Julio Cortázar descrevia os homens como cronópios, famas e esperanças. Os famas são seres acomodados, prudentes, cautelosos. Sabem tudo da vida prática e são dados aos cálculos. Quando viajam vão aos hotéis indagar cautelosamente os preços, verificar a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes; checam os hospitais e fazem uma
56 lista dos médicos de plantão e suas especializações. Estão sempre dispostos a praticar atos de filantropia; são objetivos e sisudos.
Os esperanças são sedentários, transitam entre os mundos com fé no outro, “são como as estátuas, que é preciso vê-las, porque elas não vêm até nós” (Cortázar, 2007: 72). Já os cronópios são seres verdes e úmidos, cantantes e desordenados, poéticos e divertidos. Custam a se desanimar, são rebeldes e procuram viver a vida em sua plenitude. Sua força é a poesia, quando cantam se entusiasmam e se esquecem de tudo. “Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam a caixa de giz colorido e na lousa redonda da tartaruga desenham uma andorinha” (Idem: 90).
É na figura do cronópio que Louk Hulsman foi lembrado por Vera Malaguti Batista e Edson Passetti no dia 05 de março de 2009, um pouco mais de um mês da ocasião de sua morte, na sessão pública Louk Hulsman, um instaurador. Conversação
sobre abolicionismo penal e a vida de um pensador libertário organizada pelo Nu-Sol: “Cronópios seriam doces divertidos, rebeldes, resistentes, singulares, destoados do coro dos contentes, anjos caídos, alegrias da casa. (...) Louk Hulsman: o maior de todos os cronópios” 12 (Batista, 2009: 33).
O encontro, que reuniu Vera Malaguti Batista, Salete Oliveira, Edson Passetti e Nilo Batista, resultou na publicação do Dossiê Louk Hulsman pelo Nu-Sol na Revista
Verve v.15, que conta com uma apresentação elaborada pelo Nu-Sol, seguida de uma seleção de trechos do livro Penas Perdidas, e com os textos: “O maior de todos os cronópios” de Vera Malaguti Batista, “Louk Hulsman” de Maria Lúcia Karam, “Relembrança de Louk Hulsman” de Nilo Batista e “Louk Hulsman, abolicionismo penal e percursos surpreendentes” de Salete Oliveira.
12 Trecho do texto “O maior de todos os cronópios” apresentado por Vera Malaguti na sessão publica
Louk Hulsman, um instaurador. Conversação sobre abolicionismo penal e a vida de um pensador libertário posteriormente publicado na Revista Verve v. 15.
57 O dossiê expõe o precioso rigor acadêmico de Hulsman ao propor o fim das punições e dos encarceramentos em uma luta que se desenvolve nos movimentos sociais e nas universidades. Mostra que sua surpreendente presença trouxe contribuições para o pensamento abolicionista elaborado pelo Nu-Sol desde 1997, quando esteve em São Paulo para participar do encontro Conversações Abolicionistas. Sua potência é colocada pelos autores do dossiê ao lembrar de suas experiências de vida refletidas em seu pensamento abolicionista e em seu compromisso com a liberdade.
A seleção feita da obra de Louk Hulsman para a construção dessa dissertação de mestrado teve como critério os escritos em que o autor abarca questões acerca do sistema de justiça criminal e constrói o seu pensamento abolicionista. Para isso, foram consultadas a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos (Washigton DC) e, por indicação desta, a Biblioteca da Universidade de Loyola (Chicago) que abriga grande parte de seus escritos. O levantamento bibliográfico de tais escritos também contou com a generosa ajuda de sua filha Jehanne Hulsman que atualmente mantém uma website13 onde disponibiliza os artigos “Critical Criminology and the Concept of Crime” (Criminologia Crítica e o Conceito de Crime), “Themes and Concepts in an Abolitionist Approach to Criminal Justice” (Temas e Conceitos numa Abordagem Abolicionista da Justiça Criminal), e “Alternatives to Punishment. The Abolitionist Case: Alternatives Crime Policies” (Alternativas a Punição. A Questão Abolicionista: Alternativas à Política Criminal). A website também conta com o curriculum vitae de Hulsman, fotos e
links de associações e grupos de pesquisas relacionados ao estudo do abolicionismo penal e da criminologia.
A produção dos escritos de Hulsman está diretamente ligada as suas experiências de vida e reflete suas inquietações que o levaram a sugerir maneiras livres
58 de lidar com as situações-problema que atravessam a vida. Um exemplo de sua prática abolicionista é dada pelo autor no livro Penas Perdidas:
“Alguns anos atrás, ocorreram três furtos em nossa casa no espaço de duas semanas. O primeiro deles, ao menos, foi um daqueles furtos desagradáveis em que, na verdade, pouca coisa é furtada, mas muitas coisas são destruídas. Volto para casa e, ao entrar, vejo ovos quebrados em toda parte – (e não tínhamos pássaros em casa!) – e então percebi que uma pintura e alguns objetos foram quebrados e que havia pontas de cigarro no chão. Aos poucos, uma ideia da cena do que aconteceu mostrou-se para mim. Em tais circunstâncias, você anda pela casa imaginando cada cena, e você se zanga; por fim, fiquei com tanta raiva que seria capaz de quebrar os ovos na cabeça da pessoa que fez aquilo e de pegar suas coisas e destruí-las, e lhe perguntar se gostaria que o mesmo lhe acontecesse. Mas, como vítima, notei que meus sentimentos eram mais complexos que isto, porque, ao divagar, eu também pensei: “Graças a Deus, eles não destruíram aquilo!” e me senti aliviado. Eles destruíram muito menos do que havia para destruir, a mostrarem laços de moderação, e então, mais tarde, me senti até mesmo feliz, que nada mais foi furtado. Então, ao lado da raiva, houve o alívio e curiosidade – porque eles fizeram isso ou aquilo – os ovos, as pontas de cigarros e essas outras coisas estranhas? (...) Alguns dias depois, minha mulher chegou em casa à tarde e ouviu pessoas dentro de casa. Era óbvio que os intrusos estavam lá novamente. Ela pôde ver pessoas, mas não o suficiente para identificá-las. Desta vez não quebraram muita coisa, mas quebraram ovos, mais uma vez, e furtaram alguns itens. (...) Depois de cada um dos furtos, tomamos novas precauções para prevenir a repetição. Mesmo assim, após alguns dias, voltamos para casa e descobrimos que os intrusos tinham estado lá pela terceira vez. Desta vez, nada foi destruído e somente faltavam alguns objetos. Por mais estranho que possa parecer, começamos a nos acostumar com as invasões e a sentir que podíamos delinear os culpados em nossas mentes. Sabíamos que eram, provavelmente, três e comecei a imaginar o que eu diria se nos encontrássemos, coisa que desejava que acontecesse. Naturalmente, minha esposa estava apreensiva, de certo modo, quanto à situação. (...) Sempre tive interesse em refletir sobre as formas como eu mesmo e outros reagiríamos aos fatos criminalizáveis e descobri que isso sempre será um processo complicado e ambíguo para o qual existem muitas facetas diferentes. Visto que este caso não era, evidentemente, diferente, e porque acredito que não se deve (...) ‘roubar’ os conflitos dos outros, indaguei da polícia que se, quando encontrassem os responsáveis, eu poderia falar com eles. Umas duas semanas depois, e contra todas as dificuldades, visto que apenas uma pequena parte dos furtos na Holanda são resolvidos com sucesso – (em Dordrecht seriam 25%) – a polícia telefonou para dizer que identificara os culpados devido ao seu envolvimento num caso de vandalismo numa cidade vizinha. (...) Dos três jovens envolvidos, dois tinham 16 anos e o terceiro 17, e pedi para falar com eles. (...) Eu não tinha ideia de como isto terminaria, visto que não temos modelos para usar nestas ocasiões. (...) Eu imaginava poder mostrar-lhe como me senti e fazê-lo sentir remorso pelos seus atos, mas descobri que não pude fazê-lo, e se tornou difícil conversar um com o outro. Entretanto, foi mais fácil a identificação com os pais, para quem toda situação era horrível. Após a descoberta dos furtos, dois dos rapazes
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fugiram, e os pais gastaram muito tempo em vão procurando-os ansiosamente (...) Comecei a conversar com o rapaz tendo em vista que ele reparasse o que fez. Quando perguntei se tinha algo que ele gostaria de fazer, ele respondeu: ‘na verdade, não’, aquilo criou um elo entre nós dois porque ele foi verdadeiro e autêntico. Pude entender sua resposta, dada ao homem estranho que veio à sua casa. (...) Então, todos nós saímos para encontrar os dois outros rapazes e seus pais; e aí encontramos o mesmo tipo de dificuldade na comunicação. (...) Durante as discussões eu disse: “agora que vocês encontraram minha casa, vocês deveriam entrar pela porta da frente; esta é a forma de entrar”. Senti muita satisfação em dizer aquilo. Então me contaram uma história triste da outra família. Neste momento importante, estava claro que o sistema de referência criminal estava certamente segmentando artificialmente a situação de todas as formas possíveis. Estava cortando os laços entre pessoas que viviam juntas, e, de certa forma, tornando a situação irreal em um nível social. Para os pais era um grande drama, e eles falavam sobre isso o tempo todo, mas não tinham uma imagem clara ou completa do que tinha acontecido. Eles possuíam fragmentos da informação, dados pela polícia e por seus filhos, mas, ao final, não possuíam uma imagem coerente dos fatos. Somente após esta reunião em minha casa é que, pela primeira vez, tiveram uma visão total da sequência dos fatos, que poderiam então se tornar objeto de discussão entre eles e seus filhos. Foi neste ponto que toda a situação começou a ter uma realidade concreta. (...) Então os pais nos ajudaram e os garotos vinham aos domingos, ou mais frequentemente, para fazer jardinagem. Eles pareciam gostar de vir, e algumas vezes suas visitas se tornavam inoportunas porque nós tínhamos outras coisas a fazer! (...) O seguro cobriu os custos dos objetos danificados e nós nos tornamos uma espécie de tio e tia para os rapazes, e amigos dos pais. Para mim, aprendi muito sobre a vida das pessoas em situações das quais antes eu sabia muito pouco. No final, se tornou uma experiência proveitosa para todos nós e não estou exagerando. (...) Esta é a estória que me ensinou muito sobre como o sistema de justiça criminal segmenta artificialmente nossas preocupações” (Hulsman e De Celis, 1993: 165 - 170).
Em 1973, mesmo ano em que acontecia a reunião preparatória que desencadearia na formação do Instituto Latino Americano de Prevenção do Crime e Tratamento do Delinquente das Nações Unidas ILANUD, ocorria entre os dias 07 e 12 de maio o Colloquium of Bellagio, organizado pelo Centro Nazionale Di Prevenzione e Difesa Sociale (Centro Nacional de Prevenção e Defesa Social), com o apoio da Amministrazione Provinciale di Milano (Administração Provencial de Milão).
Para este encontro, Hulsman produziu o artigo “The Decriminalization” em que apontou, pela primeira vez em sua obra, os problemas produzidos pelo sistema de
60 justiça criminal ao tratar de um problema social como crime e sugeriu, em contrapartida, a descriminalização do mesmo.
Seis anos depois, em 1979, a École de Criminologie de Louvain, na Bélgica, apresentava um colóquio internacional para comemorar o seu quinquagésimo aniversário, que resultaria, em 1981, na publicação do livro Dangerosité et justice
pénale : ambiguïté d'une pratique (Periculosidade e de Justiça Penal: A Ambigüidade de uma Prática). O livro traz a compilação dos artigos produzidos para o colóquio que abordou, em especial, a questão da “periculosidade”. Para o encontro, Hulsman escreveu o artigo “An Abolitionist Perspective on Criminal Justice Systems and a Scheme to Organise Approaches to ‘Problematic Situations’” (Uma Perspectiva Abolicionista sobre os Sistemas de Justiça Criminal e um Esquema para Organizar Abordagens a ‘Situações-problema’), no qual introduziu o conceito de situação-
problema destacando a importância do uso de novos referenciais de interpretação para definir um evento conflituoso a partir do ponto de vista das pessoas diretamente envolvidas.
Em 1982, publicou seu único livro a respeito da questão abolicionista sob o título de Penas Perdidas. Escrito em companhia da amiga e pesquisadora Jacqueline Bernat de Celis, com quem travava calorosas discussões ao redor da mesa da cozinha,
Penas Perdidas se encontra hoje traduzido em francês, italiano, espanhol, grego, holandês e português.
Na primeira parte do livro-entrevista, em uma conversa com Bernat de Celis, Hulsman conta de que maneira seu pensamento abolicionista está intimamente ligado às suas experiências pessoais e, para isso, relembra os anos de sua juventude nos quais passou por colégios internos por ter sido considerado por sua mãe uma criança difícil (Hulsman e De Celis, 1993: 32). Estas experiências foram extremamente traumatizantes
61 para ele por não suportar a disciplina e a atmosfera repressiva destas instituições: “Ficava isolado numa espécie de marginalização, que duplicava o sentimento de rejeição já experimentado em relação a minha família. Eu era uma criança que não correspondia ao que dela se esperava” (Hulsman e De Celis, 1993: 32).
Durante estes anos, estudou teologia moral14 por iniciativa própria e começou a perceber que havia uma grande distância entre aquilo que o ensinavam e sua própria experiência. A partir de então, começou a duvidar das informações que os educadores passavam aos estudantes e começou a sentir “a dominação totalitária de um sistema institucional que fechava as portas a qualquer outro modo de pensar” (Hulsman e De Celis: 1993, 22).
A revolução espanhola é outro acontecimento destacado por Hulsman como um momento que iria marcar a sua vida:
“Escapar do conformismo permite o acesso a um universo de liberdade. Mas, nem sempre é fácil largar o establishment, embora, às vezes, isso dê prazer. Alguns acontecimentos me ajudaram. A guerra civil espanhola, por exemplo, foi uma etapa importante. Na região onde eu vivia, os jornais eram todos franquistas. Com uma tal imprensa, eu também acabava ficando interiormente contente quando Franco tomava mais uma cidade, quando seu exército avançava. Mas, em 1938, comecei a ter acesso a outras fontes de informação e, de repente, me vi muito pouco orgulhoso de meus sentimentos. Percebi que tinha sido totalmente enganado pelo sistema onde eu tinha estado encerrado. Agora que lia os livros dos republicanos e daqueles que, na França e nos Países-Baixos, tinham participado da luta contra Franco, me dava conta do erro profundo em que eu havia mergulhado e minha vergonha crescia... Jamais fui à Espanha antes da morte de Franco, pelo trauma profundo que vivi naquela época. Este episódio me marcou bastante” (Hulsman e De Celis, 1993: 22- 23).
14 Teologia moral é um ramo da teologia que se baseia na autoridade da razão, do direito natural e
canônico, e na tradição e autoridade da Igreja Católica Romana e de seu Magistério. Ela discute a questão do livre arbítrio do homem e de seu fim sobrenatural, e propõe os meios instituídos por Deus para a consecução desse fim. A teologia moral deve habilitar o diretor espiritual ou o confessor a pesar as violações da lei natural no balanço da justiça divina, a distinguir e aconselhar corretamente aos outros sobre o que é pecado e o que não é, o que é o bom e o que não é, e deve proporcionar uma formação científica para o pastor do rebanho, para que ele possa direcionar toda uma vida de dever e virtude (Lehmkuhl, 1912).
62 Em 1940, a Alemanhã nazista invadiu a Holanda e rapidamente ocupou a maior parte do país. A cidade de