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Carga Horária dedicada a Docência de Pediatria

6.2 Atributos de um bom professor de Pediatria

“Atributo (do latim attributu) – aquilo que é próprio de um ser; característica, qualitativa ou quantitativa, que identifica um membro de um conjunto observado; a qualidade atribuída ao sujeito; caráter essencial de uma substância; caráter afirmado ou negado de um sujeito”. (FERREIRA, 1986, p. 197)

Investigar a docência em Pediatria nos reportou, dentre outros recortes, a identificar os atributos de um bom docente na perspectiva dos coordenadores do Ensino de Pediatria no Rio de Janeiro. Entendemos que refletir sobre os atributos de um bom docente de Pediatria nos levará a compreender o seu significado como adjetivo e, conseqüentemente, como qualidade.

É importante pontuar que se compreende os atributos como construções histórico-sociais. Apreendê-los, conhecendo os olhares docentes, pode representar uma ampliação do que se projeta para o professor de Pediatria, bem como descortinar as relações entre o que se espera e os processos de formação e trabalho acadêmico em vigor na Medicina.

Partindo desse pressuposto, a análise dos dados possibilitou observar que investigar sobre atributos implica desvelar representações que têm orientado as práticas docentes em Pediatria, indicando tendências que serão apresentadas a seguir.

Nas entrevistas realizadas com os responsáveis pelo Ensino da Pediatria, a perspectiva humanística na postura do professor constituiu o atributo mais citado. Relacionamento humano, respeito ao outro (aluno, paciente), capacidade de ouvir e entender, sensibilidade, humildade são qualificações freqüentemente apontadas na caracterização desse atributo.

“...Eu penso que, mais importante do que o domínio do conteúdo, é a sensibilidade, como ele é enquanto ser humano, consigo próprio e na relação com o outro...” (D-1)

“...é respeitar o paciente, se colocar do outro lado, como um verdadeiro paciente...” (D-5)

“...é saber ouvir o aluno, é saber entender, e saber ajudar...” (D-11)

“...de vez em quando, saber dizer também que não sabe...” (D-2)

O segundo atributo mais citado como qualidade de um bom professor de Pediatria foi gostar do que faz. Nessa categoria sobressaem-se gostar-se do aluno, da criança, da Medicina e da docência propriamente dita.

“Eu acho que esse é o atributo principal que eu vejo no professor e no profissional, gostar da Medicina e gostar de ensinar...” (D-5)

“...então o professor tem que gostar de aluno, gostar de ensinar e gostar de crianças...” (D-13)

O domínio da Pediatria, incluindo conteúdos, habilidades, experiência profissional e compreensão ampliada da Pediatria no contexto social, é também enfatizado como qualidade esperada de um bom professor.

“..além de tudo tem que entender dentro do conhecimento técnico de Pediatria que existe a compreensão do que é a Pediatria dentro de um contexto mais amplo, um contexto social, contexto de país, contexto global da criança, quer dizer, onde se insere a criança no mundo e que responsabilidade ele tem como um docente dessa área...” (D-9)

Um quarto atributo elencado foi a capacidade de ensinar. Capacitação didático-pedagógica, facilitação/ mediação do processo de aprendizagem do aluno, incentivo ao espírito crítico e ser “exemplo” são qualidades ilustrativas desse atributo.

“...o professor é aquele que vai facilitar o aprendizado...” (D-6)

“...ele tem que ter a compreensão e a motivação e ações concretas diante do aluno, para incentivar o espírito crítico no aluno...” (D-9)

A capacidade de se atualizar, demonstrada pelo docente através de seu interesse pelo avanço do conhecimento, sua curiosidade e busca de informações, é também realçada pelos coordenadores.

“...o ser atualizado, acessando sempre a bibliografia atual...” (D-8)

“...sempre buscando coisas novas. Aquele que busca desenvolvimento...” (D-2)

Dedicação docente e disponibilidade para o atendimento ao aluno são também apontadas como atributos de um bom docente de Pediatria.

“...eu diria que o fundamental é a dedicação...” (D-8) “...a capacidade do professor, colocando-se mais à

disposição do aluno, não só dentro de sala de aula...” (D-14)

Finalmente, a capacidade de auto-avaliação foi citada por um dos coordenadores investigados.

“...um dado muito importante é a crítica, a reflexão. É o profissional que está sempre se auto- avaliando...” (D-10)

Os resultados obtidos a partir dos olhares dos professores apresentam convergências com a literatura que vem focalizando o bom professor de Medicina. No estudo empreendido por Batista (1997), foram destacados: conhecimento sólido e atualizado no seu campo de docência; participação ativa na produção do conhecimento em sua área; firmeza no treinamento de habilidades; utilização de diferentes formas e procedimentos de ensino; nas avaliações, procura de mecanismos que possibilitem exercício do raciocínio e organização do conteúdo ministrado; início das atividades explicando seus objetivos, sua dinâmica e os mecanismos de avaliação; posturas éticas e humanísticas; utilização da tecnologia como recurso auxiliar do profissional de saúde, evitando desenvolver nos alunos o fascínio e a supervalorização em detrimento de uma adequada semiologia e relacionamento médico-paciente; preocupação com a dimensão interpessoal do relacionamento professor-aluno; explicitação, discussão, problematização com os alunos acerca dos determinantes curriculares do curso, possibilitando formação não dissociada do sistema de saúde vigente; discussão sobre a participação e engajamento dos alunos como elementos integrantes de uma equipe de saúde; ênfase da

dimensão sociobiológica do processo saúde-doença: o “homem doente” e não a “doença do homem”; utilização de estratégias facilitadoras da construção ativa do próprio conhecimento; estímulo ao interesse do aluno pela pesquisa.

A investigação desenvolvida por Harden e Crosby (2000) identificou seis grandes atribuições de um professor de Medicina: prover informações (teóricas e práticas), ser um modelo para o aluno (como médico e como professor), facilitar a aprendizagem dos alunos (mentor, conselheiro pessoal, tutor), avaliar (a aprendizagem e o processo do ensino), planejar (organização do curso, planejar o currículo), desenvolver recursos (guia de estudos, recursos instrucionais).

Segundo os autores, o bom professor não precisa dominar igualmente todos os papéis identificados, uma vez que dependem, também, da inserção que têm no próprio curso. No entanto, afirmam que um programa de desenvolvimento e treinamento de docentes com o objetivo de aprimorar seus desempenhos, caso considere esses diferentes papéis, amplia suas possibilidades de mobilização dos professores.

Ruiz-Moreno et. al. (2002) investigaram atributos do bom professor em saúde junto a 251 mestrandos e doutorandos, agrupando as respostas em cinco dimensões: didático-pedagógica, atitudinal, conhecimentos inscritos na docência, características pessoais e condições de trabalho.

A dimensão didático-pedagógica, com 238 indicações, abrangeu entre os atributos mencionados: motivação do aluno, facilitação da aprendizagem,

incentivo aos alunos para a investigação, auto-avaliação como professor, clareza na comunicação, utilização de metodologias de ensino diversificadas, plano de ensino, entendimento da linguagem dos alunos.

O âmbito atitudinal, referido 252 vezes, abrangeu a formação ética, simplicidade, gostar da atividade de ser professor, humildade, dedicação, conhecimento e incentivo às atividades dos alunos, exemplo, pontualidade, integridade, visão do paciente como ser humano, orientação, saber ouvir.

A dimensão de conhecimentos inscritos na docência incluiu o conhecimento científico e da realidade social e o conhecimento filosófico e técnico (abrangendo dinâmica de grupo), tendo uma perspectiva de educação continuada e um compromisso com a pesquisa.

As características pessoais, mencionadas 41 vezes, envolveram criatividade, ser um bom profissional de saúde, liderança, capacidade de análise e síntese, ter uma formação cultural mais ampla.

A última dimensão, relativa às condições de trabalho (18 indicações), incluiu salário, remuneração digna, carga horária compatível com a docência e a instituição ser motivadora.

A pesquisa de Godfrey, Dennick e Welsh (2004, p. 846), que privilegiou as habilidades de ensino que seriam mais valorizadas no trabalho docente, sinalizou 18 habilidades: “favorecer a aprendizagem situada e contextualizada; considerar e valorizar os objetivos da aprendizagem; selecionar métodos de ensino adequados à tarefa ou tópico a ser desenvolvido; estruturar seu ensino

e apresentações; explicar os conceitos; ensinar uma habilidade; incentivar a aprendizagem em pequenos grupos; usar questões que estimulem os alunos a pensar ativamente; compreender os problemas dos alunos e negociar suas necessidades individualmente; sumarizar os pontos chave para os alunos; avaliar e acompanhar os progressos dos alunos, dando-lhes feed back; avaliar a efetividade de seu ensino; avaliar a efetividade de outros modos de ensinar”.

O panorama complexo e múltiplo que a literatura apresenta também se fez sentir nos atributos elencados pelos sujeitos desta pesquisa para o professor de Pediatria, apreendendo-se a necessidade de articular o domínio crítico dos conteúdos e práticas específicas de cuidado à criança à construção de relações interpessoais favorecedoras de aprendizagem significativa; os saberes pertinentes à profissão docente aos cenários de trabalho do professor de Pediatria nos cursos médicos.