Terça-feira, 15 de janeiro de 2008 – Jornal Valeparaibano Chuva mata 1 e alaga 428 casas em S José
4.5 – AULA DEBATE UTILIZANDO TEXTO ACADÊMICO
Nesta atividade, eu queria trabalhar diversos conceitos geocientíficos presentes na academia, ligados às consequências dá má ocupação urbana em uma bacia hidrográfica, tais como precipitação, sedimentos, erosão, assoreamento, impermeabilização, etc. Achei que isso era necessário, já que vários dos problemas relacionados com as enchentes locais, suas causas e soluções, são estudados na universidade. Podemos imaginar que a população, de forma geral, desconhece as causas das enchentes, como demonstrado pela pesquisa prévia com os alunos, apesar de eu não contar com dados que comprovem essa conclusão. Também, há situações em que os conceitos elaborados pela academia chegam a ser difundidos pelos meios de comunicação, mas, muitas vezes, não são compreendidos pela população em geral. Desta forma, busquei um texto que retratasse a situação do principal rio local, o Rio Paraíba do Sul.
Combinei com os alunos que, durante a leitura do texto, eles deveriam grifar as palavras novas e desconhecidas e anotar seus significados, de forma que, no final, pudéssemos compreender os problemas ocorridos na microbacia local, comuns na bacia do Rio Paraíba do Sul.
Esta aula foi muito exaustiva, pois os alunos estavam muito inquietos. Porém, a análise da transcrição mostrou que, ainda assim, foi um momento rico para os alunos.
Abaixo, segue o texto utilizado em aula e, em seguida, transcrição e análise dos diálogos em classe:
Leia o texto a seguir:
Segundo Tânia Sausen, pesquisadora do INPE, um dos agentes causadores de impactos sobre o meio ambiente é a ocupação humana da bacia de drenagem. A sua intensa urbanização pode provocar:
- Alteração da forma do canal do rio, em decorrência da impermeabilização do solo, provocando o aumento do escoamento superficial (fortes enxurradas nos dias de precipitação) e de sedimentos para a sua calha, tendo como consequência os alagamentos.
- Perda da cobertura vegetal: a retirada da vegetação de mata ciliar acarreta a aceleração do processo erosivo das margens, dando origem ao assoreamento do corpo d`água.
Transcrição e análise da aula:
142. Professor: Isso. Então, olha. Presta atenção. Olha. É um texto retirado de uma tese de doutorado de uma professora, doutora, que trabalha aqui no INPE, do lado aqui da escola. Isso, o INPE, aqui perto, vocês sabem. Então, olha. Essa professora, ela fez uma pesquisa sobre o Rio Paraíba do Sul. Os problemas do Rio Paraíba do Sul. Vocês estão vendo, aí. Qual que é o título da tese de doutorado dela? [burburinho]
“Modificação na forma do canal do rio em função da ação antrópica.” Quem grifou antrópica? [burburinho]
143. Aluna: Tem que explicar professor. [burburinho]
144. Professor: Olha. Antrópico vem de antropo. Antropo significa homem, em latim. Então, ação antrópica é ação do...
145. Aluno: Ação do homem. (.)
Achei importante trabalhar a fonte do texto com os alunos, mostrando que a autora trabalha em um instituto de pesquisa importante no Brasil, que se localiza na cidade e que, por coincidência, fica no bairro onde se encontra a escola.
A primeira palavra grifada por eles foi antrópica. Esta clarificação foi solicitada pelos próprios alunos (143). Forneci pistas e problematizei a questão, que foi respondida por um aluno (144).
Continuando:
146. Professor: Gente. Vamos lá, gente. Então, vamos lá. Segundo Tânia Sausen, pesquisadora do INPE, um dos agentes causadores de impactos sobre o meio ambiente é a ocupação humana da bacia de drenagem. A sua intensa urbanização pode provocar... Vamos lá. O que é bacia de drenagem? [burburinho]
147. Professor: A gente não estudou, na aula passada, o que é uma bacia hidrográfica? [burburinho]
Então, bacia hidrográfica e bacia de drenagem são a mesma coisa. Dá uma olhada... [burburinho]
Quem tem o significado de bacia de drenagem no caderno, que eu tinha pedido pra procurar? [burburinho]
Então, bacia hidrográfica e bacia de drenagem são a mesma coisa, tá. Olha. Lê aí, pra vocês verem. Leia. Presta atenção.
148. Professor: Olha. Presta atenção se em algum momento vai estar falando a palavra “drenagem” no que a Alana vai ler.
149. Alana: “Uma bacia hidrográfica ou bacia de drenagem de um curso de água é o conjunto de terras que fazem a drenagem da água e das precipitações para esse curso d’água. É uma área geográfica e, como tal, mede-se em quilômetros quadrados.”
150. Professor: Está bom. [burburinho] 151. Aluno: Duas vezes falou “drenagem”.
O próprio conceito que vocês procuraram já dizia que bacia hidrográfica e bacia de drenagem são a mesma coisa – “é um conjunto de terras que fazem a drenagem da água das precipitações para esse curso d’água. É uma área geográfica e, como tal, mede-se em quilômetros quadrados. A formação da bacia hidrográfica dá-se através de desníveis do terreno que orientam os cursos das águas das áreas mais altas para áreas mais baixas.” [burburinho]
(.)
Eu peço aos alunos atenção, por conta do insistente burburinho em sala de aula (146), repetindo duas vezes a expressão “Vamos lá” e “Presta atenção”. Leio parte do primeiro parágrafo e procuro fazer uma recapitulação sobre bacia hidrográfica, pedindo para que a aluna Alana lesse a tarefa que eu havia pedido na aula anterior, a fim de compararmos os termos “hidrográfica” e “drenagem” (149). Solicitei aos alunos que atentassem para a palavra “drenagem” e, por causa do insistente burburinho, repeti as palavras da aluna em um tom de voz mais alto, para que uma parcela maior de alunos pudesse escutar a definição partilhada (152).
153. Professor: Vamos lá, então. Olha. Gente. Eu não quero isso. Eu quero que seja uma coisa bacana, uma coisa legal. Mas o pessoal não colabora. Então, vamos lá. A intensa urbanização, ela pode provocar o quê, primeiro, aí? Alteração da forma do canal do rio. O que é que vocês entendem por isso aí?
154. Aluna: Ou ele aumenta, ou ele diminui. (.)
Mais uma vez, tento chamar a atenção dos alunos, querendo mostrar-lhes meu desejo de que aquela atividade pudesse ocorrer de forma mais tranquila, sem usar autoritarismo, tentando mostrar a falta de colaboração e atenção da parte deles (153). Nesse momento, fica evidente minha pouco experiência de professor iniciante, em como agir em situações como esta. Eu havia planejado uma atividade e insisti para que ela ocorresse daquela forma.
Continuando a leitura do texto, pedi aos alunos que me dissessem o que entendiam por “alteração na forma do canal do rio”. Surge a resposta de uma aluna, dizendo que esse canal “aumenta ou diminui”. Provavelmente a aluna se referia ao aumento da vazão nas áreas de várzea do rio, mas eu não trabalhei essa questão naquele momento, pois tinha em
mente que as modificações apontadas pela autora do texto se referia ao processo de retificação em alguns pontos do leito do rio. Desta forma, remodelei a resposta da aluna e dei prosseguimento à leitura e explicação do texto (154).
155. Professor: O rio, ele pode ser tanto alterado, pode ser retificado, como ele pode, de repente, se alargar muito. Por quê? A gente vai estudar o porquê. Como ele pode se alargar muito. Olha lá, olha. “Em decorrência da impermeabilização do solo.” O que será que é a impermeabilização do solo? [burburinho]
Vamos procurar, aqui, nesse dicionário pra ver se tem. [burburinho] Procura, aí, em impermeabilização. [burburinho]
156. Alana: Ação de impermeabilizar, onde ele é impermeável, que é não... não deixar passar água.
157. Professor: Não deixar passar água ou fluido. Fluido é líquido. [burburinho] O que que é impermeável? [burburinho]
158. Professor: Impermeável, que não deixa se penetrar por água ou líquido. Tipo “Roupa impermeável”. O que é uma roupa impermeável? [burburinho]
159. Gabriel: Que não penetra água. [burburinho]
160. Professor: Isso. Agora, prestando atenção. Voltando ao texto... Quando diz assim: “impermeabilização do solo”.
161. Lidiane: Que impede que a água entre no solo. [burburinho] 162. Professor: Impede o quê?
163. Lidiane: Que a água da chuva...
164. Professor: Isso. A água da chuva não entra no solo. Então, coloquem aí. Coloca assim: [burburinho]
Pode. Pode ser assim: não deixa penetrar água da chuva.
Peço para a aluna Alana procurar o significado de impermeabilização. Este é um conceito-chave para entender as enchentes nas grandes cidades, por isso seria um conceito muito trabalhado durante as atividades. Como em outros momentos de outras aulas, apesar de tentar dialogar com os alunos, percebo que não tenho muita paciência para estimular suas respostas às minhas perguntas, assim, eu acabo respondendo-as (157 e 158).
Procuro dar exemplos, fornecendo pistas com o uso da palavra impermeável (158), atingindo, assim, o correto raciocínio traçado, visível na resposta da aluna Lidiane (161 e 163): “que impede que a água (da chuva) entre no solo”.
Continuando o diálogo:
165. Professor: Continuando... Olha. “Provocando o aumento do escoamento superficial, fortes enxurradas nos dias de precipitação”. E aí? [burburinho]
Então, mas não tem essa conotação. A precipitação não é do ato de precipitar-se. 166. Lidiane: Não?
167. Professor: Não. Tem um outro significado. 168. Felipe: Precipitação é só morro. [burburinho] 169. Professor: Não. Também. [burburinho] 170. Alisson: Tem a ver com solo? [burburinho]
171. Professor: Mais ou menos. Olha: “fortes enxurradas nos dias de precipitação”. O que é que gera as fortes enxurradas? Pensa comigo.
172. Lidiane: A chuva.
173. Professor: A chuva. Precipitação é chuva. 174. Felipe: Ah! Essa eu sabia.
175. Professor: Eu já falei isso aqui. [burburinho]
Então, vamos lá. Precipitação ou precipitações é a chuva. É um termo técnico. [burburinho]
(.)
Nesta parte do diálogo trabalhamos o significado da palavra precipitação. No meio do burburinho, a aluna Lidiane mencionou com uma colega que precipitação significava: o fato de alguém falar ou cometer algo erroneamente por se adiantar, sem dar tempo necessário para se tomar decisões. Ela não disse com estas palavras, mas, no meu entender, foi esse o significado dado à palavra por ela. Desta forma, eu a corrigi (167) e, fornecendo pistas aos alunos (167, 169 e 171), fui remodelando suas respostas até que Lidiane atingisse o significado de precipitação (172). Reespelhei a resposta da aluna (173) e pedi para que anotassem o significado junto ao texto.
Continuando:
176. Professor: Olha. Então, voltando um pouquinho... “Alteração da forma do canal do rio em decorrência da impermeabilização do solo – vamos lá – provocando o aumento do escoamento superficial”. Olha. Pensa bem. Choveu. A água deveria penetrar no solo. Mas não penetra, por quê?
177. Aluno: Porque o solo está impermeabilizado.
178. Professor: Justamente. O que é que acontece com essa chuva? Ela vai...? 179. Lidiane: Escorrendo.
180. Professor: Escoar, ela vai escorrendo... Vem de escorrer. [burburinho]
Escoamento superficial é isso, porque ela vai escoar superficialmente sobre o solo. Entenderam? A água cai e ela vai escoar sobre a superfície do solo. Ela não vai penetrar. Entendido?
(.)
Recapitulei o significado de impermeabilização do solo (176) para que pudéssemos compreender o que é “escoamento superficial”. Fui problematizando e fornecendo pistas (178 e 180) para que os alunos concluíssem o raciocínio.
Continuando o diálogo:
181. Professor: Então, vamos lá. Sedimento. Então, ela leva o escoamento superficial, “provocando o aumento do escoamento superficial e de sedimentos para a sua calha”. Sedimentos. Então, olha. Pensa bem. Sedimentos. Uma rocha, ela é formada por um aglomerado de sedimentos, principalmente quando nós temos uma rocha sedimentar. É uma rocha que foi formada por vários sedimentos, por vários grãozinhos, pequenas partículas. [burburinho]
182. Gabriel: Pequenas partículas?
183. Professor: Isso, pequenas partículas. Então, o que acontece? Pensa comigo: choveu. Houve um grande volume de precipitação. O que que isso quer dizer? Choveu...? [burburinho]
184. Maévia: Teve bastante chuva.
185. Professor: Choveu muito. [burburinho] Houve um escoamento superficial. Quer dizer, ela não penetrou. A água...
186. Lidiane: Foi escorrendo.
187. Professor: Foi escorrendo e foi levando sedimentos. 188. Gabriel: Pequenas partículas.
189. Professor: Ela levou pequenas partículas pra calha. Que calha que é essa? [burburinho]
Neste diálogo trabalhamos a palavra sedimento. Faço uma exposição simples, explicando o significado da palavra, que foi assimilado pelo aluno Gabriel como “pequenas partículas” (182 e 188). Recapitulei todo o raciocínio que estávamos traçando (183, 185 e 187) para que pudéssemos avançar para o termo calha do rio, como segue:
190. Professor: Calha... Tá. Legal! Olha. Legal! Presta atenção, aqui. No meu desenho, aqui... Olha. Isso aqui, será que também não tem o formato de onde passa a água do rio? O rio, também, ele não é um – vamos dizer assim – um cano natural da água? Podemos dizer isso? Então, quando eu falo assim: “calha do rio”, é onde passa a água pelo rio, onde escorre a água do rio. Olha o texto inteiro:
“Alteração da forma do canal do rio em decorrência da impermeabilização do solo, provocando o aumento do escoamento superficial e de sedimentos para a sua calha.”
Quer dizer, está levando muita água e muitos sedimentos para a calha do rio, tendo como consequência, o quê? Os alagamentos.
(.)
Aqui, desenhei, em perfil, a calha de um rio na lousa e expliquei o termo calha. Não oportunizei diálogos com os alunos, pois, mais uma vez, eu respondia às minhas próprias perguntas. Fiz nova recapitulação sobre o raciocínio que trilhávamos, mas a omiti nesta parte da transcrição, pois já a havia feito anteriormente (183, 185 e 187).
Inicio a próxima sequência interativa com uma dúvida sobre o processo de impermeabilização. E é nesse momento que uma aluna coloca: “A água não pro foi esgoto?”.
191. Lidiane: A água não foi pro esgoto?
192. Professor: Foi. Tudo bem. Foi pro esgoto. Do esgoto foi pro rio, direto. Sendo que, na verdade, ela deveria ter penetrado na terra, só que não deixou. O que é que não deixa? O que é que impermeabiliza o solo nas áreas urbanas? Cimento, o que mais?
193. Aluno: Asfalto.
194. Professor: Asfalto. Isso mesmo. São categorias diferentes: asfalto a gente usa na rua e cimento a gente usa nas calçadas. [burburinho]
Se existe uma grande área impermeabilizada por asfalto e cimento, a água, ela não penetra. Então, daí, essa água, ela vai por cima do solo, ela pode até ir pela rede de esgoto, tudo bem. Na verdade, a gente não chama isso de... [burburinho]
Chama-se rede de águas pluviais. A gente não pode chamar rede de esgoto de rede das águas da chuva, porque a rede de esgoto – presta atenção – a rede de esgoto... [burburinho]
Olha. Muitos de nós – presta atenção – não sabemos disso. Presta atenção. Embaixo das nossas casas existem duas redes de coleta. Tem uma rede que é a rede de esgoto, que cai a água que vem das pias e das privadas. E temos a rede de águas pluviais, que é a água que vem dos bueiros, das chuvas. Têm duas redes separadas. O certo é elas não serem ligadas. Por quê? O que é que acontece? Por exemplo. Elas, muitas vezes, elas descem, vão pro rio, as duas, só que uma é jogada no rio, a pluvial, de água da chuva. E a rede de esgoto, ela deveria ter uma rede diferenciada pra ser tratado o esgoto. [burburinho]
Aqui, em São José, 40% do esgoto, ele é tratado. [burburinho]
Não vai para os rios. Ele é coletado, separadamente, e vai pra uma estação de tratamento, onde ele é tratado. Aqui tem uma unidade de tratamento que se chama Unidade de Tratamento de Lava Pés. [burburinho]
A aluna Lidiane não entendia quando eu dizia que as águas das chuvas iam direto para o rio, e ela me questionou sobre a função da “rede de esgoto” no escoamento das águas (191). Neste momento, eu fazia uma crítica ao modelo de sistemas de drenagem urbana, que, como apontado nos referenciais teóricos, “são desenhados para rápido escoamento das águas pluviais”.
Aproveitei para explicar as diferenças existentes entre “rede de esgoto” e “rede de águas pluviais” (194), dúvida que também foi apontada como algo a ser corrigido nas respostas à questão de número três das ideias prévias (Quais as causas das inundações no Córrego Cambuí-Putins?).
Continuando:
195. Professor: Vocês estão entendendo o que eu estou falando? [burburinho] Olha. Se entenderam, então, quando que ocorre os alagamentos? O alagamento que aconteceu, aqui, na região do Putin, como que aconteceu, então? Quer dizer, como que a gente acredita que pode ter acontecido? [burburinho]
196. Lidiane: É porque, aqui, entope o esgoto. Aí, não tem pra onde ir a água. Aí, vai acumulando... [burburinho]
197. Professor: Gente. Olha. Presta atenção. Olha. [burburinho]
Gente, olha. Eu estou falando, falando, falando, falando... Toda hora estou perguntando: estão prestando atenção? “Estamos.” Estão entendendo? “Entendemos.”
Vamos lá. (.)
Neste momento da aula tentei avaliar o entendimento dos alunos sobre o parágrafo que havíamos trabalhado: “Alteração da forma do canal do rio, em decorrência da impermeabilização do solo, provocando o aumento do escoamento superficial (fortes enxurradas nos dias de precipitação) e de sedimentos para a sua calha, tendo como consequência os alagamentos”.
Desta forma, queria que eles concluíssem que o raciocínio e a interpretação dessa frase poderiam dar conta dos alagamentos existentes na região. Mas, quando eu problematizei isso para os alunos (195), ainda ouvi da aluna Lidiane (196) a questão do “entupimento do esgoto”.
Esta resposta me gerou certa frustração (196) e evidencio meu descontentamento. Desta forma, instiguei outros alunos a manifestarem seu raciocínio sobre o processo que discutíamos, que não está transcrito totalmente, pois transcrevi apenas o que consegui ouvir e que era pertinente à discussão.
A próxima sequência interativa começa com a fala do aluno Alisson, que tentou descrever seu raciocínio sobre impermeabilização, como vemos abaixo:
198. Alisson: Porque ela não deixa a água da chuva, porque... [burburinho] 199. Professor: Porque toda essa água que deveria ser penetrada, ela vai direto... 200. Alisson: Pro lugar mais baixo, por exemplo, o córrego...
201. Professor: Isso. [burburinho]
202. Maévia: Que a água não tem pra onde ir e escorre. [burburinho] (.)
Visto que outros alunos haviam assimilado os conceitos trabalhados, como impermeabilização (198 e 200) e escoamento superficial (202), recapitulei mais uma vez e avancei para a discussão do conceito de assoreamento (203), como se vê a seguir:
203. Professor: Os alagamentos ocorrem, por quê? [burburinho] Isso mesmo. Entope a calha do rio. [burburinho]
Esse processo – presta atenção – esse processo se chama assoreamento. Olha. O quê que é assoreamento da calha do rio? São, justamente, essas partículas que são levadas pela chuva. A chuva leva muitas partículas pra dentro do rio e acaba entupindo e, além disso, vai muito mais água pro rio do que o necessário, porque, antes, essa água, ela era...?
204. Pâmela: Ia pro solo.
205. Professor: Antes, ia pro solo, agora, não desce mais. Então, vocês podem, também, dizer que o rio, ele está enchendo, está tendo alagamentos por causa do entupimento do esgoto? [burburinho]
Você, ainda, acha que é isso? [burburinho]
Agora, a gente está tendo outra concepção. [burburinho]
Quer dizer, a gente não pode dizer que o alagamento, que a causa do alagamento, é só o entupimento por causa do lixo. Isso pode provocar, mas a gente não pode dizer que é só isso. Existem outras causas. Eu gostaria de mostrar pra vocês essas outras causas. [burburinho]
(.)
Neste diálogo, finalmente desmistifico a causa dos alagamentos na região, sem descartar o que os alunos apontavam (o lixo), mas fornecendo novos elementos para a interpretação das causas das enchentes (205). Assim, avançamos para a interpretação do segundo parágrafo do texto:
206. Professor: Então, voltando... Voltando, aí, então. “A intensa urbanização na bacia hidrográfica pode provocar, também, perda da cobertura vegetal. A retirada da vegetação de mata ciliar acarreta a aceleração do processo erosivo das margens, dando origem ao assoreamento do corpo d’água.” [burburinho]
207. Aluno: O que que é acarreta?
208. Professor: Acarreta é a mesma coisa que consequência, tem como consequência. Então, acarreta é consequência.
209. Professor: Por exemplo: vocês conversando muito acarreta eu perder a paciência. Entenderam? Tem como consequência. [burburinho]
Surgiu uma dúvida sobre a palavra acarreta. Não era uma palavra ligada aos conceitos geocientíficos que estávamos trabalhando, mas também era desconhecida de muitos. O burburinho não cessava e já estávamos perto do final da aula. Eu, cansado dos burburinhos intensos, acabei sendo um pouco irônico no exemplo que dei para o significado da palavra acarreta. Mas os alunos não se incomodaram com a minha ironia e em seguida perguntaram: E ciliar? (209).
210. Gabriel: E ciliar? [burburinho] 211. Afonso: E erosivo?
212. Professor: Vamos lá, então. [burburinho]
Primeiro, antes de entender o que é erosivo, vamos, primeiro, entender o que é mata ciliar. Mata ciliar é aquela mata que está na beira dos rios, às margens dos rios.
213. Felipe: Ah! Tem aquela, também, aqui do lado...
214. Professor: Isso! Por que é que se chama “ciliar”? Porque ela tem a função de proteger o rio da mesma forma que os nossos cílios protegem os olhos. Por que é que os cílios protegem o olho, contra o quê? [burburinho]
215. Vários alunos: Sujeira, cisco, poeira.
216. Professor: Poeira, cisco... Isso seriam pequenos sedimentos. 217. Felipe: Pequenas partículas.
218. Professor: Pequenas partículas, justamente. Então, olha, a mata ciliar, se você tiver mata do lado dos rios, não vai deixar que os sedimentos venham pro rio, porque aquela mata vai segurar, vai proteger. [burburinho]
Vocês estão entendendo? Se você tira a mata ciliar... 219. Felipe: Vem um monte.
Visto que, apesar do burburinho, os alunos pareciam concentrados, pois pediram explicações sobre alguns termos (210 e 211), continuei o diálogo (212) e me reanimei. Explicando o que era mata ciliar, o aluno Felipe fez logo uma associação com a mata do