perkins ressaltam que psicólogos que estudam o apego ao lugar geralmente não discutem o desenvolvimento comunitário, da mesma forma que planejadores urbanos geralmente não incorporam conceitos de psicologia ambiental em seus estudos e prática. A combi- nação destas ciências possibilita uma compreensão mais abrangente de como o planejamento urbano pode influenciar a relação pessoa-ambiente
Ativismo Cívico
É qualquer forma de participação cívica em atividades sem fins lucrativos, como o associativismo, o trabalho voluntário, doa- ções de dinheiro para a caridade ou a par- ticipação em ações locais de gestão demo- crática da cidade.
e de como emoções, cognições e comportamentos comunitários, coleti- vos, podem influenciar o planejamento participativo e o desenvolvimen- to comunitário.
Knez (2005) explicou que o apego ao lugar é uma relação afetiva entre pessoas e a configuração ambiental, que envolve emoções, crenças e comportamentos direcionados aos lugares em questão e que representa uma forte tendência das pessoas se manterem ligadas a esses lugares, que se tornam referências pa-
ra a identificação social e o desenvolvimento de compor- tamentos compartilhados en- tre os membros da comuni- dade.
Brown, Perkins e Brown (2003) observaram que a configuração ambiental traduz as relações de vizinhança entre os moradores, sua pre- ocupação com a qualidade dessa configuração ambiental, sua identifica- ção e seu apego ao lugar, cultivados através da acumulação de memó- rias, do esforço investido na personalização de casas e jardins, e de a- ções cotidianas de manutenção do espaço. A coesão social emerge natu- ralmente como resultado dessas dinâmicas, associadas ao tempo de resi- dência e outros fatores anteriormente mencionados.
Hernández, Hidalgo, Salazar-Laplace e Hess (2007), Knez (2005), Lewicka (2005) e Kuhnen (2002) apontam para a possibilidade de se desenvolverem formas coletivas de ativismo cívico através do in- centivo à formação e fortalecimento de laços de vizinhança e ao desen- volvimento do apego ao lugar. Segundo estudos destes autores, o tempo de residência influencia a percepção ambiental e o desenvolvimento de comportamentos pró-ambientais. A Figura 3 ilustra de maneira esque- mática como alguns fatores que interferem no desenvolvimento do ati- vismo ambiental e do apego ao lugar podem ser promovidos a partir de ações de educação ambiental baseadas em mapas temáticos.
Apego ao Lugar
É uma relação afetiva das pessoas com a configuração ambiental, e representa uma forte tendência das pessoas se manterem ligadas a essa configuração.
Ativismo ambiental: gestão democrática da cidade Tempo de residência Desenvolvimento de comportamentos pró-ambientais Responsabilidade pessoal Percepção de auto-eficácia Capacidade de discriminação de aspectos ambientais Apego ao lugar Laços de vizinhança Educação ambiental
Figura 3: Fatores que influenciam o desenvolvimento do ativismo ambiental.
A idéia central ilustrada na Figura 3 é a de que a realização de ações de educação ambiental baseadas em mapas temáticos aumenta a participação popular na gestão democrática da cidade. A partir dessas ações de educação ambiental os laços de vizinhança seriam fortalecidos através da constatação de que outros moradores e trabalhadores locais percebem as mesmas disfunções ambientais.
Esta idéia central complementa-se com outra, de que as ações de educação ambiental atuam sobre componentes psicológicos individuais que, por sua vez, estabelecem e fortalecem laços de apego ao lugar.
As informações transmitidas durante as ações de educação ambi- ental ainda interferem nas seguintes dinâmicas individuais: aumentam a capacidade de o indivíduo discriminar aspectos ambientais que contri- buem para a qualidade de vida e o desenvolvimento humano; facilitam a identificação de comportamentos pró-ambientais que o indivíduo pode- ria desenvolver para aumentar a qualidade do ambiente; indicam de que formas o indivíduo tem responsabilidade sobre a manutenção da quali- dade ambiental; permitem a constatação de que outros moradores ou trabalhadores locais presentes durante a realização das ações de educa- ção ambiental têm a mesma disposição para corrigir as disfunções ambi- entais apresentadas nos mapas, resultando em maior percepção de auto- eficácia coletiva.
A coesão mínima existente neste grupo disposto a melhorar a qualidade do ambiente, associada às ações de educação ambiental base- adas em mapas temáticos, aumenta a capacidade da comunidade para obter resultados positivos para a vizinhança no processo de gestão de- mocrática da cidade. Ressalta-se que, apesar da Figura 3 representar um reducionismo do complexo sistema de interações psicossociais presente
no desenvolvimento emocional e comportamental humano, seu uso se justifica pelo seu caráter eminentemente didático.
Os esquemas propostos colocaram em evidência o papel da per- cepção de disfunções existentes na configuração ambiental urbana na moderação da performance de comportamentos pró-ambientais, que se relacionam ao desenvolvimento urbano sustentável através do ativismo cívico – a participação popular em processos de gestão democrática da cidade.