3. AVALIAÇÃO ECONÔMICA DE POLÍTICAS, PROGRAMAS E PROJETOS SOCIAIS
3.3. Avaliação de políticas educacionais
3.3.1. Atributos escolares relacionados ao sucesso escolar
De acordo coma literatura, o sucesso escolar pode ser influenciado por diversas variáveis relativas às características individuais e familiares dos alunos, do corpo docente, da infraestrutura da escola, bem como da participação da escola em programas/políticas educacionais direcionados para a melhoria da qualidade de ensino.
Hanushek, Gomes-Neto e Harbison (1996), em estudo realizado para a área rural do Nordeste, mostram que variáveis como abastecimento de água, energia elétrica, instalações sanitárias, mobiliário para estudantes e professores, livros textos, guias para professores, recursos audiovisuais, notebooks e materiais de escritório estão positivamente relacionados com o desempenho escolar. Já aquelas concernentes à qualidade dos professores, como testes de desempenho e participação em programas de treinamento, são irrelevantes para o sucesso escolar.
A respeito do impacto que pode ser causado pelo número de alunos por turma (variável conhecida como tamanho da turma), Hanushek (1998), utilizando dados da pesquisa Student/Teacher Achievement Ratio (STAR) – Tennessee/EUA, mostra que turmas pequenas geram impacto positivo sobre o desempenho escolar apenas no jardim de infância. Posteriormente, Krueger (1999), empregando dados também da STAR mais variáveis como sexo, cor dos estudantes e escolaridade dos professores, conclui que o maior impacto gerado no atendimento a turmas pequenas, que acontece no primeiro ano escolar, diminui nas séries seguintes, apesar de ainda se mostrar significativo.
O trabalho de Leon e Menezes-Filho (2002) apresenta uma análise descritiva dos indicadores e determinantes da reprovação, avanço e evasão escolar, condicional à reprovação no Brasil, para 4ª e 8ª séries do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio, no período 1984-1997. As características individuais utilizadas como controles foram: idade, sexo, condição de chefe do domicílio, mora com os pais e sua condição em relação ao mercado de trabalho. Adicionalmente foram considerados dummies regionais e temporais. Os autores utilizaram dados em painel da Pesquisa Mensal de Emprego – PME com o objetivo de encontrar os determinantes da seleção dos indivíduos ao longo do ciclo escolar, com foco nas características familiares e nos seus efeitos sobre as probabilidades de sucesso. A conclusão a que chegaram foi que esses efeitos são mais importantes nas séries mais avançadas, e principalmente como determinantes do avanço escolar.
Felício e Fernandes (2005) utilizaram dados do SAEB/2001, referentes à 4a série do Ensino Fundamental do estado de São Paulo, no intuito de explorar o potencial avanço no
35 desempenho escolar que seria proporcionado por uma melhoria nas unidades de ensino. Os resultados mostraram queo efeito escola pode explicar entre 0 e 28,4% da desigualdade total de notas de Língua Portuguesa e entre 8,7 e 34,4% para Matemática. Além disso, foi possível concluir que se todos os alunos estudassem em escolas iguais às melhores do sistema, o desempenho escolar médio teria um progresso expressivo. Dessa forma, apesar das características familiares (escolaridade dos pais, tipo de família e renda) serem consideradas mais importantes para explicar o desempenho escolar, os autores afirmam que isso não significa que resultados substantivos não possam ser atingidos por uma melhoria na qualidade das escolas.
A principal contribuição do trabalho desenvolvido por Rivkin, Hanushek e Kain (2005) consiste em identificar a importância dos atributos do professor sobre o desempenho dos alunos. Neste estudo, os autores utilizaram dados em painel, que têm a vantagem de controlar os efeitos específicos dos indivíduos, e identificaram um importante efeito da escola sobre o desempenho. Os resultados mostraram que três ou mais anos de experiência do professor tem efeito significativamente positivo sobre o desempenho. Além disso, a qualidade do professor se mostrou importante para o aprendizado do aluno.
Biondi e Felício (2007) desenvolveram um trabalho com o objetivo de descobrir quais fatores relacionados à escola e sujeitos à intervenção de políticas públicas têm efeito positivo sobre o desempenho dos alunos da 4º série do Ensino Fundamental da rede pública na disciplina de Matemática. As autoras utilizaram o Censo Escolar e um painel de dados do SAEB, representativo do Brasil, o que permitiu controlar os efeitos específicos das escolas ao longo do tempo. O método adotado foi o de efeitos fixos. Os principais resultados encontrados foram que a ausência de rotatividade dos professores ao longo do ano, a experiência média dos professores (superior a dois anos em sala de aula) e a existência de internet na escola afetam positivamente o resultado médio.
O estudo desenvolvido por Menezes-Filho (2007) utiliza dados do SAEB/2003 para identificar os fatores relacionados a um melhor desempenho escolar dos alunos brasileiros nos testes de proficiência em Matemática. A partir dos exercícios econométricos realizados, o autor mostra que as variáveis que mais explicam o desempenho escolar são as relativas às características familiares e do aluno, tais como: educação da mãe, cor, atraso escolar e reprovação prévia, número de livros e presença de computador em casa e trabalho fora de casa. Com relação às variáveis no nível da escola, tais como: número de computadores, processo de seleção do diretor e dos alunos, escolaridade, idade e salário dos professores, o
36 autor conclui que o efeito destas é muito reduzido, sendo o número de horas/aula uma das únicas variáveis que afetam consistentemente o desempenho do aluno.
A pesquisa desenvolvida por Andrade e Laros (2007) visou construir um modelo de desempenho escolar utilizando análise multinível. Para tanto, os autores consideraram as informações relativas aos alunos da 3ª série do Ensino Médio disponíveis no SAEB/2001. Ao controlar o efeito das variáveis de seletividade e composição escolar, foi possível identificar que 17% da variância no desempenho escolar podem ser atribuídos ao nível da escola. Em seguida, ao incluir no modelo multinível final sete variáveis referentes ao aluno14 e dez referentes à escola15, os autores observaram que as variáveis relacionadas ao estudante que apresentaram efeito mais forte foram: atraso escolar e comparação do aluno com os colegas. No que diz respeito à escola, os efeitos mais fortes foram: recursos culturais e atraso escolar.
Machado et al (2008) descreve uma função de produção educacional, onde o desempenho dos alunos depende das suas características (cor, sexo, idade, por exemplo), das características da família (escolaridade dos pais, renda, entre outras), da escola (infraestrutura, qualificação dos professores, etc.) e do município onde a escola está localizada (PIB per
capita municipal, por exemplo). Os resultados evidenciam um reduzido efeito da escola e do
seu município de residência sobre o desempenho dos estudantes quando comparados às características do aluno e da família, mesmo através da utilização de modelos hierárquicos, reconhecidos por separar os efeitos de componentes de vários níveis, o que permite não subestimar o efeito de cada um deles sobre a qualidade do ensino. Os autores chamam atenção para o fato de que tais resultados não minimizam o papel de políticas públicas para melhoria da educação, uma vez que há correlação positiva entre background familiar e a qualidade das escolas. Sendo assim, concluem que o investimento em escolas de tempo integral, treinamento de professores e na modernização dos equipamentos poderá, seguramente, reduzir o efeito da família e ampliar o papel da escola.
No intuito de identificar e analisar os fatores associados à probabilidade de ocorrência da evasão entre a 4ª e a 8ª série do Ensino Fundamental, em algumas escolas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, Gonçalves, Rios-Neto e César (2008) estimaram modelos hierárquicos logísticos longitudinais, utilizando três bases de dados: Avaliação de
14 Atraso escolar, comparação do aluno com os colegas, recursos culturais de que o aluno dispõe em casa,
relação da família com a escola, aluno gosta de estudar a disciplina, aluno faz dever de casa e aluno trabalha.
15 Clima disciplinar da escola, trabalho colaborativo entre a equipe escolar, situação dos equipamentos e das
instalações da escola e experiência do professor. Algumas variáveis foram mensuradas no nível do aluno e agregadas para o nível da escola: recursos culturais, atraso escolar, relação da família do aluno com a escola, aluno faz dever de casa, aluno trabalha e aluno gosta de estudar a disciplina.
37 Desempenho: fatores associados, Ficha Histórico Escolar e o Censo Escolar de 1999. Os resultados mostraram que os insumos relacionados aos alunos são importantes na determinação da evasão. Entre as variáveis demográficas, apenas o sexo foi importante para explicar a evasão, predominante entre os alunos do sexo masculino. O nível socioeconômico, variável associada ao background familiar, é negativamente correlacionada à evasão. As variáveis relacionadas à trajetória passada (repetência antes da 4ª série e proficiência) e contemporânea (situação de trabalho) se mostraram significativas. À exceção da escolaridade do professor, as variáveis relacionadas à escola não foram significativas para explicar a probabilidade de evasão do estudante.
Vernier e Bagolin (2013) utilizaram o método de estimação por Regressão Quantílica, com informações do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Rio Grande do Sul – SAERS/2007. O objetivo foi identificar os determinantes do desempenho escolar dos alunos gaúchos na 5a série do Ensino Fundamental. Para tanto, os autores se valeram de duas análises: 1) identificar o efeito das características dos alunos, dos professores, da escola e dos diretores na proficiência média escolar; 2) identificar os determinantes do desempenho de um modo mais desagregado, considerando as notas individuais dos estudantes ao invés das proficiências médias das escolas. De modo geral, no primeiro caso, além das características socioeconômicas dos alunos, as particularidades dos professores, dos diretores e da escola também apresentam impacto. Na segunda análise, no entanto, essas características perdem o efeito, sendo relevantes apenas aquelas relativas ao estudante.
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