6. SISTEMAS INTERNOS DE GARANTIA DA QUALIDADE – O PANORAMA EUROPEU
6.3 A AUDITORIA DOS SISTEMAS INTERNOS DE GARANTIA DA QUALIDADE
adequado planeamento estratégico, a criação de estruturas organizacionais adequadas para a garantia da qualidade, o empenho das lideranças institucionais ao mais alto nível, o envolvimento do pessoal das instituições e dos estudantes, o envolvimento de parceiros externos e um sistema de recolha e análise de informação bem organizado.
Associado ao papel das lideranças, é de salientar, como elemento central para a qualidade, a importância em se estabelecer uma clareza de propósitos para a concepção e implementação do sistema interno de qualidade. Num estudo de caso recente, sobre um trabalho levado a cabo pela Universidade de Leeds, Reino Unido, com vista a encorajar a melhoria da qualidade do ensino78, conclui-se que a definição clara de um „sentido de direcção‟, quando bem apoiado pelas lideranças institucionais, tem um efeito dinamizador, promovendo, nomeadamente: um sentimento de maior confiança interna sobre a capacidade de a garantia da qualidade poder efectivamente conduzir à melhoria da qualidade, deixando de ser vista como burocracia; o desenvolvimento de uma cultura de tempo e oportunidade, que concede aos docentes tempo, objecto e confiança para experimentar coisas novas definidas pelos próprios e não por iniciativas externas; a oportunidade para „dar poder‟ aos docentes, devolvendo-lhes a responsabilidade pela qualidade do seu ensino; e o desenvolvimento de uma comunidade em que o ensino e a aprendizagem possam ser tão excitantes e compensadores como a investigação.
6.3 A AUDITORIA DOS SISTEMAS INTERNOS DE GARANTIA DA QUALIDADE
Foi já referido no capítulo 5 que o inquérito da ENQA de 2008 detectou alguns movimentos, por parte de diversas Agências, no sentido de promover ou discutir algum afastamento em relação à acreditação de cursos, em direcção a abordagens mais institucionais focalizadas na auditoria dos processos internos de qualidade das instituições. É, no entanto, salientado que os procedimentos externos de garantia da qualidade dominantes são ainda a avaliação e a acreditação (de instituições e/ou cursos), verificando-se que os procedimentos de auditoria – entendidos como
77 EUA (2006). Quality Culture in Universities: A Bottom-Up Approach.
78 Hodgson, K. (2009). Developments to encourage quality enhancement: a case study. In EUA (2009b), p. 23.
procedimentos orientados para a avaliação dos pontos fortes e fragilidades dos mecanismos de garantia da qualidade no interior das instituições – só assumem uma dimensão dominante num número menor de Agências79.
O relatório Trends V, partindo da constatação de que a relação entre responsabilidade institucional, transparência e autonomia, por um lado, e a necessidade de mecanismos de garantia da qualidade fiáveis e transparentes, por outro, parece estar já firmemente estabelecida e compreendida, conclui igualmente que a tendência parece ser a de a garantia externa da qualidade evoluir para mecanismos menos intrusivos à medida que as instituições se tornam mais responsáveis e transparentes, acrescentando: “Isto reflecte-se no número de sistemas amadurecidos de garantia da qualidade que se afastaram de um sistema de acreditação de cursos, substituindo-o [por novas abordagens] com um foco na avaliação ou auditoria institucional”80. Este parece ser um processo iterativo, na medida em que, quando uma Agência decide adoptar procedimentos de auditoria institucional, as instituições passam a prestar uma atenção muito maior aos seus procedimentos internos de qualidade, em preparação para a auditoria externa. Cria-se, assim, uma associação sinergética entre processos de auditoria e mecanismos internos de qualidade, a qual é reforçada no caso de Agências que conjugam uma função de consultoria e apoio às instituições com o processo formal de auditoria, embora naturalmente de forma independente entre si.
As vantagens de uma abordagem desta natureza são evidentes, como se referiu em pontos anteriores, quer pela economia de tempo e recursos, quer pelas mais-valias potenciais resultantes de uma maior ênfase na promoção da qualidade, em detrimento de análises mais formais de conformidade. Simultaneamente, vai ao encontro das expectativas de auto-responsabilização das instituições de ensino superior, sendo mais consentânea com o princípio da autonomia institucional.
Contudo, uma transformação desta profundidade nos mecanismos de garantia externa da qualidade só é possível mediante o estabelecimento prévio de um clima de confiança na qualidade do ensino, tanto por parte das autoridades como da opinião pública, o que, em princípio, exigirá pelo menos um ciclo de avaliação/acreditação com consequências reais, devidamente compreendidas pela sociedade.
Esta matéria tem vindo a ser objecto de discussão e de uma atenção crescente por parte das Agências, que cada vez mais estão a incluir a avaliação dos sistemas internos de garantia da qualidade entre os seus procedimentos de avaliação externa, como resultado natural da obrigatoriedade, actualmente generalizada à quase totalidade dos países europeus, de as instituições instalarem processos orientados para a garantia e melhoria da qualidade. Algumas Agências evoluíram já para modelos de avaliação externa menos centrados na avaliação individual dos cursos, à medida que desenvolvem procedimentos de auditoria institucional que permitem ganhar confiança na eficácia dos processos internos de qualidade das instituições,
79 Costes, N. et al. (2008). Quality Procedures in the European Higher Education Area – Second ENQA Survey, p. 83.
80 Crosier, D. et al. (2007). Trends V: Universities Shaping the European Higher Education Area, p. 61.
ainda que com abordagens e efeitos bastante diversificados. Um grupo de Agências com maior experiência neste domínio tem vindo a reunir-se periodicamente para troca de ideias e experiências, começando a assumir-se como uma rede informal de Agências promotoras de modelos de auditoria institucional81.
No capítulo seguinte promove-se a análise de alguns casos referenciados como de boas práticas na condução de processos de auditoria institucional, com vista a uma aprendizagem a partir dessas experiências que possa vir a ser útil no contexto português, quer para a especificação de aspectos chave relacionados com os sistemas internos de garantia da qualidade, quer para o desenvolvimento de um modelo próprio de auditoria institucional.
81 Trata-se da Quality Audit Network, envolvendo nove Agências que reuniram em Viena, em Abril de 2008, e novamente em Madrid, em Abril de 2009, para aprofundarem aspectos específicos relacionados com as auditorias e partilharem conhecimento e experiências. Os países e Agências envolvidos são: Alemanha (GAC), Áustria (AQA), Dinamarca (EVA), Espanha (ANECA e AQU Catalunya), Finlândia (FINHEEC), Inglaterra, Irlanda do Norte e Escócia (QAA), Noruega (NOKUT) e Suíça (OAQ).