Capítulo I. Oferta Educativa
II.14. Aulas de Desenho-A (11ºD)
II.12.2. Análise e descrição das aulas assistidas de Desenho A
II.12.2.1. Aula assistida do dia 17/10/2012, lições nº27, 28 e 29
A planificação da primeira UT, Estudo da figura humana, baseou-se na estrutura de uma planificação fornecida pelo PC, resultando nos itens mencionados em II.8., dos quais salientamos a sintaxe (conceitos estruturais da linguagem plástica) como conteúdo a abordar, e como competências a desenvolver: observar e analisar. O objectivo desta aula seria, segundo a planificação: compreender a noção de forma como estrutura da imagem.
Seguindo ainda a sugestão do PC, a UT foi apresentada (Imagem 53) sob a forma de projecção
powerpoint (APÊNDICE XVII), com uma breve abordagem ao nu na Arte, onde se incluíam
trabalhos de várias áreas artísticas (pintura, escultura e fotografia) de autores conceituados - entre os quais Lucien Freud, Orlan, Rodin, Man Ray -, trabalhos exemplificativos do exercício almejado e o pretendido da UT: um trabalho a pastel de óleo, sobre uma folha de papel
Canson meias-tintas, tendo como base uma imagem, à escolha do aluno, de um nu. A imagem
tinha de ser a cores, podendo apresentar um nu feminino ou masculino.
O material escolhido (o pastel de óleo) deve-se directamente ao exame de DA do 12º, cujo material pode ser requisitado para a elaboração de um exercício.
A escolha das obras e, consequentemente, dos autores não foi ao acaso, pois a PE preocupou- se com a hipotética probabilidade dos alunos ficarem presos à ideia do nu ter necessariamente de abranger o corpo na sua totalidade, quando não era o caso, utilizando para o esclarecimento desse ponto duas obras famosas: A Origem do Mundo (1866) de Gustave Courbet, e A Origem da Guerra (1989) de Orlan, onde os órgãos sexuais são os únicos
protagonistas da obra, dando assim um vislumbre quase indirecto da figura humana, pois não há corpo na totalidade, percebendo-se, todavia, a sua presença.
Já na obra de Lucien Freud, os alunos foram alertados para o facto de a representação ser feita por meio de planos, e assim poderem passar a observar a figura humana mais detalhadamente, não como uma mancha única.
Na escultura, optou-se por artistas tão distintos como Rodin e Ron Mueck, cujas obras afloram o sublime que a matéria inerte reflecte, ao mesmo passo que a tridimensionalidade se torna esfíngica e estática, contradizendo o movimento latente inerente à escultura em geral. A apresentação da UT durou entre 15 a 20 minutos, durante os quais os alunos foram questionados sobre o misticismo e a perenidade do nu na arte, permitindo um diálogo produtivo. Seguidamente, foi explicado o exercício a realizar nesse mesmo dia: desenho de esqueleto.
O desenho de esqueleto tinha como objectivo dar a conhecer, ao aluno, os alicerces da figura humana, de modo que ficassem com a noção de que este futuro objecto de trabalho é sustentado por uma estrutura complexa, sem por isso deixar de ser harmoniosa, já que, como refere Jozan (Jozan, 1847), a importância da apreensão estrutural da figura humana é de extrema importância para o artista:
“A figura humana foi, desde sempre, considerada o principal estudo e a parte mais difícil da pintura de adquirir e aperfeiçoar. Chegar-se-á lá pelo conhecimento da osteologia e miologia, que darão uma ideia mais precisa, mais justa e mais profunda das formas; porque são os ossos que decidem, em parte, as formas exteriores; e quando se conhece bem a sua estrutura, como se encaixam, a maneira como se movem, estamos muito mais seguros de lhes atribuir o seu lugar ou proporção” (Jozan, 1847, pp. 10-11).
89 É de salientar a presença da anatomia humana desde que há registo da presença do Homem no Mundo; consequentemente, pode ver-se no corpo humano a chave para uma contemplação passiva desse mesmo Mundo, e daí a anatomia artística “ocupar-se das formas, com o intuito
de proporcionar aos pintores e escultores, conhecimentos indispensáveis, que sirvam de conselheiros fraternais à imaginação, sem por isso comprometer a sua potência criadora”
(Sánchez, 1869, p. 32).
Foi trazido o esqueleto da sala de biologia, tendo então alguns alunos revelado consternação frente à tarefa do desenho à vista; contudo, apesar desses constrangimentos, deu-se início ao trabalho.
Além do acompanhamento normal, a professora estagiária, durante a elaboração deste exercício, foi requisitada variadas vezes, tendo correspondido sempre com prontidão. O problema, se assim se lhe pode chamar, foi geral: o aluno, nesta fase do ensino – o ensino secundário – é cego, isto é, vê no objecto que desenha aquilo que conhece e não o que lá está realmente, deixando de ver o objecto em si para se focar apenas na ideia que tem dele. Foi chamada a sua atenção pare esse facto, e também para a estrutura da própria composição, pois ainda havia alunos que não sabiam adequar convenientemente o desenho à dimensão do suporte, resultando em trabalhos que saíam dos limites (sem por tal facto se ter transmitido qualquer conotação negativa), bem como outros que faziam um micro-desenho, do qual se poderia depreender o receio da própria cegueira do aluno. Neste último caso, pediu-se que se iniciasse novamente o trabalho, explicando que, além de um bom enquadramento e de se ver o que se está a desenhar, este último acto tem de ser feito do geral para o particular, isto é, estruturar o desenho todo e só depois caprichar nos pormenores. Contudo, alguns alunos optavam pelo método inverso – do particular para o geral: assim que se depararam com erros estruturais, o arrependimento era grande, pois tinham perdido tempo com pormenores em vão, uma vez que o trabalho não estava proporcional.
Desta primeira aula assistida, o PC nada teve a apontar a não ser o facto de na apresentação
Powerpoint a estagiária Simone ter sido demasiado veloz aquando da projeção das imagens,
não tendo permitido que os alunos tivessem apreciado devidamente o conteúdo. Em contrapartida, elogiou o acompanhamento dado. Os outros professores estagiários apreciaram a aula dada pela sua colega.