o aumento constante da população das cidades exige que se
3.2. A educação federalizada
3.2.2. A atuação do Governo Federal: O Colégio Pedro II como foco central
Durante a presidência de Campos Sales (1898-1902) foi aprovada a primeira reforma de ensino federal depois da promulgação da Constituição de 1891. A reforma, chamada pela historiografia da educação como Reforma Epitácio Pessoa, era composta de dois ordenamentos jurídicos. O Decreto nº 3.890 de 1 de janeiro de 1901 intitulado Código dos Institutos Oficiais de Ensino Superior e Secundário, dependentes do Ministério da Justiça e Negócios Interiores; e o Decreto nº 3.914 de 26 de janeiro de 1901 que Aprova o Regulamento do Ginásio Nacional.
232Vidal, Diana Gonçalves; Grupos escolares: cultura escolar primária e escolarização da infância no Brasil (1893-
145 O primeiro decreto disciplina questões diversas relativas à organização, composição e funcionamento das instituições federais de ensino superior e secundário, já o segundo trata da organização administrativa e pedagógica do Ginásio Nacional, antigo Colégio Pedro II, abordando assuntos relativos ao curso, aos programas e aos exames. O objetivo principal de ambos era consolidar uma medida, aprovada por um dos decretos elaborados pelo Ministro Benjamin Constant, mas nunca regulamentado pelo Congresso Nacional: o regime da equiparação.
Equiparação seria uma prática administrativa que baseada na aplicação de exames qualificadores aos formados do ensino secundário, tinha como objetivo conferir reconhecimento oficial ao diploma de alunos cursistas de colégios, liceus e ginásios municipais e estaduais, ou particulares laicos e confessionais. Possibilitando, portanto, aos estudantes os mesmos direitos que os formandos do Ginásio Nacional tinham no que se referia ao acesso direto ao nível superior.233
Para Serlei Ranzi e Maclovia Silva o regime de equiparação, após a Reforma Epitácio Pessoa (1901), teria sido transformado em uma política educacional sendo usado, pelo Governo Federal, como um mecanismo que possibilitou uniformizar a grade curricular das escolas oficiais secundaristas e o processo seletivo as instituições de ensino superior daquela época.234
Nesse sentido, o Decreto nº 3.890 de janeiro de 1901, por meio do artigo 361º, determinou que: “Os estabelecimentos de ensino superior ou secundário fundado pelos Estados, pelo Distrito Federal ou por qualquer associação ou indivíduo poderá o Governo conceder os privilégios dos estabelecimentos federais congêneres.”235 Todavia, a nova reforma deixava bem explícita que a
equiparação só seria aceita caso as instituições não federais aceitassem as regras ditadas pelo 362º artigo:
233Silva, Bastos Geraldo; Educação secundária: Perspectiva histórica e teórica; SP; Companhia Editora Nacional; 1969. p. 280.
234Ranzi, Serlei Maria Fisher & Silva, Maclovia Corrêa; Questões de legitimidade na Primeira República: o ensino
secundário regular e a equiparação do Ginásio Paranaense ao congênere federal; Santa Maria; Revista Educação; nº
1, Vol. 31; 2006. p. 133-152.
235Brasil, República dos Estados Unidos do; Decreto n 3.890 de 01 de janeiro de 1901. Disponível em:
146 Para que estes institutos possam ser reconhecidos e gozar de tais privilégios, deverão satisfazer as seguintes condições: Construir um patrimônio de 50 contos de reis pelo menos, representando por apólices da dívida pública federal e pelo próprio edifício em que funcionar ou por qualquer desses valores. Ter uma frequência nunca inferior a 60 alunos pelo espaço de dois anos. Observar o regime e os programas de ensino adotados no estabelecimento federal.236
O texto mostra que as equiparações não seriam automáticas, pois dependeriam do cumprimento de uma série de questões financeiras e, segundo o Decreto nº 3.914 de 26 de janeiro de 1901, da adoção do currículo escolar praticado pelo Ginásio Nacional. O qual, por determinação do artigo 3º, tinha as seguintes disciplinas: Desenho, Português, Literatura, Francês, Inglês, Alemão, Latim, Grego, Matemática, Mecânica, Astronomia, Física, Química, História Natural, Geografia do Brasil e História do Brasil.237
Na visão de Rosa de Fátima Souza, a Reforma Epitácio Pessoa (1901) estendeu a possibilidade de equiparação para instituições de ensino particulares por três motivos: primeiro, devido à crescente demanda por matrículas no ensino secundário; segundo, devido à pequenez da rede pública, já que na maioria dos estados brasileiros mantinha apenas um ginásio público nas suas capitais. E, por fim, porque a rede ginasial particular era a maioria esmagadora dos estabelecimentos representando mais de 80% do total de unidades escolares. Conforme relata a própria Rosa Souza:
Em 1907, o Brasil possuía 373 unidades escolares de ensino secundário (172 para sexo masculino e 77 para o sexo feminino e 124 mistas). Nestas 373 escolas encontravam-se matriculados 30.246 alunos (23.413 do sexo masculino e 7.013 do sexo feminino). Nesse ano, concluíram o curso secundário no país 1.866 alunos (1.208 do sexo masculino e 658 do sexo feminino).238
236Brasil, República dos Estados Unidos do; Op. Cit. Disponível em: www.senado.gov.br. Acessado em 16/08/2013. 237Brasil, República dos Estados Unidos do; Decreto n 3.914 de 26 de janeiro de 1901. Disponível em:
www.senado.gov.br. Acessado em 16 de agosto de 2013.
147 É necessário esclarecer que só existia, naquele tempo, uma política equiparadora porque o sistema educacional brasileiro, na Primeira República, notadamente no ensino secundário, foi dual e descentralizado, pois as unidades escolares podiam optar por adotarem dois tipos de ensino: o livre ou o oficial.
As escolas que adotassem o ensino livre, em geral, particulares laicas ou confessionais, podiam montar seu próprio currículo escolar, seu próprio método de ensino e não sofriam fiscalização regular por parte dos inspetores públicos estaduais ou federais. Em compensação, seus alunos tinham acesso a certificados e diplomas que não garantiam o ingresso direto a uma Faculdade, sendo necessários aos seus formandos fazerem um exame pré-qualificador. Diferentemente das escolas oficiais, isto é, todas aquelas que seguiam o currículo e os métodos de ensino adotados no Ginásio Nacional, antigo Colégio Pedro II, condição que possibilitava aos seus alunos ingressar, com o diploma em mãos, diretamente em uma Faculdade.