Antes de tratar da “sobrevivência de formas e perdas de significados” percebida em Mercúrio, considera-se importante abordar brevemente alguns conceitos que têm relação com a sua imagética.
S
egundo o Dicionário de Termos Literários13, o termo alegoria, que significa “dizer o outro”, isto é, “um discurso acerca de uma coisa, para fazer compreender outra” foi usada amplamente pelos gregos e correspondia a uma figura de estilo denominada inversio, (em
13 Dicionário de Termos Literários, por Massaud Moisés (2004, p. 14). Disponível em: <http://books.google.com.br/books?id=0Pn4qAZ-QyoC&pg=PA5&hl=pt-
51
latim). No entanto, foi na Renascença que o termo alegoria surgiu com a função de ditar as regras para as representações.
Já o termo iconologia surge quase como um sinônimo dessa palavra. Desde o final do século XVI, de acordo com Hadjinicolaou (1981, p. 105) esse termo foi empregado para designar a descrição de um sistema de regras de representação de pessoas (reais ou legendárias), de conceitos universais e de cenas narrativas: “com essa finalidade se publicaram os manuais que serviam de inspiração e de regra a artistas, poetas e oradores que neles consultavam para evitar erros ao descrever suas alegorias ou emblemas”.
Panofsky (1991, p. 53) define como objeto da iconologia “a descoberta e interpretação de valores simbólicos, que muitas vezes são desconhecidos pelo próprio artista, e podem até diferir enfaticamente do que ele conscientemente tentou expressar”. No processo de leitura da obra para decifrar o conteúdo das imagens, a chave para auxiliar nessa interpretação são as alegorias, os atributos, os traços iconológicos.
Não há como abordar Panofsky sem citar o trabalho de Warburg, seu antecessor na aplicação dos métodos iconológicos. Embora identificados em alguns pontos, seus estudos apresentam uma sensível diferença, segundo Mattos (2006, p. 221). A autora considera que, enquanto Panofsky tem a preocupação em decifrar o significado do conteúdo representado em uma determinada imagem, se afastando paulatinamente das preocupações centrais, Warburg, antes de tudo, voltava-se para questões de psicologia da imagem, isto é, para investigações a respeito das formas assumidas por essas imagens e das razões que determinam suas transformações no tempo. Com o “interesse pela questão da sobrevivência de formas de um tempo passado em outro”, Warburg concentrou seus estudos no renascimento italiano, investigando a motivação psicológica para a presença das representações clássicas no contexto cultural daquele período.
1.7.1 Caduceu, petasus alatus e endromidas
Retornando, agora, aos atributos que permaneceram em Mercúrio, pode-se considerar o caduceu como a sua marca inseparável e absolutamente pessoal. Sempre carregado, por ele, na mão, foi representado em relação direta com essa divindade desde os monumentos mais antigos que se tem conhecimento. Na poesia homérica14, o poeta descreve o caduceu que
52
Apolo dá a Hermes como um bastão dourado, dotado de ventura e riqueza, capaz de preservá- lo e torná-lo ileso.
São raros os vasos do Período Helenístico disponíveis para pesquisa on line. No entanto, os do Período Arcaico e Clássico são de acesso relativamente fácil e proporcionam uma noção das mudanças que esse atributo sofreu em suas representações. As peças mais antigas (Figura 8, Figura 9, Figura 13, Figura 14, Figura 15, Figura 16, Figura 29 e Figura 30) mostram um caduceu semelhante a uma vara fina com um “oito” na parte superior, aberto na ponta, conforme se pode observar na Figura 30 e também no detalhe da ilustração de uma pintura (Figura 29).
Figura 29 – Ilustração de pintura em vaso arcaico onde Hermes segura um caduceu.
Fonte: Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines (1900), p. 1806.
Figura 30 – Imagem Olpe ática figuras negras assinado pelo Pintor de Amasis (550-530 a. C.). Hermes introduz Héracles no Olimpo. Acervo Museu Louvre. Número de inventário F 30.
Fonte: Disponível em: <http://cartelen.louvre.fr/cartelen/visite?srv=car_not_frame&idNotice=6882>. Acesso em: jan de 2015.
53
Apesar de não estarem representadas nas peças acima, as serpentes já faziam parte desse símbolo cerca de 600 anos a. C., como mostra a Figura 31 onde as cobras entrelaçadas estão no topo de um objeto de bronze em forma de uma coluna dórica.
Figura 31 – Imagem bastão de arauto em bronze do período arcaico, 18,7 cm. (VI-V a. C). Acervo Museu Metropolitano de Nova York. Número de inventário 1989.281.57.
Fonte: Disponível em: <http://www.metmuseum.org/collection/the-collection- online/search/255934?rpp=20&pg=4&ao=on&ft=hermes&pos=68>. Acesso em: jan de 2015.
Progressivamente, percebe-se uma transformação nos traços; o bastão fica mais robusto; no cruzamento, as partes recurvadas se tornam enlaçadas por duas serpentes nas quais as caudas coincidem; seus corpos formam vários “S” onde as cabeças se olham e asas saem da parte superior. Esse é o modelo de caduceu que prevaleceu e que está presente em diversas peças que têm a intenção de representar ou fazer alguma alusão ao deus Mercúrio, como por exemplo, a obra (Figura 32) do escultor holandês Joahnn Van der Shardt (1530- 1581), que viveu na Itália e foi contemporâneo de Giambologna.
54 Figura 32 – Imagem escultura bronze de 1570 (1,15 cm) de Joahnn Van der Shardt.
Fonte: Catálogo de obras Primas J. Paul Getty, p. 35. Disponível em:
<http://d2aohiyo3d3idm.cloudfront.net/publications/virtuallibrary/0892365145.pdf>. Acesso em: jan de 2015.
Os demais atributos de Mercúrio que se mantiveram, resistindo ao tempo e às interpretações artísticas, foram o capacete alado (petasus alatus) e as sandálias aladas (endromidas). O trecho do hino homérico IV que comenta a artimanha feita por Hermes para não deixar marcas ao roubar as vacas de Apolo, provavelmente serviu de inspiração aos artistas para a construção de parte do imaginário visual de Hermes/Mercúrio: as sandálias aladas, símbolo da velocidade de locomoção e de ausência de rastros:
A vaguear as tangia pelo terreno arenoso, os rastros lhes revertendo: não se esqueceu da artimanha. Então, que as marcas dos cascos volveu-lhes: traseiras iam na frente das dianteiras – dele a contrapostos passos. Hermes na areia da praia lançou as suas sandálias e outras teceu inefáveis, inéditas, obra de assombro, com ramos entrelaçados de tamargueira e de mirto (HOMERO, v. 75-81).
Apesar da perda de alguns símbolos desde a criação do mito e dos elementos que foram incorporados e reinterpretados em diferentes fases da civilização, esses três últimos atributos que perduraram parecem suficientes para conferir à divindade força para marcar a
55
atualidade de sua presença. Brandão (1986, V I, p. 196) lembra que seus atributos essenciais – astúcia e inventividade, domínio sobre as trevas, interesse pela atividade dos homens, psicopompia – serão continuamente “reinterpretados e acabarão por fazer de Hermes uma figura cada vez mais complexa, ao mesmo tempo que Hermes civilizador, patrono da ciência e imagem exemplar das gnoses ocultas".