2.2 PODER DE POLÍCIA
2.2.1 Atributos do poder de polícia
Os atributos do poder de polícia, conforme Meirelles (2005, p. 136), são próprios e peculiares ao seu exercício, sendo eles a auto-executoriedade, a coercibilidade e a discricionariedade, adiante descritos.
A auto-executoriedade (chamada no direito francês somente de executoriedade), refere-se ao poder da Administração de executar suas decisões por meios próprios meios, sem necessitar recorrer previamente a outros órgãos, tampouco ao Judiciário. No entanto, cabe aos particulares que se sentirem ameaçados ou lesados em seus direitos, entendendo que a Administração tenha agido em confronto com lei, recorrer à via jurisdicional pelos meios cabíveis, tais como o habeas corpus e o mandado de segurança.
[...] que o poder de polícia objetiva conter os excessos, a atividade anti-social, razão de não ser possível condicionar os atos de polícia à prévia aprovação de qualquer outro órgão, que não o competente, ou Poder estranho à Administração Pública.
Todavia, salienta Carlin (2005, p. 221), que ao lançar mão de meios próprios, o administrador deve sempre levar em conta a proporcionalidade entre o direito individual e o prejuízo que se pretende evitar em prol do benefício social.
Exemplificando a auto-executoriedade, Meirelles (2005, p. 137) cita um caso onde a Prefeitura encontra uma obra irregular ou que ofereça perigo à coletividade, e então ela própria embarga a referida edificação, promovendo sua demolição, sem recorrer previamente ao Judiciário para que lhe forneça autorização.
Por coercibilidade, tem-se que os atos de polícia são imperativos e não facultativos aos particulares, não podendo, portanto, o administrado negar-se a cumpri-los, pois são dotados da presunção de legitimidade. (CARLIN, 2005, p. 221)
No caso da negativa de cumprimento do ato determinado, pode a Administração recorrer à força física, dentro dos limites legais, sem excesso ou abuso de poder.
Salienta Di Pietro (2001, p. 114) que “A coercibilidade é indissociável da auto-executoriedade. O ato de polícia só é auto-executório porque dotado de força coercitiva.” (grifo da autora).
Já a discricionariedade é o poder que tem a Administração de decidir o momento oportuno e a forma de agir, respeitando os limites legais.
Muito embora na maioria dos casos o administrador encontre certa margem de liberdade para exercer o poder de polícia, há ocasiões onde o ato não é discricionário, pois se encontra vinculado a uma norma ou regulamento que lhe dita a forma e o meio de agir. Temos então o chamado ato vinculado.
2.3 DIFERENÇAS ENTRE A POLÍCIA ADMINISTRATIVA E A POLÍCIA JUDICIÁRIA
Conforme Silva (2002, p. 34-35), a polícia, em seu conjunto, significa a vigilância empreendida pela autoridade competente, a fim de manter a ordem e o bem-estar público em todos os ramos e serviços atinentes ao Estado. Todavia, a instituição policial brasileira divide-se em administrativa e judiciária.
Uma das diferenças significativas entre a polícia administrativa e a polícia judiciária, apontada por vários autores, é que aquela atua preventivamente, enquanto que esta, repressivamente.2
Entretanto, frisa Di Pietro (2001, p. 111), que esta diferença não é absoluta, uma vez que a polícia administrativa pode também agir repressivamente, quando, por exemplo, apreende a licença de um motorista infrator, porém, embora o caráter repressivo do ato, está agindo de forma a impedir que ocorra um dano maior à sociedade (caráter preventivo). Por outro lado, a polícia judiciária quando atua na repressão dos ilícitos penais, também atua de forma preventiva, pois seu intuito, além de punir o delito, é o de coibir a reincidência do infrator.
Contrário à utilização do caráter preventivo/repressivo como critério de distinção entre as duas polícias, Rolland citado por Bandeira de Mello (2005, p. 763), afirma que polícia judiciária não reprime, mas sim, ajuda o Poder Judiciário a reprimir, enquanto que a polícia administrativa, utilizando-se de regulamentos e interdições para prevenir, também atua repressivamente, pois emprega a força para assegurar o cumprimento de suas ordens, sem a necessidade prévia de recorrer às vias judiciais.
Gasparini (1993, p. 118), apontando demais diferenças dentre as duas polícias, lembra que:
O exercício da polícia administrativa está disseminado pelos órgãos
e agentes da Administração Pública, ao passo que o da polícia judiciária é privativo de certo e determinado órgão (Secretaria de Segurança). O objeto da polícia administrativa é a propriedade e a
liberdade, enquanto o da polícia judiciária é a pessoa, na medida em que lhe cabe apurar as infrações penais, exceto as militares (art. 144, § 4.º, da CF). A polícia administrativa predispõe-se a impedir ou paralisar atividades anti-sociais; a polícia judiciária preordena-se a descobrir e conduzir ao Judiciário os infratores da ordem jurídica penal [...].
Silva (2002, p. 35), difere as duas polícias, esclarecendo que a polícia administrativa tem por finalidade prevenir crimes, evitar perigos, proteger a coletividade, mantendo a ordem e o bem-estar públicos, sendo que a sua ação antecede a infração da lei penal e por isso também é chamada de polícia preventiva, enquanto que a polícia judiciária destina-se a investigar os crimes que não puderam ser prevenidos, apontando seus autores e reunindo provas e indícios contra estes, no sentido de levá-los a juízo e, por esta razão, sua atividade se dá após a consumação do fato delituoso, pelo que é chamada também de polícia repressiva.
No mesmo sentido, Gasparini (1993, p. 116) salienta que a polícia administrativa destina-se a prevenir o surgimento de atividades particulares lesivas aos interesses da coletividade ou a obstar o seu desenvolvimento. Diferentemente, a polícia judiciária destina-se a investigar os delitos, apontando a sua autoria, a fim de levar ao conhecimento do Poder Judiciário.
Relativamente à polícia judiciária, Lazzarini (2000, p. 123) esclarece que:
[...] é repressiva, exercendo uma atividade tipicamente
administrativa de auxiliar a repressão criminal (a repressão criminal é exercida pelo órgão competente do Poder Judiciário, que detém o monopólio da jurisdição), motivo pelo qual, embora manifestação de atividade administrativa do Estado, a Polícia Judiciária é regida pelas normas e princípios jurídicos do Direito Processual Penal.
Todavia, entendemos que a maior diferença entre as duas polícias reside no fato de que a polícia administrativa rege-se pelo direito administrativo, atuando tanto em ilícitos administrativos, como em atividades lícitas, mas que necessitem da intervenção e/ou fiscalização da Administração Pública, enquanto que a polícia judiciária rege-se pelo direito processual penal, atuando somente em infrações penais.
Assim, as vastas atribuições da polícia administrativa são disciplinadas por leis, decretos, regulamentos e portarias (SILVA, 2002, p. 35). Já as atividades da polícia judiciária, encontram-se disciplinadas na Constituição Federal, nas Constituições estaduais, no Código Processual Penal e, em suas leis orgânicas.
3 A POLÍCIA JUDICIÁRIA E O PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA
O terceiro e último capítulo aborda inicialmente o poder discricionário inerente aos administradores públicos e tem por finalidade a averiguação de quanto é dotada de discricionariedade a atividade da polícia judiciária, mormente o labor da autoridade policial, cujo tema é aprofundando no item “3.1.1 O poder discricionário do Delegado de Polícia”.
A partir daí, aborda-se a possibilidade da aplicação do princípio da insignificância já na Delegacia de Polícia, onde, na maioria das vezes, é o primeiro local em que o Estado tem conhecimento do delito.
Justifica-se a aplicação do referido princípio na sede da polícia judiciária, haja vista que, quando notória a ausência de tipicidade a ensejar qualquer tipo de condenação, não se vê razão para o laborioso trabalho policial, bem como, para o trabalho dos demais órgãos envolvidos na persecução penal, já tão abarrotados de serviço e carentes de recursos humanos e materiais.
A aplicação do princípio da insignificância em Delegacia de Polícia, acarretaria em agilidade na apuração daqueles ilícitos que compõem a chamada “criminalidade violenta”, os quais, conforme Pires (2001, p. 36), significam aqueles crimes que assustam, atemorizam e são capazes de mudar os hábitos cotidianos dos cidadãos brasileiros, pois os órgãos encarregados da segurança pública encontram-se saturados de procedimentos, porém, muitos deles, referentes a delitos desprovidos de qualquer reprobabilidade. Portanto, não pode a polícia judiciária ocupar-se com delitos ausentes de tipicidade material, que não oferecem lesões significativas aos bens jurídicos tutelados, em prejuízo de crimes graves e violentos, os quais, efetivamente, colocam em risco a ordem pública.