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2 Referencial Teórico

RESPONSIVIDADE SOCIAL

2.2 Teoria dos stakeholders

2.2.1 Atributos dos stakeholders

A gestão social e ambiental de uma empresa ou organização não pode ser compreendida como ações isoladas, devendo ser estabelecidas por meio do envolvimento de todos os stakeholders, sendo necessária sua identificação, e a compreensão de seus interesses, da sua legitimidade e da sua compatibilidade com os propósitos organizacionais. O discernimento desses atores permite a empresa estabelecer relacionamento e parcerias que poderão melhorar a sua performance, uma vez que, o empoderamento dos stakeholders demanda transparência nas atividades e ações organizacionais (FROOMAN, 1999).

Nesse sentido, as empresas buscam a interação com os stakeholders como uma maneira de tentar sua legitimação perante eles e a sociedade. Para isso, as empresas tem se esforçado na tentativa de mudar a forma como agem e tomam suas decisões. Assim, mesmo que a empresa incorpore benefícios aos stakeholders em suas ações, caso não haja interação na hora da decisão ou comunicação dos resultados, possivelmente continuará faltando legitimidade (OLIVEIRA, J., 2008).

Um dos maiores problemas que ocorre com a expansão dos grupos de interesses nas organizações empresariais é a inexistência de limites para o seu surgimento, tendo como pressuposto de que qualquer pessoa ou grupo pode ser parte interessada, mesmo que não compre seus produtos, não trabalhe para ela ou até mesmo resida em seu entorno. Neste sentido, não são as organizações que escolhem quem tem interesse nelas, mas sim as pessoas ou grupos que manifestam ou expressam interesses na organização (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2009; SIMÕES et al., 2008).

Além disso, destaca-se a existência de diversos graus de importância e legitimidade, onde cada parte interessada possui diferentes níveis de urgência nas suas demandas. Para Oliveira, J. (2008, p. 99), os stakeholders são diferentes, “eles devem ser tratados diferentemente, mas todos têm de ser escutados e, de alguma forma, levados em consideração em suas demandas e nas ações da empresa”. Nesse contexto, a caracterização dos

stakeholders não é o único desafio imposto às empresas. Há ainda outra atividade tão

necessária quanto a caracterização, que é a de identificar e classificar quais são os

stakeholders mais relevantes ou urgentes que influenciam o seu processo de tomada de

decisão.

Nesta perspectiva, o modelo de Visibilidade dos stakeholders proposto por Mitchell, Agle e Wood (1997) apresenta-se como uma ferramenta dinâmica, além de permitir não só a identificação dos stakeholders (partes interessadas e/ou afetadas), mas também, a sua saliência (importância) relacionada a atributos (características) socialmente construídos numa realidade e variáveis a cada ator relacional consciente ou não de sua posse. Para Falcão, Santos e Gómez (2008) se combinados, geram uma tipologia capaz de proporcionar visibilidade aos gestores organizacionais das suas prioridades, alegações e implicações.

Dessa forma, o modelo, demonstrado na Figura 06, permite aos gestores das empresas uma visão que vai além da simples identificação dos stakeholders.

Figura 06: Classificação qualitativa de stakeholders: atributos

Fonte: adaptado de MITCHELL, AGLE e WOOD (1997, p. 872)

Os três atributos (Figura 06) visam facilitar a compreensão da situação específica em que gestores devem priorizar as relações entre empresa e stakeholders. São eles: poder de influência determinado pelo tipo de recurso utilizado no seu exercício (coercitivo, utilitário e

normativo), legitimidade relacionada com amplitude analítica individual, social e organizacional; e urgência da alegação dos interessados mediante credibilidade dada pela empresa ao momento e a sua importância (MITCHELL; AGLE; WOOD, 1997; OLIVEIRA, 2008).

A dinâmica de apoio à teoria de identificação dos stakeholders e de visibilidade deve considerar várias outras implicações de poder, legitimidade e urgência (MITCHELL; AGLE; WOOD, 1997). Dentre elas, destacam-se que os atributos são variáveis, e não estado estacionário (estático); que os atributos são socialmente construídos, e não um objetivo; e o indivíduo ou entidade pode não ser consciente de possuir o atributo ou, se consciente da posse, não pode escolher e explicitar qualquer comportamento. Dessa forma, mesmo se tratando de um fato socialmente construído, o atributo urgência por si só não garante visibilidade dos stakeholders, não sendo considerado um atributo em estado de equilíbrio como o Poder e a Legitimidade; que quando combinados, torna-se um catalisador dessa visibilidade.

Para Mitchell, Agle e Wood (1997), a urgência contribui para movimentar o modelo de estático para dinâmico, isto é, confere estados de necessidades dependendo da atenção requerida pelos stakeholders como imediatas ou urgentes. Sua credibilidade é aferida pelos gestores de empresas que necessitam harmonizar na tomada de decisão seus interesses e expectativas, além do escopo dos demais stakeholders (FALCÃO; SANTOS; GÓMEZ, 2008). Segundo os autores, estas características dos atributos são importantes para a teoria do dinamismo, ou seja, fornecer um quadro preliminar para a compreensão de como os

stakeholders pode ganhar ou perder a sua importância para os gestores das empresas.

O Quadro 05 apresenta as relações entre os atributos de visibilidade proposto pelos autores, de acordo com seus campos ou domínios.

Quadro 05: Palavras-chave na teoria dos stakeholders identificação e saliência

(continua)

CONSTRUÇÃO DEFINIÇÃO

Stakeholders (Partes interessadas)

Qualquer grupo ou indivíduo que pode afetar ou ser afetado pela realização dos objetivos da organização

Atributo 1: Poder

Relacionamento entre atores sociais, na qual um ator social, A, pode obter outro ator social, B, e realizar algo que não teriam feito sozinhos. Capacidade de produzir determinado efeito.

Bases teóricas do

poder

• Coercitiva – força/ ameaça

• Utilitarista – material/ incentivos (incluindo financeiro)

(conclusão)

CONSTRUÇÃO DEFINIÇÃO

Atributo 2:

Legitimidade

Percepção generalizada ou suposição de que as ações de uma entidade são propriamente ditas desejáveis, ou apropriadas dentro de um sistema socialmente construído por meio de valores, crenças e definições.

Bases teóricas da

legitimidade

• Individual

• Organizacional

• Sociais

Atributo 3: Urgência O grau em que as partes interessadas possuem uma atenção imediata.

Urgência é o estado de equilíbrio entre os dois primeiros atributos

Bases

• Sensibilidade ao tempo: grau em que é gerido o atraso no atendimento à reivindicação que se torna aceitável pelos stakeholders.

• Criticidade: crédito com as partes interessadas

Intersecção de

atributos: Saliência Grau em que os gestores dão prioridade às correntes alegações dos stakeholders.

Fonte: Adaptado de Mitchell, Agle e Wood (1997, p. 869)

O Quadro 05 apresenta o construto-chave de palavras que definem e caracterizam os atributos de cada stakeholders. Dessa forma, os gestores que necessitam compreender como a relação da empresa é estabelecida com os seus stakeholders, bem como a sua importância, têm origem na proposta positiva de que a saliência está pautada na acumulação dos atributos dos stakeholders.

Do mesmo modo, essa relação estipula atributos únicos (poder, legitimidade e urgência) e que combinados em pares ou em trio: Poder e Legitimidade; Poder e Urgência; Legitimidade e Urgência; e Poder/Legitimidade/Urgência conferem dinâmica ao modelo (AGLE; MITCHELL; SONNENFELD, 1999; LENOX; EESLEY, 2006). Portanto, essas intersecções são as saliências ou grau de importância dos interessados e desdobra a proposta anterior em três novas proposições condutoras à teoria dos stakeholders (Figura 07).

Figura 07: Tipologia dos stakeholders: atributos de visibilidade

Fonte: adaptado de Mitchell, Agle e Wood (1997, p. 874)

A primeira proposta condutora afirma que a saliência dos stakeholders é reduzida quando somente um atributo é compreendido pelos gestores, caracterizando uma latência. Neste sentido, tal categoria tem pouca ou nenhuma interação com a empresa e é distribuída em três segmentos: stakeholders dormentes, discricionários e demandantes e/ou exigentes – 1, 2 e 3 respectivamente (MITCHELL; AGLE; WOOD, 1997).

Os dormentes são particularizados pela ausência do uso de poder, não tendo um relacionamento legítimo ou pedido urgente; os discricionários são compostos pela legitimidade e falta de poder influenciador e de reivindicações urgentes; e, por fim, aos demandantes e/ou exigentes faltam poder e legitimidade ou a sua habilidade em adquiri-los, onde a insuficiência da urgência leva o stakeholder para além da latência (MITCHELL; AGLE; WOOD, 1997).

A segunda proposta trata da saliência das partes expectantes ou mais qualitativas na zona de visibilidade. A saliência é moderada quando há a união de dois atributos percebidos pelos gestores que passa de uma postura passiva a uma ativa, ampliando sua capacidade de resposta. Os stakeholders expectadores têm como segmentos: stakeholders dominantes,

stakeholders perigosos e stakeholders dependentes – 4, 5 e 6 respectivamente (MITCHELL;

AGLE; WOOD, 1997).

Os dominantes agrupam poder e legitimidade, sem reivindicações urgentes, tendo sua influência na organização assegurada; os dependentes são caracterizados pela urgência legítima de suas reivindicações, não possuindo o poder, mas obtendo grande potencial para consegui-lo, num evidente dinamismo; e os expectadores perigosos que configuram poder e

urgência, carentes de legitimidade, possivelmente coercitivo e violento, podendo tornar-se um perigo real à empresa (MITCHELL; AGLE; WOOD, 1997).

Por fim, a terceira proposição da visibilidade tem sua compreensão sobre como a saliência dos stakeholders é elevada devido a combinação dos três atributos percebidos pelos gestores das empresas, denominada como stakeholders definitivos. Segundo Mitchell, Agle e Wood (1997) estes devem ser a prioridade a ser assistida pelos gestores das empresas, evidenciando como um movimento dominante dessas partes dentro dessa categoria.

Além disso, as relações são dinâmicas, mudando conforme a situação e pretensão dos

stakeholders, dessa forma, eles adquirem ou perdem atributos, podendo deslocar-se entre as

categorias. Essa habilidade de visibilidade e dinamismo sistemáticos aponta implicações aos

stakeholders, inclusive às empresas (OLIVEIRA, J., 2008).

Do mesmo modo, estudos que permitam identificar como as relações são estabelecidas, incluindo sua dinâmica e seus atributos são propícios. Além disso, outros fatores devem ser considerados como complemento deste estudo, como por exemplo, as pressões e choques que os stakeholders exercem sobre o comportamento socioambiental da empresa e de que como esses podem interferir nessa dinâmica.