• Nenhum resultado encontrado

Atos Proféticos e Batalha Espiritual

No documento mirianesigilianofrossard (páginas 88-94)

1 RELIGIÃO, TURISMO E CONSUMO

3.5 As principais doutrinas

3.5.3 Atos Proféticos e Batalha Espiritual

Essa Confissão Positiva também é válida para gerar bênçãos para os outros e para os lugares. Associada à Batalha Espiritual, outro tema recorrentemente abordado no M12, proferir palavras proféticas podem mudar o rumo de uma família, cidade, estado ou nação. De acordo com Ricardo Mariano, “as palavras proferidas com fé encerram o poder de criar realidades, visto que o mundo espiritual, que determina o que acontece no mundo material, é regido pela palavra. Em suma, as palavras ditas com fé compelem Deus a agir.” (1999, p.153). Deste modo, as palavras “proféticas”, juntamente com os “Atos Proféticos” e a Batalha Espiritual, são capazes de transformar uma situação ao simples poder da palavra proferida e pelos ritos realizados pelo fiel. Por isso, todos os anos são realizados em Porto Seguro – BA, na época do ano referente ao “descobrimento” do Brasil, um evento chamado “Resgate da Nação”. O local foi escolhido estrategicamente por acreditarem que ali é o “ventre da nação” e tudo o que for “profetizado” naquele lugar se estenderá por todo o território nacional. Para exemplificar essa noção “profética” desse território e das palavras ali proferidas, segue uma parte da reportagem realizada pela própria mídia de Terra Nova, confirmando o poder de decretos proféticos.

No dia 21 de abril, em Santa Cruz de Cabrália, apóstolo Renê Terra Nova e congressistas se uniram para reconsagrar o território de Porto Seguro ao Senhor Jesus, entendendo que a partir do solo materno todo o Brasil será atingido com essa demarcação espiritual. Cinco escunas conduziram cerca de 800 profetas no percurso que foi marcado com intercessões e liberação de palavras proféticas. Pão, óleo e vinho foram lançados nas águas porto- segurenses como sinal de tomada completa do território brasileiro.

Em Cabrália, outras 500 pessoas já os aguardavam para o segundo momento do ato profético. A fim de estabelecer um memorial eterno de demarcação e posse de um novo Brasil, o apóstolo Renê Terra Nova fincou uma estaca na primeira faixa de terra brasileira avistada pelos portugueses.

Contendo óleo de Jerusalém em sua parte interna e a profecia de um outro Brasil em 2008 e rendido aos pés do Senhor em 2010, a estaca foi fincada naquele local ao som de um clamor e de expressões de adoração dos cristãos apaixonados e ansiosos pelo mover de um Brasil diferente.

Pastores de vários estados e representantes da Comunidade Pataxó, dentre eles o Cacique Aruanã testemunharam e se aliaram ao apóstolo Renê Terra Nova que selou o momento com a palavra de que todo ato profético lançado no mundo espiritual é seguido de um sinal no reino físico num prazo de 24 horas.

No dia seguinte, no púlpito do 9° Congresso de Resgate da Nação, o apóstolo anunciou o fenômeno sísmico que atingiu 5,2 graus na escala Richter e refletido em dezenas de cidades paulistas e em pelo menos quatro outros estados – Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. O abalo sísmico ocorreu a 215 km de São Vicente-SP. A diferença entre o

tremor de terça (22/04) e os que ocorrem comumente é de que ele teve uma proporção pouco comum para o território nacional.

O decreto determinado pelo apóstolo Terra Nova, debaixo dos céus proféticos do útero do Brasil, foi respaldado por Deus e anunciado aos quatro cantos da nação brasileira. Muitos desconhecem a causa do tremor, mas para os congressistas presentes no evento, apenas a resposta de um ato profético. (BARTIRA, 2008).

No episódio relatado acima, a noção de manipulação do sagrado no Ato Profético realizado naquela cidade é evidenciado pelo tremor de terra ocorrido no país pouco tempo após o ritual ser concretizado. De acordo com os fiéis, esta foi a confirmação de que Deus estava “de acordo” com o que fora efetivado pelos sacerdotes e pelo apóstolo Renê em Porto Seguro, no ano de 2008. Esse tipo de ritual é, frequentemente, realizado pelas igrejas pertencentes a esse movimento, em suas próprias cidades espalhadas pelo Brasil. Nesses rituais, são escolhidos lugares estratégicos para ali realizarem tal Ato Profético, com o intuito de mudar a “sorte” do município.

Para Terra Nova, os Atos Proféticos são uma “expressão, uma atitude visível da Igreja que tem uma referência e um respaldo no mundo espiritual. Digo que o ato profético é uma mensagem enviada ao reino do espírito que ratifica a ação da fé e da Palavra.” (2004, p.7). Deste modo, todas as ações realizadas no mundo físico têm repercussões no mundo espiritual, mas somente compreendem isso aqueles que os “discernem espiritualmente”, conforme explica o apóstolo. Por isso, o uso de Atos Proféticos nos cultos e eventos das igrejas pertencentes à Visão Celular é algo muito importante e incentivado, pois consegue realizar uma conexão entre céu e terra, entre o divino e o humano, entre o espiritual e o material.

Esses Atos Proféticos selam uma posição no mundo da Batalha Espiritual, entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo. Em geral, são rituais e encenações de episódios bíblicos ou de uso de elementos religiosos para a manipulação do sagrado. Terra Nova ensina que alguns elementos são fundamentais na realização desses atos. (ATOS, 2009) Para ele, as bandeiras representam uma voz de comando no reino espiritual, um demarcar de territórios; o Shofar75 representa a convocação para a “guerra” e; o óleo significa a unção que desfaz o argumento dos pecados e remove o poder dos pecados. Deste modo, torna-se evidente que o uso desses elementos pelos fiéis nos rituais manifestam a crença de que estes detêm uma legitimidade divina para vencer a luta contra o mal. Esse “poder e autoridade, concedidos a eles por Deus,

75

O Shofar é um instrumento de sopro, feito com o chifre de um animal que precisava ser considerado limpo pelo povo hebreu. Em geral eram feitos de chifre de carneiro, em memória do animal oferecido em lugar de Isaque, filho de Abraão, como sacrifício a Deus. Não podem ser feitos nem do chifre de vaca e nem de touro. Para os judeus, o shofar não é apenas um instrumento musical, mas um instrumento tradicionalmente sagrado. Nos dias antigos, ele era utilizado em ocasiões solenes e tem a sua primeira referência com a revelação de Deus no Monte Sinai. Era também utilizado nas batalhas, como um grito de guerra.

para, em nome de Cristo, reverter as obras do mal.[...] acredita-se capazes de alterar realidades indesejáveis do ‘mundo material’ por meio de seu vínculo de fé com as forças divinas.” (MARIANO, 1999, p.113).

Renê Terra Nova ainda instrui sobre alguns passos fundamentais para a realização desses Atos Proféticos. Primeiro, deve-se procurar lugares específicos que tenham contextos históricos. Isso justifica, por exemplo, a escolha de Porto Seguro para a realização do evento “Resgate da Nação”.

Estamos em Sião, na Jerusalém do Brasil, no útero da Nação, na sede da profecia, no lugar do nascedouro das promessas do Eterno. Que privilégio! Que honra sem fim! Somos construtores de uma história sem precedentes, que não imaginamos com os olhos físicos, pois aqueles que testemunham do nosso gemido podem dizer e profetizar conosco e, ao mesmo tempo, alegrar- se com o resultado, pois muito aconteceu.[...]

Porto Seguro e nossa geografia sofreram danos violentos no mundo espiritual, com repercussão no mundo físico, da terrível guerra que travamos por onze anos. Agora, no tempo de saquearmos a nossa herança, como resultado do trabalho árduo, Deus vai limpar nosso território, e, claro, vai transformar por completo Porto Seguro, tirando dessa vergonha crônica, pois daqui saiu a ordem para a Nação, de uma transformação visível, porém os contra-ataques internos em Porto Seguro foram notórios na mídia digital, pois nos últimos 500 anos não se falou tanto dessa terra.

Porto Seguro se tornou palco de guerra, e nós, os lutadores, ficamos como arautos em alguns aspectos e atalaias em muitos rincões para estabelecer Porto Seguro como objeto de louvor e como diadema de glória. Não foi fácil a guerra travada, mas foi visível que tivemos saudável vitória. Batalhas foram travadas e, agora, a guerra está vencida. Ganhamos aspectos, notoriedade e, aqui, muitos foram projetados no útero da Nação. Agora, como gratidão a Deus, manteremos o Congresso de sustentação e consolidação de uma visão. (NOVA, 2010a).

Como visto no caso de Porto Seguro, a Batalha Espiritual precisa ser estratégica e, portanto, a escolha de locais significativos é importante para que a vitória ocorra. Por isso, Terra Nova (2004, p.12) instrui que não se pode “sair ungindo qualquer lugar. Devemos ungir lugares que façam diferença no contexto histórico de uma cidade. É claro que isso deve ser feito debaixo de um comando e cobertura espiritual do líder.” Deste modo, certos lugares assumem posições especiais para a realização de Atos Proféticos, mas, também, determinados rituais devem ser seguidos, conforme a prescrição do apóstolo:

Alguns lugares de uma cidade são estratégicos para a realização de atos proféticos: avenidas, estradas interestaduais, aeroportos, rodoviárias, portos, maternidades, cadeias ou penitenciárias, hospitais, palácios de governos, áreas culturais da cidade, secretarias, bairros perigosos, bases de Roma, procissões. Neste último, é importante levar uma equipe de discípulos com alguns indo à frente, outros no meio e outros no fim da procissão, todos orando em línguas para enfraquecer o principado.

Nas missas de impacto como quaresma, Corpus Christi, dias de santos, os crentes têm que fazer atos proféticos. Nos cemitérios, em dia de finados, precisamos fazer atos proféticos, porque ali eles fazem invocações a espíritos hereditários. Precisamos ter conhecimento do que estamos fazendo e saber exercer o nosso caráter profético. O diabo é que tem que correr de você e não você dele. Para isso se manifestou o Filho do Homem que habita dentro de nós, para desfazer as obras do diabo (I Jo 3.8). (NOVA, 2004, p. 12-13).

É interessante notar que nesse episódio o mal também é personificado na figura da Igreja Católica Apostólica Romana, seus santos e rituais. Os Atos Proféticos agiriam no sentido de neutralizar as influências espirituais, na percepção deles, maligna, dessa organização na sociedade. Isso corrobora com o que afirma Mariano (1999, p.116) em que os evangélicos, a partir de sua interpretação bíblica criticam tudo a sua volta, focalizando o mundanismo e as outras religiões como opositores e inimigos, causadores de males e, por isso, direcionam seus ataques aos de fora do grupo. No M12, também o dia dos mortos é ocasião para a realização do ritual, pois acreditam que a maldição hereditária76 pode ser acionada com a visita aos mortos, mais uma vez colocando em oposição evangélicos e católicos.

O segundo ponto destacado para a realização de Atos Proféticos diz respeito ao calendário. Lembrar datas e horas específicas para a realização do ritual é importante, pois, de acordo com o apóstolo, “precisamos estar atentos para datas e horas do mundo espiritual. O relógio do reino do espírito não se atrasa. O mover do espírito não se atrasará por sua causa. Então, arrume o seu relógio com o de Deus.” (NOVA, 2004, p. 13). Para exemplificar, ele afirma que a igreja romana emite, todos os dias, decretos no mundo espiritual através dos seus sinos que são tocados diariamente em horários diversos, o que ativaria os principados espirituais. Diante disso, Renê ensina que seus discípulos devem realizar uma guerra espiritual contra o “principado da idolatria”. O evento de Porto Seguro, novamente, pode servir de exemplo, pois é realizado na mesma época em que se comemora do “descobrimento” do Brasil.

Outro ponto ensinado é que, para a realização desses Atos, é preciso ter pessoas devidamente preparadas. De acordo com o apóstolo Renê, um líder qualquer não confronta “um principado da cidade. [...] O principado quando vem, não vem como demônio que grita e

76

De acordo com Mariano (1999, p.139), “os espíritos hereditários, ou de geração, são responsáveis pelas maldições de família.” Essas maldições entram em uma família através dos antepassados que cometeram pecados ou tiveram vínculo com o espiritismo ou a idolatria ou com qualquer outra prática considerada em desacordo com os ensinamentos bíblicos. Com isso, a família “recebe um demônio” que é responsável por diversos males que a acometem geração após geração. Para se libertar dessas maldições hereditárias, é importante que essas sejam “quebradas” por meio de rituais religiosos específicos, incluindo orações, jejuns, retiros, exorcismo e outros.

faz o seu showzinho e depois você o manda embora e ele vai. O principado lhe enfrenta na postura de príncipe e somente como príncipes venceremos os principados.” (CONQUISTAR, 2007). Portanto, para ele, é importante selecionar pessoas “espiritualmente preparadas”, como “soldados de Cristo”, para que possam estabelecer a conquista no mundo espiritual.

Os atos proféticos são uma guerra declarada no mundo espiritual. Faça uma rigorosa seleção de pessoas, para que sejam ungidas para essa guerra. Lembre-se: não existe guerra sem baixa. Se o exército não estiver preparado, as baixas acontecem. Nem sempre é com morte física, mas espiritual, desânimo ou alguma manifestação da obra da carne. Por isso, todos devem estar bem adestrados, para que não sofram retaliações. (CONQUISTAR, 2007).

Por fim, para a realização bem sucedida dos Atos Proféticos é preciso que haja uma preparação estratégica. Se assim não for feito, pode-se perder a batalha travada. Para o apóstolo Renê, o Ato Profético, além de ser algo sagrado e espiritual, é também perigoso, pois traz com ele retaliações, uma vez que se está “acordando gigantes”. Por isso, para a realização de tal ato é necessário que se tenha uma proteção espiritual. “Os atos proféticos devem ser encarados com muita responsabilidade, e não é porque sei fazê-los que vou sair ungindo tudo quanto é porta, parede, esquina, terreiro de macumba, ônibus, etc.. Isso seria não entender a seriedade do mundo espiritual.” (ATOS, 2009)

Deste modo, a realização de Atos Proféticos nas igrejas vinculadas ao M12 dizem respeito diretamente à Batalha Espiritual, prática bastante comum entre as igrejas neopentecostais. A Teologia da Batalha Espiritual77 tomou vulto por volta dos anos 90, nos Estados Unidos, como uma ferramenta para a evangelização e crescimento da igreja, formulada pelo escritor cristão Peter Wagner. Segundo esse escritor, para que o objetivo da igreja fosse alcançado, era necessário derrubar as fortalezas de Satanás por meio da guerra espiritual. (MARIANO, 1999). Essa concepção foi então abarcada por muitas igrejas evangélicas brasileiras, dentre elas as pertencentes à “Visão Celular”.

No M12, os fiéis são ensinados e incentivados a batalharem espiritualmente por várias causas. Para eles, o motivo de diversos infortúnios e percalços na vida do crente é fruto da obra de Satanás e, por isso, eles não podem ignorar a presença e o poder do inimigo. Segundo o apóstolo Renê, “achar que Deus resolverá tudo sem que tenhamos uma postura de oração e guerra é uma atitude imatura e infantil. Deus nos deu armas para usarmos contra o nosso

77

Cecília Mariz realizou um interessante estudo, nominado A Teologia da Guerra Espiritual: uma revisão da bibliografia, em que ela chama a atenção para “a importância da demonização enquanto instrumento de eticização da religião e veículo portador da modernidade ocidental.” (MARIZ, 1997a)

inimigo e destruí-lo.” (BATALHA, 2012a). Portanto, a Batalha Espiritual é algo que deve fazer parte da vida cristã na percepção desses evangélicos.

Na concepção teológica da Batalha Espiritual das igrejas pertencentes à “Visão Celular”, “o reino espiritual é regido por organizações e hierarquias.” (BATALHA, 2012b). Nesse entendimento, eles fazem uma analogia entre a “hierarquia do céu” e a “hierarquia do inferno”, alegando que, assim como há a trindade no cristianismo, formada pelo Deus Pai, Jesus Cristo e o Espírito Santo, no “lado oposto” podem ser encontrados uma tríade formada por Lúcifer, Satanás e o Diabo, que seriam três figuras com atributos específicos, assim como as três pessoas da trindade. Segundo Terra Nova, isso ocorre porque “como o diabo não tem capacidade de criar nada, ele imitou a organização dos céus.” (BATALHA, 2012b).Desse ponto de vista, Lúcifer teria a função de “enganar, imitando as coisas espirituais do reino da luz. A palavra Lúcifer significa ‘Anjo de Luz’. Ele traz o engano com a aparência do bem.” (BATALHA, 2012b). Já Satanás seria aquele que “destrói por estratégias e ele trabalha por territórios que não são comuns, atingindo áreas específicas”, pois, para ele, “quando travamos a guerra espiritual, não travamos com o diabo. Essa camada de guerra espiritual nos ares é com Satanás, que não quer que se chegue até o trono de Lúcifer. Por isso é que ele fica entre a Terra e o céu, e ali prende, na batalha, as bênçãos do povo de Deus.” Por fim, o diabo seria aquele que a Bíblia afirma que vem para roubar, matar e destruir.

Ele usa seus demônios para prender as pessoas no plano físico com drogas, sexo, imoralidade e todas as demais obras da carne. [...] Os principados e potestades se estabelecem em seus postos e armam instrumentos de guerras para virem contra o povo de Deus e a humanidade com o objetivo de destruí- los. (BATALHA, 2012b).

Ricardo Mariano (1999) assevera, sobre a teologia dualista dos neopentecostais, que nesse contexto Deus aparece hierarquicamente muito mais poderoso que seu opositor, gerando uma certa assimetria nessa relação. Portanto, por mais que Lúcifer e seus asseclas tentem reproduzir a estrutura celestial e sejam poderosos para agir na vida dos humanos, Deus se torna um aliado dos fiéis para a vitória certa e, por isso, por meio de suas palavras proféticas, decretos, atos proféticos e orações, os crentes se tornam participantes do triunfo divino na batalha cósmica.

No documento mirianesigilianofrossard (páginas 88-94)