2.2 NACIONALIDADE DIREITO DE TODOS
2.2.1 Atribuição da nacionalidade originária e derivada
Mesmo cabendo a cada Estado estabelecer suas próprias regras de atribuição da sua nacionalidade, existem pontos que se comunicam e se assemelham nas diversas legislações internas. E justamente por esse fator de convergência que a nacionalidade é considerada de duas espécies, quais sejam: a nacionalidade originária ou primária e a nacionalidade derivada ou adquirida. A primeira é involuntária e atribuída quando do nascimento, enquanto que a segunda, se verifica sempre após o nascimento, em decorrência de um ato de vontade do indivíduo.
A nacionalidade originária se configura em razão do nascimento do indivíduo78, “relaciona-se a elos diretos com o Estado”79, sendo os seus detentores denominados de natos, caracterizada por ser involuntária, ou seja, não resulta da manifestação de vontade do sujeito. A nacionalidade originária será aferida quando do nascimento do indivíduo, sendo fixada em razão do local do nascimento (do latim jus solis), ou em razão da nacionalidade dos seus genitores (do latim jus sanguinis80).
Pelo sistema do jus sanguinis a nacionalidade é atribuída em razão da filiação, não sendo importando, para tanto, o local de nascimento do indivíduo. Não se trata, na verdade, de atribuir filiação pela consaguinidade, sob o aspecto biológico-racial, mas em determiná-la pelo simples fato de filiação, sendo nacional de um determinado Estado aquele indivíduo que seja filho de um nacional desse Estado, politicamente considerado, independentemente de onde tenha nascido. Não importando também o fato dos pais terem mudado de nacionalidade, tendo em vista que o critério se baseia na nacionalidade dos pais na época do nascimento. Já pelo sistema do jus solis será considerado nacional de um determinado Estado, o indivíduo que efetivamente nascer em seu território, não sendo relevante a nacionalidade dos pais81. Existe, ainda, a
78 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público.15. ed. 2v. Rio de Janeiro:
Renovar, 2004. p. 995; ACCIOLY, Hildebrnado; SILVA, G. E. do Nascimento; CASELLA, Paulo Borba. Manual de direito internacional público. 21. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 530; MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional público. 6.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. p. 683; BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 841.
79 VARELLA, Marcelo D. Direito internacional público. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 182.
80 Valerio Mazzuoli (2012, p. 683) esclarece que por não serem os laços sanguíneos que gera a utilização desse
critério, mas sim a nacionalidade dos genitores, a melhor denominação desse critério seria “critério da filiação”.
81 MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional público. 6.ed. São Paulo: Revista dos
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possibilidade de aplicação de forma conjugada de ambos os critérios, com o intuito de evitar os conflitos de nacionalidade em decorrência do emprego exclusivo de um ou de outro sistema.
Enquanto que a nacionalidade derivada é aquela adquirida após o nascimento82, normalmente em razão da solicitação de um indivíduo, por sua própria vontade83, caracterizando dessa forma a voluntariedade do referido ato de se naturalizar, ou seja, adquirir uma nacionalidade de determinado Estado. Portanto, a nacionalidade derivada ser requerida por ato de vontade do indivíduo, desde que sejam preenchidos os requisitos constitucionais e legais do Estado em que se pleiteia a aquisição da nacionalidade, uma vez que será dele a responsabilidade de estabelecer os requisitos para tal aquisição, na sua legislação interna, sendo os seus detentores denominados de naturalizados.
As ideias de naturalização, ou seja, de passar a ser nacional de um determinado Estado, têm embasamento na norma internacional prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 194884, que prevê a possibilidade de mudança de nacionalidade pelo indivíduo, como direito desse85. O direito de mudar a nacionalidade do indivíduo também encontra guarida na Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos86, assinada na conferência especializada interamericana sobre direitos humanos, realizada em San José na Costa Rica, em 22 de novembro de 1969, na medida em que dispõe sobre a não possibilidade de privação do indivíduo sobre o direito de mudar de nacionalidade. Contudo, a nacionalidade derivada por depender de uma vontade determinada do indivíduo, na maioria das vezes, por previsão legal dos Estados, induz à ruptura com o vínculo anterior87.
82 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 841; MELLO,
Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público.15. ed. 2v. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. p. 995; MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional público. 6.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012. p. 683.
83 VARELLA, Marcelo D. Direito internacional público. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 182.
84 ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos foi realizada em 10 de dezembro de 1948 em Paris, na
França. Disponível em: < http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf> Acesso em: 19 set. 2016.
85 Artigo XV da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dispõe que: “ninguém será arbitrariamente privado
de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade”.
86 BRASIL. Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992. Promulga a Convenção Americana sobre Direitos
Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D0678.htm>. Acesso em: 20 de nov de 2016.
87 MAZZUOLI, Valerio de Oliveira. Curso de direito internacional público. 6.ed. São Paulo: Revista dos
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A naturalização é o caso mais comum da nacionalidade secundária, desde que preenchidas determinadas condições, mas essa nacionalidade pode ser adquirida também em razão de alterações territoriais, que ocasionem uma cessão ou anexação de território a um Estado estrangeiro88. Outro caso que também pode ocorrer é que, em razão do casamento a mulher adquira a nacionalidade do esposo, no entanto, a Convenção sobre a Nacionalidade da Mulher Casada, celebrada em 20 de fevereiro de 195789, aponta no sentido de que isso só deverá acontecer quando requisitado pela mulher, ou seja, de forma voluntária.
Como já mencionado, a nacionalidade originária pode ser atribuída por critérios de filiação ou do local de nascimento. No curso do desenvolvimento histórico da sociedade cada um dos critérios esteve em evidência. Na antiguidade, a família era a base da organização social, tendo o critério da filiação (jus sanguinis) uma maior preferência nas legislações dos Estados, para a fixação da nacionalidade. O Estado, em Roma e na Grécia, era o prolongamento da família, de maneira que o indivíduo pertencia primeiro a família e depois ao Estado, justificando a aplicação do critério jus sanguinis, expandido na Europa da época, em razão das conquistas romanas90.
No decorrer do tempo, com o surgimento do feudalismo, que trazia como premissa a reverência a terra, considerada como “a maior riqueza e símbolo do poder”91, passando então o critério territorial (jus solis), a ter um maior destaque. Veio então a Revolução Francesa, rompendo com as referências do feudalismo, e consequentemente com a conformação da sociedade, momento em que o critério jus sanguinis voltou a ser eleito para atribuição da nacionalidade, sendo inclusive consagrado no Código de Napoleão92.
Uma nova conformação de organização social surge com a independência dos Estados da América, e com isso, em razão do interesse dos Estados independentes pela imigração, o critério jus solis é novamente apontado como eleito. No entanto, para o continente europeu o
88 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público.15. ed. 2v. Rio de Janeiro:
Renovar, 2004. p. 998.
89 BRASIL. Decreto nº 64.216, de 18 de março de 1969. Promulga a Convenção sobre nacionalidade da mulher
casada, 1957. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1960-1969/decreto-64216-18-marco- 1969-405426-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso em: 20 de out de 2016.
90 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de direito internacional público.15. ed. 2v. Rio de Janeiro:
Renovar, 2004. p. 994.
91 Ibid., p. 994. 92 Ibid., p. 994.
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interesse era oposto, qual seja, pela emigração, e, portanto, o critério de preferência continuava sendo o jus sanguinis, já que este critério indicava um maior controle sobre os que tenham emigrado e seus descendentes93.
Como podemos observar, os critérios de atribuição da nacionalidade recebem influência direta das pretensões do Estado, pois sendo dele a competência de estabelecer as normas para tal atribuição, evidente que seu interesse pela imigração ou emigração serão imprimidos quando da confecção das normas. Geralmente os Estados elegem um critério de atribuição da nacionalidade, o que não significa que o outro critério não seja também utilizado em casos específicos. No entanto, por não existir uma uniformização de regras para a atribuição da nacionalidade originária de um indivíduo, em razão da possibilidade da escolha de critérios distintos pelos Estados, faz com que alguns conflitos de leis sejam gerados e surjam casos de indivíduos sem nenhuma nacionalidade ou com mais de uma nacionalidade.
A Organização das Nações Unidas empenhada em evitar que esses casos de conflito gerem a possibilidade de indivíduos sem nenhuma nacionalidade, acaba por fazer uma sugestão aos Estados, no sentido de fazer previsões no seu direito interno, no sentido de evitar o surgimento de casos de apatridia94. Em respeito ao previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, para que todo indivíduo seja considerado nacional por um Estado.