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3.1 A LINGUÍSTICA TEXTUAL E A ANÁLISE TEXTUAL DOS

3.1.2 Atos de discurso e orientação argumentativa

Na seção anterior – 3.1.1.3 – vimos como o éthos pode influenciar a decisão de um coenunciador quanto à assunção de uma conclusão. Vimos também que o éthos é o resultado de um conjunto de mecanismos constituídos na e pela linguagem para que esta sirva de ação sobre o comportamento e ou pensamento do outro, o coenunciador.

Dessa perspectiva, quando emitimos um enunciado, estamos produzindo um ato de fala que pode ser interpretado como um convite, um pedido, uma crítica, uma ameaça etc. Isso quer dizer que os enunciados, além de seu sentido, veiculam, assim, ações por meio de ‘forças’, [...] (CABRAL, 2017, p. 22).

Austin (1990, p. 25) dá o seguinte exemplo que ajuda a esclarecer a asserção de que os enunciados veiculam ações: “Quando digo, diante do juiz ou no altar, etc., ‘Aceito’, não estou relatando um casamento, estou me casando”. Com efeito, o ato de discurso “Aceito” muda um estado de coisas do mundo real. No caso em tela, muda a condição de solteiro para casado.

Diante dessa assertiva, os enunciados que elaboramos e proferimos são dotados de uma intenção e de uma força– não são neutros – e carregam em si um projeto de dizer, cujo objetivo é influenciar nossos coenunciadores a tomarem partido diante das teses que lhes são postas. Isso quer dizer que os enunciados são proferidos porque “[...] desejamos exercer influências sobre nossos interlocutores, desejamos obter sua adesão, convencê-los de nossos pontos de vista, persuadi-los a fazer alguma coisa.” (CABRAL, 2017, p. 13).

Nesse sentido, conforme Austin (1990, p. 25), “[...] ao se emitir o proferimento [de um enunciado] está – se realizando uma ação, não sendo, consequentemente, considerado um mero equivalente ao dizer algo”. A ação via ato de discurso – via linguagem – somente é possível porque, segundo Vanderveken (2016, p. 2),

[...] todo enunciado elementar deve conter um marcador de força ilocucionária (mesmo que ele tenha uma só palavra tal como o enunciado "Olá!"). Assim, existem dois tipos de palavras e traços sintáticos nas línguas naturais. Certos

traços sintáticos, como os sinais de pontuação, a ordem das palavras e o modo do verbo, contribuem para a significação dos enunciados no interior dos quais eles ocorrem, determinando as forças ilocucionárias das enunciações desses enunciados. Da mesma forma, outros traços sintáticos como o tempo e a pessoa do verbo contribuem para a significação dos enunciados determinando o conteúdo proposicional de suas enunciações.

Com base nessa asserção, somos autorizados a dizer que os atos ilocucionários24 são dotados de uma força e de um conteúdo proposicional. Para

Vanderveken e Melo (2019, p. 12, grifos dos autores), os “atos ilocucionários elementares [são] compostos de uma força e de um conteúdo proposicional como asserções, atestações, promessas, aceitações, comandos, declarações, doações, autorizações e queixas”.

Vale ressaltar que,

Além disso, o fato de considerarmos que os enunciados possuem uma força ilocucionária confere um incontestável poder à noção de atos de fala. Encarando desse ponto de vista, o sentido de um enunciado transmite ao interlocutor as circunstâncias em que ele foi produzido, os fins para os quais foi produzido, os efeitos para os quais ele foi produzido. (CABRAL, 2017, p. 25).

Por esse ponto de vista, dizer que existe um ato de argumentar que dá ao enunciado uma força argumentativa é uma asserção verdadeira. Tal assertiva consiste, na verdade, em dizer que palavras são ações, bem como diferenciar quando dizer é fazer.

De acordo com Austin (1990), há certos enunciados declarativos cuja finalidade não é fazer afirmações que sejam verdadeiras ou falsas, mas serve para fazer alguma coisa, como quando o padre ou o juiz dizem “declaro-vos casados”. Austin (1990) denominou estes tipos de enunciados de performativos e os contrastou com os enunciados do tipo constativos, pois estes últimos apenas dão informações diretas acerca das coisas ou dos fatos, ao passo que aqueles executam atos, ações. Os constativos estão submetidos às condições de verdadeiros ou falsos e os performativos às condições de felicidade ou infelicidade, sucesso ou fracasso.

Os enunciados performativos, diferentemente dos enunciados constativos, não podem ser verdadeiros ou falsos,

[...] o que pode ocorrer em relação a [eles] é que o sujeito que [os] enuncia pode não estar em condições de fazê-lo e, nesse caso, [eles] podem ser ‘infelizes’, ou seja, dar errado. Assim, de acordo com a possibilidade de um

performativo dar errado ou dar certo, dizemos que existem condições para o seu sucesso. (CABRAL, 2017, p. 26).

As condições de felicidade – de sucesso - são baseadas em três princípios: 1. obedecem a regras de convenção que dão aos enunciadores a

autorização para proferirem atos performativos e agirem por tais atos; 2. os enunciadores precisam executar atos de discurso performativo de

forma completa e correta;

3. os enunciadores realmente devem acreditar na possibilidade de realização do ato e terem a intenção de realizá-lo.

Obedecidas as condições para o sucesso na realização da ação via ato de discurso, o dizer algo passa a ser um fazer algo e o dizer evidencia a força do ato.

Destacando a força do ato ilocucionário, nas palavras de Adam (2011), se considerarmos a possível sobreposição dos diferentes atos de discurso, faz-se possível propor a seguinte classificação:

TIPOS DE ATOS DE DISCURSO Assertivo-

constativos

É a maneira – verdadeira ou falsa – que dizemos a alguém como são -ou serão – as coisas, por exemplo: está chovendo.

Diretivos São os atos de discurso pelos quais tentamos fazer com que alguém faça alguma coisa, por exemplo: abra a janela.

Engajantes

Mostra nosso engajamento para fazer essa ou aquela coisa e podem realizar-se pelos atos promissivos – chegarei aí logo cedo – ou metadiscursivos – “Mas essa carta está longa, Sr. Presidente, e está na hora de concluir” (Zola apud ADAM, 2011, p. 130, grifo nosso)

Declarativos

São os atos de discurso que podem provocar mudança no estado de coisas do mundo real, como, por exemplo, quando o juiz declara alguém como culpado em determinada sentença judicial. Exemplo: o réu é declarado culpado (dito por um juiz).

Expressivos Por meio dos quais nossas atitudes e sentimentos podem ser expressados. Exemplo: De todo o meu coração, eu o agradeço!

Dentre os atos de discursos classificados no quadro 2 (Classificação das forças ilocucionárias por tipo de ato de discurso) considerando que, em tese, o conteúdo proposicional expressado é verdadeiro, os atos expressivos dizem respeito mais a um estado mental do que propriamente a um estado de coisas.

Quadro 2 - Classificação das forças ilocucionárias por tipo de ato de discurso

Outro fato marcante é a distinção entre os atos assertivos e os atos engajantes, diretivos e declarativos, pois o conteúdo proposicional destes só se torna verdadeiro com a realização do ato ilocucionário, ao passo que aquele tem seu conteúdo proposicional verdadeiro independente dos coenunciadores.

Os atos de discurso, por veicularem intenções dos enunciadores, são práticas argumentativas que incidem sobre aquilo em que é preciso crer, uma vez que, como assevera Plantin (2008, p.106), “[...] ninguém põe proposições em sequência sem objetivo, seja ele demonstrativo ou argumentativo.”. Diante disso, é nos possibilitada a asserção de que os atos de discurso estão diretamente relacionados à orientação argumentativa, na medida em que os atos de discursos denotam ser práticas de linguagem postas a serviço de uma intenção estrategicamente pensada e orientada para fins argumentativos.