3. A AUDITORIA EXTERNA NOS MUNICÍPIOS PORTUGUESES
3.1. AUDITORIA EXTERNA MUNICIPAL
Com vista a prevenir situações de má prática de gestão e conferir uma maior transparência às contas dos Municípios, o governo Português reforçou o papel da auditoria com Lei das Finanças Locais, que foi aprovada pela Lei nº 2 / 2007, de 15 de Janeiro de 2007 e que implementou pela primeira vez a verificação, por um auditor externo, as contas anuais dos
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municípios que tenham alguns requisitos. Até à presente data as auditorias eram executadas pelo Tribunal de contas, pela Inspecção Geral das Finanças e pela Inspecção - Geral da Administração Local.
As autarquias locais são entidades que gozam de autonomia financeira, patrimonial, orçamental e administrativa, tal como é indicado no artigo 6º da Constituição da Republica Portuguesa. Uma autarquia local inclui os municípios e as freguesias. Na parte que está em análise, que são os municípios, existe um órgão executivo e deliberativo. O primeiro é composto pelo presidente e pelos vereadores, que são eleitos por sufrágio universal. Em segundo lugar temos o órgão deliberativo que é constituído pela assembleia municipal, sendo ao mesmo tempo o órgão de fiscalização, por não existir um órgão específico com essa função.
A Lei nº 2 / 2007 vem definir que os municípios que detenham capital em fundações ou em entidades do sector empresarial local são obrigados a ter as suas contas auditadas e emitida a respectiva Certificação Legal de Contas. Devido à generalidade desta lei, principalmente em relação ao que é considerado sector empresarial local, alguns municípios não tiveram ou contrataram auditorias, pois consideraram que não detinham participações financeiras no sector empresarial local, visto que as participações que detinham não eram de entidades locais, sendo permitida esta excepção pelo Tribunal de Contas e pelas entidades competentes após justificação dos mesmos municípios. Esta situação foi “regularizada” após a renovação e a aplicação de uma nova Lei das Finanças Locais nº 73 / 2013 de 3 de Setembro, o que obrigou todos os municípios a terem as contas auditadas. É indicado nesta lei que todos os municípios que tenham contabilidade patrimonial têm que remeter as suas contas para um sociedade de revisores de contas ou revisor oficial de contas, para que seja emitido um parecer e respectiva Certificação Legal de Contas (são basicamente todos os municípios – artigo 76, nº 3 da Lei das Finanças Locais).
De acordo com a Lei das Finanças Locais de 2007 as competências que um auditor deverá ter e que são semelhantes às que encontramos no Código das Sociedades Comerciais, devem ser as seguintes: o dever de participar aos Órgãos Municipais competentes as irregularidades, bem como os factos que considere reveladores de graves dificuldades na prossecução do Plano Plurianual de Investimentos do município, a obrigação de remeter semestralmente ao Órgão Deliberativo informação sobre a respectiva situação económica e financeira do município, e emitir um parecer sobre as contas do exercício. É de destacar que da análise efectuada e das reuniões que tive com os órgãos executivos camarários, alguns trabalhos efectuados pelos auditores eram concretizados numa base anual em vez de
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semestral, não sendo assim cumprida por parte de alguns auditores, um dos deveres estabelecidos pela lei (não tive conhecimento de qualquer relatório por parte de um auditor das contas semestrais).
Tal como foi supramencionado, a actividade da auditoria está muito regulamentada, e no âmbito da actividade municipal, a Ordem dos Revisores Oficias de Contas emitiu em Outubro de 2009 a Directriz de Revisão / Auditoria 873 – Autarquias Locais e Entidades Equiparadas, que veio dar linhas orientadoras aos Revisores relativamente aos trabalhos a realizar, no âmbito das suas competências, e em relação à verificação das contas individuais. Na DRA 873, é indicado que o parecer semestral só deve ser emitido caso esteja definido no contrato de prestações de serviços com o Município. Muitas vezes esta situação é esquecida, mas nos casos indicados no parágrafo anterior existe esta definição. É recomendável que este parecer semestral seja disponibilizado no site dos municípios para ser do conhecimento geral do público.
Esta lei também vem estabelecer que os municípios que cumpram os requisitos indicados anteriormente, que as contas sejam consolidadas e emitido o respectivo parecer do Revisor Oficial de Contas. No estudo efectuado, foi dada especial atenção às contas individuais dos municípios e não consolidadas, pois nesse caso deveria ter em conta a análise pessoal, não só as contas dos municípios como também das entidades locais, como é o caso da Valorsul, sendo que neste caso deveria ser efectuada uma análise mais extensiva e que iria obrigar o mestrando a investir mais tempo, do que o disponibilizado para a elaboração desta dissertação e ultrapassar o âmbito da mesma.
O auditor quando emite a sua opinião, tendo em consideração o exame que efectuou às demonstrações financeiras, é-lhe exigido que seja planeado e executado, para que seja obtida com um nível aceitável de confiança uma opinião, onde as demonstrações financeiras do município estão isentas de distorções materialmente relevantes e de acordo com o Plano Oficial de Contabilidade das Autárquicas Locais (POCAL).
Para isso, os procedimentos de auditoria a executar na revisão legal das contas dos municípios e de acordo com as DRA e ISA ao nível do Planeamento, Materialidade, Conhecimento do Negócio e Compreensão da Entidade, e Análise do Risco, são os seguintes:
DRA 300 e ISA 300 – Planeamento: o auditor deverá definir uma estratégia global de
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devidamente analisadas. Assim, preconiza-se que os principais problemas e riscos potenciais sejam identificados e regularizados, devendo ser definidos prazos para a conclusão dos seus trabalhos e para a apresentação dos relatórios, para que o seu trabalho seja efectuado da forma mais eficiente e eficaz.
DRA 320 e ISA 320 – Materialidade: para cálculo da materialidade o auditor deverá ter
em conta o Activo e os Proveitos da entidade municipal, devendo estabelecer parâmetros máximos e mínimos, para definição do que é ou não significativo e relevante, para que seja incluído no seu parecer. Neste caso e tendo em conta a “sensibilidade” das entidades que estão a ser analisadas, o nível de materialidade deve ser muito baixo, pois pequenas situações podem vir a revelar-se muito significativas.
DRA 301 e ISA 315 - Conhecimento do Negócio e Compreensão da Entidade: o
auditor deverá conhecer a actividade do município. Para efeito este deve indagar os responsáveis administrativos e financeiros da edilidade e dirigentes intermédios, devendo descrever essas mesmas actividades e compreende-las. Este é um procedimento fundamental em qualquer auditoria e muito mais neste caso, devido à especificidade da actividade que está a ser analisada. Mas não basta só ter este conhecimento da actividade, também deve ser complementado por uma análise detalhada ao Sistema de Controlo Interno (identificação e verificação dos vários procedimentos operacionais e teste e análise às medidas de controlo implementadas nestes procedimentos) e por uma Avaliação do Risco.
DRA 400 - Análise do Risco: o risco inerente à auditoria, está relacionado com a
susceptibilidade do Revisor emitir uma opinião inapropriada, quando as demonstrações financeiras estejam com distorções materialmente relevantes. Estas distorções podem ter origem de fraudes ou erros (de actos intencionais e ou não intencionais). Sendo que o auditor não tem como objectivo detectar fraudes e erros, este deve ter presente que estas situações podem ocorrer devido a:
- Da actividade, assumindo que não existem os respectivos controlos internos (risco inerente);
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- Falha dos mecanismos de controlo interno (risco de controlo);
- Dos procedimentos de auditoria serem efectuados com base em amostras (risco de detecção).
O risco na auditoria é a combinação destes três riscos, cabendo a cada auditor usar o seu juízo profissional para avaliar este risco, como se poderá verificar na figura representativa desta combinação de seguida:
Figura 3.1. – Funcionamento do risco de auditoria Fonte: Baptista da Costa (2010)
De seguida são apresentados alguns dos procedimentos que o auditor deverá considerar na verificação em alguns documentos de prestações contas (nos principais):
Relatório de Gestão – Verificar se a informação económica financeira está de acordo com
os dados apresentados no Balanço e Demonstração de resultados (muitas vezes o relatório não apresentam dados económico financeiros), se integra no relatório a evolução das dívidas de e a terceiros nos últimos três exercícios, se tem uma proposta de aplicação do resultado líquido do exercício e se existem notas aos factos relevantes ocorridos após o termo do exercício.
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Balanço – Conferir se o Balanço está correctamente efectuado de acordo com os
princípios e regras definidas pelo POCAL e se tiveram como base os balancetes finais disponibilizados, verificar se não existiu compensação de saldos, verificar se os dados comparativos estão correctos e se há uma correta separação entre o que é de curto prazo e o que é de médio ou longo prazo.
Demonstração de Resultados – Se foi elaborado de acordo com balancetes finais e se os
dados comparativos estão correctos.
O POCAL obriga os municípios, após 30 dias à aprovação das contas por parte dos mesmos, a dar publicidade e remeter os documentos de prestações de contas para as entidades competentes, como por exemplo, o Tribunal de Contas. Estes mesmos documentos relativos aos dois últimos exercícios, devem ser disponibilizados no seu site, o que muitas vezes não acontece de acordo com as análises efectuadas (algumas entidade disponibilizavam só alguns documentos e outras não disponibilizaram qualquer documento, tendo só em alguns casos apresentado os mesmos no final ou inicio do exercício seguinte).
Tal como foi referido anteriormente, uma auditoria efectuada a um município não deverá ser analisada da mesma forma que uma auditoria a uma entidade do sector privado, não só por integrar o sector publico, como também pelas diferenças contabilísticas inerentes à própria actividade. Com o trabalho de investigação efectuado, por vezes estas diferenças são tidas em conta pelas entidades municipais, mas para alguma surpresa do autor deste trabalho, por vezes os auditores no trabalho efectuado não têm em conta esta realidade, o que deveria ser um dos princípios intrínsecos a qualquer auditor.
Talvez, num futuro próximo, com as devidas alterações legislativas, para aproximar a realidade contabilística dos municípios à realidade privada, estas diferenças se desvaneçam sendo a nova Lei das Finanças Locais de 2013, um dos primeiros passos para essa aproximação, o que veio dar uma maior importância à auditoria externa municipal, conferindo também uma maior transparência às contas disponibilizadas pelos municípios.
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No apêndice 5 desta dissertação é apresentado o modelo de relatório de revisão/auditoria para contas individuais dos municípios de acordo com a DRA 873 relativa às Autarquias Locais e Equiparadas e que deverá ser emitida pelo ROC.
Este modelo de Certificação Legal de Contas (CLC) é muito semelhante ao utilizado pelas entidades privadas, possuindo apenas as respectivas adaptações para as entidades municipais, como por exemplo, a referência ao POCAL e os respectivos princípios contabilísticos.