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7.2 O TRABALHO REAL

7.2.1 Ato 1: Preparo de Carga

O encarregado pela serraria chega ao setor e repassa aos trabalhadores quais blocos devem ser serrados, sendo que esta determinação é diária, proveniente da demanda (vendas) e dada pelo setor comercial. Os blocos chegam constantemente, são cadastrados no sistema da empresa, recebem um número (pichado na lateral e correspondente ao seu cadastro) e ficam em estoque. Um trabalhador vai então retirar do estoque o bloco a ser serrado, identificando-o pelo número. O estoque consiste em diversas pilhas (de 4 ou 5 metros de altura) de 2 ou 3 blocos cada, ao longo do pátio. Após encontrar a pilha em que está o bloco a ser retirado, o trabalhador escala as pedras até o topo, apesar da altura e da dificuldade de se apoiar. Em seguida, ajeita-se na pedra e passa a corrente presa à ponte rolante em volta do bloco. Ao mesmo tempo em que ele se equilibra no bloco abaixo, tenta acorrentar o bloco a ser retirado e opera a ponte rolante. Após ter acorrentado o bloco o suficiente para erguê-lo um pouco, ele levanta um de seus lados e coloca calços (pequenas traves de madeira) debaixo, sendo que para isso ele precisa por a mão embaixo do bloco suspenso pela corrente ainda não ajustada de modo preciso. Depois ele levanta o outro lado, coloca outros calços. Agora, com o bloco sobre os calços e, portanto, sem contato direto com o bloco abaixo, o trabalhador pode por fim passar a corrente pelas pontas do bloco de modo adequado e seguro para retirá- lo da pilha. Isso demora algum tempo, uma vez que nem sempre a ponte rolante obedece aos comandos, sendo ainda preciso operá-la olhando não apenas para ela, mas para todos os lados, pois há o perigo de bater o bloco nas pilhas muito

próximas. Com o bloco acorrentado, o trabalhador então desce e o transporta entre as pilhas até o monofio.

Após percorrer os estreitos corredores entre as pilhas com o bloco suspenso, em instantes o trabalhador chega com o bloco até o monofio, máquina utilizada apenas para retirar o casqueiro (parte externa e irregular) do bloco, a fim deixá-lo com todos os lados planos e regulares. Esse procedimento é aplicado apenas em blocos de material exótico, para que sejam encapados. Após abaixar o bloco, o trabalhador o mede e o coloca no carro porta-bloco de encaixe no monofio. Nivelar com precisão de milímetros um bloco de cerca de 30 toneladas parece tarefa impossível, porém, depois de muitos movimentos, ajustes e medições meticulosas, o bloco está nivelado no carro porta-bloco. A falta de precisão deste nivelamento pode ter como consequência um corte torto, o que comprometeria a serrada no tear. O trabalhador então encaixa o carro porta-bloco com o bloco na máquina na posição em que vai passar o fio. Novamente ele busca uma medição exata para o casqueiro ser retirado. Depois de consegui-la, ele sobe no bloco e mede tudo novamente. O encarregado, que acabou de chegar, olha de fora e move o carro porta-bloco aos poucos para acertar ainda mais o nivelamento. O encaixe é a posição correta em que o fio passará no bloco para cortar o casqueiro. Tudo pronto, o encarregado liga a água do monofio e o trabalhador, que está sobre o bloco já encaixado, ajusta as mangueiras na posição correta. O monofio é ligado e o corte durará cerca de 7 horas. Depois disso, será preciso virar o bloco e repetir o processo dos outros lados.

Enquanto isso, bem ao lado, outro bloco que já passou por esse procedimento precisa ser encapado. O encapamento consiste em passar uma tela em torno do bloco e fixá-la com uma massa preparada. Esse procedimento é empregado apenas em blocos de material exótico, mais macios, e serve para evitar que as chapas quebrem ou trinquem durante a serrada ou no restante do processo de beneficiamento. Esta aplicação é algo recente na empresa e a ideia surgiu entre os trabalhadores. O trabalhador prepara a massa, cuja mistura e consistência depende do tipo de material em que será utilizada, passa a rede na parte dianteira, superior e traseira do bloco, e a fixa com a massa como se fosse um reboco. Depois de rebocado, o bloco permanecerá por um tempo de cura (secagem da massa por cerca de 3 dias). Não há uma receita com as medidas exatas para preparar a massa

e, além disso, elas variam de acordo com o tipo de granito. Caso a massa não seja preparada no ponto certo de cada material, o encapamento pode soltar durante a serrada e, se isso acontecer, além do desperdício com o encapamento, perde-se o bloco.

Mais ao lado, outro trabalhador acabou de tirar outro bloco do estoque e, ao perceber que havia nele uma fenda, o transporta até o tombador (máquina utilizada para virar um bloco). Com o bloco já no tombador, o trabalhador sobe no seu topo, a uma altura de cerca de 5 metros, e preenche a fenda com uma espécie de massa também preparada por ele. Depois do tempo de cura, este bloco passará pelo mesmo processo anterior: corte no monofio e encapamento.

Enquanto isso, na área em que se situam os teares, vê-se a seguinte cena: tear 1: desligado recentemente, ainda com as chapas recém serradas sendo lavadas por dois trabalhadores; tear 2: desligado há mais tempo, com as chapas já retiradas, sujo; tear 3: desligado há mais tempo ainda, com as chapas retiradas, limpo, uma equipe está laminando; tear 4: desligado ainda há mais tempo, com as chapas retiradas, limpo, outra equipe está terminando a laminação. Trata-se de uma segunda-feira e o que se vê é um quadro atípico e indesejado: todos os teares estão parados, uma vez que vazaram (terminaram de serrar) todos durante o final de semana. Em cada tear são serrados blocos de materiais diferentes e, portanto, com tempos de serrada diferentes, e o desejado é que sempre apenas um tear esteja desligado de cada vez. Para tanto, é necessário uma combinação dos diferentes tipos de material serrados concomitantemente em cada tear, combinação praticamente impossível de ser planejada na serraria, tendo em vista que a ordem de serrada vem do setor comercial, sendo ainda fruto das demandas do mercado.

No pátio à frente dos teares há 2 carros porta-blocos com blocos cimentados, ociosos, aguardando o preparo dos teares, e um terceiro carro porta-bloco em que se realiza esse procedimento. Um trabalhador está cimentando a base do carro que receberá o bloco, enquanto outro trabalhador, operando a ponte rolante, prepara a corrente e a deposita ao lado do bloco já retirado do depósito. Os dois trabalhadores sobem e descem do bloco diversas vezes, colocando, retirando e ajustando a corrente, até que conseguem acorrentá-lo de modo nivelado. É preciso colocar a

corrente numa posição ideal para que o bloco fique inteiramente plano. Assim que o bloco é acorrentado, um dos trabalhadores usa a ponte para movê-lo até o carro porta-bloco, que já está com a base (que recebe o bloco) cimentada e com calços colocados nas posições corretas. Em instantes o bloco está aparentemente encaixado no carro porta-bloco. No entanto, o trabalhador, após ter dado uma volta em torno dele, percebe que algo está errado. Ele decide suspender o bloco novamente, deposita-o ao lado do carro porta-bloco sobre os calços e reajusta toda a corrente. Após ter feito isso, ele encaixa o bloco no carro novamente, desta vez sem problemas. Todo o processo será repetido com dois outros blocos, uma vez que cada tear serra 3 blocos por vez, sendo que geralmente eles não são do mesmo tamanho e nem do mesmo material.

Enquanto realiza o mesmo procedimento no segundo bloco, o trabalhador percebe que ele não possui as laterais com as mesmas medidas e, portanto, ajustá-lo no carro porta-bloco na posição correta será quase impossível. É necessário um jogo de baixar, erguer e ajeitar o bloco até encontrar a melhor posição. Colocar calços com tamanhos e espessuras desejáveis e em posições específicas é outra estratégia utilizada pelo trabalhador para conseguir o encaixe necessário. Para tudo isso, ele empurra o bloco suspenso, movendo-o um pouco, enquanto observa atentamente o que faz. Ao final, o trabalhador novamente utiliza calços para tencionar nos fueiros (laterais do carro porta-bloco) as laterais dos dois blocos externos, e as laterais destes com as laterais do bloco do meio. Qualquer desnivelamento ou instabilidade pode prejudicar a serrada e levar à perda de um ou de todos os blocos.

Assim que o carro com os blocos está preparado e um dos teares está laminado, os trabalhadores encaixam o carro no cabo de aço para inseri-lo no tear. No entanto, por algum motivo, o carro porta-bloco não anda. O gancho, mesmo com o motor ligado, não consegue puxar. Há cheiro de queimado e os trabalhadores não sabem se é algum problema elétrico. O encarregado não insiste, porque tem medo de forçar e estourar o cabo ou danificar o equipamento. Ele retira o cabo do tear e passa para trás para puxar mais perto para depois voltar o cabo para o tear. Um trabalhador da equipe de manutenção é chamado. Depois de alguns instantes, o problema é

resolvido e o carro porta-bloco é encaixado no tear, com muitas marretadas e olhares cautelosos. Tudo pronto, a equipe libera o tear para o serrador.