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2. EFICIÊNCIA E CONTROLE NA TEORIA POLÍTICA: KAARE STRØM, AREND LIJPHART E

2.3. Eficiência e controle na teoria dos atores com poder de veto

2.3.1. O que é um ator com poder de veto?

Segundo Tsebelis, um ator tem poder de veto quando sua vontade é necessária para a mudança do status quo legislativo109, seja por previsão constitucional (caso dos atores com poder de veto institucionais), seja em virtude do jogo político (caso dos atores com poder de veto partidários)110. A Câmara dos Deputados no Brasil, por exemplo, é um ator com poder de veto institucional, pois a própria Constituição prevê que qualquer mudança no status quo legislativo depende de seu assentimento. Além disso, a Câmara é habitada por diversos atores com poder de veto partidários, isto é, aquelas agremiações partidárias cujos votos são necessários para alterações legislativas111. O mesmo ocorre, por exemplo, no âmbito do Executivo brasileiro, com as

109 TSEBELIS, George. Veto Players: How political institutions work. Op. cit., p. 02.

110 Idem, ibidem, p. 79.

111 Uma observação aqui é necessária: na perspectiva de Tsebelis, os atores partidários são relevantes para a elevação da estabilidade decisória apenas quando coesos. A falta de coesão provoca o efeito inverso: a estabilidade decisória diminui. É o caso do sistema presidencialista dos EUA, em que quase toda coalizão entre Executivo e Legislativo é possível, dada a indisciplina dos partidos democrata e republicano. (Idem, ibidem, p. 84/85). No caso brasileiro, a expressiva coesão partidária na arena legislativa parece afastar a ressalva apontada, ao menos em grande medida.

devidas adaptações, já que as pastas ministeriais costumam ser distribuídas entre diversos partidos112. Vale ressaltar, todavia, que a efetiva capacidade de veto do presidente pode ser questionada. Afinal, o veto presidencial formalmente previsto na Constituição pode ser derrubado por maioria absoluta dos Deputados e Senadores, conforme o art. 66, § 4º113. De todo modo, a se concordar com a classificação de Tsebelis, o presidente é um ator com poder de veto, já que a mudança do status quo legislativo não pode ignorar sua presença.

Observe-se também que o poder de veto dos atores institucionais varia conforme as circunstâncias. Sob a perspectiva de Tsebelis, mesmo um ator com poder de veto institucional pode ser absorvido pelos demais, a depender da distância ideológica entre eles114. É que, de acordo com a regra da absorção, um ator adicional B posicionado entre as preferências de dois atores com poder de veto A e C não torna mais difícil a quebra do status quo (ou, na linguagem de Tsebelis, a introdução de um novo ator entre atores posicionados em dois polos extremos não diminui o conjunto vencedor do status quo). Na prática, a estabilidade decisória não aumenta, pois “é impossível que A e C tenham preferências conjuntas sobre o status quo que não possam ser partilhadas por B” 115. Estudo empírico recente, elaborado com base em um conjunto de quase cinco mil julgamentos proferidos pelo STF entre 1988 e 2013, constatou que apenas 15% das ações diretas de inconstitucionalidade propostas por atores nacionais contra leis ou atos normativos federais foram consideradas procedentes. Segundo o trabalho, esse índice revelaria que, nesses casos, o STF foi absorvido pela coalizão majoritária autora das normas impugnadas116.

112 No mesmo sentido é a lição de TSEBELIS, George. Veto Players: How political institutions work. Op.

cit., p. 96: “a departure from the status quo must usually be approved by the government before it is introduced to parliament, and, at that stage, the participants in a government coalition are veto players.”

113 Constituição, art. 66, § 4º O veto será apreciado em sessão conjunta, dentro de trinta dias a contar de seu recebimento, só podendo ser rejeitado pelo voto da maioria absoluta dos Deputados e Senadores. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 76, de 2013)

114 Tsebelis parece empregar o termo “ideologia” no mero sentido de conjunto de preferências.

115 TSEBELIS, George. Veto Players: How political institutions work. Op. cit., p. 27.

116 TOMIO, F. R. L.; ROMANELLI, S. L. T. B.; ORTOLAN, M. A. B.; CAMARGO, F. S.. Os Tribunais Constitucionais no processo decisório/legislativo: o controle abstrato/concentrado de constitucionalidade comparado (Brasil, México, Alemanha, Espanha e Portugal). In: IX ENCONTRO DA ABCP, 2014, Brasilia-DF. Anais Eletrônicos do IX Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. São Paulo:

ABCP - Associação Brasileira de Ciência Política, 2014. v. 1. p. 1-22.

Com ainda maior razão, as circunstâncias políticas afetam o peso dos atores partidários. Se um governo antes formado por apenas um partido passa a ser liderado por dois partidos, por exemplo, parece que claro que o número de atores com poder de veto é ampliado em igual medida, pois agora o status quo somente poderá ser modificado com a anuência de ambos os partidos117. Um cenário interessante para os fins desta dissertação é aquele em que um partido extremista nunca é considerado para formar o governo (caso hipotético do Bloc Québécois canadense118). Na prática, a presença de um partido com esse perfil no Parlamento equivale a uma regra de maioria qualificada imposta à legislatura119. Enfim, trata-se apenas de ilustrações sobre as nuances que a teoria dos atores com poder de veto consegue capturar.

Metodologicamente, sempre conforme Tsebelis, a influência de um ator com poder de veto deve ser mensurada a partir de um processo estruturado em três passos:

em primeiro lugar, os atores com poder de veto institucionais são colocados em um espaço multidimensional; em segundo lugar, os atores com poder de veto institucionais são desmembrados em atores com poder de veto partidários (coletivos ou não); por fim, aplica-se a regra de absorção ao sistema: “se alguns dos jogadores de veto estão localizados no núcleo unanimidade dos outros, então podemos eliminá-los, porque eles não restringem o conjunto vencedor do status quo”120.

A fim de traduzir o teste acima em termos mais concretos, Tsebelis apresenta um exemplo proveniente da Alemanha. Nesse país, segundo o autor, há duas categorias de leis. As “Zustimmungsgesetze” (ou “leis-acordo”) requerem a provação do

“Bundestag” (Câmara Baixa) e do “Bundesrat” (Câmara Alta). Já as “Einspruchsgesetze”

(ou “leis da oposição”) exigem apenas aprovação no “Bundestag”. Sob o prisma da teoria dos atores com poder veto, essas duas espécies de leis podem ou não ser equivalentes no que diz respeito à possibilidade de mudança do status quo. Tudo depende da composição partidária nas duas câmaras. Se houver uma idêntica maioria partidária em

117 TSEBELIS, George. Veto Players: How political institutions work. Op. cit., p. 79.

118 Apesar do exemplo, a história recente do Canadá mostra que o Bloc chegou a ser cortejado para compor o que seria uma inédita coalizão governista na esfera federal do país. A história será contada em maiores detalhes no capítulo atinente aos governos de Stephen Harper.

119 Tsebelis oferece o exemplo dos partidos comunistas na Europa. Cf. TSEBELIS, George. Veto Players:

How political institutions work. Op. cit., p. 80.

120 Loc. cit.

ambas as casas legislativas, as “Zustimmungsgesetze” e as “Einspruchsgesetze” não guardarão qualquer diferença entre si. O cenário muda, entretanto, se houver um controle partidário diverso em cada casa. Aqui, por óbvio, a resistência à aprovação das

“Zustimmungsgesetze” será maior, pois “o governo de coalizão composto por dois partidos terá de pedir a obter de um dos partidos oposicionistas, o que elevará para três o número de atores com poder de veto na Alemanha” 121. Embora Tsebelis não o diga, parece claro que o segundo cenário não provocaria o resultado descrito se o partido oposicionista estivesse posicionado ideologicamente entre as duas agremiações governistas (regra da absorção). Alguns poderiam argumentar que um partido em tais condições passaria a integrar a coalizão governista, não a oposição. Contudo, minha observação é especialmente válida para o cenário canadense, no qual inexistem coalizões governamentais até o presente momento122. Isto é: mesmo quando minoritário na Câmara dos Comuns, o partido vencedor das eleições não convida outro partido para integrarem, juntos, uma aliança governamental, ainda que haja certa proximidade ideológica entre a agremiação governista e algum partido oposicionista, caso do Partido Liberal, de centro-esquerda, em relação ao Novo Partido Democrata, de viés trabalhista. No caso canadense, portanto, o caráter minoritário não seria suficiente para constatar maior entrave ao processo decisório, pois, em alguns contextos, o menor grau de polarização ideológica faria com que um ou mais partidos oposicionistas fossem absorvidos. Em tais casos, de acordo com a teoria de Tsebelis, o governo minoritário funcionaria como governo majoritário para efeito de produção e sucesso legislativos.

Pode-se inferir também que o oposto seja verdadeiro: em contextos de intensa polarização ideológica, como a Era Harper, o status minoritário do governo passa a ser um entrave, embora não necessariamente fatal, tendo em vista a vantagem posicional do primeiro ministro e seu robusto poder de agenda.

Feitos esses esclarecimentos metodológicos, parece adequado aprofundar a clivagem presidencialismo versus parlamentarismo.

121 TSEBELIS, George. Veto Players: How political institutions work. Op. cit., p. 80.

122 O tema será desenvolvido nos dois capítulos seguintes, que tratam das instituições canadenses e das tendências recentes do cenário político do país.

2.3.2. Presidencialismo versus Parlamentarismo: há uma diferença substantiva entre

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