1. A LINGUAGEM COMO PERFORMANCE
2.6 Teorias Queer e raça
Com base nos atos de fala performativos sobre as relações raciais em contexto brasileiro, podemos dizer que a categoria raça, para as Teorias Queer, é maleável, ser negro na época da escravidão não tem o mesmo sentido de ser negro no período pós-abolição ou no momento de ascensão da democracia racial. Assim, os corpos são efeitos dos atos de fala performativos de raça a que foram expostos desde o nascimento. Em outras palavras, “nossos corpos negros ou brancos são efeitos semânticos ou resultado das repetições de vários atos de fala performativos de raça, gênero, sexualidade e outros que ouvimos ao longo de nossa existência” (MELO; MOITA LOPES, 2014, p. 4).
Na perspectiva Queer trazida por Wilchins (2004), aprendemos a encenar performances de negros, de brancos, de indígenas, ou seja, trata-se de um aprendizado que adquirimos de acordo com os conceitos de citacionalidade e iterabilidade discutidos por Derrida ([1972], 1988). Nessa compreensão, os sujeitos encenam performances de raça negra conforme seu aprendizado do que é “ser negro”, não existindo uma essência racial. Ao observar como os brasileiros se autodenominam sobre sua raça, temos uma grande variedade de termos: moreno, moreno jambo, marrom bombom, moreno escuro, moreno claro.
45 Tais aspectos sinalizam que, entre as raças negra e branca, há uma série de outras possibilidades nas quais as pessoas podem se identificar racialmente. Essas construções sobre raça são repetidas e naturalizadas ao longo do tempo. Segundo Wilchins (2004, p. 116): “não se é apenas a raça, deve-se aprender a ser de uma raça, inclusive – em certas circunstâncias – a passar a ser de outra raça”. Em alguns contextos, inteseccionando raça à classe social, uma pessoa negra da classe social média, por exemplo, pode ser considerada morena.
Quando refletimos sobre este “aprender a ser de uma raça”, percebemos que no passado, por exemplo, algumas mulheres negras mutilavam seus corpos com ácido (Munanga, 1986) ou alisavam a ferro seus cabelos para parecerem com os povos europeus. Haveria, então, nestas performances uma tentativa de aprender a agir como o branco para produzir efeitos semânticos de reconhecimento. Por outro lado, quando mulheres negras brasileiras deixam seus cabelos crespos ‘ao natural’, elas estariam aprendendo a agir como mulheres negras ‘puras’, provenientes da África, e sendo reconhecidas como tal. As Teorias Queer desconstroem essa pureza tanto da raça branca como da negra, argumentando que esses discursos essencialistas provocam efeitos semânticos nas práticas sociais de negros e brancos, que muitas vezes levam à exclusão e ao sofrimento.
Tendo como base a afirmação “[...] nós fazemos coisas com a linguagem, produzimos efeitos pela linguagem e nós fazemos coisas para a linguagem, mas a linguagem é também a coisa que fazemos”, (BUTLER, [1990] 2003, p. 8) compreende a linguagem como ação, efeito, construção, ou seja, somos constituídos na e por ela e em seus termos existimos.
Quando pensamos que todos os discursos raciais mencionados ao longo deste capítulo são construções raciais performativas, também entendemos que algo está sendo feito sobre os corpos racializados, sobre a raça em questão e sobre a própria linguagem empregada para determinar o outro racialmente. Assim, como temos a normalização do gênero, indicada por Butler (2003), existe também a normalização da raça, ou seja, negros poderiam encenar uma única performance, apagando, assim, as diversas outras possibilidades de pessoas negras encenarem performances diferentes. Na escravidão, a performance discursiva permitida seria a escrava; na democracia racial, de pessoas negras que tinham a mesmas oportunidades e conviviam harmoniosamente com outras raças e assim, sucessivamente. As Teorias Queer contestam uma única forma de encenar performances discursivas raciais, pois isso apagaria as diversas outras possibilidades.
Na concepção de Butler ([1999] 2003), somos vários a um só tempo e encenamos performances identitárias múltiplas. Assim, não temos uma essência, uma identidade fixa e estável, principalmente, considerando os tempos de reflexividade (GIDDENS, 1991) e fluidez
46 (BAUMAN, 2000) em que vivemos.
Entendemos que a materialidade da raça pode ser considerada uma construção performativa. Não negamos a constituição material do sujeito, quer seja biológica ou científica, mas importa-nos as construções que fazemos sobre esses aspectos, como nos constituímos e constituímos o outro racialmente por meio da linguagem, o fazemos chamando o outro de
“macaco” ou questionando a natureza do discurso que orienta esse ato de fala?
Segundo Miskolci (2009, p. 178), o desafio do Queer está no “desenvolvimento de uma analítica da normalização que possa interrogar como as fronteiras da diferença são constituídas, mantidas ou dissipadas.” Como um objetivo científico, essa proposta também teria implicações políticas, ao permitir compreender e contestar os processos sociais que se utilizam das diferenças como marcadores de hierarquia e opressão.
Considerando os estudos Queer, desconstruir discursos que inferiorizam negros seria contestar os atos de fala performativos que os constroem de um jeito único. Também trata-se de demostrar como tais discursos foram construídos ao longo do tempo pela cultura, pela mídia, pela religião, pelas instituições e como essas construções podem funcionar como senzalas.
Compreendemos a raça como um conceito fluído e maleável, que muda ao longo do tempo, ganhando significações diversas em contextos variados. Assim, ser negro no século XV não é a mesma coisa que no século XVII ou na atualidade. Nesse sentido, para compreender como o conceito de raça foi naturalizado e sedimentado a ponto de a concebermos como substância, matéria, recorremos à perspectiva histórica condutora dos discursos que orientaram atos de fala performativos ao longo dos anos. De fato, produzimos lentamente um saldo de desigualdade que ainda carregaremos por muito tempo. Portanto, é nossa responsabilidade questionar as normalizações impostas venham de onde vier, “queerizar” posições, desconstruir o dado, o sedimentado.
Entendemos que todo o contexto socio-histórico sobre a questão racial é construído na e pela linguagem e, considerando Butler ([1999] 2003), podemos dizer que coisas são feitas com base na ideia de raça. Além disso, é possível observar a raça como um conceito fluído, que muda de acordo com o momento histórico e também com as pessoas. Assim, apresentamos as Teorias Queer como uma das perspectivas que tem buscado refletir sobre nós mesmos e também sobre os corpos abjetos e/ou ilegitimados nas práticas sociais, incluindo a raça.
47 3. CONTEXTO E METODOLOGIA DE PESQUISA
Neste capítulo, temos como objetivo tratar, primeiramente, do contexto desta pesquisa. Para isso, faremos um breve relato de alguns fatos relacionados à veiculação do slogan
“Somos Todos Macacos”. Dessa forma, esperamos situar os acontecimentos para melhor compreensão de como eles ocorreram e, também, de como se relacionam. Na seção seguinte, trataremos da metodologia de pesquisa.
3.1 Contexto de pesquisa
Em um domingo, dia 27 de abril de 2014, às 16h12, o jogador brasileiro Daniel Alves foi vítima de mais uma atitude racista na Espanha. Dessa vez, o futebolista chamou a atenção do público e imprensa pela forma como lidou com a questão, ao descascar e comer uma banana, atirada em sua direção por um torcedor europeu, durante uma partida transmitida ao vivo do Estádio El Madrigal, na Espanha. A atitude do jogador foi acompanhada por uma grande audiência que assistia ao jogo naquele dia. Surpreendeu a muitos a aparência de naturalidade com que Daniel Alves tratou a situação. Antes de cobrar um escanteio, percebeu a banana no gramado, abaixou-se, descascou, comeu e continuou a cobrança do lance. Não parou o jogo, não reclamou ao juiz ou tomou medidas mais drásticas.
Daniel Alves nasceu na Bahia, de família pobre, tem 32 anos e mora na Espanha desde os 20, quando seu passe foi vendido para o time espanhol, Sevilla. Há sete anos, passou a integrar a equipe do Barcelona. O jogador, que se considera “moreno de família negra”, conquistou a fama internacional e inúmeros prêmios. Daniel Alves, que também é titular da seleção brasileira, disse, em entrevista concedida em 2011, para o site da Folhauol13: “me chamam de macaco, mas aprendi a conviver com isso”. Assim, declarou que convive desde sempre com o racismo na Europa, de forma naturalizada.
12 Horário de Brasília
13 Rangel (2011), disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0802201111.htm
48 Outro importante jogador brasileiro do Barcelona, Neymar, que também vinha sendo alvo de racismo no país, segundo os noticiários, utilizou suas redes sociais para se posicionar sobre o caso, naquele domingo. Poucos instantes após a partida, o jogador iniciou uma campanha contra o racismo a partir do slogan “Somos Todos Macacos”, postado em suas redes sociais. A proposta foi elaborada, a pedido de Neymar, pela agência de publicidade Loducca, como veio a público alguns dias depois. Coincidência ou não, a articulação da campanha foi feita em torno da imagem de Neymar e apresentada, naquela circunstância, como um apoio ao caso de Daniel Alves.
Neymar tem 24 anos, além de atacante do Barcelona é titular da seleção brasileira. O jogador que tem origem pobre, consagrou-se ainda muito jovem no mundo do futebol, sendo considerado um dos jogadores mais caros do mundo. Foi construído para ocupar a posição de grande ídolo do futebol brasileiro da atualidade14. O jogador fatura muitos milhões de reais, tanto pela atuação em campo quanto pelos direitos de imagem. Possui presença ativa nas redes sociais e costuma se engajar em ações solidárias: quase tudo que posta vira notícia.
Aos 18 anos, protagonizou uma polêmica sobre sua relação com a raça, ao ser indagado se já tinha sofrido com o racismo, declarou à jornalista que não, até porque não era negro.
Esclarecidas essas circunstâncias, o ponto de partida da trajetória textual situa-se na postagem do slogan por Neymar. A primeira delas foi publicada na rede social Instagram e Twitter, em 27 de abril de 2014, com a foto de Daniel Alves ao comer a banana, durante a partida, junto ao slogan #Somos Todos Macacos e um apoio declarado ao colega de time.
A postagem seguinte trouxe a foto do jogador segurando uma banana (fruta), enquanto o filho segurava uma pelúcia em formato de banana, com a hashtag
#somostodosmacacos, traduzida em diversos idiomas, conforme apresentaremos no capítulo de análise dos dados. O endereço eletrônico da postagem foi disponibilizado também no Twitter e Facebook. A terceira postagem do jogador trouxe, além de texto e hashtag, um vídeo que explicava a ideia do slogan.
As publicações repercutiram, imediatamente, na mídia online. Poucos minutos depois, foram publicadas matérias, em sua grande maioria, veículos ou editorias de esportes, noticiando o apoio de Neymar a Daniel Alves, por meio da hashtag lançada nas redes sociais.
O slogan “Somos Todos Macacos” conquistou grande adesão de público, incluindo
14 O Brasil tem tradição em criar ídolos no futebol. Essas personalidades, quase sempre, têm origem simples em sua maioria, negros e pardos que ganham fama e projeção internacional pelo futebol. Dessa forma, simbolizam o sonho de milhares de jovens brasileiros que aspiram à ascensão social, além de promover internacionalmente a raça negra vinculada ao brasileiro. Exemplos: Pelé, Ronaldo (Fenômeno) e mais recentemente, Neymar.
49 celebridades, atletas, políticos e sujeitos comuns que passaram a reproduzir mensagens e fotos com bananas em suas redes sociais, conforme destaques do noticiário do dia 28 de agosto de 2015.
Na imprensa, principalmente no meio online, a repercussão do assunto extrapolou o caderno de esportes, tornando-se pauta de inúmeros veículos, desde a editoria de celebridades aos editoriais e artigos de opinião. Diante dessas discussões, evidenciou-se a circulação de atos de fala performativos dos mais diversos sobre raça, materializados em afirmações sobre um país miscigenado, berço da democracia racial, da ciência da raça, de criminalização do racismo, mas também vítima de discriminação racial no esporte, que luta pela afirmação de negritude, entre outros.
3.2 Metodologia de pesquisa
Neste estudo, a metodologia de pesquisa utilizada é de cunho etnográfico virtual e, de acordo com Hine (2000), essa etnografia nos permitiria responder alguns questionamentos ocorridos no ambiente online, tais como: as experiências vivenciadas na rede, como são as performances de identidade nesse espaço, entre outras, o que significa que não se propõe a buscar verdades universais e, tampouco, ideias generalizadas, mas focamos em um contexto específico.
O estudo é uma etnografia virtual porque se trata de uma observação científica da internet como ambiente de pesquisa. De acordo com Hine (2000, p. 21), “uma vez que pensemos o ciberespaço como um lugar onde as pessoas fazem coisas, nós podemos começar a estudar exatamente o que é que elas fazem e porque, nos seus termos, elas o fazem.”.
Com base nessa perspectiva específica dos estudos etnográficos, não podemos ignorar a visão dos participantes ao investigar o mundo social, pois a linguagem é tão determinante do fato social quanto o meio para compreendê-la, por meio de considerações das interpretações dos participantes do contexto social investigado e das interpretações dos pesquisadores, conforme afirma Moita Lopes (1994). Buscamos investigar a trajetória textual do slogan “Somos Todos Macacos” em blogs e jornais online. Compreender como ele viajou nos textos publicados nesse universo. Além disso, analisaremos as entextualizações realizadas em dois artigos de opinião.
Para delimitar o objeto da pesquisa, foram catalogadas as notícias e textos sobre
50 o slogan “Somos Todos Macacos”, no espaço temporal de três dias, compreendendo o período de 27 a 29 de abril de 2014, com a proposta de registrar, justamente, o período em que as discussões tiveram maior repercussão. Esse registro pode ser verificado pelos gráficos gerados com a utilização da ferramenta Google Trends15.
Figura 1 Gráfico pesquisas sobre o termo “Somos Todos Macacos”
Fonte: Google Trends
A pesquisa do material foi feita pelo buscador Google, considerando como termo de pesquisa o slogan “Somos Todos Macacos”, que registrou 51 textos no período analisado.
Os resultados encontrados foram catalogados por veículo, editoria, título da notícia, interface com as redes sociais, data de publicação, hora, se notícia assinada, tipo de notícia, etc.
Dessa forma, os materiais para a análise da trajetória são: o slogan “Somos Todos Macacos” e textos sobre ele, publicados em veículos diversos: revistas, jornais, publicações esportivas, blogs, entre outros. Para o recorte do material, no qual são investigados os processos de entextualização do slogan, selecionamos dois artigos de perspectivas diferentes publicados no dia 28 de abril de 2014: “A aula de Daniel Alves e Neymar de combate ao racismo. Ou: também sou macaco!”, publicado no site da Revista Veja; “Não, não somos
15 Ferramenta disponibilizada pelo site buscador Google, que permite verificar e comparar as pesquisas realizadas por internautas com base em termos específicos. Essa ferramenta indica os termos mais buscados pelos internautas por meio do navegador, funcionando como um indicador de audiência na web. Disponível em:
https://www.google.com.br/trends/
51 macacos. Somos humanos!”, publicado no site de notícia Afropress16.
Interessa-nos as entextualizações contrastantes do slogan nos contextos estudados. Os discursos enfáticos e afirmativos dos autores em defesa de pontos de vista divergentes publicados na mesma data, o segundo dia de repercussões na mídia. Os textos trazem como característica, reflexões iniciais sobre o debate promovido em torno da questão racial, pelo alcance e dimensão da pauta na imprensa.
Para analisar a trajetória textual e os processos de entextualização do slogan, com base nos conceitos apresentados no capítulo anterior, serão utilizadas as categorias de Wortham (2001), que segundo Melo e Moita Lopes (2014), sinalizam interpretações na construção de sentidos emergentes. São pistas indexicais como referência, que são elementos ao qual o narrador se refere; citação, ao fazer uso da fala do outro; índices avaliativos que são constituídos por expressões ou modos de falar; descritores metapragmáticos, que são verbos de enunciação; modalizações epistêmicas e deônticas, que, no primeiro caso, exprimem o grau de veracidade, ou seja, o julgamento de valor e de verdade, e no segundo, diz respeito ao valor social, indicado como permitido ou desejável.
No próximo capítulo, apresentaremos de forma mais detalhada as postagens de Neymar em suas redes sociais: Instagram, Twitter e Facebook. Logo após, procederemos à análise da trajetória textual do slogan “Somos Todos Macacos” nos diversos textos publicados no meio online.
16 A Afropress é uma Agência de Notícias online que trata, especialmente, de temas que envolvem a população negra. No ar, em tempo real, desde junho de 2007, o portal se apresentam como um veículo de jornalismo crítico e independente de partidos e de governos.
52 4. ANÁLISE DA TRAJETÓRIA TEXTUAL DO SLOGAN “SOMOS TODOS MACACOS”
Neste capítulo, buscamos responder a seguinte pergunta de pesquisa: como ocorreu a trajetória textual do slogan “Somos Todos Macacos” pela mídia online?
Apresentaremos, em um primeiro momento, a trajetória textual nas redes sociais de Neymar:
Instagram, Facebook e Twitter. Posteriormente, nosso foco será a viagem do slogan para as
notícias publicadas pela mídia no meio online.
Figura 2 – Trajetória textual do slogan nas redes sociais de Neymar
Ao longo dessa seção, veremos que slogan inicia sua trajetória nas próprias redes sociais de Neymar. A primeira postagem foi publicada por ele no dia 27 de abril de 2014, no Instagram17 utilizando uma sequência de fotos que mostra Daniel Alves comendo a banana atirada em sua direção. A postagem trouxe a seguinte frase: “Deeeeeitou @danid2ois18 ....
TOMAAAAAA BANDO DE RACISTAS .... #SOMOSTODOSMACACOS e daí?”. Essa
17 O Instagram não registra horário, apenas uma contagem de tempo de cada postagem
18 O termo se refere ao usuário de Daniel Alves nas redes sociais.
53 mensagem também foi postada no Twitter, às 18h31min, junto com o endereço eletrônico da publicação no Instagram.
Figura 3 Postagem "Somos Todos Macacos e daí?"
Fonte: Instagram
Na imagem, dois momentos são apresentados: Daniel Alves descasca a banana na primeira foto e a come na segunda imagem. A postagem de Neymar chama atenção para a atitude da torcida espanhola naquele domingo e concorda com a atitude de Daniel Alves contra a agressão sofrida durante o jogo. No enunciado, Neymar cita o colega, referenciando o usuário de Daniel Alves na rede social, por meio da expressão “Deeeeeitou @danid2ois”. Ele também se dirige aos agressores de maneira direta, com letras escritas em caixa alta e repetidas:
“TOMAAAAAAA BANDO DE RACISTAS....#SOMOS TODOS MACACOS E DAÍ? Nas redes sociais, escrever em maiúsculo e com letras repetidas imprime emoção à mensagem, sugerindo grito do enunciatário. A mensagem é finalizada com o índice linguístico (daí) que reforça o sentido de questionamento. Há aqui uma afirmação em forma de hashtag e um questionamentos sobre os efeitos dessa afirmação. Essa primeira publicação é responsável pelo lançamento do slogan “Somos Todos Macacos”.
A segunda postagem foi publicada no mesmo dia, 27 de abril de 2014, no Instagram, Facebook e com o endereço eletrônico disponibilizado no Twitter às 19h25min. A publicação trouxe a foto do jogador segurando uma banana (fruta) e uma criança com uma banana de pelúcia. Para os seguidores que acompanham suas publicações, é possível perceber
54 que o garoto é o filho de Neymar. Ao contextualizar a imagem, percebemos que a foto traz um homem que não se considera negro, junto a uma criança de cabelos loiros e pele clara, construída como branca no contexto racial brasileiro. A pelúcia presente na foto pode sugerir a inocência e a pureza da criança, trazendo leveza à situação. A banana como símbolo da campanha parece ser oferecida na imagem, como quem diz: aceita? A expressão do jogador aliada à enunciação “Somos Todos Macacos” traz um tom de fina ironia e sutil, tornando tudo engraçado. A mensagem do jogador reforça uma origem comum, que esvazia o sentido de ofensa habitualmente apontado nas denúncias de racismo é ignorada. A banana, símbolo da ofensa no caso de Daniel Alves, também está presente na postagem do slogan “Somos Todos Macacos”, porém a associação com a slogan tenta tirar-lhe a conotação pejorativa.
Figura 4 Postagem “Somos Todos Macacos”
Fonte: Instagram
A foto foi elaborada, feita sob encomenda, caracterizada pela pose, pela escolha do menino, pela banana de pelúcia e pela impressão de que foi feita com um aparelho celular.
Esse aspecto sugere algo amador ou caseiro, que aliado a publicação de postagens nas redes sociais do jogador transmite a ideia de casualidade, ocultando a estratégia de uma campanha
Esse aspecto sugere algo amador ou caseiro, que aliado a publicação de postagens nas redes sociais do jogador transmite a ideia de casualidade, ocultando a estratégia de uma campanha