4 1 Introdução: A Apresentação do Problema
4.2 A Concepção de Legislação segundo Bentham
4.2.2 Atos abrangidos pela lei: classes de ofensas.
O termo ofensa constitui mais um instrumento metodológico que o autor elabora, com vistas a distinguir os atos que podem ser tocados por algum tipo de punição, daqueles que não necessitam de punição. Segundo Bentham, uma ofensa constitui um ato proibido ou um ato do qual o contrário é ordenado pela lei180. A área legal que concerne ao
método de lidar com as ofensas é chamada de área penal, conforme enunciado.
De início faz-se necessário realizar uma distinção entre os atos que podem ou não ser considerados ofensas. De acordo com o autor, qualquer ato pode ser denominado ofensa, bastando para isso que esteja em desacordo os hábitos da comunidade181. Por outro lado, o bem
da comunidade não pode requerer que um ato seja tornado uma ofensa a não ser que seja passível de causar mal (ato detrimental) à ela. Considerando a idéia do autor de que a comunidade ou estado político é visto como um corpo imaginário182constituído por um agregado de indivíduos somados, qualquer ato detrimental efetuado contra um ou mais membros deste corpo183 será
considerado maléfico ao Estado também. Ou seja, um ato será considerado detrimental (ou maléfico) ao Estado, caso ocasione mal a um indivíduo ou a um conjunto deles. Contudo, tais indivíduos devem ser passíveis de serem assinalados de serem identificados para que possam ser punidos. Remetendo-se aos tipos de ações descritas neste trabalho, pode-se dizer que ou este indivíduo, a ser assinalado, comete a ofensa a si ou aos outros.
180 Restará claro adiante que não cabe punir legalmente todos os tipos de atos maléficos à sociedade. Ou seja, nem
todos os atos danosos à sociedade devem ser convertidos em ofensas, alguns atos prejudiciais figurarão no campo da ética.
181 Sobre isto cito Bentham em Principles of Morals and Legislation p. 97: “(…) Any act may be an offence, which
they whom the community are in the habit of obeying shall be pleased to make one: that is, any act which they shall be pleased to prohibit or to punish. But, upon the principle of utility, such acts alone ought to be misguide offences, as the good of the community requires should be made so (…)”.
182 Atentar para tese reduionista.
183 Note-se que esta idéia da sociedade ou comunidade vista como um corpo de indivíduos somados remete ao
A partir da compreensão de que um ato efetuado contra um individuo constitui uma ofensa ao Estado e tendo vista que uma ofensa constitui um instrumento metodológico para assinalar os atos que podem ser abrangidos pela lei, o autor parte para subdivisão e classificação dos tipos de ofensa, com vistas a entender o raio de sua abrangência, conforme afetem maior ou menor número de indivíduos.
Quando o indivíduo for distinguível, significa que pode ser diferente daquele que comete a ofensa ou pode ser ele mesmo o ofensor. Ofensas que causam mal, em primeira instância, a agentes assinaláveis diferentes dos ofensores são chamadas de ofensas contra indivíduos e constituem a primeira classe de ofensas. Este tipo de ofensa pode ser denominado ofensa privada quando estiver em contraposição a ofensas de segunda e quarta classe, conforme se verá. Quando comparadas a ofensas de terceira classe, podem ser denominadas “private extra regarding ofences” (Bentham, 1789 p.97).
A segunda classe de ofensas ocorre quando indivíduos são alvo de uma ofensa, mas não podem ser assinalados individualmente, ou distinguidos. Esta quantidade de indivíduos atingidos pode representar menor número do que a comunidade ou pode ser de mesmo tamanho que ela. Caso aqueles atingidos pela ofensa somem número inferior à comunidade, pode-se dizer que este conjunto constitui um corpo de indivíduos que pode ser distinto do restante dela. Estes são casos de ofensas a pessoas que moram em uma mesma região (ofensas à vizinhança) ou o caso de ofensas a uma determinada classe de pessoas que apresentem alguma característica que as una. Ofensas contra uma classe de pessoas ou contra indivíduos que residam em uma determinada localidade são consideradas, então, a segunda classe de ofensas. Tais ofensas podem ser nomeadas semi-públicas quando contrastadas às ofensas individuais (primeira classe) e às ofensas públicas (quarta classe). Vale ressaltar que esta ofensa é considerada semi-pública, pois não atinge a totalidade de indivíduos que compõem a comunidade.
Ofensas que causam mal somente ao ofensor e a ninguém mais configuram a terceira classe de ofensas. Tais ofensas são ditas intransitivas ou “self regarding” (Bentham, 1789 p.98) quando comparadas às ofensas de primeira, segunda e quarta classes. Ou seja, este tipo de ofensa não diz respeito às interações entre agentes. A quarta classe de ofensas é composta pelas ofensas a uma multidão de indivíduos da qual o todo da comunidade é composto. Em outras palavras, estas ofensas são prejuízos causados ao todo da comunidade, neste caso, nenhum indivíduo parece ser mais atingido do que o outro. Esta é a chamada ofensa pública ou ofensa ao Estado.
Há também uma quinta classe de ofensas que é composta por determinados atos que variam conforme as circunstâncias e mais particularmente de acordo com os propósitos a que são aplicados. Estas ofensas são denominadas multiformes ou heterogêneas e dizem respeito a ofensas por falsidade ou ofensas contra verdade. Elas referem-se, especialmente, às ofensas causadas por idéias de teóricos que induzem à infelicidade da comunidade.
Tendo em vista este instrumental metodológico que organiza os atos passíveis de serem tocados pela lei, seguem-se explicações sobre a ética do autor.